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Livro da Semana: o livro dos lobisomens

5 comentários

Livro muito curioso. Na verdade, já conhecia o escritor da obra, o Reverendo Sabine, através do não menos Reverendo Tsé-Tsé.

_É quase meu parente! — disse, orgulhoso.
_Mas você me disse que tinha sangue etrusco — retruquei.
_Etrusco inglês, meu caro.
_Peraí, e isso existe?!
_Fugimos dos romanos, fomos parar na Bretanha, fugimos dos celtas, chegamos nas Ilhas Britânicas e nos misturamos com os pictos.
_Aaah… Mas Sabine não é etrusco, nem picto!
_Mas é inglês! Sendo um descendente de etruscos ingleses, sou parente do clérigo.

Preferi não discutir mais. Pra quê, afinal?!

O Reverendo Tsé-Tsé é especialista em lendas urbanas. Defendeu, na Escola do Vaticano, uma tese sobre a perna cabeluda. Afirmou, mostrando dados empíricos irrefutáveis, inclusive fotos, que a tal perna era, na realidade, o membro tricogênico, compreendido entre o joelho e o tornozelo, de Teresa de Calcutá. O presidente da banca — que ironia — era Ratzinger. Ficou furioso. Depois da defesa, o futuro papa teve uma série de pesadelos com a Madre Beata, todos cabeludos (sei, sei, essa foi infame). Quase excomungou o Reverendo. Achou a lenda da perna cabeluda uma heresia que devia ser olvidada. Depois da defesa, o Reverendo só fala do assunto em privado; publicamente, somente empanturrado de vinho do Santo Ofício.

Inclusive, depois da quinta jarra, muitas vezes, aborda um tema estranho, sem relação com nada, um tanto extemporâneo: lobisomens brasileiros.

_Lobisomem brasileiro é uma onda!
_Por quê? São surfistas?! — perguntei.
_Bem que tua mãe diz que você é um abiscoitado!
_(?!)
_Lobisomem brasileiro não tem glamour, não tem direito à bala de prata, roupas de couro, nem mistério.
_Ah, é?!
_Ah, sim. O coitado vira lobisomem em encruzilhada, chiqueiro e até galinheiro.
_Cacetada, galinheiro é humilhação.
_Pois é, muitas vezes, sai todo sujo de titica de galinha… E não precisa de lua cheia, somente que seja sexta-feira.
_Bem, sexta é melhor do que segunda-feira. Tem todo o final de semana para assombrar.
_Que nada, sua rotina é de lascar: uma noite apenas para percorrer sete cidades, antes de voltar ao lugar donde se transformou em fera abominável. E, se não voltar antes do galo anunciar o dia, vira um pequinês!
_Que horror!
_O lobisomem brasileiro não é produto de feitiço e sim de maldição.
_Convenhamos, isso é muito pior. Tirar feitiço é fácil — é só procurar uma benzedeira lá em Juazeiro do Norte. Maldição é outro papo!
_Maldição é pra vida toda, meu filho.
_E qual é a maldição?
_É herança maldita: o último de uma série de sete filhos, o caçula de sete irmãos, filho de um incesto, ficar dez anos sem confissão, não fazer a comunhão, nascer com os dedos tortos, casar apenas no civil, deixar de receber batismo, ser do PT.
_Deve ter muito lobisomem no Brasil.
_Pra dedéu! Conheço vários. Mas, nem tudo são espinhos na vida de um lobisomem brasileiro, afinal, uma de suas funções é desvirginar donzelas inocentes que passeiam sozinhas pela praia de Intermares.
_Taí uma bela função. Ele se alimenta, por acaso, de tartarugas?
_Não, quem se alimenta disso é VanVan, o cientista cearense.
_Será que Vancarder é um lobisomem?
_Há, de fato, um boato a respeito. Nunca comprovado, aliás. Talvez seja um lobisomem ecochato, o que seria uma vergonha! Mas o lobisomem alimenta-se de fetos, crianças ainda pagãs, adultos, cadáveres, cachorros, bezerros e outros animais pequenos. Ele gosta também de cientista social.
_É mesmo?!
_Tem um gosto de plástico, mas dá pro gasto.
_Como você sabe disso? — perguntei, desconfiado.
_Deixa pra lá. Você não quer saber como se mata um lobisomem brasileiro?!
_Não, quero saber é como você sabe que cientista social tem gosto de plástico.
_Deixe de papo, isso não é importante. Veja, é preciso coragem para matar um lobisomem brasileiro: faz-se uma saudação com a cruz a seis metros do monstro, joga-se água benta nele e, depois, reza-se sete vezes, durante sete noites, com sete velas acessas. Além disso, pode-se dar um tiro certeiro na cabeça do bicho, sem antes esquecer, é claro, de untar a bala com a cera de uma vela queimada em três missas seguidas.
_Não quero saber. Como você sabe que cientista social tem gosto de plástico?

O Reverendo quase rosnou. Deu medo. Não disse nada, mas gesticulou bastante. Saiu da sala esbravejando em baixo aramaico, uma mania antiga. Fiquei pensando… Será que o reverendo era um… Recalquei o pensamento. Algumas verdades precisam ser esquecidas, nem mesmo guardadas. Mas, depois disso, fiquei cabreiro.

Bem, lá vai a orelha do livro:

O reverendo Sabine Baring-Gould é considerado um dos dez maiores escritores britãnicos do século XIX, embora seja mais conhecido por sua prolífica produção de hinos religiosos. O autor também é frequentemente citado como inspirador de Pigmalião, obra-prima de George Bernard Shaw, que, por sua vez, originou o clássico do cinema My Fair Lady.

Mas Baring-Gould também escrevia em profusão, e sua obra literária chamou a atenção de H. P. Lovecraft, mestre do sobrenatural. E não é para menos. Em O Livro dos Lobisomens, o autor lança mão dos anos dedicados ao estudo do foclore bretão para construir um painel rico e detalhado da licantropia.

Abordando temas polêmicos e controversos, este é, até hoje, um dos mais completos e essenciais compêndios sobre os lobisomens e sua mitologia.

PS: o diálogo com o Reverendo Tsé-Tsé inspirou-se do prefácio, escrito por Helena Gomes, do Livro dos Lobisomens — uma jornalista e professora universitária, versada sobre lobisomens e outros mitos fantásticos.

Torcedor
  1. O blog endoidou de vez!

  2. Licantropia, muito bom, muito bom. Vou tentar encaixar isso num texto jurídico, será que tem jeito?

  3. Vc pode alegar que teus clientes são licantropos, logo, inimputáveis, conseguindo assim o ganho dos processos. E imagine que propaganda sensacional: Edmar, o advogado dos lobisomens! Prevejo rios de dinheiro — como a idéia foi minha, espero algum tipo de contrapartida, certo?!

  4. Pô, cara, você tá pegando no pé do PT. Se continuar assim, mando a Marta ir te assombrar de noite junto com a Erundina (essa não é mais petista, mas tá na coligação).
    E para a sua informação: Lula teve seis irmãos…

    Ah, lembrei do tempo em que a perna cabeluda foi parar nas manchetes do Diário de Pernambuco: década de 80, um editor de polícia louco pra tomar umas e preocupado com a falta de crimes hediondos no pacato Estado. A perna cabeluda garantiu não apenas a sua grade de cerveja do dia, como uma puta vendagem de jornal. É como eu sempre digo: na hora do desespero a imaginação aflora. Um brinde à criatividade dos bêbados!

  5. Não tenho nada a ver com isso. Foi o Reverendo Tsé-Tsé que falou mal do PT. Ele acredita piamente que os petistas são os lobisomens da esquerda brasileira.

    Muita boa essa estória da perna cabeluda!

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