1958
30 de junho de 2008, às 20:19h
Artigo muito legal de Alberto Helena Jr. sobre os jogadores campeões do mundo de 1958. Aliás, querendo assistir ao vídeo completo do jogo, cliquem aqui. Digo logo que vi o jogo inteiro. No início, até que a Suécia resistiu, mas depois… Curiosamente, o jogador que mais me impresionou não foi Pelé, nem mesmo Garrincha, mas sim… Didi! Que classe, que altivez! Incrível sua capacidade em dar um passe sempre bonito e certeiro. Outro que me surpreendeu foi Vavá. Não esperava que fosse habilidoso, achando que era um centroavante mais rompedor, qualquer coisa do gênero — ele voltava, inclusive, muito ao meio-campo para recuperar a bola.
Lá vai o texto:
1958: HERÓI POR HERÓI
Convido o jovem amigo, que não teve a felicidade de ver em ação os craques do Esquadrão de Ouro, aquele que nos deu a primeira Copa do Mundo, em 58, a uma breve e superficial incursão á história e ao estilo de cada um dos heróis inesquecíveis que entraram em campo na Suécia.
Gilmar dos Santos Neves, de talhe esbelto, tipo Van der Saar, embora mais baixo - alto, porém, para a média de sua geração (a turma cresceu, meu amigo, neste meio século passado) - era uma pluma flutuando diante do arco. Reflexos apuradíssimos, elástico, elegante em seus vôos de um canto ao outro de sua meta, era dono de forte personalidade e líder nato.
Surgiu no Jabaquara de Santos, no início dos 50, e transferiu-se para o Corinthians, como contrapeso, dizia-se, de Ciciá, volante de toque refinado que não deu certo no Parque. Gilmar disputava posição com Cabeção, egresso do Maria Zélia, glorioso time de várzea paulistano, e sofreu seu primeiro grande revés naquele célebre 7 a 3 da Portuguesa de Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Afastado do time, perdeu para Cabeção a chance de ir à Copa da Suiça, em 54, mas se recuperou numa excursão vitoriosa do Corinthians pela Turquia e cercanias.
Outra excursão, desta vez á Europa, consolidou sua posição, em 1956, na Seleção Brasileira. Apesar das tragédias de San Siro e Wembley, quando o Brasil caiu fragorosamente diante de Itália e Inglaterra, Gilmar pegou dois pênaltis cobrados pelos ingleses.
Pra mim, o melhor da posição em todos os tempos. Em 59, transferiu-se para o Santos e formou na maior equipe de futebol de todos os tempos e quadrantes. Foi bicampeão mundial em 62, pela Seleção, e, no ano seguinte, pelo Santos.
De Sordi, que jogou todas as partidas da Suécia, até Djalma Santos substituí-lo na final, veio do XV de Piracicaba para o São Paulo, em 1952, e logo recebeu o apelido de Tourinho: baixinho, taludo, era um lateral-direito quase intransponível, que atacava pouco, mas bem. Canhoto, no entanto, capaz de trabalhar com a destra sem maiores problemas, tinha grande impulsão para o cabeceio e era aquele pau pra toda obra.
Já Djalma Santos era um monstro sagrado, desde a Copa de 54, quando foi eleito o melhor lateral-direito daquele campeonato pela imprensa mundial. Negrão forte, veloz, marcador implacável, gostava de atacar muito, e era exato nos cruzamentos. Foi titular em 62 e chegou até a disputar a Copa do Mundo de 66, já veteraníssimo,
Bellini, que mais tarde veio para o São Paulo, fez nome no Vasco, formando com Orlando, duro, mas mais técnico, a parelha de zaga do Brasil na Suécia. Bellini, alto, forte, era o que hoje se chama de Deus da Raça. Perfeito pelo alto. Já Orlando, mais atarracado, tocava melhor a bola e tinha um senso de colocação invejável. Jogou também na Itália e no Boca Juniors, onde até hoje é lembrado.
Na lateral-esquerda, Nilton Santos, a Enciclopédia, e isso resume tudo. Embora destro, dominou aquele espaço na esquerda durante quase vinte anos, com uma elegância de gestos sem par, uma inteligência luminosa e um domínio de bola diabólico, senão angelical. Foi Botafogo a vida toda e outras mais.
Dino Sani, que começou como titular, era um meia-armador que foi recuado para a posição de volante, o que lhe permitia, vindo de trás, explorar suas melhores qualidades: fôlego, centro de gravidade incrível (derrubar Dino era tarefa para mestre Bimba, rei da capoeira), visão de jogo, passe correto e chute de longa e média distâncias primoroso. Dino jogou no Comercial da Capital, no Palmeiras, no São Paulo, no Milan, no Boca e no Corinthians, que eu me lembre.
Zito, que entrou em seu lugar no jogo contra a União Soviética, foi do Taubaté para o Santos onde entregou sua vida, por quase vinte anos. Eclético, podia jogar, como jogou, de meia, volante, quarto-zagueiro e até de lateral, esquerdo ou direito. Veloz, hábil (driblava fácil na corrida, marcador firme, quando não maldoso, e incansável, era ali como médio apoiador, o volante atual, que ele se sentia mais à vontade. Líder por excelência, Zito foi fundamental não apenas na conquista de 58 como também em 62, quando encerrou sua participação com um gol de cabeça na decisão com a Checoslováquia.
Ao lado de Zito, na armação, Didi. Mestre Didi. Um dos maiores jogadores de futebol que já vi. Fala-se muito nos dribles de Garrincha, na genialidade de Pelé, nos gols de Vavá, na solidariedade de Zagallo, mas o grande arquiteto do título foi Didi, eleito o melhor jogador da Copa de 58.
Foi do Madureira para o Fluminense, e acabou sendo execrado na Copa de 54. Diziam que era um cai-cai. Frio, calculista, Didi, porém, jamais deixou de suar a camisa. No início, era um meia que esbanjava habilidade, driblador, sem nunca perder a pose: tronco reto, fronte erguida, olhar agudo para descobrir espaços onde só havia congestionamento.
Com o tempo, Didi, já no Botafogo, reduziu a velocidade em campo e conteve seus dribles ao essencial, afiando o passe, o lançamento mágico e o posicionamento em campo, que lhe permitia ser um extraordinário ladrão de bola a partir de sua própria intermediária.
Joel, ponta-direita veloz e cumpridor, embora não fosse brilhante, era de uma utilidade sem par, inclusive na volta para combater o lateral-esquerdo que avançasse (já avançavam, sim, naquele tempo, ao contrário do que muitos supõem hoje em dia). Trocou o Botafogo pelo Flamengo, numa transação tumultuada, e na Gávea construiu sua legenda.
Garrincha, ora, Garrincha. Garrincha era o gênio intuitivo. Pernas tortas (os dois joelhos confluíam para a esquerda), cabeça de passarinho, conseguia o prodígio de praticar, ano após ano, o mesmo drible pela direita, e ninguém o alcançava naquele arranque curto e fatal. Cruzava com maestria e batia bem na bola tanto com a direita como com a sinistra. Foi Botafogo até começar a definhar no Corinthians, no Flamengo…
Vavá, pernambucano de boa cepa, começou como meia-esquerda, ponta-de-lança, o que lhe conferia nível suficiente de habilidade. Mas, era, basicamente, o Peito de Aço, o artilheiro por natureza e vocação, rompedor, destemido, rápido na conclusão da jogada de área e bom de cabeça. Jogou no Vasco, foi para a Itália, e voltou ao Brasil para encerrar seu ciclo superior na Academia do Palmeiras dos anos 60.
Já Mazzola, cujo apelido foi herdado do grande meia italiano dos anos 30/40, era um tipo encorpado, loiro, rosto quadrado, parecia um tanto desajeitado quando começou a dar seus rushes num Palmeiras em baixa, nos meados dos anos 50. Ainda menino, chegou ao Parque Antártica em meados dos anos 50, e logo ganhou fama com suas arrancadas a partir do meio-de-campo e gols em penca. Tanto podia ser meia ponta-de-lança como centroavante. Transferiu-se naquele mesmo ano, depois da Copa para a Itália, onde até hoje é reverenciado como o Grande Altafini.
Dida explodiu como artilheiro daquele Flamengo tricampeão carioca, sob o comando de Fleitas Solich. Rápido na conclusão das jogadas, era um meia ofensivo, pela esquerda, que muito se aproveitou da genialidade do outro meia, Rubens, o Dr. Rúbis, que lhe enfiava bolas mágicas, jogo após jogo. Depois, Dida veio para a Portuguesa, onde também fez sucesso ao lado de Henrique, o centroavante que o acompanhou em muitas jornadas anteriores do Fla.
Pelé, passo. Nada a acrescentar a todos os compêndios que tratam desse verdadeiro fenômeno do século XX e seculorum. Aos 17 anos de idade, dado como impossibilitado de disputar a Copa pela grave lesão sofrida no jogo de despedida do Brasil, contra o Corinthians, entrar em campo contra a União Soviética e, no jogo seguinte, com o País de Gales, meter aquele gol salvador com dois chapéus sobre os beques dentro da área, o silêncio é mais eloquente.
Por fim, Zagallo, um prodígio de sorte e competência. O preferido de Feola era Canhoteiro, o Garrincha da esquerda, que jogava pelo São Paulo. Mas, boêmio, Canhoteiro escapou de uma concentração e levou o cartão vermelho da comissão técnica. A vaga, pois, seria de Pepe, o Canhão da Vila, ponta-esquerda lépido e fulminante nos chutes a gol. Pepe, porém, às vésperas da Copa, ao sair do chuveiro, pisa mal no tamanco e torce o tornozelo. Deu Zagallo, o Formiguinha, que começou no América como um meia-esquerda driblador, para se transformar num ponta-esquerda solidário, tanto no Flamengo quanto no Botafogo. E, com direito, a gol na decisão da Copa de 58.
Com disse, amigo, uma breve e superficial incursão na história e nos estilos dos nossos heróis de 58. Mas, para seu governo, eles foram mais, muito mais.




Samarone Lima




