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Uma experiência incontestável
Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências.
_Não somos hamster! — dizem.
_Mas é em prol da ciência! — retruco.
E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, mamíferos superiores. E é dentro desse paradigma que concebo a experimentação.
Nalgumas experiências, utilizo uma variedade sortida de alunos: alunos criacionistas, alunos que negam a viagem do homem à Lua, alunos que crêem na Transubstanciação (preciosos, porque raríssimos), alunos que lêem a Veja; em suma, todos aqueles que projetam sua postura intencional em Deus e o Mundo. Todos são animistas, pois têm o impulso compulsivo em conferir agência às coisas e aos fatos, concebidos como agentes dotados de desejos e crenças. No fundo, tenho uma população enorme para escolher, porque todos os tementes a Deus, tecnicamente, são animistas, um pouco mais sofisticados, é verdade, do que os antigos animistas, embora não apresentem a beleza e a criatividade de antanho.
(Ah, belos tempos aqueles do animismo, e idiotas também: o desejo do rio correr ao mar e a intenção benigna ou maléfica das nuvens de chuva eram tomados ao pé da letra e tão seriamente que podiam tornar-se uma questão de vida ou morte — que o digam as virgens astecas — chutei, não sei se eram virgens…).
Inclusive, para ser franco, coloco até mesmo os agnósticos na amostragem, por pura pirraça contra sua covardia espiritual.
Teve um dia que estava com sorte. Chegara uma leva de alunos de uma disciplina sobre pós-modernidade, e estavam todos embriagados de relativismo cultural e epistemológico. Alguns defendiam a magia e a dança da chuva. Diante do meu riso positivista, vociferavam: etnocentrismo!
_Professor, você precisa se libertar do paradgima da ciência ocidental!
Ora, eles sabem que não consigo. Sou um cientificista inveterado. Tento explicar, mas não me escutam. Acho apenas que a tática de colocar intenção em tudo que é fenômeno do mundo pode levar a nada. Sinceramente, por mais que os nossos ancestrais adorassem prever o tempo, descobrindo o que ele, o tempo, queria e que crenças ele teria a seu respeito; bem… er.. a tática simplesmente não funcionou. Certo, muitas vezes pareceu funcionar; mas, convenhamos, as danças da chuva fracassaram de forma retumbante — não tanto, é verdade, como as teorias dos economistas, esses animistas do dinheiro, ou as previsões de certos ecologistas, neomalthusianos de esquerda, esses animistas das catástrofes.
Chamei alguns para participarem da experimentação pedagógica. Era uma experiência para medir o efeito da postura intencional num esquema aleatório de reforço. Era proibido falar ou utilizar qualquer forma de comunicação. De vez em quando, não importando o que o aluno estivesse fazendo na sala de aula, aparecia uma recompensa sob a forma de notas altas. Bastava esperar um apito e a nota aparecia de forma casual. Logo, logo, os alunos, diante desse esquema randômico, estavam fazendo gestos e “danças” elaboradas, sacudindo, torcendo e dobrando o corpo. Depois, tentando saber o motivo dessas pantomimas, recebi a seguinte resposta de um aluno:
_professor, na primeira vez que, sem motivo aparente, recebi a nota máxima, acabara de dar uma virada de perna e dobrado o pescoço. Pensei: vou tentar outra vez… (quem estava próximo, imitou-me). Mas não deu certo e não apareceu nota alguma. Achei que não girara o suficiente… Nada. Aí, sacudi meu corpo antes de girar e dobrar… Deu certo! Fiz de novo… Nada. Sacudi e dei três pulinhos, girei as pernas e dobrei o pescoço até doer. Nada. Aí pensei: e, agora, o que foi mesmo que acabei de fazer?…
Achei curioso o procedimento de pensar que, de alguma forma, os gestos e as atitudes poderiam influenciar o aparecimento (aleatório, repito) das notas, talvez até mesmo seu valor. Se, sem linguagem, o aluno projetava sentido o quanto podia ao reforço aleatório, imaginem utilizando ao máximo a postura intencional, turbinada pela ação comunicativa mediada linguisticamente. Fiz, assim, outra experiência, permitindo a interação e o uso da linguagem, e o resultado foi o seguinte: criaram a hipótese de que havia um criador — alguma coisa invisível que parece com uma pessoa — responsável pelas notas. Inicialmente, acusaram-me de ser o patife que dava as notas; depois, vendo-me afastado da sala, deduziram que o criador das notas fosse um agente oculto – com cabeça, olhos, braços e pernas (um aluno disse que o ser tinha um capacete espacial, pois acreditava que os deuses egípcios eram extraterrestres). Deram-lhe até um nome: Dieci, o deus da nota.
Bem, creio que descobri a fundação natural da postura intencional que gera a crença mística, esotérica ou religiosa. Sei que os crentes desse blog, principalmente o Reverendo Tsé-Tsé, julgarão minha conclusão um absurdo, mas a experiência prova que a religião é uma projeção ilusória da postura intencional, que teve alguma utilidade nos tempos das cavernas, mas agora só faz atrapalhar a transformação revolucionária da sociedade e produzir ilusionistas como Ratzinger. Lembro que a Revolução precisa de pessoas racionais e atéias. Logo, o papel dos professores será importante: nas suas salas de aula, precisam eliminar as ilusões de uma condição que necessita, justamente, de ilusões. Por isso, do ponto de vista científico, a projeção da postura intencional precisa ser historicamente determinada e direcionada, principalmente pelos cientistas sociais, aos verdadeiros inimigos da sociedade: os burgueses são os agentes responsáveis de todas as desgraças do mundo, principalmente os liberais, seus membros mais perigosos.
Ainda lembro que, no comunismo, não haverá a projeção ilusória da postura intencional, isto é, não haverá ópio (na versão marxista), nem neurose (na versão freudiana); em suma, não haverá religião. O dia comunista, libertado da religião e do trabalho alienado, será uma felicidade geral: de manhã, treparemos, à tarde, treparemos (provavelmente, sem camisinha, para júbilo dos católicos, afinal, é o comunismo, o fim da História) e, à noite, dormiremos profundamente, porque ninguém é de ferro.
Enfim, peço desculpas, não quero ofender ninguém, mas os crentes são, objetivamente, opiômanos e neuróticos. As provas podem cansar as crenças, mas fazem parte da realidade. Não posso mudar o que existe — só Deus.
(a crônica é uma paródia de trechos do livro de Daniel Dennett: “quebrando o encanto”)

















