A horta do Reverendo Tsé-Tsé: O Martírio do Reverendo


Tsé-Tsé, tentando fugir de Marocas

 

Por Perrusi Pai, Mor, Mer, sei lá…

Exatamente um mês depois de minha visita, Tsé-Tsé me escreveu duas cartas, aparentemente amalucadas, com fortes pressões paranóides, embora com um estilo bastante elegante. Em primeiro lugar, ele reverbera contra o Blog que me chama de Perrusi Mor. Depois se emociona com a menina que pede sua volta e concorda com outra menininha, cujo nome esqueceu, que sugere que ele teria virado um crocodilo.

De fato, como ele afirma, era isso mesmo que sentia depois de tudo por que passou. Um crocodilo escondido debaixo da cama, sem rabo, sem dentes, com as patas cheias de rachaduras e com um mau hálito desgraçado. Finalmente, faz uma grave denúncia, acusando Perrusi Filho que, como Psiquiatra,  receitara-lhe alguns alucinógenos que o levaram a pesadelos indescritíveis. Tse-Tsé acusa Perrusi Filho de querer se vingar, porque ele afirmara, durante uma consulta noturna anterior, que o Santa Cruz estava sendo usado como adubo em sua horta comunitária.

Na verdade, já curado de tudo por efeito dos chás miraculosos do Dr. Quim, ele começa a carta falando de fatos, a meu ver, oníricos, sem juntar coisa com coisa. Depois, retoma a razão de sempre e reassume a presidência de sua ONG de Proteção aos Sapos. Não sei o que pensar disso tudo, exceto levantar uma pequena e, talvez, irrelevante hipótese de que nosso país enlouqueceu de vez. E com o país, o Blog, os Perrusis Mor e Mir e, até mesmo, o próprio Reverendo.

Transcrevo apenas os principais trechos das cartas para não encher o saco dos leitores.

Primeira Epístola Universal do Rev. Tsé-Tsé.

Irmãos:

Não sei se pesadelo ou realidade, o fato é que, depois de tomar umas pílulas trazidas pelo Psiquiatra de Intermares, ouvi, de repente, os gritos confusos de Marocas sobre o transatlântico “EMOÇÕES” de Roberto Carlos.

- Que saco! — Resmunguei.

Detesto a mania de Marocas por tal canastrão. De qualquer forma, corri para a varanda de nossa palafita e, por incrível que pareça, lá estava o grande navio ancorado na margem oposta do rio despoluído, todo brilhante e colorido.

Chamei Dr. Quim. Só podia ser miopia ou alucinação. Não era! Do navio, uma lanterna apagava e acendia em nossa direção. Nosso curandeiro interpretou como sinais de morse, perguntando sobre os quiabos de um metro e meio de nossa horta comunitária, plantada, com adubos naturais, no mangue bem abaixo das palafitas. Não sei por que apenas se interessavam pelos quiabos. E nossos maxixes de dois quilos e meio? E nossos tomates do tamanho de melancias? Explicaram que eram ordens de RC que queria comprar um quiabo gigante.

— Pra meter aonde, ninguém sabe…— Resmungou Zé malandro.

Segundo Quim, tratava-se de um agente da Vigilância Sanitária que viria no dia seguinte inspecionar nossa plantação. Que viesse! Esperava apenas não ter tonturas nem dores abdominais que, de vez em quando, me acometiam. Não que atrapalhassem meu trabalho assistencial, mas Quim insistia que eu fosse fazer exames no tal Hospital, onde doei minha vesícula e cujo diretor era muito amigo de Zé.

Na verdade, nem esperei que a Vigilância chegasse. De madrugada, fiquei tonto novamente e Quim me fez beber dois copos de chá de folhas do manguezal por causa das dores infernais de minha barriga.

Foi o jeito! Zé Malandro foi na frente pra falar com o Hospital. Logo depois, peguei minha Lambreta e fui com o Dr. Quim na garupa para uma consulta. E foi aí que tudo começou. Um drama desgraçado de ruim que só pode acontecer a um pobre sacerdote excomungado como eu.

Na rua do Hospital de gente rica, senti-me tonto de novo e cai da Lambreta bem no meio de uma poça de lama, defronte de um ambulatório da Igreja Universal do tal bispo de não sei quantos dias que ainda faltam.

Quando acordei, uma voz roufenha me disse:

— Reverendo! Acabamos! Cirurgia nota 10! Está curado pela graça de Deus! Aleluia, Glória a Deus!
— Quem é o senhor? E que diabo de cirurgia foi essa? — Perguntei.
— Sou o Pastor-Cirurgião. Colocamos uma peça de aço com um chip na sua barriga. Agora, o senhor não passa de um Cyborg.
— E quem mandou, e quem mandou? E pra que serve, e pra que serve?
— Uma longa história, Reverendo. Quem me contou foi o próprio Bispo EdMac, meu sacrossanto chefe e condutor das almas perdidas. Mas, acho que o senhor está muito fraco pra ouvir tudo isso agora. — Respondeu a voz cavernosa.
— Não tô fraco, porra nenhuma! Vou sair daqui correndo pra dar queixa ao Nosso Líder.
— Não pode! Aliás, não pode nem mesmo andar. Vai ficar com as pernas amarradas por vinte e quatro horas na UTI para consolidar a fixação do tubo de aço. Mas, já posso adiantar alguma coisa para não perturbar sua recuperação. Quando o senhor caiu na poça de lama, nossos seguranças o trouxeram direto para o Bloco Cirúrgico. Chamamos o Pastor da Clínica Geral, cujo diagnóstico, guiado pelo Espírito Santo, foi preciso. Sua horta tinha um neurismo do tamanho de um bonde e a cirurgia era urgente.
— É mentira! É mentira! Era só uma dorzinha de nada e umas tonturas. — Interrompi o auto denominado cirurgião.
— Bobagem de bobagens, Reverendo! Nosso ambulatório é o melhor do Brasil. Temos 2003, espalhados pelo país, através de um convênio com o PAC da Doutora Dilma e nosso Bispo. Nossa missão é transformar todos os líderes de comunidades rebeldes em Cyborgs que obedeçam, religiosamente, às ordens de nossa Ministra, pelo menos até 2010, quando ela será eleita nossa Rainha Dilma 1ª. Além disso, a partir de agora, se o senhor falar mal de Nosso Líder, futuro Primeiro Ministro do Reino, e de nossa futura rainha será punido com choques homeopáticos na barriga.
— Aquela víbora gorducha, ai, ai, ai… — Gritei, sentindo um choque elétrico bem acima do estômago.
— Já falei! E isso foi só uma advertência. Mas, o senhor devia estar nos agradecendo pela operação. Encontramos na sua horta um maxixi podre, três fiapos de quiabo amarelo e umas cinqüentas sementes de tomate gigante. Cortamos tudo e, com a Graça de Deus, emendamos sua horta com um pedaço de PVC.  O chip GPS está ligado ao Planalto, tô logo avisando. Como o senhor percebe, nosso ambulatório ainda está em acabamento e não tínhamos o material apropriado. Felizmente, no entanto, o seu acompanhante, o ilustre Dr. Quim, teve uma idéia genial. Foi na cozinha e roubou um pedaço da mangueira do bujão de gaz. Com isso, completamos o serviço e emendamos sua horta com cola-tudo, feito de veneno de cobra coral lá mesmo no Laboratório de vocês.

(Nota de PP: então era isso a coisa durona que PF notou  na barriga do Reverendo)

— E quanto vai durar esse troço? — Perguntei alarmado.
— Não se preocupe! O tubo dura uns trezentos anos. Pra alegrar sua vida, pintamos nele o escudo do Santa cruz. O time vai ficar escondido na sua barriga por uns vinte anos, quando a tinta começa a se dissolver. Idéia também do Dr. Quim.
— Tudo bem! Então já posso voltar pra casa?
— Já lhe disse que não. Se tentar, a barriga se rasga e aí a gente não garante nada.
— E, pelo menos, posso chorar? Tô com uma vontade danada.

O Pastor Cirurgião então começou a rir e me disse:

— Sossegue, meu caro Reverendo. Tava brincando com o tal chip GPS. Pode continuar a falar mal de quem quiser com sua língua de trapo venenosa. Já basta seu time de merda ter desaparecido do mapa. Posso lhe garantir que ninguém vai impedir a Doutora Vilma de ser nossa rainha. Eleita pelo povo, ainda mais.

Um maqueiro me levou para a UTI quase à velocidade da luz. Mandei a Doutora Wilma à merda e não senti mais nenhum choque. No caminho, passei por Marocas que usava uns óculos enormes.

— Tsézinho! Como foi, como foi?
— Limbo, Limbo! — Respondi.

Mais adiante, já na porta da UTI, estava Perrusi Filho, que queria me injetar uma droga alucinógena novamente.

— Reverendo! Tudo bem!
— Que nada! Roubaram meus anjinhos do Limbo.

                  (Fim da Primeira Carta de Tse-Tsé)

4 Comentários para “A horta do Reverendo Tsé-Tsé: O Martírio do Reverendo”

  1. Ana Cláudia:

    Ao invés do homem de seis milhões de dólares, temos o Reverendo de cem mil reais, um cyborg programado pela Igreja Universal em parceria com o Governo Federal. Indestrutível, como mostra o exemplo dos dois litros de glicose. Tudo feito com a mais alta tecnologia, e com patrocínio da iniciativa privada (Tubos e Conexões Tigre). Coisa para deixar babando de inveja o Exterminador do Futuro do Tio Sam.

    PS: Jura que o Reverendo não estava sob efeito de alucinógenos, ao escrever tal carta? Vixe, só quero um oitavinho.

  2. Erínia:

    Que bom! O Reverendo sobreviveu. Aleluia! Aleluia!

  3. Gil:

    Prezado Reverendo. Peço humildemente permissão para um pequeno comentário:

    AQUI TEM UM BANDO DE LOUCOS!
    LOUCOS POR TI CORINTHIANS!
    EU GRITO ATÉ FICAR ROUCO…

    Sorry…

  4. Tsé-Tsé:

    Pois é, irmão Gil. Perder pra um timeco de segunda divisão somente pode dá nisso. Vencedores e vencidos na maior loucura. Se o Psiquiatra de Intermares estivesse por aí mandaria todos, corintianos e torcedores da Coisa, diretamente para o asilo. Bom mesmo é fazer o tour entre Roraima e o Recife, hehehe. Com a Bênção do Reverendo Tsé-Tsé.

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