A Miséria da Conciliação
25 de maio de 2008, às 15:02hDada a repercusão do meu texto na blogosfera tricolor, publico-o aqui no Blog dos Perrusi; afinal, os Perrusi são tricolores (antes de tudo, o Santinha é um clube “italiano”!) e estão preocupadíssimos com o futuro de nosso clube. É um texto que está gerando polêmica, pois muitos vestiram a carapuça. Foi publicado originalmente no Torcedor Coral e, depois, no Blog do Santinha.
A guerra começou… Às armas, tricolores!
Os tricolores somos uns conciliadores. É só aparecer um tricolor na frente, e o coração derrete, e aquele intenso sentimento de pertença a uma comunidade toma conta da alma. Um encontro de tricolores é um encontro saudoso, parecendo um encontro de exilados, no qual o passado toma o lugar do país distante. É um jorro de boas lembranças e de reminiscências — quando em grupo, o encontro torna-se uma terapia, uma espécie de reconstituição da auto-estima. Muitos choram, é verdade, lembrando de Ramon.
Sim, adoramos a comunhão. Detestamos conflitos, adoramos a afetividade. Por isso, desconfiamos tanto da política. Pra que brigar? A gente dá um jeitinho e evita o confronto, ora essa. Diante dos percalços e, principalmente, das lambanças de alguma gestão, usamos e abusamos da palavra mágica: união! Não é apenas uma palavra, é um ritual, uma prática de reconciliação entre posições aparentemente antagônicas, entre irreconciliáveis do discurso. A política vai começar, e pumba!, entra em cena o apelo à união e todos se congraçam em torno do Santinha. O curioso é que a dita união sempre favorece o grupo que está na direção — a conciliação é a forma de se eternizar no poder. Sim, amamos o abraço dos afogados, no qual quem se afoga é o Santinha e sua torcida.
Os tricolores somos curiosos. Podemos encontrar até um canalha, mas, se é um tricolor, tudo bem, deve ser um bom canalha, no mínimo! E, quando o canalha bate nos nossos ombros e diz “sou um abnegado do Santa!”, ah, nossos olhos brilham, afinal, abnegado é uma palavra encantada, parecida com benemérito e cardeal. Abnegado pode acabar com o Santinha à vontade, pois faz isso com abnegação. É um canalha, o abnegado, mas os canalhas também amam o Santinha. Aliás, pelo jeito, todos amam intensamente esse clube!
Nélson Rodrigues dizia o seguinte a respeito dos canalhas:
“O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: - ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha”
Ele estava errado. No Santinha, um canalha diz e bate no peito: _Senhoras e senhores, eu sou um canalha, e com muito orgulho! E o fantástico é que muitos cardeais aplaudem e apreciam a bela canalhice. E todos, com a testa erguida, cantam o hino do clube.
Mas o tope de linha dos abnegados é aquele abnegado bom caráter que ama tanto, mas tanto, o Santinha, que ajuda até o canalha. Ajuda por amor e compaixão, diz a lenda. _Não ajudo o canalha, ajudo o Santa! Fala amuado, o abnegado bom caráter. De fato, é um tolinho. Confunde tudo. A gestão pode ser atrasada, clientelista, autoritária, incompetente, demagoga, safada, mas não, qual o quê, o tolinho está lá dando sua ajuda, não percebendo que, com sua estimada colaboração, reproduz o modelo que está destruindo o clube. Na verdade, o tolinho é o reflexo invertido do canalha. Faz parte da mesma lógica, do mesmo mecanismo, do mesmo modelo, da mesma porcaria.
Depois do canalha, o que mais odeio é o tolinho.
Mas, depois da última e histórica eleição, os canalhas e os tolinhos perderam a legitimidade. O que aconteceu naquela eleição? Ora, fez-se política. Houve a compreensão de que democracia não se funda na babaquice do consenso, e sim no dissenso e no conflito. Mostrou-se que não se reconciliam posições irreconciliáveis em prol de uma união que só beneficia canalhas e tolinhos. Mas, afinal, o que adiantou aquela eleição? Ora, ganhamos a possibilidade de mudar o clube, pois, agora, sabemos quem são os canalhas e os tolinhos. Sabemos que conciliação é um discurso de poder. E, através dos blogues, uma sensacional conseqüência da eleição, formamos uma opinião pública tricolor. E não existe um mecanismo mais devastador, para canalhas e tolinhos, do que uma opinião pública democrática, crítica e atuante.
Nosso paradoxo atual é o seguinte: estamos na mais profunda merda e, ao mesmo tempo, temos o que clube algum tem: uma opinião pública de torcedores. Estamos entre o céu e o inferno. No céu, porque temos a possibilidade de mudar o clube de forma radical; no inferno, porque os canalhas e os tolinhos ainda dominam o Santinha. Que soem as trombetas! Que sejam as celestiais!
A próxima eleição será a mãe de todas as eleições. Acabou a mamata. Acabou a união da imbecilidade. O Santinha não é mais o fórum dos otários. Os cardeais estão nus. Vamos jogá-los no canal. Que tomem banho de bosta. A mamata dos canalhas diminuirá quando mais tricolores resolverem dizer: ou tem para todos ou não tem para ninguém. Ou se democratiza a sacanagem ou se acaba com ela. Como democratizá-la é impossível, já que sua essência é a desigualdade, só resta acabar com ela. E vamos acabar com a sacanagem, podem ter certeza.
Os tricolores não somos mais conciliadores.



