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1958

4 comentários

Artigo muito legal de Alberto Helena Jr. sobre os jogadores campeões do mundo de 1958. Aliás, querendo assistir ao vídeo completo do jogo, cliquem aqui. Digo logo que vi o jogo inteiro. No início, até que a Suécia resistiu, mas depois… Curiosamente, o jogador que mais me impresionou não foi Pelé, nem mesmo Garrincha, mas sim… Didi! Que classe, que altivez! Incrível sua capacidade em dar um passe sempre bonito e certeiro. Outro que me surpreendeu foi Vavá. Não esperava que fosse habilidoso, achando que era um centroavante mais rompedor, qualquer coisa do gênero — ele voltava, inclusive, muito ao meio-campo para recuperar a bola.

Lá vai o texto:

1958: HERÓI POR HERÓI

Convido o jovem amigo, que não teve a felicidade de ver em ação os craques do Esquadrão de Ouro, aquele que nos deu a primeira Copa do Mundo, em 58, a uma breve e superficial incursão á história e ao estilo de cada um dos heróis inesquecíveis que entraram em campo na Suécia.

Gilmar dos Santos Neves, de talhe esbelto, tipo Van der Saar, embora mais baixo – alto, porém, para a média de sua geração (a turma cresceu, meu amigo, neste meio século passado) – era uma pluma flutuando diante do arco. Reflexos apuradíssimos, elástico, elegante em seus vôos de um canto ao outro de sua meta, era dono de forte personalidade e líder nato.

Surgiu no Jabaquara de Santos, no início dos 50, e transferiu-se para o Corinthians, como contrapeso, dizia-se, de Ciciá, volante de toque refinado que não deu certo no Parque. Gilmar disputava posição com Cabeção, egresso do Maria Zélia, glorioso time de várzea paulistano, e sofreu seu primeiro grande revés naquele célebre 7 a 3 da Portuguesa de Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Afastado do time, perdeu para Cabeção a chance de ir à Copa da Suiça, em 54, mas se recuperou numa excursão vitoriosa do Corinthians pela Turquia e cercanias.

Outra excursão, desta vez á Europa, consolidou sua posição, em 1956, na Seleção Brasileira. Apesar das tragédias de San Siro e Wembley, quando o Brasil caiu fragorosamente diante de Itália e Inglaterra, Gilmar pegou dois pênaltis cobrados pelos ingleses.

Pra mim, o melhor da posição em todos os tempos. Em 59, transferiu-se para o Santos e formou na maior equipe de futebol de todos os tempos e quadrantes. Foi bicampeão mundial em 62, pela Seleção, e, no ano seguinte, pelo Santos.

De Sordi, que jogou todas as partidas da Suécia, até Djalma Santos substituí-lo na final, veio do XV de Piracicaba para o São Paulo, em 1952, e logo recebeu o apelido de Tourinho: baixinho, taludo, era um lateral-direito quase intransponível, que atacava pouco, mas bem. Canhoto, no entanto, capaz de trabalhar com a destra sem maiores problemas, tinha grande impulsão para o cabeceio e era aquele pau pra toda obra.

Já Djalma Santos era um monstro sagrado, desde a Copa de 54, quando foi eleito o melhor lateral-direito daquele campeonato pela imprensa mundial. Negrão forte, veloz, marcador implacável, gostava de atacar muito, e era exato nos cruzamentos. Foi titular em 62 e chegou até a disputar a Copa do Mundo de 66, já veteraníssimo,

Bellini, que mais tarde veio para o São Paulo, fez nome no Vasco, formando com Orlando, duro, mas mais técnico, a parelha de zaga do Brasil na Suécia. Bellini, alto, forte, era o que hoje se chama de Deus da Raça. Perfeito pelo alto. Já Orlando, mais atarracado, tocava melhor a bola e tinha um senso de colocação invejável. Jogou também na Itália e no Boca Juniors, onde até hoje é lembrado.

Na lateral-esquerda, Nilton Santos, a Enciclopédia, e isso resume tudo. Embora destro, dominou aquele espaço na esquerda durante quase vinte anos, com uma elegância de gestos sem par, uma inteligência luminosa e um domínio de bola diabólico, senão angelical. Foi Botafogo a vida toda e outras mais.

Dino Sani, que começou como titular, era um meia-armador que foi recuado para a posição de volante, o que lhe permitia, vindo de trás, explorar suas melhores qualidades: fôlego, centro de gravidade incrível (derrubar Dino era tarefa para mestre Bimba, rei da capoeira), visão de jogo, passe correto e chute de longa e média distâncias primoroso. Dino jogou no Comercial da Capital, no Palmeiras, no São Paulo, no Milan, no Boca e no Corinthians, que eu me lembre.

Zito, que entrou em seu lugar no jogo contra a União Soviética, foi do Taubaté para o Santos onde entregou sua vida, por quase vinte anos. Eclético, podia jogar, como jogou, de meia, volante, quarto-zagueiro e até de lateral, esquerdo ou direito. Veloz, hábil (driblava fácil na corrida, marcador firme, quando não maldoso, e incansável, era ali como médio apoiador, o volante atual, que ele se sentia mais à vontade. Líder por excelência, Zito foi fundamental não apenas na conquista de 58 como também em 62, quando encerrou sua participação com um gol de cabeça na decisão com a Checoslováquia.

Ao lado de Zito, na armação, Didi. Mestre Didi. Um dos maiores jogadores de futebol que já vi. Fala-se muito nos dribles de Garrincha, na genialidade de Pelé, nos gols de Vavá, na solidariedade de Zagallo, mas o grande arquiteto do título foi Didi, eleito o melhor jogador da Copa de 58.

Foi do Madureira para o Fluminense, e acabou sendo execrado na Copa de 54. Diziam que era um cai-cai. Frio, calculista, Didi, porém, jamais deixou de suar a camisa. No início, era um meia que esbanjava habilidade, driblador, sem nunca perder a pose: tronco reto, fronte erguida, olhar agudo para descobrir espaços onde só havia congestionamento.

Com o tempo, Didi, já no Botafogo, reduziu a velocidade em campo e conteve seus dribles ao essencial, afiando o passe, o lançamento mágico e o posicionamento em campo, que lhe permitia ser um extraordinário ladrão de bola a partir de sua própria intermediária.

Joel, ponta-direita veloz e cumpridor, embora não fosse brilhante, era de uma utilidade sem par, inclusive na volta para combater o lateral-esquerdo que avançasse (já avançavam, sim, naquele tempo, ao contrário do que muitos supõem hoje em dia). Trocou o Botafogo pelo Flamengo, numa transação tumultuada, e na Gávea construiu sua legenda.

Garrincha, ora, Garrincha. Garrincha era o gênio intuitivo. Pernas tortas (os dois joelhos confluíam para a esquerda), cabeça de passarinho, conseguia o prodígio de praticar, ano após ano, o mesmo drible pela direita, e ninguém o alcançava naquele arranque curto e fatal. Cruzava com maestria e batia bem na bola tanto com a direita como com a sinistra. Foi Botafogo até começar a definhar no Corinthians, no Flamengo…

Vavá, pernambucano de boa cepa, começou como meia-esquerda, ponta-de-lança, o que lhe conferia nível suficiente de habilidade. Mas, era, basicamente, o Peito de Aço, o artilheiro por natureza e vocação, rompedor, destemido, rápido na conclusão da jogada de área e bom de cabeça. Jogou no Vasco, foi para a Itália, e voltou ao Brasil para encerrar seu ciclo superior na Academia do Palmeiras dos anos 60.

Já Mazzola, cujo apelido foi herdado do grande meia italiano dos anos 30/40, era um tipo encorpado, loiro, rosto quadrado, parecia um tanto desajeitado quando começou a dar seus rushes num Palmeiras em baixa, nos meados dos anos 50. Ainda menino, chegou ao Parque Antártica em meados dos anos 50, e logo ganhou fama com suas arrancadas a partir do meio-de-campo e gols em penca. Tanto podia ser meia ponta-de-lança como centroavante. Transferiu-se naquele mesmo ano, depois da Copa para a Itália, onde até hoje é reverenciado como o Grande Altafini.

Dida explodiu como artilheiro daquele Flamengo tricampeão carioca, sob o comando de Fleitas Solich. Rápido na conclusão das jogadas, era um meia ofensivo, pela esquerda, que muito se aproveitou da genialidade do outro meia, Rubens, o Dr. Rúbis, que lhe enfiava bolas mágicas, jogo após jogo. Depois, Dida veio para a Portuguesa, onde também fez sucesso ao lado de Henrique, o centroavante que o acompanhou em muitas jornadas anteriores do Fla.

Pelé, passo. Nada a acrescentar a todos os compêndios que tratam desse verdadeiro fenômeno do século XX e seculorum. Aos 17 anos de idade, dado como impossibilitado de disputar a Copa pela grave lesão sofrida no jogo de despedida do Brasil, contra o Corinthians, entrar em campo contra a União Soviética e, no jogo seguinte, com o País de Gales, meter aquele gol salvador com dois chapéus sobre os beques dentro da área, o silêncio é mais eloquente.

Por fim, Zagallo, um prodígio de sorte e competência. O preferido de Feola era Canhoteiro, o Garrincha da esquerda, que jogava pelo São Paulo. Mas, boêmio, Canhoteiro escapou de uma concentração e levou o cartão vermelho da comissão técnica. A vaga, pois, seria de Pepe, o Canhão da Vila, ponta-esquerda lépido e fulminante nos chutes a gol. Pepe, porém, às vésperas da Copa, ao sair do chuveiro, pisa mal no tamanco e torce o tornozelo. Deu Zagallo, o Formiguinha, que começou no América como um meia-esquerda driblador, para se transformar num ponta-esquerda solidário, tanto no Flamengo quanto no Botafogo. E, com direito, a gol na decisão da Copa de 58.

Com disse, amigo, uma breve e superficial incursão na história e nos estilos dos nossos heróis de 58. Mas, para seu governo, eles foram mais, muito mais.

Torcedor
  1. Broda: de acordo 100%. É isso que vejo, pelas poucas imagens, em Didi. E já tinha escutado meu pai resmungar que sempre deram menos valor ao que ele jogou. Além da classe de passes geniais.

    Tem um gol, ACHO que o primeiro da semi final, quando estávamos perdendo. Ele está com a bola na intermediária e parece não saber o que fazer. Péle sai da área aos berros e pede a bola. Esta a direita de Didi, que não dá o passe. Ao contrário. dvira para o outro lado e manda de três dedos pra Vavá dentro da área. Genial.

    Observe se tiver acesso ao jogo contra Gales:

    É ele que dá o passe para Péle e corre para receber de volta. Péle prefere a jogada maravilhosa e o gol. Em seguida, ele, Péle, vai ao fundo do gol pegar a bola e é amassado por vários jogadores. Repare que Didi, assim que a bola entra, nem mesmo vai cumprimenar Péle. Volta correndo porque tinha muito jogo pela frente.

    ABS

  2. Grande, fiquei especialmente fascinado pelo passe de Didi. Várias vezes, ele recebeu a bola e estava marcado, mas conseguia antecipar a jogada, tocando de primeira. Fazia duas coisas: posicionava-se para receber (sempre estava bem posicionado, incrível!) e, quando recebia, já sabia pra quem tocar. E aqueles lançamentos de três dedos… Belo, mui belo!

  3. Esse time era uma merda. Futebol lento, do tempo em que se amarrava cachorrro com linguiça. Dunga foi muito melhor que Didi, dedé, mussum e zacarias! Esse negócio de futebol arte é coisa de viado. Assim como arte em geral.

  4. Ah, o Santinha atual joga melhor que esse time…

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