Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – III
3O CAPÍTULO
Como prometi, vou começar tudo novamente. Gosto de mentir e jamais neguei o fato. E é a pura verdade. Aqui, no entanto, desejo dizer a verdade, toda a verdade e não mais do que a verdade. Aliás, é com tal juramento que os norte-americanos mentem pra dedéu. São demasiadamente humanos, os americanos.
Mas, enfim, é necessário contar tudo de novo e o recomeço é o princípio básico do Universo. Acho que não foi daquela maneira que eu nasci. Sei, sei, disse tudo aquilo no texto passado, que vinha de um siri, etc e tal, mas não tenho mais certeza do que disse. Lembro, esqueço e relembro, mas aí tudo fica diferente, os fatos rodopiam, mudam e se tornam interpretações, e esqueço novamente. Toda narrativa, cá entre nós, é apenas interpretação; aliás, a própria história é pura interpretação.
- Tudo é relativo! Dizia o Psiquiatra de Intermares, enquanto dava uma injeção.
Eu ainda reagia, mostrando que, se tudo fosse relativo, de qual ponto possível, afinal, podia-se afirmar que tudo era relativo.
- Cada ponto da vida é incomensurável e incomparável. Não há conexão entre os pontos; aliás, entre os pontos, apenas o vazio, o abismo gelado. Ajuntar os pontos só causa confusão. Tá ligado?!
- Você é um psiquiatra monadológico! Gritei, já em pânico.
- Você que é uma mônada louca, Tsé-Tsé. Aumentarei a dose de tua medicação.
- Mais injeção?!
- Claro, sem injeção não existe vocação médica.
- Injeção dói.
- A dor é subjetiva.
- Ela é independente da tua vontade, da tua tirania e do teu poder, logo, é objetiva.
- Ora, deixe de bobagem, Tsé-Tsé! Tudo tem que ser dramático para você?! Além do mais, tua dor é apenas tua e mais de ninguém, logo, é subjetiva.
Estava cansado desse tipo de conversa. O Psiquiatra de Intermares sempre ganhava no papo. E, se não ganhasse, ganhava de todo jeito na base da coerção ou da… injeção! Inclusive, por causa das injeções, eu não parava mais de interpretar. E, de interpretação em interpretação, ia-me esquecendo. Certo, discutir origens seria uma mania incompatível com o esquecimento, mas toda origem, infelizmente, está oculta por um véu de olvido. Não tenho opção, assim, a não ser recontar, recontar e recontar meus começos.
Já esquecido de tudo, fui consultar o antigo arquivo da Comunidade e lá estava escrito o seguinte:
“Aos tantos dias do mês de tanto e do ano (ilegível) de tanto, Barack Tsé encontrou-se com um jovem naturalista inglês que visitava nosso mangue. Apressou-se em lhe mostrar um fenômeno altamente interessante. Assistiram juntos a um casamento entre um siri e um bagre que pariram juntos uma criança, mais pra bagre do que pra siri”
O inglês abriu a boca, pois esperava tudo, até uma tartaruga de Intermares, mas nunca um bípede que dava berros ensurdecedores e tão feio que causava desgosto. O naturalista, depois disso, talvez traumatizado, deu uma volta ao mundo, embora jamais tenha esquecido aquele fato. Não sei quantos anos depois, publicou um livrinho intitulado “A Origem das Espécies”, no qual descreve fielmente o acoplamento natural que presenciara, inclusive citando meu avô, baseando-se nisso para formular sua genial teoria de que as espécies nascem de outras, de outras, de outras até que ninguém mais se interesse por isso ou se esqueça disso, como os criacionistas.
E é nesse ponto que quero chegar, antes de prosseguir na minha própria história. Não fui pescado por acaso. Ali, havia Fortuna misturada à Tragédia, dando como resultado uma Comédia – penso que sou produto de várias séries causais que redundaram numa risada casual. É pra rir, sem dúvida, embora não ache a mínima graça. Debaixo das palafitas do meu avô, um siri e um bagre fêmea namoravam intensamente, longe, muito longe de qualquer comportamento decente. Um fato de tal monta não pode ser creditado ao acaso. É pura determinação. É destino! Pois não é que a bagrinha esqueceu o preservativo, situação impossível para um bagre de qualquer gênero?! Meses depois, a bagrinha deu à luz e, para seu desalento, foi justamente na hora em que Vó Dé estava pescando.
Pronto! O fruto do pecado era eu, um menino que nem era bagre nem siri, mas parecia uma mistura dos dois. Feio pra dedéu! De deixar qualquer um besta de infelicidade. E foi, agora de verdade, que tudo começou, e que Darwin na sua tumba não venha logo agora me desmentir. Mando um dos meus netos lhe acertar uma bodocada e o enterro de novo aqui mesmo no mangue.
Como dizia, desde o começo, eu era um menino. Homo sapiens, certamente! Sapiens decapodus, provavelmente. Mas, tão estranho, não fazia nenhum ruído, não chorava, salvo quando lhe davam banho. Não se mexia, não ficava doente, não ria; apenas dormia. Talvez, quem sabe, vestígios do vírus da mosca do sono que atormentava meu tetravô.
O silêncio, talvez, tenha sido a minha característica mais notável, embora uma qualidade absurdamente adulta começasse a aparecer desde logo: o bebê via. E via tudo, conseguindo sentir, desde o início, o drama dos pais e irmãos, espantados com a novidade e sem saber lidar com um recém-nascido incapaz de se expressar, embora consciente do mundo externo.
Eis aí como se fazia notar Moisés Siri Tsé-Tsé, enquanto bebê rejeitado. Um protesto contra tudo e contra todos, portanto, desde o início.
Mas, a partir daí, pelo menos, eu começava a existir legalmente, embora meu pai adotivo, mesmo gaguejando, tivesse sido obrigado a pagar uma multa por atraso de registro de nascimento. Caminhava gaguejando e sempre chegava atrasado. E eis como entrei na vida dos documentos e dos papéis que se guardam: multado desde o início. Talvez, quem sabe, pelo próprio fato de ter nascido!
Há muito tempo, tal coisa não me incomoda mais, pois tenho pago outras multas, todas elas, salvo engano, por atraso em fazer qualquer coisa a que era obrigado. Enfim, a circulação de capitais é a lei fundamental da sociedade em que vivo e não represento, por isso, nenhum caso particular.
Minha infância foi muito feliz. Um pai bêbedo o tempo todo me espancando sem nenhum motivo, a mãe ocupada com os outros irmãos, os outros irmãos ocupados em bater na minha cabeça.
Vó Dé, no entanto, arrependida de ter querido me jogar de volta no rio, cuidava de mim com muito carinho, chamando-me de Tsézinho o tempo todo. Presenteou-me com uma cabra, primeira chantagem que aceitei sem muito esforço, embora não soubesse bem o que fazer com o animal, que passava o dia todo amarrado numa taboa na frente de nossa casa. E foi conversando com minha cabrita, acarinhando-a sem parar, que comecei a perceber o mundo dos adultos. Felizmente, na época, a cabrita era mais diligente do que a bagrinha, minha própria mãe natural, e usava camisinhas com regularidade.
Olhava a cabrinha, olhava os adultos, preferia a cabrinha, é claro, mas os adultos me fascinavam. Não compreendia absolutamente nada do que se passava com os meus irmãos, mas me intrigava bastante o esforço, desenvolvido pelos meus pais, em caminharem quilômetros e quilômetros em direção à Assembléia de Deus, nas quintas, para o culto público, e aos domingos, culto obrigatório para todos, realizado duas vezes, pela manhã e à noite. Acho mesmo que foram tais passeios sacros, desnecessários e compulsivos, que começaram a minar minha fé na divindade. Achava as cantorias estranhas e fora da realidade. Ouvia centenas de “Aleluias” e “Glória a Deus”, além das línguas estranhas que todo mundo falava. Se Deus era tudo o que o Pastor falava, certamente aquelas cerimônias eram por demais enfadonhas e inúteis. Aos poucos, fui duvidando, duvidando, até que pensei: Deus existe de verdade? Com menos de dez anos, tornara-me um ateu, sem muita convicção, embora tivesse que esconder o fato até a maturidade.
Da minha primeira casa, em Bel-O-Kan, lembro-me dos seus oitões, de sua coberta de palha, do longo quintal de madeira de onde vislumbrava a antiga Campina da Torre, meio charco, meio campo de futebol, terreno baldio que servia, aliás, para tudo. Foi na Campina, aliás, que conheci um menino super-inteligente chamado Daniel. Que pena! Ele vivia acompanhado por um cego e brigava com todo mundo. Contudo, Daniel era amigo dos sapos, o que me influenciou bastante quando fundamos na Comunidade a “Sociedade de Proteção aos Sapos” (SPS).
A Campina se estendia o suficiente para me imaginar morando numa floresta, caçando vaga-lumes, à noite, ou sofrendo as picadas de outros insetos o tempo todo. Como os barracos da rua pertenciam ao avarento Seu Euclides, a própria rua, também, assim se chamava. Na rua de Seu Euclides, pois, passei meus primeiros anos de infância, freqüentando os lugares mais escondidos e escuros da casa e do prédio da Assembléia, minhas primeiras lembranças topográficas reconhecíveis, onde era, quase sempre, encontrado sozinho, pensativo, sem fazer nada, sentado junto de alguma parede, numa contemplação quase mística e sem objeto.
As lembranças são poucas. Aos domingos, havia um almoço coletivo, composto de macarrão mofento com molho de mariscos. Na companhia dos sapos, vindos da Campina, que invadiam nosso barraco e que, da maneira mais cruel e espetacular, eram mortos pelo meu pai. Do quarto, onde dormiam três ou quatro meninos, de um ou outro vizinho e das cheias do Capibaribe, cujas águas beiravam nossa casa.
Na época, Dr. Quinzão descobriu que eu tinha uma insuficiência de sódio e, por isso, um médico do Hospital do Centenário, onde toda a família se receitava, prescrevera-me banhos de praia, diariamente, por um período de dois a três meses. É possível que os passeios a Olinda, a praia escolhida por meu pai, permaneçam como os melhores momentos dessa fase.
Saíamos, praticamente, de madrugada em direção à Olinda, tomando um bonde que, na época, pelo menos, parecia-me extremamente rápido. Na praia, trocávamos de roupa numas barraquinhas de madeira e, quase sempre, meu pai cavava pequenos buracos para que eu defecasse, antes de entrar no mar. Ele sempre me dizia que um mar de cocô seria a coisa mais detestável do mundo. Até hoje, não consigo ir à praia sem, antes, visitar o banheiro.
Tomar banho salgado, como se dizia na época, ainda era um fato raro e somente gente rica o fazia. Ou doentes, como eu, segundo o tal médico. Depois disso, praticamente adormecia e somente acordava para o almoço da noite que, infelizmente, durou muito pouco tempo por causa da fuga do meu pai adotivo.
Logo, tive que me habituar a ser um andarilho por causa da lonjura da Assembléia. Acrescento mais algumas caminhadas para dar aulas particulares na vizinhança. Aliás, não fizera o primário, aprendendo sozinho todas as matérias pertinentes, o que me possibilitaria passar no exame de admissão para o Ginásio se não fosse, mais uma vez, a intervenção de Vó Dé, como relatarei mais tarde, e que mudou minha vida da água para o vinho.
Quando tinha cinco anos de idade, encontrei um jornal velho na rua e fiquei fascinado pelos desenhos bem ordenados das linhas. Eram as letras que formavam palavras. Fui decorando a forma e, depois, compreendendo o significado de tudo aquilo. Dali em diante, tornei-me um leitor voraz. E chato, pois vivia lendo e dormindo e nada mais do que isso. Que se danassem as brincadeiras infantis. Pra mim, o mundo estava nos jornais e nos poucos livros que o Dr. Quin me emprestava. E era tudo!
Em suma, percorria, semanalmente, cerca de sessenta quilômetros para freqüentar a Assembléia e mais não sei quantos como professor mirim, embora estes últimos fossem diminuídos, depois, com a chegada dos bondes que passavam bem em frente da Comunidade. Eu próprio pagava a passagem com o dinheiro das aulas particulares que ministrava canhestramente para os adultos analfabetos da vizinhança. Tenho quase certeza de que, mesmo percebendo-as como verdadeiros atentados à minha inata preguiça, as caminhadas foram excelentes, a longo prazo, para a minha saúde, hoje, abalada apenas pelas pílulas, ditas milagrosas, do Psiquiatra e pela perda irreparável da amizade que mencionei no início desta narrativa.
O meu silêncio, creio, era também resultado de uma certa perplexidade em estar num mundo estranho com o qual eu não sentia a menor solidariedade. Tanto os espaços ocupados quanto as situações vividas pareciam não me dizer nada. Deixava-me levar por falta de opção ou de iniciativa e, em contrapartida, construía, interiormente, outros lugares e outras situações que me pareciam mais verdadeiras, obrigando-me, é claro, a um confronto mais ou menos sofrido entre dois mundos.
Uma coisa, resolvi de imediato: não chatear muito os outros com os meus conflitos e, por isso, ninguém se preocupava em me expulsar de locais proibidos aos meninos de mesma idade. Aliás, nem mesmo sequer poderia ser notado desde que, como eu pensava, minha existência era apenas fruto de minha própria imaginação. Era invisível. Talvez, tivesse um poder mutante, alguma coisa do gênero — uma capacidade gerada, quem sabe, pela união entre um siri radioativo e um bagre fêmea eletromagnética. Ninguém me notava onde estivesse. Podia até espernear, dar um grito, mas permanecia imperceptível. Assim, minha invisibilidade era minha maior virtude, ela e o meu silêncio. Invisível, chegava num canto, no meio de pessoas, e escutava as maluquices da alma humana. Tentei até alertar alguns sobre a sordidez ou os limites de um ou outro comportamento, mas não me escutavam, já que não me notavam. Com o tempo, não me incomodei com o preço da invisibilidade, passando a gostar do meu silêncio e da minha insignificância. Notara que as pessoas eram perigosas e que meu poder mutante protegia-me do eterno ressentimento humano. Felizmente, as pessoas não possuíam nenhum sexto sentido que pudesse me detectar e a tudo, pois, assisti calma e pacientemente.
Desse modo, jamais fui considerado um menino buliçoso ou acusado de ocupar o lugar dos outros, mesmo licitamente. Um pouco de sorte, aliás, sempre me ajudou a ficar em lugares ou situações para os quais nunca havia outros candidatos. Enfim, quase nunca concorri com ninguém, sempre ocupando lugares vagos, ou de todo vazios, em constante silêncio. De qualquer forma, isso me convinha, desde que todos em casa, na Assembléia e, depois, no Seminário falavam muito alto. Havia sempre, portanto, um lugar para quem não falava nunca e, até hoje, tenho horror a quem fala daquele jeito e não creio que isso seja nenhum trauma específico de infância. Simplesmente, acho que a gente entende melhor as coisas, vendo-as e pegando-as do que emitindo altissonantes brados.
Por isso, admirava profundamente a minha cabra. Ela berrava, é verdade, mas de forma moderada e muito pouco, vale dizer, acompanhando meu silêncio. Como não conversávamos, não sei ao certo sobre sua inteligência, embora a julgasse sensível, pelo menos em relação às minhas necessidades taciturnas. Infelizmente, num dia especialmente silencioso, a cabra foi devorada por um jacaré de papo amarelo que apareceu numa cheia do rio. Ela não berrou e foi puxada para o rio como que perplexa com a situação. Seus olhos quase diziam:
- afinal, o que está acontecendo comigo?!
Minha cabra possuía a perplexidade dos grandes filósofos. Pena que sua filosofia não tenha resistido ao realismo de uma boca de jacaré. Acho que foi naquele momento que me tornei, além de ateu, um materialista. Os dentes do papo amarelo eram de uma materialidade atroz. Descobri assim que as várias formas de idealismo, mesmo as mais sofisticadas, não resistiriam filosoficamente à bocarra de um jacaré. Diante de um idealista, para afugentá-lo, mostre os dentes; caso não funcione, morda-o simplesmente — o argumento é infalível.
Sim, a cabra era a única pessoa a quem eu dedicava algum afeto e, por isso, pouco me lembro da minha infância no barraco de Bel-O-Kan. Muito tempo depois, quando um psicanalista reavivou meus recalques e minhas memórias dessa época, eu berrei e fiquei em silêncio. O especialista da alma julgou que meu Édipo acontecera com uma cabra, o que foi um erro crasso. Desejava a cabra e queria matar o bode?! Ledo engano! Na verdade, eu era incapaz de interpretar meu inconsciente, simplesmente porque ele era vazio. Invisível, imperceptível, silencioso e tendo como companhia uma cabra, tecnicamente eu não tinha ainda inconsciente, apenas uma estrutura ausente, sem nenhuma representação. Só adquiri a inconsciência muito tempo depois, mas não me lembro mais do fato, porque acho que recalquei tudo – talvez, mais adiante, na continuação dessas memórias, a inconsciência aflore.
Ou não.

15 de dezembro de 2008, às 18:21h
O naturalista veio da Inglaterra; o reverendo, de uma união entre um siri e um bagre. E a cabra? A cabra veio de onde? Tô perdida.
15 de dezembro de 2008, às 19:15h
Irmanzinha: É incrível que você acredite em tudo o que eu digo. Daí, começa a fazer perguntas embaraçosas. De onde veio a cabra? Puxa! Só perguntando ao jacaré que a comeu na minha frente. Sem vergonha! Mas, se não me engano, foi Daniel que a trouxe quando ela estava vadiando á procura de bode na Campina da Torre. Será que foi isso mesmo? E você, onde está perdida? Diga logo pro Dr. Quimzinho ir buscá-la. Cuidado com os lobos maus da vida. Te cuida. minha bênção.
16 de dezembro de 2008, às 7:08h
Vossa Reverendíssima,
O senhor não sabe de nada. Acreditei tanto nas suas aulas sobre dialética que até hoje tenho uma dificuldade horrorosa para ler Hegel. Agora que pareço estar liberada desta obrigação moral, voltarei ao velho filósofo.
E se for para alguém vir me buscar, ficarei aguardando, desde que não seja o psiquiatra de intermares, que é (muito) mais perdido do que eu. O pobre deve estar ainda hoje tentando sair de Rio Tinto. Será que valeria a pena mandar o Dr. Quimzinho atrás dele?
16 de dezembro de 2008, às 15:24h
Segunda irmanzinha: Pelo que vejo, meu pai tinha razão. A estrela matutina é a mesma vespertina, como é óbvio pelos horários em que você escreve. Porém, uma é o contrário da outra. Se a primeira se perdeu, a segunda está “perdita”, novo estágio de tonteira, já previsto por Heráclito e, depois, pelo desditado Hegel. Ainda prefiro Caetano que pregava o avesso do avesso do avesso. Por mera intuição, acho que você era a noviça com carinha de anjo que sentava à esquerda, perto da janela, ouvindo minhas aulas de Ética Cristã, no Convento das freiras. Todo mundo dizia, no recreio, que a irmanzinha ainda seria Madre Superiora do mesmo Convento. Sincomode não! O rio não é mais o mesmo e, se for assim, trata-se de outro rio que, amanhã, já será mais outro rio. Mas, por favor, não volte a Hegel. Esse negócio de viver pulando de contrário em contrário provoca um estresse desgraçado. Infelizmente, Quimzinho não pode mais lhe procurar. Foi ao Ceará buscar o desditoso Psquiatra que resolveu ir comer carne de sol. Mas, com a seca, só ficou o sol. Mesmo assim, fez um pirão de sol com pingos de lua cheia e não sei quando volta. Tempo suficiente pra me recuperar dos seus falsos medicamentos, também não sei quando. Contudo, o Natal vem chegando e é hora de relaxar. Minha bênção natalina, cheia das musiquinhas do Shopping.
17 de dezembro de 2008, às 12:29h
V. Rev. ma.
Entre Heráclito e Hegel, fico com o sábio guru indiano, Rabindranath Thakurma Sasur-Baari, cujo mantra tem guiado minhas seções de meditação:
“O passado se foi, o presente está indo e hoje é o ontem de depois de amanhã”.
Sugiro que V. Rev. ma. medite acerca dessas profundíssimas palavras.
Quanto a mim, não se preocupe: no final de seu “conto de inverno” , o bardo inglês revela a todos a origem de Perdita. Minha dúvida é se essas falsas memórias terão um final semelhante, ou se teremos que consultar o Oráculo de Delfos para conseguir uma pista sobre as origens de Tsé-Tsé.
17 de dezembro de 2008, às 17:03h
Aviso os leitores que esse diálogo acima ocorreu já no hospício. Internei as doidas e o doido — vocês pensavam que Tsé-Tsé escrevia donde? Internar é bom e só faz bem — é feito vinhozinho gaulês.
Na minha passagem em Rio Tinto, não sobrou pedra sobre pedra e nenhum doido na praça pública. Todos estão internados na Baía da Traição. Pelo que entendi, uma doidinha fugiu e voltou a infernizar os coitados do PPGS-PE. Ela diz que é a coordenadora do canto — delírio puro!
17 de dezembro de 2008, às 19:29h
O alienista voltou! Finalmente encontrou a saída de Rio Tinto!
Opa! Perdita é uma coisa, doidinha é outra! Minhas origens são nobilíssimas, como bem atesta shêikispiar.
E por falar em vinhozinho gaulês, depois dos seus comentários maldosos, você bem que está merecendo um pouco de “diplomacia irlandesa”.
17 de dezembro de 2008, às 19:31h
Vinhozinho gaulês? De onde você tirou isso?
17 de dezembro de 2008, às 22:44h
De Asterix…
17 de dezembro de 2008, às 23:01h
Ôbaaaaa! Briga de cachorro grande. Tô fora! Basta o que já sofri de pílulas e injeções do Psiquiatra. Não passo de um simples e pobre memorialista. Além, é claro, de gravemente adoentado. Pela idade, pelo cansaço e pelos maus tratos da vida. A última pílula que o carinha de Intermares me passou era metade roxa e metade amarela. Dr. Quimzinho foi logo me avisando de que se tratava de cianureto misturado com enxofre. Arghhhh! Acho que vocês não merecem minha bênção. Mas, como sou bonzinho, dou de qualquer jeito. Minha bênção canina bem gigante.
20 de dezembro de 2008, às 20:11h
Não queria dedurar mas Tsé-Tsé fugiu do hospício e foi visto na rua. Informou que teria que fazer uma visita de Natal a uma velhinha de 93 anos. Terá sido verdade? Será que o psiquiatra de Intermares está sabendo desse comportamento do seu paciente? Só estou contando isso no intuito de ajudar ao próprio paciente que, a meu ver, é muito bem tratado pelo, às vezes, mal compreendido psiquiatra de Intermares.
Desculpe, Reverendo, mas me senti na obrigação de registrar o fato. Um abraço e espero as suas melhoras. Erínia.
21 de dezembro de 2008, às 11:38h
Tsé-Tsé fugiu?! Agora lascou. A velhinha de 93 anos corre sério perigo. Eu, também. Fugirei de Intermares. Roubo de ovos e assassinato de tartarugas aumentaram nesses últimos dias, aqui em Cabedelo — deve ser Tsé-Tsé. Ele detestou sempre animais em extinção. _Por que não extingui-los logo? Dizia, depois de borbulhar um riso louco.
21 de dezembro de 2008, às 18:29h
Hehehehe…
“O sapinho da lagoa,
Passa a noite a coxar.
Quem tiver saúde boa,
Passe a noite a escutar”.
Eis aí nosso hino oficial. Detesto tartarugas. Adoro ovos de tartaruga. Mas, o negócio de nossa Ong é tratar dos sapos. Portanto, abaixo as tartarugas. Viva os sapos!