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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – II

(To be or not to be. A frase mais besta que já ouvi.)
2o CAPÍTULO
Mas… que história é essa que estou a contar? Não foi assim que tudo começou, pelo menos no início do meu relato. Com a idade, começo a confundir as coisas e outra família quer entrar de qualquer maneira na minha história.
Trata-se, aliás, da indigitada família PERRUSI, que nunca se notabilizou por coisa alguma e, agora, vem perturbar minhas memórias. Certamente, foram os remédios passados pelo seu último rebento, o famigerado Psiquiatra de Intermares de Cabedelo-PB que, jamais, teve um destino certo.
- Esse rapaz não se cria! Eu já dizia a Perrusi Pai.
Não sei se o rapaz se criou. Sei apenas que é esperto, embora tenha algo perverso na sua maneira de exercer a psiquiatria e de tratar os religiosos. Difícil saber o seu futuro meio pedante e metido a filósofo de botequim. Desconfio, inclusive, que gosta de uns remedinhos, de uma felicidade química; talvez, por acreditar, com certa razão, devo confessar, que não exista felicidade, somente alegria. E era, com alegria, que me receitava suas maluquices.
- Eu só passo alegria – dizia de uma forma um tanto cínica, abrindo seu cheque azul e receitando júbilos artificiais.
Chegava de Intermares todo sorridente. De manhã, passava-me alucinógenos; à noite, já estava de volta pra comer caranguejo nos sujos bares de sua praia. Em suma, duzentos quilômetros pra cá, duzentos de volta. Mas, enfim…
Meu pai adotivo era diferente. Queria apenas mudar de lugar. Cachaceiro, é verdade, crente da Assembléia, também é verdade. Mas, boa gente que não mexia com ninguém. A própria mulher do Pastor da Assembléia foi com ele porque quis. Já não agüentava mais a falsa e pegajosa piedade do marido. Além disso, entendia mais de língua africana do que seu novo companheiro. Tudo aprendido em transes místicos na Assembléia. Como já falei, não sei pra onde foram. Que se danem, pois!
Masquinada! Um dia ele voltou e contou foi coisa. Tudo do outro mundo, inclusive a traição da mulher do Pastor que se amancebara com um chefe de tribo do Kênia. Mas, nessa época, a Assembléia já havia sido expulsa da Comunidade e eu, reconvertido à Santa Madre, cursava o Seminário da esquina para me tornar sacerdote de uma causa em que já não mais acreditava.
Por isso mesmo, meu pai fujão não gostou do que viu na Comunidade. Tornara-se meio boçal, elogiando tudo o que era canto do mundo onde o progresso, segundo ele, estava chegando. Só nas palafitas, havia sujeira e uma rejeição genética às glórias do mundo lá de fora. Recusou-se, inclusive, segundo Vó Dé, visitar-me no Seminário dos Padres. Pra ele, todo padre era fresco e sem vergonha, diferente dos pajés africanos que esbanjavam saúde e virilidade.
Além de serem mais inteligentes!
Com sua jangada, visitou inúmeras cidades, inclusive Nova York, onde profetizou, ao lado de um certo Martin não sei das quantas King, a eleição de um negro para Presidente dos USA. Por que não um negro na Presidência? Meu pai ficou tão eufórico com a notícia que pensou até em se oferecer para Primeiro Ministro e acabar com as cheias do Mississipi, construindo um canal ligando aquele grande rio ao nosso glorioso Capibaribe.
Vó Dé, pensou meu pai, ficaria orgulhosa em pescar siri americano.
Além do mais, os siris americanos eram orgulhosos e difíceis de apanhar. Pareciam mais decentes do que os humanos que habitavam a América. Davam-se bem com os índios, embora tivessem alimentados gerações e gerações de peles-vermelhas. Havia um consenso de que os índios, pelo menos, comiam os decápodes de forma ecológica. O problema era os ianques. Comiam os siris de forma industrial e capitalista, além de terem resolvido o problema indígena de uma forma muito mais eficiente do que a solução final, tão deselegantemente executada pelos líderes alemães.
Sei, por vaga lembrança, que meu pai não gostava de índio, muito menos de siris. De todo modo, pensava que Nova York não resolveria seus problemas. Talvez, quem sabe, seu futuro não estivesse mais em baixo, topos sempre lembrado, aliás, com muito carinho por ele!
Em seguida, visitou São Paulo que lhe interessou bastante, mas, assim mesmo, como ainda não havia a USP, hesitou em, ali, se fixar. Afinal, qual seria o futuro dos seus netos numa cidade onde somente se falava de café, como se a cachaça não fosse a fonte perene da vida desde os inícios dos tempos!
Nem mesmo o Rio conseguiu satisfazer o espírito exigente do meu pai, desde que ele era inimigo ferrenho do banho diário e não gostava de praias. Tanto assim que recusou a doação de alguns hectares de terra, à beira-mar, que lhe teria sido feita por uma contra-parente apaixonada, na longínqua praia, chamada, naquela época, de Ipanema. Definitivamente, meu pai detestava nomes indígenas. O que não fosse africano não lhe interessava.
Quase desiludido de tanto remar com sua jangada, resolveu retornar a Bel-O-Kan, supondo que mãe Teca ainda o esperava. Qual o quê! Nosso carpinteiro oficial já lhe roubara o coração. E foi assim que eu tive vários pais adotivos, um que se foi e voltou, outro que se juntou e nunca mais largou. Além de outros, dos quais ninguém me falou.
A partir daquele momento, a história da minha família se tornou um “troca-troca” dos infernos, porque minha mãe adotiva ainda guardava um resto de carinho pelo jangadeiro dos sete mares. Tanto é assim que o carpinteiro a tudo suportou e foi com ele que aprendi as melhores artes do “esconde-esconde” das quais me tornei mestre durante meus estudos no Seminário, embora por razões bem diferentes.
Dos oito filhos do meu primeiro pai adotivo, cinco se destacaram em fugir da polícia; outro vive escondido em Bel-O-Kan; um aprendeu a fazer móveis, tornando-se hábil conhecedor de todas as madeiras dos mangues locais; outro impregnou-se do espírito de bem fazer subir as pessoas, tornando-se ascensorista de um edifício no Recife, e o último migrou para um Estado vizinho, onde sobreviveu vendendo sabão.
Das duas filhas, uma suicidou-se por causa de uma dor de cotovelo, ainda solteira e, até hoje, grande sucesso na crônica familiar; a outra casou-se com… como poderia dizer isso… com um pescador de siri da Comunidade.
Nem bem havia voltado, meu pai adotivo fundou um terreiro de vudu, sob a total desaprovação do Dr. Quinzão. Nada de magia negra na Comunidade. Os chás de ervas do mangue bastavam e o seu amor pela natureza prevaleceu. Derrubaram a tenda do meu pai, depois de purificá-lo dos maus espíritos importados da África.
Logo após, desgostoso não sei de quê, meu pai morreu ainda cheio de esperanças, vitimado, talvez, pelo excesso do vinho local, feito de uma espécie de longas uvas cilíndricas esverdeadas, trazida pelos portugueses, informação confirmada pelo departamento de História da Universidade local, mesmo que nisso não se deva muito confiar. Não sei se morreu escorregado no rio ou se empurrado por algum demônio.
O citado vinho, forte e aromático, quase incolor, era, de fato, a única bebida decente que se podia encontrar nas redondezas. Além de proteger contra a excessiva umidade local, os seus vapores ajudavam os movimentos ágeis e graciosos a que se entregavam os pescadores de siri da época.
Não nasci em Bel-O-Kan, portanto, por acaso nem muito menos por necessidade. Antes, fui produto de uma decisão consciente e bem refletida dos meus ancestrais paternos, os de verdade, que adoravam ver uma cestinha de pão flutuar na correnteza do rio, depois de uma seleção rigorosa de várias maneiras de se livrarem de um menino chato e berrador que não deixava ninguém dormir em paz.
Mas, se acaso e necessidade existiram, talvez o fato se deva mais aos meus padrinhos, ele, um português, contrabandista de respeito, ela, neta de ex-escrava africana do engenho de Ipojuca.
Contudo, o restante, isto é, o que se passou comigo, e que contarei a seguir, deve-se, realmente, ao acaso de meus poucos talentos e às necessidades do meu temperamento instável.
Em suma, parido por um siri-mole, pescado no mangue, crescido nas elegantes palafitas das margens do Capibaribe, educado já não me lembro de quê jeito, aluno de padres gorduchos e libidinosos, na verdade, credito a Vó Dé que me salvou por duas vezes, embora contra sua vontade, o que de bom e de ruim vivi até aqui, quando entrou na minha desditosa vida o talzinho do Psiquiatra de Intermares. Mas, enfim, tô falando de todo mundo como se essas memórias não me pertencessem.
Portanto, voltarei ao começo de tudo para que meu leitor não se perca mais em toda essa confusão.

















Irmão Dimas: Não! O Psiquiatra de Intermares não foi abduzido, nem tampouco fugiu com uma sereia. Ele, simplesmente, envergonhado do feio papel desempenhado na minha doença, tomou o tônico errado destinado aos trocedores da Coisa. Entrou em coma abduzido e, atualmente, está curtindo uma pescaria de siris na Comunidade, como penitência dos seus muitos pecados. Minha bênção!
“Tsé-Tsé” ,
Quão conturbada os capítulos de suas falsas memórias … !!!! Ao menos na vida temos alguma história, e aí como surgimos é o que talvez menos importe. A vida vai está sempre aí pra ser dividida, e os tônicos e os enlatados (pode ser de siri) não fazem mais mal para a saúde de ninguém … O que incomodo é olhar para trás e verificar que a vida não fez sentido !!!!!
Agora falta eu visitar alguma dessas comunidades, vejo que preciso conhecer um pouco das ‘palafitas’, lá se a vida não é fácil ao menos deve ter uma paisagem poética !!!!
Abraços !!!!
… Eita, será que “Artur” está em algum CONVENTO ??????
Irmão André Tricolor Virtual: Gostei de sua disposição em nos visitar. Melhor do que assistir à apresentação dos ilustres desconhecidos e futuros jogadores de nosso santinha. Mas, não se esqueça de trazer um dinheirinho que a gente está precisando. Imagine que, ontem mesmo, um dos nossos sapos morreu por falta de leite pra dar pro bichinho. Quanto a Artur, já cumpriu suas penitências e está passeando no calçadão pra ver quem quer filosofar com ele.
De fato, nossa paisagem é pra lá de poética. O que atrapalha é o cheiro porque Marocas está, novamente, com dor de barriga. Minha bênção.