Tsé-Tsé na UTI

Por Perrusi Pai

Na última carta do Reverendo, ele afirma que viu o Psiquiatra de Intermares na porta da UTI, fato que me pareceu estranho, por demais até. Questionado por mim, aquele seguidor de Hipócrates confirmou o fato, embora, segundo ele, tenha sido por mero acaso desde que lá estava pra socorrer um velhinho que, na UTI, havia tido um “surto de infantilidade”. Pura hipocrisia psiquiátrica, a meu ver (não é por acaso que a palavra “hipócrita” deriva do nome do antigo médico grego), hehehe…

Em suma, Perrusi Filho sabia das condições do Reverendo e não avisou a ninguém. Além disso, ficou gozando o sacerdote o tempo todo no seu Blog por causa de uma ausência forçada pela doença.

Mais ainda. Tsé-Tsé me afirmou que o Psiquiatra visitara várias vezes sua palafita, sempre lhe aplicando drogas estranhas que retardaram a sua recuperação, deixando-o no estado lamentável em que o encontrei.

Por isso mesmo, sempre advoguei que os Psiquiatras deveriam ser extintos, como os dinossauros, ou, então, se converterem ao eco-turismo como, por exemplo, face à miséria do futebol nacional e por conta própria, o Santa Cruz decidiu fazer.

Eis o resumo da Segunda Epístola do Reverendo Tse-Tsé:

“Irmãos:

Depois de passar pelo irmão Psiquiatra à velocidade da luz, o maqueiro me jogou numa pequena cama de campanha na UTI do Ambulatório “O Brasil para Cristo”, mantido pela Universal do Bispo EdMac.

Em seguida, chegaram dois irmãos enfermeiros que amarraram minhas pernas com arame farpado sob o pretexto de que estava proibido de mexê-las por vinte e quatro horas. Medida preventiva, desde que sofro da “síndrome das pernas inquietas”, doença descoberta, aliás, pelo próprio Bispo em sua esplêndida residência de Miami.

A UTI era mais um pardieiro que abrigava cerca de cem pacientes, uns dormindo, uma boa porção em plena agonia, alguns já cobertos até o rosto com lençóis imundos, prontos para o necrotério, poucos, muito poucos, lúcidos como eu. Na parede dos fundos, os pedreiros estavam colocando massa de gesso numa das paredes, o que provocava uma poeira infernal na sala.

Chamei a plantonista, uma velha senhora que estava sentada no meio da sala. Todos, inclusive os que já haviam embarcado para o Reino do Senhor, estavam de máscaras de proteção contra a poeira. Menos eu, menos eu. Por quê?

— Desculpe, Reverendo! O Ambulatório só tem cento e duas máscaras e o senhor foi o último a chegar. Ocorre que uma delas quebrou e o jeito é o senhor se virar. Use o método da Doutora Wilma. Um minuto sem respirar, outro respirando. Assim, o senhor economiza 50% de poeira. Ou, então, um minuto respirando, dois sem respirar. Muito melhor porque seu índice chegará a 25%, segundo os cálculos de nosso Bispo.

Preferi meu próprio método e passei um minuto sem respirar e cinco respirando com poeira e tudo.

Enfim, o arame farpado nas minhas pernas já me dava preocupação mais do que suficiente. Respirar poeira talvez fosse mesmo o melhor para o embarque para o outro lado do rio, que me parecia próximo. Mas, enquanto o momento não chegava, chamei novamente a plantonista.

— Irmã Doutora Plantonista! Não deixe o Psiquiatra de Intermares se aproximar de mim. Ele quer me dar remédio de doido. Como dá pra perceber, aqui não é nenhum asilo. Esses malucos acham que todo o mundo é doido, quando eles é que o são. Já pensou, Irmã Doutora! No Brasil, existem cinco mil Psiquiatras, não contando com os amadores freudianos. O desejo deles é colocar nossos milhões de cidadãos no asilo e fundar uma República Para-Mental, governada por eles próprios. Vai ser uma desgraça e a Dra. Dilma não será mais nossa Rainha nem tampouco nosso amado Bispo será nosso Pontífice Máximo, sem contar que Nosso Líder será rebocado para Garanhuns, onde exercerá o cargo de “Garanhão Maximus”, criado por ele próprio.

— É verdade! Fiquei horrorizada com Nosso Líder porque sou de lá. Imagine como ficará minha reputação! Nunca vi uma coisa dessas. Mas, sossegue, Reverendo! Além da velhinha de foice, aqui não entra mais ninguém. — Respondeu a bondosa irmã.

Comecei, então, mais calmo e seguro da minha recuperação, a cubar o ambiente, apesar da poeira. Percebi, junto de minha cama de campanha, um velho se ultimando, repetindo umas coisas como se fosse um refrão:

— Gau, Gau! Querem roubar meu dinheiro.

— De quem se trata? — Perguntei.

— Esse talzinho é o Dr. Miguel, o avarento mais rico de Caetés. Tamos vendo se ele dura até amanhã pra assistir ao casamento da filha. Tem uma junta médica que vem visitá-lo. Na verdade, vem é cobrar os honorários que ele deve. Além disso, o filho mais velho tá querendo que ele assine um novo testamento pra ficar com todos os bens da família. Vigarista descarado!

— Gau, Gau! Querem roubar meu dinheiro. — Repetia o velhinho.

— Irmão Miguel! Tá sentindo alguma coisa? — Perguntei ao meu companheiro de poeira.

— Tô! Querem roubar meu dinheiro que ganhei com tanto sacrifício.

Cinco minutos depois, entrou um senhor todo de branco, gravata vermelha e sapatos pretos. Era o Clínico Geral do irmão Miguel. Mediu a febre e disse baixinho: Pôrra! 42º e esse sacana não morre. Já me deve 25 honorários e não quer pagar.

— Pago depois do casamento. Vá ao meu escritório receber seu cheque. — Respondeu o irmão Miguel.

Mais alguns minutos, chegou o Gastro. Examinou a barriga do paciente, deu umas pancadinhas no fígado, virou-se pra mim e disse:

— Cirrose das piores, além de hepatite C. Num tem jeito. Não passa desta noite.

— E quantos honorários ele lhe deve? — Perguntei.

— Todos! Sou seguidor do Bispo e não perdôo um centavo.

Chegou, então, o pneumologista.

— E, então, velho safado! Como vai o seu cancerzinho de pulmão? Do esquerdo, porque o direito já foi retirado há muito tempo.

O irmão Miguel tossiu devagar, piscou o olho pra mim e disse:

— Gau, Gau! Se tirou meu pulmão, o senhor é que me deve. Passe lá no meu escritório depois do casamento e entregue o dinheiro à secretária.

Finalmente, chegou o cardiologista. Mediu a pressão, botou o ouvido no peito do irmão Miguel e falou:

— Já mandou comprar o remédio que indiquei?

— Não! É muito caro. O Hospital devia dar de graça.

— Dr. Miguel! O senhor sabe que está lascado de vez. Esse coração pode não agüentar até o casamento de sua filha. Quanto aos honorários, já entrei na justiça. Não precisa se preocupar.

— Ótimo! O Desembargador é meu amigo e me deve uma nota preta. Lascado está é o senhor. — Respondeu o irmão Miguel.

Logo depois, veio a surpresa. Um rapaz bigodudo, de calça jeans, sapato de tênis e camisa da Coisa se aproximou.

— Dr. Miguel! Faço parte da Associação dos Médicos Voluntários da Paraíba e me disseram que o senhor está doente.

— Mentira! Tô bonzinho. Pergunte aí ao Reverendo.

— E esse tal de Gau, Gau?

— Antes do casamento, quero comer o mingau de minha vó.

— E eu quero um suco de tangerina tirada do pé. — Interferi no diálogo.

Virando-se pra mim, o falso bigode caiu no chão, desmascarando de vez o falso torcedor da Coisa. Era o Psiquiatra de Intermares, disfarçado. Sem a mínima vergonha na cara, falou:

— Reverendo! Trouxe uma injeçãozinha pro senhor, recomendada pela Dra. Dilma. É pra dormir melhor e só acordar no seio de Abraão.

— Dispenso, dispenso! — E comecei a gritar.

— Plantonista! Plantoniiiiiista!

O falso médico saiu correndo e já deveria estar perto de João Pessoa.

Enquanto isso, um padre católico romano dava a extrema unção a uma freira bem aproveitável, do outro lado de minha cama.

— Não adianta, Padre! Já conversei com ela. Disse-me que não acreditava mais em nada.

— Não se meta, seu herege! — Respondeu o Padre rispidamente.

— Olá, Reverendo! Como vai o senhor? Está se lembrando de mim? Sou a freirinha de Tamandaré. — E, voltando-se para o padre, disse:

— Adianta, sim, meu caro Padre. É melhor o senhor ir para a Rua do Caixa Prego que lá todo mundo acredita nessas baboseiras. De minha parte, cumpri minha missão. Dormi com a Madre Superiora e lhe ensinei foi coisas. Depois, comi o sacristão, o pároco de Tamandaré, o Bispo, o Arce - Bispo e só faltou Bento cair na minha sedução. Não deu tempo. No fim do ano, ia pra Roma justamente pra isso. Tsé-Tsé me ensinou tudinho. — Respondeu a freira, com um sorriso safado e quase final.

— E, então, irmã, já decidiu para quem torce, Assis ou Xavier? — Perguntei.

— Por nenhum dos dois. Aliás, depois daquela maravilhosa noite em sua palafita, não acredito mais em porra nenhuma. Deu o último suspiro e se foi para a cucuia.

Virei-me pro Dr. Miguel e só deu tempo de lhe dizer pra não assinar o novo testamento do desgraçado do filho.

— Gau, Gau! Jamais assinarei. Mas, vou lhe dizer onde está meu dinheiro, já que o senhor tampouco passa desta noite. Vá, se puder, a Caetés, e revire uma pedra branca que existe na montanha da “Caninha Branca”. Pode ficar com tudo que, agora mesmo, resolvi que era melhor descansar. Minha filha que se vire com o sacana do noivo.

Logo depois, chegaram dois enfermeiros que cobriram o corpo do irmão Miguel. Anotei o endereço da fortuna do falecido e, assim que pudesse, iria dar uma olhada. Se fosse verdade mesmo, empregaria todo aquele dinheirão na melhoria das palafitas.

Saí da UTI no dia seguinte com as pernas sangrando por causa do arame farpado. Mas, vivo e entusiasmado, embora com minha horta mutilada. Notei que ainda saía um pouco de gás butano, não sei por onde.

Nos primeiros meses de recuperação, recebi o Psiquiatra de Intermares na minha palafita, por mera cortesia para com seu honestíssimo pai. Ele sempre trazia uma injeção chamada Dra. Dilma e uns papelotes com propaganda eleitoral que me obrigava a engolir. Piorei pra dedéu. Caí em depressão profunda e se não fosse a bondade do Irmão Perrusi Pai não estaria escrevendo esta carta.

Minha bênção aquiabada,

a) Reverendo Tsé-Tsé.

4 Comentários para “Tsé-Tsé na UTI”

  1. Yvette Teixeira:

    Perrusão você conseguiu dá um nó na minha cabeça……do carai!! Perrusinho você tá lenhado com esse pai, hein! bjs a todos.

  2. Dimas Lins:

    Caro reverendo,

    Ando desconfiado que o senhor estava tendo delírios, pois não imagino o Psiquiatra de Intermares se disfarçando com a camisa da coisa. Isso seria penitência das brabas e, me parece que o Domador de Doidinhos, além de não curtir esse negócio de flagelação, se devota apenas a Santa Cruz, o que impede o uso de símbolos de adoração ao canho.

    Foi isso o que ouvi dizer.

    Dimas

  3. Tsé-Tsé:

    Irmão Dimas:
    Tem razão, tem razão! Acho que foi efeito da anestesia local que me aplicaram. Tanto é assim, que o O Psiquiatra de Intermares, sócio honorário de nossa Ong de Proteção aos Sapos, está pesquisando a Psicologia dos Batráquios, financiada pelo CNPq. para descobrir o por quê dos sapos gostarem tanto de ficar sentados o tempo todo. Uma colaboração espontânea e generosa, sem dúvida, para um acadêmico de respeito.

    Minha bênção desculpativa.

  4. Dimas Lins:

    Reverendo,

    De extrema importância a pesquisa de Artur. Descobrir o motivo de os sapos gostarem tanto de ficar sentados o tempo todo” é ótimo!

    Dimas

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