Archive for junho, 2008

1958

30 de junho de 2008, às 20:19h

Artigo muito legal de Alberto Helena Jr. sobre os jogadores campeões do mundo de 1958. Aliás, querendo assistir ao vídeo completo do jogo, cliquem aqui. Digo logo que vi o jogo inteiro. No início, até que a Suécia resistiu, mas depois… Curiosamente, o jogador que mais me impresionou não foi Pelé, nem mesmo Garrincha, mas sim… Didi! Que classe, que altivez! Incrível sua capacidade em dar um passe sempre bonito e certeiro. Outro que me surpreendeu foi Vavá. Não esperava que fosse habilidoso, achando que era um centroavante mais rompedor, qualquer coisa do gênero — ele voltava, inclusive, muito ao meio-campo para recuperar a bola.

Lá vai o texto:

1958: HERÓI POR HERÓI

Convido o jovem amigo, que não teve a felicidade de ver em ação os craques do Esquadrão de Ouro, aquele que nos deu a primeira Copa do Mundo, em 58, a uma breve e superficial incursão á história e ao estilo de cada um dos heróis inesquecíveis que entraram em campo na Suécia.

Gilmar dos Santos Neves, de talhe esbelto, tipo Van der Saar, embora mais baixo - alto, porém, para a média de sua geração (a turma cresceu, meu amigo, neste meio século passado) - era uma pluma flutuando diante do arco. Reflexos apuradíssimos, elástico, elegante em seus vôos de um canto ao outro de sua meta, era dono de forte personalidade e líder nato.

Surgiu no Jabaquara de Santos, no início dos 50, e transferiu-se para o Corinthians, como contrapeso, dizia-se, de Ciciá, volante de toque refinado que não deu certo no Parque. Gilmar disputava posição com Cabeção, egresso do Maria Zélia, glorioso time de várzea paulistano, e sofreu seu primeiro grande revés naquele célebre 7 a 3 da Portuguesa de Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Afastado do time, perdeu para Cabeção a chance de ir à Copa da Suiça, em 54, mas se recuperou numa excursão vitoriosa do Corinthians pela Turquia e cercanias.

Outra excursão, desta vez á Europa, consolidou sua posição, em 1956, na Seleção Brasileira. Apesar das tragédias de San Siro e Wembley, quando o Brasil caiu fragorosamente diante de Itália e Inglaterra, Gilmar pegou dois pênaltis cobrados pelos ingleses.

Pra mim, o melhor da posição em todos os tempos. Em 59, transferiu-se para o Santos e formou na maior equipe de futebol de todos os tempos e quadrantes. Foi bicampeão mundial em 62, pela Seleção, e, no ano seguinte, pelo Santos.

De Sordi, que jogou todas as partidas da Suécia, até Djalma Santos substituí-lo na final, veio do XV de Piracicaba para o São Paulo, em 1952, e logo recebeu o apelido de Tourinho: baixinho, taludo, era um lateral-direito quase intransponível, que atacava pouco, mas bem. Canhoto, no entanto, capaz de trabalhar com a destra sem maiores problemas, tinha grande impulsão para o cabeceio e era aquele pau pra toda obra.

Já Djalma Santos era um monstro sagrado, desde a Copa de 54, quando foi eleito o melhor lateral-direito daquele campeonato pela imprensa mundial. Negrão forte, veloz, marcador implacável, gostava de atacar muito, e era exato nos cruzamentos. Foi titular em 62 e chegou até a disputar a Copa do Mundo de 66, já veteraníssimo,

Bellini, que mais tarde veio para o São Paulo, fez nome no Vasco, formando com Orlando, duro, mas mais técnico, a parelha de zaga do Brasil na Suécia. Bellini, alto, forte, era o que hoje se chama de Deus da Raça. Perfeito pelo alto. Já Orlando, mais atarracado, tocava melhor a bola e tinha um senso de colocação invejável. Jogou também na Itália e no Boca Juniors, onde até hoje é lembrado.

Na lateral-esquerda, Nilton Santos, a Enciclopédia, e isso resume tudo. Embora destro, dominou aquele espaço na esquerda durante quase vinte anos, com uma elegância de gestos sem par, uma inteligência luminosa e um domínio de bola diabólico, senão angelical. Foi Botafogo a vida toda e outras mais.

Dino Sani, que começou como titular, era um meia-armador que foi recuado para a posição de volante, o que lhe permitia, vindo de trás, explorar suas melhores qualidades: fôlego, centro de gravidade incrível (derrubar Dino era tarefa para mestre Bimba, rei da capoeira), visão de jogo, passe correto e chute de longa e média distâncias primoroso. Dino jogou no Comercial da Capital, no Palmeiras, no São Paulo, no Milan, no Boca e no Corinthians, que eu me lembre.

Zito, que entrou em seu lugar no jogo contra a União Soviética, foi do Taubaté para o Santos onde entregou sua vida, por quase vinte anos. Eclético, podia jogar, como jogou, de meia, volante, quarto-zagueiro e até de lateral, esquerdo ou direito. Veloz, hábil (driblava fácil na corrida, marcador firme, quando não maldoso, e incansável, era ali como médio apoiador, o volante atual, que ele se sentia mais à vontade. Líder por excelência, Zito foi fundamental não apenas na conquista de 58 como também em 62, quando encerrou sua participação com um gol de cabeça na decisão com a Checoslováquia.

Ao lado de Zito, na armação, Didi. Mestre Didi. Um dos maiores jogadores de futebol que já vi. Fala-se muito nos dribles de Garrincha, na genialidade de Pelé, nos gols de Vavá, na solidariedade de Zagallo, mas o grande arquiteto do título foi Didi, eleito o melhor jogador da Copa de 58.

Foi do Madureira para o Fluminense, e acabou sendo execrado na Copa de 54. Diziam que era um cai-cai. Frio, calculista, Didi, porém, jamais deixou de suar a camisa. No início, era um meia que esbanjava habilidade, driblador, sem nunca perder a pose: tronco reto, fronte erguida, olhar agudo para descobrir espaços onde só havia congestionamento.

Com o tempo, Didi, já no Botafogo, reduziu a velocidade em campo e conteve seus dribles ao essencial, afiando o passe, o lançamento mágico e o posicionamento em campo, que lhe permitia ser um extraordinário ladrão de bola a partir de sua própria intermediária.

Joel, ponta-direita veloz e cumpridor, embora não fosse brilhante, era de uma utilidade sem par, inclusive na volta para combater o lateral-esquerdo que avançasse (já avançavam, sim, naquele tempo, ao contrário do que muitos supõem hoje em dia). Trocou o Botafogo pelo Flamengo, numa transação tumultuada, e na Gávea construiu sua legenda.

Garrincha, ora, Garrincha. Garrincha era o gênio intuitivo. Pernas tortas (os dois joelhos confluíam para a esquerda), cabeça de passarinho, conseguia o prodígio de praticar, ano após ano, o mesmo drible pela direita, e ninguém o alcançava naquele arranque curto e fatal. Cruzava com maestria e batia bem na bola tanto com a direita como com a sinistra. Foi Botafogo até começar a definhar no Corinthians, no Flamengo…

Vavá, pernambucano de boa cepa, começou como meia-esquerda, ponta-de-lança, o que lhe conferia nível suficiente de habilidade. Mas, era, basicamente, o Peito de Aço, o artilheiro por natureza e vocação, rompedor, destemido, rápido na conclusão da jogada de área e bom de cabeça. Jogou no Vasco, foi para a Itália, e voltou ao Brasil para encerrar seu ciclo superior na Academia do Palmeiras dos anos 60.

Já Mazzola, cujo apelido foi herdado do grande meia italiano dos anos 30/40, era um tipo encorpado, loiro, rosto quadrado, parecia um tanto desajeitado quando começou a dar seus rushes num Palmeiras em baixa, nos meados dos anos 50. Ainda menino, chegou ao Parque Antártica em meados dos anos 50, e logo ganhou fama com suas arrancadas a partir do meio-de-campo e gols em penca. Tanto podia ser meia ponta-de-lança como centroavante. Transferiu-se naquele mesmo ano, depois da Copa para a Itália, onde até hoje é reverenciado como o Grande Altafini.

Dida explodiu como artilheiro daquele Flamengo tricampeão carioca, sob o comando de Fleitas Solich. Rápido na conclusão das jogadas, era um meia ofensivo, pela esquerda, que muito se aproveitou da genialidade do outro meia, Rubens, o Dr. Rúbis, que lhe enfiava bolas mágicas, jogo após jogo. Depois, Dida veio para a Portuguesa, onde também fez sucesso ao lado de Henrique, o centroavante que o acompanhou em muitas jornadas anteriores do Fla.

Pelé, passo. Nada a acrescentar a todos os compêndios que tratam desse verdadeiro fenômeno do século XX e seculorum. Aos 17 anos de idade, dado como impossibilitado de disputar a Copa pela grave lesão sofrida no jogo de despedida do Brasil, contra o Corinthians, entrar em campo contra a União Soviética e, no jogo seguinte, com o País de Gales, meter aquele gol salvador com dois chapéus sobre os beques dentro da área, o silêncio é mais eloquente.

Por fim, Zagallo, um prodígio de sorte e competência. O preferido de Feola era Canhoteiro, o Garrincha da esquerda, que jogava pelo São Paulo. Mas, boêmio, Canhoteiro escapou de uma concentração e levou o cartão vermelho da comissão técnica. A vaga, pois, seria de Pepe, o Canhão da Vila, ponta-esquerda lépido e fulminante nos chutes a gol. Pepe, porém, às vésperas da Copa, ao sair do chuveiro, pisa mal no tamanco e torce o tornozelo. Deu Zagallo, o Formiguinha, que começou no América como um meia-esquerda driblador, para se transformar num ponta-esquerda solidário, tanto no Flamengo quanto no Botafogo. E, com direito, a gol na decisão da Copa de 58.

Com disse, amigo, uma breve e superficial incursão na história e nos estilos dos nossos heróis de 58. Mas, para seu governo, eles foram mais, muito mais.

A alegoria bíblica: uma interpretação.

29 de junho de 2008, às 12:00h

Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!

Um pouco sobre a alegoria bíblica…

Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do “pecado original” orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?

O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades objetivas absolutamente satisfeitas. É um mundo antiliberal, por natureza. Não há notícias de Friedmans no Paraíso. Lá, as carências são satisfeitas imediatamente, não havendo a necessidade de trabalhar. Todo almoço é grátis. Adão, rei da preguiça — paradigma perfeito do “perrusi’s way of life” —, é um ser objetivamente satisfeito, com todas as suas necessidades biofísicas atendidas. Ele diz o que digo sempre quando olho a praia de Intermares: _O que eu quero mais na vida do que isto? Ele sabe que o paraíso foi uma dádiva e não uma conquista, mas não sente culpa da sua sorte. Acha a mentalidade empreendedora uma imbecilidade.

_Acho uma besteira! — diz aos coelhinhos em volta.

Adão identifica-se profundamente com esse modo de vida, pois adora a estabilidade, a abundância e a calmaria, rejeitando, portanto, a preocupação e a instabilidade. Não existe liberdade em tal ambiente, porque ela, simplesmente, não é necessária; além do mais, Adão é, com toda razão, um grande acomodado. Liberdade é, sem dúvida, incompatível com qualquer paraíso, visto representar necessariamente incerteza, pluralidade, escolha, etc. e tal. Ele sabe do preço que pagaria por ser livre e não dá a mínima à autonomia,  à democracia e à igualdade.

_Pra quê? — sempre pergunta aos girassóis ao seu redor.

Tais coisas nunca interessaram Adão. Acaso existisse sufrágio, sempre votaria em Jeová, feito um castrista que vota sempre em Fidel, ao ponto de ser completamente contra eleição no paraíso. Nosso antecessor é um vigoroso adepto do totalitarismo. Ele é a favor da ditadura da unanimidade, que representa a consciência absoluta da única determinação fundamental no Éden: as leis do Senhor.

Porém, nem tudo é paraíso no paraíso, pois existe uma força cósmica, um tanto indefinida, que se alimenta do acaso e do caos, protagonizando a desordem — não, não é a entropia — e se intrometendo na Criação. Algo que tem as suas próprias leis e que quer submeter as coisas a seus ditames, inquietando Jeová, com a sua ação subversiva. Tal força diabólica seria representada pela Maçã — inclusive, não se sabe como ela surgiu no paraíso, mas podemos, usando a hermenêutica, ler nas entrelinhas do Gênese que seu surgimento cronológico coincide com o aparecimento de Eva.

Ao mesmo tempo, o veículo de tal força seria a Serpente: entidade que tem a sedução como sua qualidade mais evidente e usa a linguagem de forma inovadora, sem conectá-la a imperativos de verdade, como faz Jeová e Adão. Estes não sabem mentir, ao contrário da Serpente, a primeira a utilizar a palavra como forma de poder. Foi tal criatura que convenceu Jeová a criar a Mulher com um aparato genital superior em quantidade e qualidade ao do Homem. Assim, as necessidades sexuais de Eva nunca serão supridas por Adão, o qual, aliás, não se interessava tanto por isso, gerando uma coisa, até então, inédita no Éden: a insatisfação. Devido à sua superioridade biológico-sexual, Eva nunca se saciará com Adão, tornando-se frustrada sexualmente e, portanto, trazendo dentro de si uma base arcaica para uma insatisfação geral e difusa com tudo e com todos — não, não tem nada a ver com TPM. Insatisfeita, Eva desejará.

Sim, Eva será possuída por essa força cósmica: o desejo.

Nesse sentido, a Maçã será a prova do desejo — pra que comê-la, se as nossas determinações vitais estão satisfeitas? Adão, por exemplo, nunca se preocupou com a Maçã, porque não tinha essa necessidade. Estava na sua, numa boa e não se inquietava com isso. Não existia nenhum motivo racional para comer o fruto proibido. Era preciso algo mais, algo transcendente para perverter uma vontade, como a de Adão, tão adequada às necessidades objetivamente saciadas. Assim, era necessária uma outra vontade — insaciável, insatisfeita, afirmando o que não existe ou o que não se tem — a vontade do desejo.

Além do mais, era proibido comer a Maçã. A ordem era evidente. Pra que desobedecer? O ato de comer a maçã, por estar ausente das determinações vitais de Adão, constituiria um ato de autonomia em relação a Jeová. Um ato que realizaria um desejo.

“A autonomia do desejo, justamente por escapar ao controle das leis objetivas do Senhor, é caracterizada pela alegoria bíblica como uma falsa autonomia, pois não seria imanente à criatura, mas implantada por uma pretensa força cósmica a-racional. Assim, o desejo seria fonte de escravização humana a uma força do Mal. Enquanto a conformidade com as leis objetivas do Senhor, essa sim, seria a fonte de uma liberdade adquirida pela redução de todo o Bem ao reino das necessidades objetivas satisfeitas” (Nélson Levy: “Desejo… o lugar da liberdade”).

Lembro que, na tradição greco-latina, desejo significa desiderare, que vem da palavra sidus, sideris, que quer dizer astro, estrela. Antigamente, os romanos recorriam, para perscrutar o seu futuro, aos adivinhos e aos arúspices, que liam as mensagens vindas dos astros, como fazem, inclusive, os nossos modernos astrólogos. Eles então consideravam — considerare —, isto é, levavam em consideração o que diziam os astros. Assim, desiderare significava desistir dos astros, representando uma situação na qual impera o pessimismo. Os romanos tinham, dessa forma, a certeza da ausência e da impossibilidade de realização do seu desejo; portanto, desistiam de olhar os astros e de especular sobre o futuro. O desejo foi, assim, considerado algo cuja determinação não possui nenhuma relação com os sistemas determinísticos usuais — sejam provenientes de uma razão divina ou de uma última instância qualquer. O desejo, na tradição cristã e no racionalismo, é uma não-determinação objetiva: “o lugar de uma liberdade perversa e destrutiva, quando não libertina e até mesmo liberticida“.

Adão caiu nessa, embora não mostre arrependimento. No mínimo, é ambíguo. Por isso, essa nova vida não o impede, desde a expulsão, de sentir saudade do Paraíso. Deseja muito Eva, é verdade, mas se pergunta, principalmente quando ela está dormindo, se tudo valeu a pena. Gosta de olhar Eva entregue ao sono. Lembra dos coelhinhos e dos girassóis do Paraíso. O motor do desejo parece um anjo — pensa. E, toda vez que a olha, reflete sobre um velho enigma que assola feito uma peste bubônica a sua mente.

Por que Eva fora tirada exatamente da sua costela, já que Deus podia ter usado um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Inclusive, ele vivia se apalpando procurando algum indício. Porém, se não estava sobrando costela alguma, por que então ele estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou ele tivera treze costelas de um lado e doze do outro? Fora uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés? (Robin Lane Fox: “A Bíblia, verdade e ficção”).

Toda noite pensa nisso, adormece com isso, mas nunca sonhou isso. Está cansado da sutileza das sensações inúteis e das paixões violentas por coisa nenhuma. Na próxima eleição, como sinal de protesto, Adão votará nulo…

Desabafo coprolálico

27 de junho de 2008, às 12:00h

:mrgreen: Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? Bem, o problema é que as entranhas, convenhamos, são regressivas, infantis. Mesmo assim, decidi confessar um lado caché que só íntimos não desconhecem. Tornar público um pathos.

Bora lá: sou um grande entupidor de banheiros, o mestre da latrina entupida! Já perdi amizade por causa disso, o que acho injusto, pois não tenho culpa da minha natureza. A culpa é dos meus genes. A Veja já demonstrou que existe um gene cagatorium, localizado na décima hélice do nosso genoma. Tenho o que, tecnicamente, pode ser chamado de pulsão de excremento, que cheira bem mais do que a velha conhecida pulsão de morte, pelo menos imediatamente. Pode ser exibicionismo, mas é uma das poucas coisas que faço em abundância, com generosidade. Mas, paradoxalmente, nunca estive em harmonia com o ato de obrar; na verdade, sempre vivi nesse terreno movediço entre a constipação e a diarréia. Quando pequeno, tinha prisão de ventre; adulto, fluxo de ventre. É uma dialética um tanto desagradável e nem um pouco hegeliana.

Lembro-me de uma vez, era a época do ginásio, quando veraneei na casa de um colega ricaço e passei uns três dias sem cagar. Coisa típica da minha infância, na qual a minha timidez corporificava-se numa consistente prisão de ventre. Apesar da minha ciência psiquiátrica, esse fenômeno jamais teve desvelado o seu sentido oculto, talvez perdido para sempre nas profundezas de meu intestino grosso. Quem sabe devesse fazer terapia, como uma amiga, que resolveu o seu problema cagando, behavoristicamente, toda manhã, embora de maneira um tanto compulsiva. Dez anos de divã e sua histeria, hoje, é bosta matinal. Impeça-a de obrar e sua neurose brotará do seu inconsciente como uma caganeira emocional. Mas ela se sustenta e vai vivendo a vida. No fundo, eu a admiro.

Bem, no terceiro dia, como minha pele dava sinais verdes de alerta, decidi soltar, enfim, com fanfarrice, toda aquela inteligência acumulada. Acredito que caguei o mundo inteiro e, mais um pouco, ia ser o sistema solar. Emudeci, emocionado. Obra de um gênio, certamente. Olhei toda aquela soberba boiando e fiquei preocupado. Dei a primeira descarga, e nada! A segunda, e o mondrongo nem se mexeu! Fiquei, realmente, preocupado.

O que fazer? - como diria Lênin.

Estava na casa de membros do Ancien Régime recifense e não podia deixar como lembrança, justamente, um troço com um cheiro tão pouco aristocrático. Fiquei acocorado, algum tempo, junto à latrina, como a meditar sobre a minha desgraça, que fedia, aliás, horrores. Já fazia uma hora que estava trancado no banheiro. Tinha que dar alguma solução ao imbróglio fecal. Olhei ao redor e vi uma vassourinha, daquelas de limpar o vaso sanitário. Tive, então, a idéia fantástica de chocalhá-la na latrina, e ver se descia a merda. Meu raciocínio talvez fosse o seguinte: vassourinha + agitação = sumiço da titica. Pensei até mesmo em tirar, da minha lógica impecável, alguma lição moral ou fundar uma ontologia nunca dantes navegada. Porém, uma lógica impecável nem sempre tem uma relação necessária com a realidade. A bosta, contrariando Aristóteles, não desceu. E muito pior: a vassourinha ficou uma merda só.

Tinha agora não um, mas dois problemas: a latrina entupida e a vassourinha obrada.

Fiquei tão horrorizado com a situação, olhando a vassourinha emporcalhada na mão, que a deixei cair, de forma atrapalhada, na pia do banheiro. E, num ato reflexo, peguei a toalha de mão e tentei limpar a porcaria.

Tinha agora não dois, mas três problemas: a latrina entupida, a vassourinha obrada e a toalha de mão defecada.

Estava desesperado e já com lágrimas nos olhos. O cheiro estava de lascar. Ser sufocado pelo próprio excremento é um triste fim, pensei. Olhei, de novo, ao redor. O banheiro tinha uma janela que dava para os lados de um terreno baldio. Não vacilei: joguei a vassourinha e a toalha infecta no mato. E a latrina? Ela, eu forrei de papel higiênico pra disfarçar.

Saí com a cara mais lavada do mundo. A casa inteira ficou incensada de bosta; a família, em silêncio, diante do cagão hediondo. Mutismo de aristocrata, para manter as aparências. Senti-me estigmatizado. Preferia uma conduta compreensiva, quase terapêutica, do tipo: “Você entupiu o banheiro? Faz mal não, isso acontece, afinal, qual é o problema em ter um cheiro de merda na casa o dia inteiro?” Pelo contrário, recebi como solidariedade um silêncio constrangedor. Hoje, já adulto, talvez tentasse discutir com o pessoal, trabalhar o assunto, relativizá-lo, mostrando que a vida é muito melhor do que a gente pensa; _vocês já andaram junto ao Canal da Agamenon? Pois é…

Dormi acalentado pelo tchec-tchec do desentupidor. Durou uma eternidade. Coitado do pai de meu amigo. Creio que meu sentimento antiburguês nasceu desse evento. Generoso, porém ressentido. Eu era culpado, mas projetava a culpa no tipo ideal do burguês. É um mecanismo ideológico curioso: culpar os outros pelas nossas merdas. Enfim, posso dizer que muita qualidade moral teve sua origem nos bas-fonds de um sanitário.

No outro dia, de manhãzinha, a empregada pergunta pela toalha de mão.

Aguardei, até o fim, que ela perguntasse pela vassourinha…

Cinema é ilusão

25 de junho de 2008, às 12:00h

Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma sociedade glutona, ávida. Eu mesmo, meio sem querer, até por causa do meu vício, incorporo uma conduta um tanto quanto aditiva. Acho que é influência, sei lá. Toda vez, compro logo um balde de pipocas e muita coca-cola. O ato de comer pipoca durante um filme equivale a uma sessão de hipnose. Normalmente, saio empachado da sessão e, chegando em casa, tomo um luftal. E começo a peidar — talvez o filme, quem sabe. Será que é, por causa disso, que sempre me esqueço dos filmes?

Sempre fico encafifado quando penso na causa do meu vício por filmes americanos. Acho que tenho necessidade de aplacar apetites infantis. Sou uma criança freudiana! Daquelas educadas pelo liberalismo radical do construtivismo. Em suma: uma pequena peste vive dentro de mim! Fico pensando se o meu gosto estético por catástrofes provém desse infantilismo. Talvez, seja influência das pipocas. Há pesquisas mostrando a influência das pipocas na estética da violência.

Ora, o americano é o ser humano que mais come pipoca do planeta. Há aí alguma correlação positiva, certamente. Posso deduzir que, sendo o cinema ianque produzido para saciar a voracidade infantil americana, não causa surpresa que nove entre dez filmes nos States tenham como tema algum desastre, alguma violência, algum terror, etc. e tal. A demanda social por condutas regressivas é o apanágio de sociedades glutonas. Vejam os carros americanos de polícia: todos espalhafatosos, com luzes piscando por todos os lados. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, carros de polícia tão amostrados!

Tudo bem, os americanos são vorazes, mas têm uma vantagem em relação aos brasileiros: podem ainda sublimar seus apetites infantis na ficção cinematográfica, enquanto nós pervertemos nossa fome regressiva na própria realidade. Convenhamos, somos piores.

(fico pensando nos filmes de terror. O que causa muitas vezes o terror não seria o fato de se impedir que o elemento tempo passe por algum processo de transformação? Explico: tempo é rotina, costume e hábito; tempo processado não gera medo. Passar dos 20 anos aos 80 em 60 anos não nos causa medo, mas passar esse intervalo em segundos é apavorante. Realmente, ficaria em pânico, se me visse envelhecendo de forma ultra-rápida, principalmente defronte a um espelho. Em suma, transformação menos tempo é igual a pavor)

Blog é insight, mesmo que seja incognoscível…

Momento filosófico

25 de junho de 2008, às 7:00h

Comte-Sponville:

Ética = conhecimento do desejo. O topo do mundo é a sabedoria.

Moral = conhecimento do dever. O topo do ser é a santidade.

Ética = ame, e faça o que quiser.

Moral = aja como se amasse, e faça o que se deve.

Ética + Moral: ame, ou faça o que se deve.  O topo da pessoa é a autonomia.

Uma experiência incontestável

24 de junho de 2008, às 8:14h

Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências.

_Não somos hamster! — dizem.
_Mas é em prol da ciência! — retruco.

E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, mamíferos superiores. E é dentro desse paradigma que concebo a experimentação.

Nalgumas experiências, utilizo uma variedade sortida de alunos: alunos criacionistas, alunos que negam a viagem do homem à Lua, alunos que crêem na Transubstanciação (preciosos, porque raríssimos), alunos que lêem a Veja; em suma, todos aqueles que projetam sua postura intencional em Deus e o Mundo. Todos são animistas, pois têm o impulso compulsivo em conferir agência às coisas e aos fatos, concebidos como agentes dotados de desejos e crenças. No fundo, tenho uma população enorme para escolher, porque todos os tementes a Deus, tecnicamente, são animistas, um pouco mais sofisticados, é verdade, do que os antigos animistas, embora não apresentem a beleza e a criatividade de antanho.

(Ah, belos tempos aqueles do animismo, e idiotas também: o desejo do rio correr ao mar e a intenção benigna ou maléfica das nuvens de chuva eram tomados ao pé da letra e tão seriamente que podiam tornar-se uma questão de vida ou morte — que o digam as virgens astecas — chutei, não sei se eram virgens…).

Inclusive, para ser franco, coloco até mesmo os agnósticos na amostragem, por pura pirraça contra sua covardia espiritual.

Teve um dia que estava com sorte. Chegara uma leva de alunos de uma disciplina sobre pós-modernidade, e estavam todos embriagados de relativismo cultural e epistemológico. Alguns defendiam a magia e a dança da chuva. Diante do meu riso positivista, vociferavam: etnocentrismo!

_Professor, você precisa se libertar do paradgima da ciência ocidental!

Ora, eles sabem que não consigo. Sou um cientificista inveterado. Tento explicar, mas não me escutam. Acho apenas que a tática de colocar intenção em tudo que é fenômeno do mundo pode levar a nada. Sinceramente, por mais que os nossos ancestrais adorassem prever o tempo, descobrindo o que ele, o tempo, queria e que crenças ele teria a seu respeito; bem… er.. a tática simplesmente não funcionou. Certo, muitas vezes pareceu funcionar; mas, convenhamos, as danças da chuva fracassaram de forma retumbante — não tanto, é verdade, como as teorias dos economistas, esses animistas do dinheiro, ou as previsões de certos ecologistas, neomalthusianos de esquerda, esses animistas das catástrofes.

Chamei alguns para participarem da experimentação pedagógica. Era uma experiência para medir o efeito da postura intencional num esquema aleatório de reforço. Era proibido falar ou utilizar qualquer forma de comunicação. De vez em quando, não importando o que o aluno estivesse fazendo na sala de aula, aparecia uma recompensa sob a forma de notas altas. Bastava esperar um apito e a nota aparecia de forma casual. Logo, logo, os alunos, diante desse esquema randômico, estavam fazendo gestos e “danças” elaboradas, sacudindo, torcendo e dobrando o corpo. Depois, tentando saber o motivo dessas pantomimas, recebi a seguinte resposta de um aluno:

_professor, na primeira vez que, sem motivo aparente, recebi a nota máxima, acabara de dar uma virada de perna e dobrado o pescoço. Pensei: vou tentar outra vez… (quem estava próximo, imitou-me). Mas não deu certo e não apareceu nota alguma. Achei que não girara o suficiente… Nada. Aí, sacudi meu corpo antes de girar e dobrar… Deu certo! Fiz de novo… Nada. Sacudi e dei três pulinhos, girei as pernas e dobrei o pescoço até doer. Nada. Aí pensei: e, agora, o que foi mesmo que acabei de fazer?…

Achei curioso o procedimento de pensar que, de alguma forma, os gestos e as atitudes poderiam influenciar o aparecimento (aleatório, repito) das notas, talvez até mesmo seu valor. Se, sem linguagem, o aluno projetava sentido o quanto podia ao reforço aleatório, imaginem utilizando ao máximo a postura intencional, turbinada pela ação comunicativa mediada linguisticamente. Fiz, assim, outra experiência, permitindo a interação e o uso da linguagem, e o resultado foi o seguinte: criaram a hipótese de que havia um criador — alguma coisa invisível que parece com uma pessoa — responsável pelas notas. Inicialmente, acusaram-me de ser o patife que dava as notas; depois, vendo-me afastado da sala, deduziram que o criador das notas fosse um agente oculto – com cabeça, olhos, braços e pernas (um aluno disse que o ser tinha um capacete espacial, pois acreditava que os deuses egípcios eram extraterrestres). Deram-lhe até um nome: Dieci, o deus da nota.

Bem, creio que descobri a fundação natural da postura intencional que gera a crença mística, esotérica ou religiosa. Sei que os crentes desse blog, principalmente o Reverendo Tsé-Tsé, julgarão minha conclusão um absurdo, mas a experiência prova que a religião é uma projeção ilusória da postura intencional, que teve alguma utilidade nos tempos das cavernas, mas agora só faz atrapalhar a transformação revolucionária da sociedade e produzir ilusionistas como Ratzinger. Lembro que a Revolução precisa de pessoas racionais e atéias. Logo, o papel dos professores será importante: nas suas salas de aula, precisam eliminar as ilusões de uma condição que necessita, justamente, de ilusões. Por isso, do ponto de vista científico, a projeção da postura intencional precisa ser historicamente determinada e direcionada, principalmente pelos cientistas sociais, aos verdadeiros inimigos da sociedade: os burgueses são os agentes responsáveis de todas as desgraças do mundo, principalmente os liberais, seus membros mais perigosos.

Ainda lembro que, no comunismo, não haverá a projeção ilusória da postura intencional, isto é, não haverá ópio (na versão marxista), nem neurose (na versão freudiana); em suma, não haverá religião. O dia comunista, libertado da religião e do trabalho alienado, será uma felicidade geral: de manhã, treparemos, à tarde, treparemos (provavelmente, sem camisinha, para júbilo dos católicos, afinal, é o comunismo, o fim da História) e, à noite, dormiremos profundamente, porque ninguém é de ferro.

Enfim, peço desculpas, não quero ofender ninguém, mas os crentes são, objetivamente, opiômanos e neuróticos. As provas podem cansar as crenças, mas fazem parte da realidade. Não posso mudar o que existe — só Deus.

(a crônica é uma paródia de trechos do livro de Daniel Dennett: “quebrando o encanto”)

A “judicialização” dos inocentes

22 de junho de 2008, às 12:08h

Cacetada, hein?! Tempão ausente, hein?! Sem tempo para escrever. Resultado: os 2,8 leitores desse blog passaram a ser 1,7… Mas, mesmo assim, volto aos poucos. Não posso prometer nada. Condição estranha essa: a impossibilidade da promessa. Como controlar ou corrigir a imprevisibilidade, sem prometer? Sem a promessa, o futuro continuará incerto, certo?! Peço assim perdão, essa retificação da irreversibilidade — sem perdão, não há como mudar o passado, anulando as forças que pusemos em movimento. Sim, toda essa desculpa retumbante é apenas para dizer que continuarei um tanto ausente.

Porém, deixemos de delongas. Escrevo agora por um motivo premente. Escrevo para falar um pouco sobre a sacanagem que estão fazendo com Samarone, blogueiro e escritor do Estuário. Na verdade, escrevo apenas para dar a voz ao grande tricolor e fundador do Blog do Santinha. Nosso amigo está sendo processado por uma entidade lendária — sim, segundo as superstições que, feito um vento frio, assombram o Arruda, a criatura sai da sepultura na calada da noite para sugar o sangue dos tricolores. É uma figura notável da política pernambucana. É poderoso. Utiliza, contra Samarone, essa nova forma de calar a crítica e a liberdade de expressão: a “judicialização” da discussão e do debate. Criticou, meu chapa, tome processo! Não ouse utilizar a verve da crítica contra minha pessoa pública, pois utilizarei a arma da Lei! Critique, e lhe mando direto ao Anibal Bruno! Ora, é muito fácil quem tem poder e dinheiro processar quem não os tem — seria preciso ser muito crente nas ilusões da toga para acreditar na neutralidade da justiça brasileira.

Ah, o Direito… Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver, já falava dessa arte da persuasão, que maliciosamente convence o incauto de que o branco é preto e o preto é branco. Os advogados transformaram a velha arte da retórica num discurso de poder e de manipulação. O velho Marx denunciava esse universalismo abstrato do Direito que, concretamente, apenas reproduz a dominação de classe. Sem falar de toda uma tradição política que aponta o dedo para o verdadeiro fundador do Direito: a violência! A Lei é lavada todo dia com Omo Total, mas os pingos de sangue continuam manchando a toga branca de toda a justiça desse mundo.

Claro, claro, não concordo muito com essa visão do Direito, mas quando olho o Brasil, quando vejo nossos advogados, nossos tribunais, nossas (in) justiças… Sei não!

Quando leio abaixo a crônica de Samarone…

Anotações de um querelado

20 de junho de 2008, às 0:42h por Samarone Lima

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Eu sabia, por meio de amigos do meio jurídico, que corria uma ação cível contra mim e meu amigo Inácio França, também jornalista, por “difamação”. Ou seja, desacreditei publicamente de alguém, em algum dos meus muitos escritos. Fiquei quieto, aguardando o desenrolar dos fatos.

O “Mandado de Intimação” chegou na semana passada. A ação era bem mais grave: a de “calúnia”, na Oitava Vara Criminal da Capital. Neste caso, uma ação específica contra mim. Teria eu, em algum momento, jogado uma falsa imputação a alguém de fato definido como crime. Sou agora um “querelado” do Poder Judiciário.

Meu “querelante” se chama José Cavalcanti Neves Filho, ex-vereador da Cidade do Recife por quatro mandatos consecutivos e ex-presidente do Santa Cruz Futebol Clube, meu clube de coração.

Nesta quinta-feira, cheguei ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, que todo mundo conhece como o “Fórum da Joana Bezerra”. Usei pela quarta vez um terno bonito e calorentíssimo, comprado numa das pulgas de Paris, por três dólares. Rapidamente encontrei a Oitava Vara, que fica no final do corredor do primeiro andar. Sentei e fiquei à espera do meu advogado, o também tricolor Diego Galdino, amigo de comemorações cada vez mais raras nas arquibancadas do Arruda, nosso estádio. Então, inicio minhas anotações. As anotações de um querelado.

Sento em uma das cadeiras. São 13h30. Os advogados passam, com seus ternos pretos, alguns com pastas 007. Ao meu lado, três mulheres negras, possivelmente duas irmãs e a mãe. Todas as varas deste corredor são criminais. Elas conversam, desanimadas. “Está demorando, né?”. Uma sai, a outra vai atrás. A que fica, liga para alguém. “Oi, amor, botasse crédito no meu celular?”. Silêncio. “Não acredito. Pois vou tomar o dinheiro todinho de cachaça”. Escuto em silêncio e tomo notas.

Um advogado, bem moço, alto, limpíssimo, organizado, com um terno claro impecável, passa para a Oitava Vara. Tudo nele é polido. Ele volta, espera por algo, até sua paciência é polida. A rádio do corredor toca uma música norte-americana dos anos 80, uma daquelas românticas que dancei em alguma festa no Monte Castelo, em Fortaleza. Falava das coisas de sempre: “loving”, “hand”, “alone”, “anymore”. Faltou o “you”, mas deve ter sido distração minha. Toda canção de amor tem o “me and you”.

Olho novamente o mandado de intimação. Percebo que o nome do meu querelante saiu errado. A palavra “Neves” está escrita duas vezes. “José Neve Neves Filho”. Algum escrivão, escutando essas músicas românticas, repetiu o nome do querelante, dando-lhe uma certa redundância. Olho meu nome: Samarone Lima. Faltou o “de Oliveira”, que é meu nome completo. Sinto que comecei com uma leve desvantagem de palavras. Meu querelante tem um nome a mais, e toda a minha linhagem paterna, os “Oliveiras” foi subitamente excluída. Tudo bem, é só o começo.

As duas mulheres voltam. Falam de crédito do celular, alguma fatura para pagar do “Comprebem”. Passa uma moça excessivamente bonita, alta, com o nariz avermelhado. Está chorando, um choro contido, sem alarde, sem soluço, escondendo as lágrimas entre os dedos finos, para ocultar alguma dor. Será uma querelada? Ela entra na Nona Vara, mas deixemos a moça em paz.

Aguardo olhando, escutando. Ao meu lado, os diálogos continuam. “Alô, Diz. Nada? Ôx, vamos sair daqui cinco horas da tarde? É de que horas isso? Ôx!”. Minhas amigas estão indignadas. “O Cabra disse que vai ser lá para três e meia”.

Olho para o relógio. São 13h43.

Olho para o mandado novamente.

“Audiência de tentativa de reconciliação, nos termos do art. 520, do CPP”.

Descubro que preciso de um Código de Processo Penal. Aceito doações.

“… ficando ciente que o não comparecimento do querelante importará em extinção da punibilidade por perempção (art. 107, inc.IV, do CP e art 60. inc III, do CPP) e a ausência injustificada do querelado será interpretada como recusa em conciliar”.

“Ele disse que era de meio dia. Vai levar um baile”, diz uma das mulheres, a dona do celular, a mais exaltada, interrompendo minha leitura jurídica.

De repente, o fluxo da memória abre um clarão. Lembro de maio de 2004, quando fui acusado de “Resistência” (artigo 329 do CPB) por um sargento da Polícia Militar. Meu crime foi avisar ao chefe da guarnição policial, que os torcedores não deviam ser agredidos gratuitamente por policiais, ao final de um jogo no Arruda. Minutos depois, eu estava dentro de um camburão.

Foram três audiências no Juizado Especial Criminal do Recife, mas o sargento nunca compareceu, e a ação foi extinta.

Descubro que meu clube de coração tem me causado problemas, mas não é propriamente o clube, é uma cultura de violência, de confronto. Até a última audiência, esperei encontrar o sargento. Queria saber se ele já estava mais tranqüilo, se ele tinha revisto sua atitude profissional, dizer que aquilo tudo poderia ser de outra forma, e que no fundo, poderíamos ser amigos, tomar uma cerveja e apertar as mãos. Nunca mais o vi, mas lembro sua expressão de ódio, quando me recusei a retirar a ocorrência na delegacia. O ódio, especialmente o gratuito, sempre me deixa assombrado.

Meu advogado chega. Somos informados que o querelante não compareceu, mas justificou a ausência (caso contrário, haveria a extinção da punibilidade por perempção). A delicada atendente, Rosana, remarcou a audiência para 6 de agosto. Recebi uma cópia da queixa-crime ou “as iniciais”, como bem me avisou uma amiga advogada. São 15 páginas, redigidas e assinadas por quatro advogados. Ao final, requerem que eu seja interrogado, que sejam solicitados meus antecedentes criminais, e que terei violado os artigos 138, 139 e 140 do CPB.

O último parágrafo:

“Ao final, REQUER-SE se seja a ação julgada procedente, condenando-se o QUERELADO nas penas previstas no art. 138, 139 e 140, do CBP, designando-se o Presídio Aníbal Bruno para o cumprimento da pena”. As palavras estão escritas assim mesmo, com letra maiúsculas, o que me parece um grito.

Era uma coisa que eu nem sabia, que o querelante pode até escolher onde o querelado vai cumprir a pena.

Dali, saímos para outra Vara Criminal, onde tramita a ação contra a dupla Inácio e Samarone. É um processo gigantesco, com cinco volumes. Uma despachada funcionária traz os volumes, para nossa apreciação. Fiquei imaginando o quanto isso custa ao País. Há inúmeros Sedex com meu endereço antigo, com intimações, centenas, talvez milhares de páginas escritas,fotocópias de textos, alegações, despachos de funcionários do Poder Judiciário, carimbos, novas intimações.

Do quarto andar daquele imenso prédio, vi o Coque, e lembrei imediatamente do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), criado pelos jovens da comunidade, que lutam contra a violência e pela cultura no bairro. Na minha cabeça, passou o filme dos encontros na Biblioteca Popular do Coque, que funciona a 500 metros dali, mantida pela raça e resistência da comunidade. Me veio o sentimento de que o Brasil é um país onde mundos não dialogam, e por isso, tanta violência, tanta dor, tanto sofrimento, tanta raiva e tanto rancor. Tantos querelantes e querelados.

Descemos, tiramos cópia de tudo. Fui conversando com meu advogado, o Diego Galdino, uma pessoa de uma extrema gentileza e educação, um homem afável, de gestos tranqüilos e voz serena. Desconfio que ganhei um novo amigo.

Lá pelas tantas, com nossas cópias todas em mãos, já saindo do fórum, falamos do dia 6 de julho, quando o Santinha estréia na Série C, em Campina Grande, contra o Campinense. Descobrimos que estamos no mesmo ônibus, um dos 15, que vai levar a torcida ao jogo.

Meu espírito quimérico entendeu que atravessarei com serenidade mais uma querela. Aguardemos, meus amigos, aguardemos.

Para o Diego Galdino, tornado amigo.

A pernambucanidade

22 de junho de 2008, às 9:02h

Terra dos Altos Paranormais!

_É claro que somos superiores - disse a um gaúcho. Era um amigo meu, autêntico representante de um povo viciado em chimarrão, droga tão perigosa, que é impossível contê-la, mesmo através de uma política de redução de danos.

Sou pernambucano, um ser superior. Todos, aqui, na terrinha, nascem com poderes paranormais. E sabemos disso, sim. Temos plena consciência de nossos poderes. Tanto é que a Constituição de Pernambuco, nossa constituição, da qual me orgulho muito, reconhece a assistência à paranormalidade. A única que faz isso no planeta, vale dizer. De Pernambuco para o mundo!

DA ASSISTÊNCIA SOCIAL

Art. 174 - O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxílio de entidades privadas de caráter assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e sem fins lucrativos, prestarão assistência aos necessitados, ao menor abandonado ou desvalido, ao superdotado, ao paranormal e à velhice desamparada.

Claro, ainda falta o reconhecimento assistencial aos mutantes - nós, os membros da família Perrusi: meu pai, com seu magnetismo, quebra qualquer objeto eletrônico, principalmente computadores. É um matricida: destrói toda e qualquer carta-mãe.

Minha mãe é capaz de perder todo objeto na sua frente, principalmente quando o coloca na sua bolsa, que é, segundo cientistas da Nasa, um pequeno buraco negro. Inclusive, um deles, coitado, um americano todo cheio de boa vontade, foi olhar a bolsa por dentro e desapareceu para sempre.

Minha irmã é capaz de confundir qualquer pessoa quando discute - pode ser um gênio, possuir uma integridade cognitiva impressionante, mas discutiu um pouquinho de nada com minha queridinha… pumba!, não tem jeito, o efeito é imediato: dias na maior confusão mental, ciscando feito uma galinha. E eu?! Bem… er… vamos mudar de assunto!

NONSENSE

22 de junho de 2008, às 8:00h

Benjamim já alertava: “o momento é de perigo”. Mas nossa situação, por enquanto, está mais para o nonsense. No fundo, nada de novo no front, apenas o contumaz. Olha-se, olha-se e não se vê nada e ninguém. O Brasil parece aquele diálogo entre Alice e o Rei:

_Ninguém está na estrada - disse Alice.
_Ah se eu tivesse olhos assim - o rei observou num tom irritado. _Ser capaz de ver Ninguém! E, além disso, a uma tal distância! Ora, o máximo que consigo com essa luz é ver pessoas de verdade!

É esse o nosso problema: estamos rodeados de pessoas de verdade…

Queimar a rodinha

21 de junho de 2008, às 14:15h

Não gosto muito de São João. Desde pequeno, aliás. As comidas são primitivas, o forró é uma música absolutamente repetitiva e sua dança não tem muita graça. Forró só não é pior do que o frevo, e este só perde para a pernambucanidade. Além disso, na festa junina, há milênios, anunciando os novos tempos, queima-se a rodinha. A liberdade é total: todo mundo pode queimar a rodinha à vontade, sem constrangimentos, sem repressões, sem ninguém pra ficar dando pitaco. Claro, nos outros meses, é estranho fazer tal coisa, mas queimar a rodinha, em Junho, esteve sempre liberado! Agora compreendo por que fulano sempre afirmou que a melhor festa do Brasil era o São João.

- Ah, Artur, queimar a rodinha tem a ver com liberdade, sei lá… Liberdade é a liberdade de queimar a rodinha. É uma sensação tão agradável, super gratificante, arrepiante. Entre a poesia de Borges e a prosa de Lautréamont, sempre dou um jeito de queimar a rodinha - dizia o ninfeto.

(rodinha: peça pirotécnica que gira ao acender-se o rastilho de pólvora enrolado a um disco de papelão ou a uma rodinha de madeira - daí o nome. Para queimá-la, pega-se um cabo de vassoura, bota-se um prego na ponta e a rodinha na ponta do pau (ops!). Então acende-se o fogo na beirinha da rodinha, com muita paciência e cuidado, e pronto!, ela gira feito louca, soltando faíscas e fazendo uma zoada da bexiga. O espetáculo é intenso, e todo mundo nota que você está queimando a rodinha)