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Cinema é ilusão

3 comentários

Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma sociedade glutona, ávida. Eu mesmo, meio sem querer, até por causa do meu vício, incorporo uma conduta um tanto quanto aditiva. Acho que é influência, sei lá. Toda vez, compro logo um balde de pipocas e muita coca-cola. O ato de comer pipoca durante um filme equivale a uma sessão de hipnose. Normalmente, saio empachado da sessão e, chegando em casa, tomo um luftal. E começo a peidar — talvez o filme, quem sabe. Será que é, por causa disso, que sempre me esqueço dos filmes?

Sempre fico encafifado quando penso na causa do meu vício por filmes americanos. Acho que tenho necessidade de aplacar apetites infantis. Sou uma criança freudiana! Daquelas educadas pelo liberalismo radical do construtivismo. Em suma: uma pequena peste vive dentro de mim! Fico pensando se o meu gosto estético por catástrofes provém desse infantilismo. Talvez, seja influência das pipocas. Há pesquisas mostrando a influência das pipocas na estética da violência.

Ora, o americano é o ser humano que mais come pipoca do planeta. Há aí alguma correlação positiva, certamente. Posso deduzir que, sendo o cinema ianque produzido para saciar a voracidade infantil americana, não causa surpresa que nove entre dez filmes nos States tenham como tema algum desastre, alguma violência, algum terror, etc. e tal. A demanda social por condutas regressivas é o apanágio de sociedades glutonas. Vejam os carros americanos de polícia: todos espalhafatosos, com luzes piscando por todos os lados. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, carros de polícia tão amostrados!

Tudo bem, os americanos são vorazes, mas têm uma vantagem em relação aos brasileiros: podem ainda sublimar seus apetites infantis na ficção cinematográfica, enquanto nós pervertemos nossa fome regressiva na própria realidade. Convenhamos, somos piores.

(fico pensando nos filmes de terror. O que causa muitas vezes o terror não seria o fato de se impedir que o elemento tempo passe por algum processo de transformação? Explico: tempo é rotina, costume e hábito; tempo processado não gera medo. Passar dos 20 anos aos 80 em 60 anos não nos causa medo, mas passar esse intervalo em segundos é apavorante. Realmente, ficaria em pânico, se me visse envelhecendo de forma ultra-rápida, principalmente defronte a um espelho. Em suma, transformação menos tempo é igual a pavor)

Blog é insight, mesmo que seja incognoscível…

Torcedor
  1. “Há pesquisas mostrando a influência das pipocas na estética da violência.”

    “Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, carros de polícia tão amostrados!”

    Artur, só você para tirar conclusões tão certeiras. Minha visão do cinema mudará completamente. Acho que vou abdicar da pipoca com coca-cola, o que aliás não achava graça. Fazia apenas pela tradição.

    Já que nós pervertemos a nossa fome no cinema brasileiro, vou substituir as guloseimas tipicamente americanas por outras tipicamente brasileiras. Doravante, só assistirei a algum filme acompanhado de saparapatel e cerveja. Troca muito justa, aliás.

    Dimas

  2. Broder:

    Já viu Pesadelo Americano? Direção: Aric Avelino com Donald Sutherland e o Forest Whitaker ???

    É muito bom. Ou não é, dependendo do que se busca com cinema, americano ou não.

    ABS

  3. Caro Perrusi, passei por aqui com a certeza de ler algo interessante. E, por falar em cinema, e cinema americano especificamente, aproveito pra sugerir a leitura de ROLIÚDE, de Homero Fonseca, a história de Bibiu, matuto que vivia de assistir filmes na capital e cobrar cachê pelo interior, narrando a fita nas praças. Muito bom, valea pena!

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