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A alegoria bíblica: uma interpretação.

2 comentários

Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!

Um pouco sobre a alegoria bíblica…

Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do “pecado original” orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?

O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades objetivas absolutamente satisfeitas. É um mundo antiliberal, por natureza. Não há notícias de Friedmans no Paraíso. Lá, as carências são satisfeitas imediatamente, não havendo a necessidade de trabalhar. Todo almoço é grátis. Adão, rei da preguiça — paradigma perfeito do “perrusi’s way of life” —, é um ser objetivamente satisfeito, com todas as suas necessidades biofísicas atendidas. Ele diz o que digo sempre quando olho a praia de Intermares: _O que eu quero mais na vida do que isto? Ele sabe que o paraíso foi uma dádiva e não uma conquista, mas não sente culpa da sua sorte. Acha a mentalidade empreendedora uma imbecilidade.

_Acho uma besteira! — diz aos coelhinhos em volta.

Adão identifica-se profundamente com esse modo de vida, pois adora a estabilidade, a abundância e a calmaria, rejeitando, portanto, a preocupação e a instabilidade. Não existe liberdade em tal ambiente, porque ela, simplesmente, não é necessária; além do mais, Adão é, com toda razão, um grande acomodado. Liberdade é, sem dúvida, incompatível com qualquer paraíso, visto representar necessariamente incerteza, pluralidade, escolha, etc. e tal. Ele sabe do preço que pagaria por ser livre e não dá a mínima à autonomia,  à democracia e à igualdade.

_Pra quê? — sempre pergunta aos girassóis ao seu redor.

Tais coisas nunca interessaram Adão. Acaso existisse sufrágio, sempre votaria em Jeová, feito um castrista que vota sempre em Fidel, ao ponto de ser completamente contra eleição no paraíso. Nosso antecessor é um vigoroso adepto do totalitarismo. Ele é a favor da ditadura da unanimidade, que representa a consciência absoluta da única determinação fundamental no Éden: as leis do Senhor.

Porém, nem tudo é paraíso no paraíso, pois existe uma força cósmica, um tanto indefinida, que se alimenta do acaso e do caos, protagonizando a desordem — não, não é a entropia — e se intrometendo na Criação. Algo que tem as suas próprias leis e que quer submeter as coisas a seus ditames, inquietando Jeová, com a sua ação subversiva. Tal força diabólica seria representada pela Maçã — inclusive, não se sabe como ela surgiu no paraíso, mas podemos, usando a hermenêutica, ler nas entrelinhas do Gênese que seu surgimento cronológico coincide com o aparecimento de Eva.

Ao mesmo tempo, o veículo de tal força seria a Serpente: entidade que tem a sedução como sua qualidade mais evidente e usa a linguagem de forma inovadora, sem conectá-la a imperativos de verdade, como faz Jeová e Adão. Estes não sabem mentir, ao contrário da Serpente, a primeira a utilizar a palavra como forma de poder. Foi tal criatura que convenceu Jeová a criar a Mulher com um aparato genital superior em quantidade e qualidade ao do Homem. Assim, as necessidades sexuais de Eva nunca serão supridas por Adão, o qual, aliás, não se interessava tanto por isso, gerando uma coisa, até então, inédita no Éden: a insatisfação. Devido à sua superioridade biológico-sexual, Eva nunca se saciará com Adão, tornando-se frustrada sexualmente e, portanto, trazendo dentro de si uma base arcaica para uma insatisfação geral e difusa com tudo e com todos — não, não tem nada a ver com TPM. Insatisfeita, Eva desejará.

Sim, Eva será possuída por essa força cósmica: o desejo.

Nesse sentido, a Maçã será a prova do desejo — pra que comê-la, se as nossas determinações vitais estão satisfeitas? Adão, por exemplo, nunca se preocupou com a Maçã, porque não tinha essa necessidade. Estava na sua, numa boa e não se inquietava com isso. Não existia nenhum motivo racional para comer o fruto proibido. Era preciso algo mais, algo transcendente para perverter uma vontade, como a de Adão, tão adequada às necessidades objetivamente saciadas. Assim, era necessária uma outra vontade — insaciável, insatisfeita, afirmando o que não existe ou o que não se tem — a vontade do desejo.

Além do mais, era proibido comer a Maçã. A ordem era evidente. Pra que desobedecer? O ato de comer a maçã, por estar ausente das determinações vitais de Adão, constituiria um ato de autonomia em relação a Jeová. Um ato que realizaria um desejo.

“A autonomia do desejo, justamente por escapar ao controle das leis objetivas do Senhor, é caracterizada pela alegoria bíblica como uma falsa autonomia, pois não seria imanente à criatura, mas implantada por uma pretensa força cósmica a-racional. Assim, o desejo seria fonte de escravização humana a uma força do Mal. Enquanto a conformidade com as leis objetivas do Senhor, essa sim, seria a fonte de uma liberdade adquirida pela redução de todo o Bem ao reino das necessidades objetivas satisfeitas” (Nélson Levy: “Desejo… o lugar da liberdade”).

Lembro que, na tradição greco-latina, desejo significa desiderare, que vem da palavra sidus, sideris, que quer dizer astro, estrela. Antigamente, os romanos recorriam, para perscrutar o seu futuro, aos adivinhos e aos arúspices, que liam as mensagens vindas dos astros, como fazem, inclusive, os nossos modernos astrólogos. Eles então consideravam — considerare —, isto é, levavam em consideração o que diziam os astros. Assim, desiderare significava desistir dos astros, representando uma situação na qual impera o pessimismo. Os romanos tinham, dessa forma, a certeza da ausência e da impossibilidade de realização do seu desejo; portanto, desistiam de olhar os astros e de especular sobre o futuro. O desejo foi, assim, considerado algo cuja determinação não possui nenhuma relação com os sistemas determinísticos usuais — sejam provenientes de uma razão divina ou de uma última instância qualquer. O desejo, na tradição cristã e no racionalismo, é uma não-determinação objetiva: “o lugar de uma liberdade perversa e destrutiva, quando não libertina e até mesmo liberticida“.

Adão caiu nessa, embora não mostre arrependimento. No mínimo, é ambíguo. Por isso, essa nova vida não o impede, desde a expulsão, de sentir saudade do Paraíso. Deseja muito Eva, é verdade, mas se pergunta, principalmente quando ela está dormindo, se tudo valeu a pena. Gosta de olhar Eva entregue ao sono. Lembra dos coelhinhos e dos girassóis do Paraíso. O motor do desejo parece um anjo — pensa. E, toda vez que a olha, reflete sobre um velho enigma que assola feito uma peste bubônica a sua mente.

Por que Eva fora tirada exatamente da sua costela, já que Deus podia ter usado um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Inclusive, ele vivia se apalpando procurando algum indício. Porém, se não estava sobrando costela alguma, por que então ele estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou ele tivera treze costelas de um lado e doze do outro? Fora uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés? (Robin Lane Fox: “A Bíblia, verdade e ficção”).

Toda noite pensa nisso, adormece com isso, mas nunca sonhou isso. Está cansado da sutileza das sensações inúteis e das paixões violentas por coisa nenhuma. Na próxima eleição, como sinal de protesto, Adão votará nulo…

Torcedor
  1. Adão existe ainda hoje. Atualmente exerce a profissão de agente burocrático do INSS de segunda a sexta, pontualmente das 8 às 12 e das 14 às 18h. Carimba, página por página, todos os processos do órgão. Utiliza, para isso, a mão direita já que seu lado esquerdo é portador de deficiência (falta uma costela).
    Continua casado com Eva. Essa, por sua vez, teve uma briga com sua melhor amiga, a serpente, e, num acesso de TPM, matou-a com uma dentada (o veneno da Eva é semelhante ao do dragão de Komodo). Trai Adão, literalmente, com Deus e o mundo. Adão sabe, mas não tem coragem de brigar com o chefe e, afinal, o que é um fruto de uma costela, não é verdade?
    Eva não trabalha oficialmente, mas vive fazendo caridade e promovendo chás de maçãs beneficentes com intuito de arrecadar recursos para a campanha de Jeová. O trabalho de Eva é tão bem feito que Jeová nunca perdeu uma eleição, e conseguiu evitar todas as CPIs propostas pelo Diabo para investigar o caixa 2 das campanhas divinas.
    É, o mundo evoluiu. Mas no fundo (e no raso) continua o mesmo. E Adão ainda acredita estar no Paraíso…

  2. Hehe… Boa essa, Cláudia!

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