Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – IV

alzheimer
Pater cachaceribus

4° CAPÍTULO

Infelizmente, minha memória está muito fraca, e começo a confundir as coisas. Houve Início? Existe Origem? Minhas memórias não são uma narrativa linear, como vocês podem ter notado. Como uma vida pode ser linear? Sendo dessa maneira, não seria uma condenação? Minha vida pôde ser tudo, menos uma burocracia. Por isso mesmo, devo continuar a retificar o começo de minha história, se isso interessar a alguém.

Pensava que meu pai já havia morrido quando me pescaram do mangue. Sim, pensava, pois o produto mutante de um siri radiativo com uma bagrinha eletromagnética já nasce pensando; aliás, já pensava, antes mesmo de nascer! Portanto, pensava que meu pai já havia morrido… Será que eu escrevi isso mesmo? Sei lá! O fato é que ele estava dormindo de tanto beber e, por isso, mãe Teca nem se preocupou em chamá-lo quando decidiu me adotar. Se ele não me aceitasse que fosse pros infernos, como declarou mãe Teca na frente de Vó Dé. Se não fosse tal retificação, minha infância ficaria sem sentido, pois meu pai adotivo teve grande influência na minha vida de menino.

Quando voltava da pescaria, adorava me bater com sua vara de pesca, além de cascudos e beliscões. Eu não fazia nada. Estava sempre quieto, distraído, olhando o mundo – nem mesmo escondia-me, nem corria, ficava lá, como sempre, bem quieto. Parece que isso enfurecia meu pai: minha passividade, minha quietude. A pescaria tornava-o paranóico e muito cruel. Meu pai não podia ficar um tempo parado, que a maldade pescava sua alma, tornando-a perversa. E pescar era um momento de calma, no qual se reencontrava consigo mesmo. Devia ser difícil o reencontro. Minhas ronchas que o digam; na verdade, não diziam, e sim doíam, alertando-me que ele precisava, desesperadamente, afastar-se de si mesmo. Eu pagava um preço alto quando meu pai olhava sua alma. O que o incomodava? Alguma abominável lembrança? Ele sempre me dizia que eu era filho do Pastor com mãe Teca e não merecia nenhuma consideração. Não me lembro dele, portanto, com bons olhos, apesar de ter tido um estranho prazer quando, anos depois, finalmente, ele se afogou no Capibaribe.

Nem me lembro se acharam o corpo. Aliás, tanto faz como tanto fez. É verdade, porém, que Vó Dé pescou uns siris mais gorduchos na semana do afogamento. Mesmo assim, ele deixou-me uma herança infeliz ao me apelidar de Siribagre, seja lá o que isso queira dizer. E nem sequer foi um bagre. Já me falaram que teria sido um peixe boi ou, até mesmo, um boto cor de rosa que visitava nosso mangue, segundo o próprio testemunho do tal naturalista inglês. (Cf. Darwin, Charles – On the Origin of Species by Means of Natural Selection -London, 1858, UFPB, pp.854 – Primeira Edição – Nota ao pé de página, bem escondidinha). E era assim mesmo que todo mundo me conhecia na comunidade: Siribagre ou Menino Siri. Bela herança paterna! Enfim, desses pais que é melhor não ter. Mas, deixa pra lá porque a única coisa boa de minha infância foi o carinho de Vó Dé, esta inesquecível, embora se metesse em todas as questões familiares sem nem sequer ser chamada.

Lembro-me desses eventos, mas me lembro de mais. Além da parteira, entrando na casa para fazer nascer o outro irmão, filho do carpinteiro da comunidade, lembro-me, logo depois, de ter assistido meu irmão mais velho ser operado de cinco tumores nem sempre superficiais. Um, na cabeça, o que o deixou tantã pro resto da vida; outro, no braço; um, na barriga (não sei a que profundidade); o quarto, na perna; o último, não sei mais onde, acrescido de sua circuncisão terapêutica. Era conhecido pelo sinistro nome de “Cicatriz”, embora jamais tenha se queixado disso. E, como podia se queixar, se tinha um caroço na garganta que, praticamente, impedia-o de falar?

Na parede de madeira, havia um enorme retrato de tio Marreca, irmão de minha mãe, que lutava na Itália, como pracinha do Exército. Uma tarde, Vó Dé ficou chorando no quarto, abraçada ao retrato. Acabara de receber a notícia oficial da morte do filho, o que lhe valera uma pensão, embora modesta, que lhe permitiu uma certa independência frente ao autoritarismo do meu pai. Meu tio virou uma figura lendária: o supremo combatente do nazismo. Porém, há boatos de que desertou no primeiro tiro e foi pego num bar, completamente ébrio e no colo de uma prima-dona. Ainda tentou cantarolar uma canzonetta, como uma forma ingênua de agradar seus algozes, mas foi morto por uma bala fascista. Música italiana nunca salvou ninguém, afinal de contas. Nem por isso maculo sua história, pois o vejo como um anarquista e um pacifista – um bon vivant, amante do vinho e da paz com o gênero feminino. Amém.

Lembro, ainda, que levei uma queda no banheiro da Assembléia, sempre escorregadio e sujo ─ a limpeza da alma não implica necessariamente em higiene corporal! Emaús, o rapaz mais alto da Igreja, filho de árabe-mascate, e que se casaria, mais tarde, com a filha do Pastor, que adorava mudos, antiga namorada do meu irmão Cicatriz, levou-me para casa com a cabeça ainda sangrando.

Como de hábito, as coisas que nos aconteciam eram sempre revestidas de culpa individual e o castigo pelo tombo me fez ver que, se eu quisesse continuar a passar desapercebido, deveria olhar melhor o chão em que pisasse, parando de topar em pedras e de arrancar metade de meu dedão. Por isso, sempre ando olhando para baixo. Pensam que é um andar de submissão, um olhar de pio e de crente — não, não é; na verdade, é um andar racionalizado por sérias reflexões sobre a necessidade da invisibilidade humana. Algumas vezes, tenho me esquecido disso e, em todas elas, tenho me saído mal, embora saiba que o chão nem sempre está onde a gente, habitualmente, supõe. Não há maior arrogância nesse mundo do que se dizer onde está, afinal de contas, o chão de todos nós.

Bem, um pouco mais de lembranças…

Todas as manhãs, durante um certo período, parava um automóvel na entrada da Comunidade para pegar minha avó, que cuidava de um doente terminal. Algumas vezes, quando se tratava de um plantão noturno, eu a acompanhava até uma grande mansão no Derby.

No Natal de um ano de que não me lembro, dia de plantão, Vó Dé levou-me para dormir na casa dos bacanas. Ao acordar, surpreendi-me com uns brinquedos debaixo de minha cama; um caminhão de metal, pintado de verde e recheado de bombons, que me encantou durante algum tempo, um jogo de dominó e bolas de gude.

Lembro-me, também, de uma tortura que me impunham quando criança, ainda na rua de Seu Euclides. Meu irmão torto morava com a tia. Nos domingos, quando de volta da Assembléia, onde eu dormia, freqüentemente, a sono solto, minha tarefa específica era procurá-lo na Campina da Torre para o almoço que começava, em ponto, ao meio dia. Jamais entendi tanta pontualidade de meu pai borrachudo.

─ Siribagre! Vai buscar teu irmão na Campina. ─ Ordenava meu pai.

Sob a proteção de sua mãe de criação, Tia Zélia, ele faltava aos cultos para jogar futebol na Campina, todas as manhãs de domingo, fazendo com que, por volta do meio dia, eu ficasse gritando por seu nome o tempo todo até que ele resolvesse abandonar o jogo. Jamais entendi por que, logo eu, que falava baixo e tinha horror a grupos, era escalado para tão inglória tarefa, sobretudo porque aquele irmão, fruto de uma ligação ilícita numa das bebedeiras do meu pai, sempre se demorava em sair de campo com o jogo ainda em andamento. Com justa razão, aliás. Minha aflição aumentava, sabendo que os cinco minutos concedidos pelo meu pai se esgotavam rapidamente e que, de um modo estranho e injusto, o castigo pelo atraso sempre recaía sobre mim. Quem disse que o portador não merece pancada, certamente não conheceu meu pai! Por isso mesmo, não gostava desse irmão e o via com raro desprezo. Lembrar-me dele, aliás, como o faço agora, já constitui algum esforço, embora ele tenha sido um dos focos permanentes de minhas atenções, durante quase toda a minha infância e adolescência.

O fato é que ele se casou com uma grã-fina do bairro, filha de Seu Vicente, dono da única mercearia das redondezas. Meu pai, todo enfeitado, não perdia um aniversário dos netos e comparecia às festinhas de subúrbio que minha cunhada oferecia ─ longe, é claro, das palafitas. Como sempre, escondia-me pelos cantos e, numa dessas vezes, pude ler, inteirinho, o meu primeiro livro, uma adaptação brasileira de Robinson Crusoé. Discretamente, roubei o livro, embora tivesse que devolvê-lo, alguns dias depois, quando sentiram sua falta. Havia uma estante de livros na casa, que ninguém lia, embora fossem espanados diariamente. Para mim, ainda constitui um mistério saber como minha cunhada descobrira o autor do furto!

Não sei se estou sendo muito severo com minha cunhada. Já no Primário, que não cursei oficialmente, como já falei, senti uma dor enorme quando fui vítima de furto semelhante. Adorava um livro chamado “Carlos Magno e os Doze Paladinos da França” e, para consolar uma amiga da rua, não sei de qual infortúnio, emprestei-lhe o livro que nunca mais foi devolvido. Tal perda, aliás, constituiu-se numa enorme frustração, servindo para que eu fixasse na memória longos trechos do livro. Ainda hoje, recordo-me de sua capa, que representava a luta de Reinaldo com um enorme dragão, muito antes dele se casar com a fiel Angélica. Na Assembléia, julgava encontrar, também, alguns paladinos de Carlos Magno ─ meu pai, sempre bêbedo, é claro ─ tendo a seu lado o bispo, representado pelo Pastor.

Minha formação religiosa foi, desse ponto de vista, exemplar, embora não entendesse muito bem a insistência do Pastor em fazer longos sermões com citações em latim e hebraico ─ pelo menos, era o que ele dizia. Pelo que me lembro, ele tinha uma voz grossa e bem alta, especialmente quando falava do inferno. Para ele, aliás, os demônios estavam em toda a parte. Até no prédio da Assembléia, havia diabos escondidos. Acho que riam bastante dos sermões do Pastor.

Tratava-se de um exagero, acreditava, para uma platéia composta de pescadores de siri, como meu pai, de verdureiros, como o diácono Colodino; de carroceiros, como o intrépido irmão Benjamim ─ um orador nato que eu admirava bastante todas as vezes em que dirigia as orações; do cobrador de bonde elétrico, como o diácono Albânio, que foi, depois, bastante importante para minha formação; ou, mesmo, para um mascate, como Seu Jacob, vendedor de linhas Corrente, de gaitas de boca, de rendas e dedais e de quem se dizia já ter tido cinco esposas ─ embora, nunca simultaneamente, é claro, o que duvido muito.

O diácono Benjamim assemelhava-se ao Paladino Reinaldo e, segundo penso, a associação é fácil de ser explicada. Reinaldo possuía um cavalo excepcional que suportava todos os pesos e canseiras das lutas medievais. Quase mágico, recusava ser montado por outro que não fosse o seu dono. Por isso, foi vítima de inúmeras atrocidades em função das desventuras do seu cavaleiro, quando, por exemplo, aprisionado Reinaldo, o nobre ginete, morto de fome, fora obrigado a servir numa pedreira, perto de Reims, no Reino de França.

Seu Benjamim, carroceiro, transportador de material de construção e de esterco de boi, possuía, também, um cavalo preto, extremamente belo e altivo. Revivia cenas aventurescas medievais nas viagens de entrega que fazia em sua companhia, montado na carroça através do bairro da Torre.

Mais pelo cavalo do que pelo irmão Benjamim!

Entretanto, jamais consegui me aproximar muito do carroceiro e piedoso irmão. Apesar de entrado em anos, falava-se que havia cometido uma falta censurável pela comunidade evangélica de então. Havia se casado, já idoso, com uma bela moça da rua que não pertencia à Assembléia.

De fato, jamais vi o irmão carroceiro acompanhado de sua esposa na Igreja, mas sabia que ela gostava muito de vestidos encarnados e de fita na cabeça. Entretinha-me a olhar, ou a espionar, a moça a pretexto de visitar o cavalo do irmão. Por isso, pensava saber muito dos seus hábitos, um dos quais me chocava bastante. Todas as vezes em que passava sob sua janela, eu recebia beijos soprados de sua mão, o que, até hoje, me aterroriza. Não imaginava por que, numa rua tão cheia de atrações, com um cavalo tão bonito na cocheira, ela me notava e teimava em me fazer visível.

A última vez que vi o irmão Benjamim, ou que me lembro de tê-lo visto, foi no dia de sua morte. O cavalo o traíra, embora se falasse que tinha sido o coração. Jamais acreditei na doença do irmão. Pra mim, na última vez em que o diácono ousou atrelar o animal à carroça, recebeu uma patada violenta no peito, morrendo logo a seguir.

Não fui ao seu enterro.

Vejo-o, apenas, com seus bigodes brancos, desdentado, cultivando sua jovem mulher que, no entanto, soltava beijos para o menino desconfiado que passava sob sua janela!

O Paladino Rolando jamais me impressionou. Nem sua espada mágica, Durindana, nem seu amor por Brandamante, nem sua valentia, nem sua lealdade canina a Carlos Magno, de quem, aliás, era sobrinho! Nepotismo medieval, sem dúvida! Preferia, de longe, Rogério, que terminou como rei da Bulgária, e que associava ao diácono João, casado com Dona Maria, e que, depois do desaparecimento dos bondes elétricos, tornou-se sorveteiro no Mercado de São José.

Seu “da Maria”, como era chamado, foi bastante importante na minha formação. Em muitos domingos, depois de longa caminhada, passava à tardinha em sua casa, perto da hora da ceia, ouvindo o diácono à mesa, onde ele se tornava mais sábio e prudente, como o fora Rogério, Paladino da França. Não sei de experiência maior na minha pré-adolescência do que ter freqüentado a casa daquele diácono, embora desconfie de que, tampouco, ele tenha compreendido alguma coisa. Lembro-me de seus filhos, um deles da minha idade, outro que se engajara na Marinha, uma filha muito mal percebida por mim. Mas, recordo-me, perfeitamente, do hábito de tomar café com leite, acompanhado de bolachas americanas, quadradas e que vinham sempre quentes para a mesa. Como o dono da casa jamais me questionou ─ ele simplesmente me aceitava ─ sentia-me bem num lugar onde ninguém me fazia perguntas; tampouco lhe dava despesas, conquanto tivesse um pouco de culpa em consumir suas bolachas.

E isso, é claro, tornou-me abiscoitado para o resto da vida.

O diácono João Maria era um bom homem, observador e parecia gostar de mim, ou, pelo menos, habituou-se à minha presença. Jamais me deu conselhos; simplesmente, deixava-me estar onde eu preferisse, e era só. Cobrador de bondes, sorveteiro, diácono, vivia como quem passa o tempo, aceitando com otimismo a semi-pobreza, confiando em Deus, sem sofrer, nem fazer perguntas.

Havia, no entanto, tormentos enormes na Assembléia, além dos sermões do Pastor, o que contarei mais tarde.

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