A “judicialização” dos inocentes
Cacetada, hein?! Tempão ausente, hein?! Sem tempo para escrever. Resultado: os 2,8 leitores desse blog passaram a ser 1,7… Mas, mesmo assim, volto aos poucos. Não posso prometer nada. Condição estranha essa: a impossibilidade da promessa. Como controlar ou corrigir a imprevisibilidade, sem prometer? Sem a promessa, o futuro continuará incerto, certo?! Peço assim perdão, essa retificação da irreversibilidade — sem perdão, não há como mudar o passado, anulando as forças que pusemos em movimento. Sim, toda essa desculpa retumbante é apenas para dizer que continuarei um tanto ausente.
Porém, deixemos de delongas. Escrevo agora por um motivo premente. Escrevo para falar um pouco sobre a sacanagem que estão fazendo com Samarone, blogueiro e escritor do Estuário. Na verdade, escrevo apenas para dar a voz ao grande tricolor e fundador do Blog do Santinha. Nosso amigo está sendo processado por uma entidade lendária — sim, segundo as superstições que, feito um vento frio, assombram o Arruda, a criatura sai da sepultura na calada da noite para sugar o sangue dos tricolores. É uma figura notável da política pernambucana. É poderoso. Utiliza, contra Samarone, essa nova forma de calar a crítica e a liberdade de expressão: a “judicialização” da discussão e do debate. Criticou, meu chapa, tome processo! Não ouse utilizar a verve da crítica contra minha pessoa pública, pois utilizarei a arma da Lei! Critique, e lhe mando direto ao Anibal Bruno! Ora, é muito fácil quem tem poder e dinheiro processar quem não os tem — seria preciso ser muito crente nas ilusões da toga para acreditar na neutralidade da justiça brasileira.
Ah, o Direito… Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver, já falava dessa arte da persuasão, que maliciosamente convence o incauto de que o branco é preto e o preto é branco. Os advogados transformaram a velha arte da retórica num discurso de poder e de manipulação. O velho Marx denunciava esse universalismo abstrato do Direito que, concretamente, apenas reproduz a dominação de classe. Sem falar de toda uma tradição política que aponta o dedo para o verdadeiro fundador do Direito: a violência! A Lei é lavada todo dia com Omo Total, mas os pingos de sangue continuam manchando a toga branca de toda a justiça desse mundo.
Claro, claro, não concordo muito com essa visão do Direito, mas quando olho o Brasil, quando vejo nossos advogados, nossos tribunais, nossas (in) justiças… Sei não!
Quando leio abaixo a crônica de Samarone…
Anotações de um querelado
20 de junho de 2008, às 0:42h por
Samarone Lima

Eu sabia, por meio de amigos do meio jurídico, que corria uma ação cível contra mim e meu amigo Inácio França, também jornalista, por “difamação”. Ou seja, desacreditei publicamente de alguém, em algum dos meus muitos escritos. Fiquei quieto, aguardando o desenrolar dos fatos.
O “Mandado de Intimação” chegou na semana passada. A ação era bem mais grave: a de “calúnia”, na Oitava Vara Criminal da Capital. Neste caso, uma ação específica contra mim. Teria eu, em algum momento, jogado uma falsa imputação a alguém de fato definido como crime. Sou agora um “querelado” do Poder Judiciário.
Meu “querelante” se chama José Cavalcanti Neves Filho, ex-vereador da Cidade do Recife por quatro mandatos consecutivos e ex-presidente do Santa Cruz Futebol Clube, meu clube de coração.
Nesta quinta-feira, cheguei ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, que todo mundo conhece como o “Fórum da Joana Bezerra”. Usei pela quarta vez um terno bonito e calorentíssimo, comprado numa das pulgas de Paris, por três dólares. Rapidamente encontrei a Oitava Vara, que fica no final do corredor do primeiro andar. Sentei e fiquei à espera do meu advogado, o também tricolor Diego Galdino, amigo de comemorações cada vez mais raras nas arquibancadas do Arruda, nosso estádio. Então, inicio minhas anotações. As anotações de um querelado.
Sento em uma das cadeiras. São 13h30. Os advogados passam, com seus ternos pretos, alguns com pastas 007. Ao meu lado, três mulheres negras, possivelmente duas irmãs e a mãe. Todas as varas deste corredor são criminais. Elas conversam, desanimadas. “Está demorando, né?”. Uma sai, a outra vai atrás. A que fica, liga para alguém. “Oi, amor, botasse crédito no meu celular?”. Silêncio. “Não acredito. Pois vou tomar o dinheiro todinho de cachaça”. Escuto em silêncio e tomo notas.
Um advogado, bem moço, alto, limpíssimo, organizado, com um terno claro impecável, passa para a Oitava Vara. Tudo nele é polido. Ele volta, espera por algo, até sua paciência é polida. A rádio do corredor toca uma música norte-americana dos anos 80, uma daquelas românticas que dancei em alguma festa no Monte Castelo, em Fortaleza. Falava das coisas de sempre: “loving”, “hand”, “alone”, “anymore”. Faltou o “you”, mas deve ter sido distração minha. Toda canção de amor tem o “me and you”.
Olho novamente o mandado de intimação. Percebo que o nome do meu querelante saiu errado. A palavra “Neves” está escrita duas vezes. “José Neve Neves Filho”. Algum escrivão, escutando essas músicas românticas, repetiu o nome do querelante, dando-lhe uma certa redundância. Olho meu nome: Samarone Lima. Faltou o “de Oliveira”, que é meu nome completo. Sinto que comecei com uma leve desvantagem de palavras. Meu querelante tem um nome a mais, e toda a minha linhagem paterna, os “Oliveiras” foi subitamente excluída. Tudo bem, é só o começo.
As duas mulheres voltam. Falam de crédito do celular, alguma fatura para pagar do “Comprebem”. Passa uma moça excessivamente bonita, alta, com o nariz avermelhado. Está chorando, um choro contido, sem alarde, sem soluço, escondendo as lágrimas entre os dedos finos, para ocultar alguma dor. Será uma querelada? Ela entra na Nona Vara, mas deixemos a moça em paz.
Aguardo olhando, escutando. Ao meu lado, os diálogos continuam. “Alô, Diz. Nada? Ôx, vamos sair daqui cinco horas da tarde? É de que horas isso? Ôx!”. Minhas amigas estão indignadas. “O Cabra disse que vai ser lá para três e meia”.
Olho para o relógio. São 13h43.
Olho para o mandado novamente.
“Audiência de tentativa de reconciliação, nos termos do art. 520, do CPP”.
Descubro que preciso de um Código de Processo Penal. Aceito doações.
“… ficando ciente que o não comparecimento do querelante importará em extinção da punibilidade por perempção (art. 107, inc.IV, do CP e art 60. inc III, do CPP) e a ausência injustificada do querelado será interpretada como recusa em conciliar”.
“Ele disse que era de meio dia. Vai levar um baile”, diz uma das mulheres, a dona do celular, a mais exaltada, interrompendo minha leitura jurídica.
De repente, o fluxo da memória abre um clarão. Lembro de maio de 2004, quando fui acusado de “Resistência” (artigo 329 do CPB) por um sargento da Polícia Militar. Meu crime foi avisar ao chefe da guarnição policial, que os torcedores não deviam ser agredidos gratuitamente por policiais, ao final de um jogo no Arruda. Minutos depois, eu estava dentro de um camburão.
Foram três audiências no Juizado Especial Criminal do Recife, mas o sargento nunca compareceu, e a ação foi extinta.
Descubro que meu clube de coração tem me causado problemas, mas não é propriamente o clube, é uma cultura de violência, de confronto. Até a última audiência, esperei encontrar o sargento. Queria saber se ele já estava mais tranqüilo, se ele tinha revisto sua atitude profissional, dizer que aquilo tudo poderia ser de outra forma, e que no fundo, poderíamos ser amigos, tomar uma cerveja e apertar as mãos. Nunca mais o vi, mas lembro sua expressão de ódio, quando me recusei a retirar a ocorrência na delegacia. O ódio, especialmente o gratuito, sempre me deixa assombrado.
Meu advogado chega. Somos informados que o querelante não compareceu, mas justificou a ausência (caso contrário, haveria a extinção da punibilidade por perempção). A delicada atendente, Rosana, remarcou a audiência para 6 de agosto. Recebi uma cópia da queixa-crime ou “as iniciais”, como bem me avisou uma amiga advogada. São 15 páginas, redigidas e assinadas por quatro advogados. Ao final, requerem que eu seja interrogado, que sejam solicitados meus antecedentes criminais, e que terei violado os artigos 138, 139 e 140 do CPB.
O último parágrafo:
“Ao final, REQUER-SE se seja a ação julgada procedente, condenando-se o QUERELADO nas penas previstas no art. 138, 139 e 140, do CBP, designando-se o Presídio Aníbal Bruno para o cumprimento da pena”. As palavras estão escritas assim mesmo, com letra maiúsculas, o que me parece um grito.
Era uma coisa que eu nem sabia, que o querelante pode até escolher onde o querelado vai cumprir a pena.
Dali, saímos para outra Vara Criminal, onde tramita a ação contra a dupla Inácio e Samarone. É um processo gigantesco, com cinco volumes. Uma despachada funcionária traz os volumes, para nossa apreciação. Fiquei imaginando o quanto isso custa ao País. Há inúmeros Sedex com meu endereço antigo, com intimações, centenas, talvez milhares de páginas escritas,fotocópias de textos, alegações, despachos de funcionários do Poder Judiciário, carimbos, novas intimações.
Do quarto andar daquele imenso prédio, vi o Coque, e lembrei imediatamente do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), criado pelos jovens da comunidade, que lutam contra a violência e pela cultura no bairro. Na minha cabeça, passou o filme dos encontros na Biblioteca Popular do Coque, que funciona a 500 metros dali, mantida pela raça e resistência da comunidade. Me veio o sentimento de que o Brasil é um país onde mundos não dialogam, e por isso, tanta violência, tanta dor, tanto sofrimento, tanta raiva e tanto rancor. Tantos querelantes e querelados.
Descemos, tiramos cópia de tudo. Fui conversando com meu advogado, o Diego Galdino, uma pessoa de uma extrema gentileza e educação, um homem afável, de gestos tranqüilos e voz serena. Desconfio que ganhei um novo amigo.
Lá pelas tantas, com nossas cópias todas em mãos, já saindo do fórum, falamos do dia 6 de julho, quando o Santinha estréia na Série C, em Campina Grande, contra o Campinense. Descobrimos que estamos no mesmo ônibus, um dos 15, que vai levar a torcida ao jogo.
Meu espírito quimérico entendeu que atravessarei com serenidade mais uma querela. Aguardemos, meus amigos, aguardemos.
Para o Diego Galdino, tornado amigo.
24 de junho de 2008, às 19:49h
O que acontece no SANTA CRUZ, em um time ‘DESCOMANDADO’ é apenas o retrato do ‘Brasil Miserável’ , é o beijo na testa nos criminosos, “é a corrupção endêmica e do corporativismo vergonhoso dos deputados” e o ‘cala-te boca’, pois não sabemos um terço da estória enada ganhamos em denunciar oumesmo em demonstrar nossa indignação!
A verdade e dignidade está nas mãos e bocas dos que nos ‘roubam’ a esperança, não somos livres para comentar, opinar e de estarmos insatisfeitos com algo ou alguém, temos que nos contentar com a ‘morosidade’ com aqueles que se dizem ‘honestos’ e nos colocarmos em nosso devido lugar que é no ‘Aníbal Bruno da Vida’ e deixar que ‘eles’ viajem ao ‘paraíso’ !
Estou solidário ao nosso amigo “Sama” e desejo BOA SORTE, pois o mesmo está em boas mãos e boa companhia do nosso ESTIMADO “Galdino” !!!
Abraços e VIVA A DEMOCRACIA CORAL !!!!
27 de junho de 2008, às 12:04h
Liberdade de expressão é uma conqista que não deve ser tolhida nunca. Que Samarone não se cale diante da pressão que se insinua pelos meios “judiciais”. Parabéns pelo blog. PH