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Desabafo coprolálico

3 comentários

:mrgreen: Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? Bem, o problema é que as entranhas, convenhamos, são regressivas, infantis. Mesmo assim, decidi confessar um lado caché que só íntimos não desconhecem. Tornar público um pathos.

Bora lá: sou um grande entupidor de banheiros, o mestre da latrina entupida! Já perdi amizade por causa disso, o que acho injusto, pois não tenho culpa da minha natureza. A culpa é dos meus genes. A Veja já demonstrou que existe um gene cagatorium, localizado na décima hélice do nosso genoma. Tenho o que, tecnicamente, pode ser chamado de pulsão de excremento, que cheira bem mais do que a velha conhecida pulsão de morte, pelo menos imediatamente. Pode ser exibicionismo, mas é uma das poucas coisas que faço em abundância, com generosidade. Mas, paradoxalmente, nunca estive em harmonia com o ato de obrar; na verdade, sempre vivi nesse terreno movediço entre a constipação e a diarréia. Quando pequeno, tinha prisão de ventre; adulto, fluxo de ventre. É uma dialética um tanto desagradável e nem um pouco hegeliana.

Lembro-me de uma vez, era a época do ginásio, quando veraneei na casa de um colega ricaço e passei uns três dias sem cagar. Coisa típica da minha infância, na qual a minha timidez corporificava-se numa consistente prisão de ventre. Apesar da minha ciência psiquiátrica, esse fenômeno jamais teve desvelado o seu sentido oculto, talvez perdido para sempre nas profundezas de meu intestino grosso. Quem sabe devesse fazer terapia, como uma amiga, que resolveu o seu problema cagando, behavoristicamente, toda manhã, embora de maneira um tanto compulsiva. Dez anos de divã e sua histeria, hoje, é bosta matinal. Impeça-a de obrar e sua neurose brotará do seu inconsciente como uma caganeira emocional. Mas ela se sustenta e vai vivendo a vida. No fundo, eu a admiro.

Bem, no terceiro dia, como minha pele dava sinais verdes de alerta, decidi soltar, enfim, com fanfarrice, toda aquela inteligência acumulada. Acredito que caguei o mundo inteiro e, mais um pouco, ia ser o sistema solar. Emudeci, emocionado. Obra de um gênio, certamente. Olhei toda aquela soberba boiando e fiquei preocupado. Dei a primeira descarga, e nada! A segunda, e o mondrongo nem se mexeu! Fiquei, realmente, preocupado.

O que fazer? – como diria Lênin.

Estava na casa de membros do Ancien Régime recifense e não podia deixar como lembrança, justamente, um troço com um cheiro tão pouco aristocrático. Fiquei acocorado, algum tempo, junto à latrina, como a meditar sobre a minha desgraça, que fedia, aliás, horrores. Já fazia uma hora que estava trancado no banheiro. Tinha que dar alguma solução ao imbróglio fecal. Olhei ao redor e vi uma vassourinha, daquelas de limpar o vaso sanitário. Tive, então, a idéia fantástica de chocalhá-la na latrina, e ver se descia a merda. Meu raciocínio talvez fosse o seguinte: vassourinha + agitação = sumiço da titica. Pensei até mesmo em tirar, da minha lógica impecável, alguma lição moral ou fundar uma ontologia nunca dantes navegada. Porém, uma lógica impecável nem sempre tem uma relação necessária com a realidade. A bosta, contrariando Aristóteles, não desceu. E muito pior: a vassourinha ficou uma merda só.

Tinha agora não um, mas dois problemas: a latrina entupida e a vassourinha obrada.

Fiquei tão horrorizado com a situação, olhando a vassourinha emporcalhada na mão, que a deixei cair, de forma atrapalhada, na pia do banheiro. E, num ato reflexo, peguei a toalha de mão e tentei limpar a porcaria.

Tinha agora não dois, mas três problemas: a latrina entupida, a vassourinha obrada e a toalha de mão defecada.

Estava desesperado e já com lágrimas nos olhos. O cheiro estava de lascar. Ser sufocado pelo próprio excremento é um triste fim, pensei. Olhei, de novo, ao redor. O banheiro tinha uma janela que dava para os lados de um terreno baldio. Não vacilei: joguei a vassourinha e a toalha infecta no mato. E a latrina? Ela, eu forrei de papel higiênico pra disfarçar.

Saí com a cara mais lavada do mundo. A casa inteira ficou incensada de bosta; a família, em silêncio, diante do cagão hediondo. Mutismo de aristocrata, para manter as aparências. Senti-me estigmatizado. Preferia uma conduta compreensiva, quase terapêutica, do tipo: “Você entupiu o banheiro? Faz mal não, isso acontece, afinal, qual é o problema em ter um cheiro de merda na casa o dia inteiro?” Pelo contrário, recebi como solidariedade um silêncio constrangedor. Hoje, já adulto, talvez tentasse discutir com o pessoal, trabalhar o assunto, relativizá-lo, mostrando que a vida é muito melhor do que a gente pensa; _vocês já andaram junto ao Canal da Agamenon? Pois é…

Dormi acalentado pelo tchec-tchec do desentupidor. Durou uma eternidade. Coitado do pai de meu amigo. Creio que meu sentimento antiburguês nasceu desse evento. Generoso, porém ressentido. Eu era culpado, mas projetava a culpa no tipo ideal do burguês. É um mecanismo ideológico curioso: culpar os outros pelas nossas merdas. Enfim, posso dizer que muita qualidade moral teve sua origem nos bas-fonds de um sanitário.

No outro dia, de manhãzinha, a empregada pergunta pela toalha de mão.

Aguardei, até o fim, que ela perguntasse pela vassourinha…

Sementeiras
  1. André Tricolor Virtual

    ‘Artur’

    Reza para vc não ter diarréia lá no Arruda, pois a condição dos banheiros é precária e possivalmente vc pode se afogar em ‘merda’ !

    Abraços e nos vemos em Campina Grande ( não esquece de levar uma marmitinha pra mim do almoço de sua casa) !!!!

  2. Putz, que merda!
    Como meu intestino foi condenado à prisão perpétua desde que me entendo por gente (não sei que crime cometeu, juro!), confesso que sempre tenho uma pontinha de inveja de quem confessa estar com piriri… Mas depois desse relato, eu descobri que a liberdade pode ser constrangedora.

  3. Carai…….fazia tempo que eu não ria tanto….e olha que hoje eu já chorei com o texto do Samarone…..rsrsr

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