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A fundação do mundo

4 comentários

 

Vendo a série C aproximar-se e, deus me livre, a D, também, voltei-me a Freud, aquele do charuto ambíguo. Li tanto o cabra que, agora, faço interpretações a torto e a direito. Tá na minha frente?! Interpreto na hora. E digo logo: o problema é tua mãe! Aprendi isso lá na Biblioteca Central da UFPB, cercado de livros freudianos, olhando aterrorizado para aqueles funcionários horripilantes. Ali, com o dedo em riste, apontava o problema e gerava pulsões matricidas. Tudo bem que os mondrongos não me compreendiam, mais ainda que essa discussão não era mesmo lá muito importante. O fato fundamental foi que encontrei alguns manuscritos — na realidade, anotações — desconhecidos do público que modificam a nossa visão tradicional do método freudiano.

Não sei bem qual será a opinião dos leitores e espero, sinceramente, que as informações não lhes causem nenhum constrangimento. Bem, o bolero é o seguinte: as anotações encontradas modificam a nossa opinião usual da obra  Totem e Tabu, cuja exegese tradicional, aliás, sempre me pareceu insuficiente. Ora, aparentemente, tal livro seria uma pálida ficção da gênese social, quando comparado com Hobbes e outros jusnaturalistas — a violência fundando a cultura é um tema repetido há muito pelos filósofos. Inclusive, Freud não deixa de ser, no fundo, um repetidor das hipóteses do jusnaturalismo, embora seja original em imaginar uma cena primitiva e fundadora tão mórbida como um parricídio. Não acredito que Sigmund tenha tido apenas a intenção de nos demonstrar uma hipotética fundação social, mas sim ir além disso; isto é, existe outra hipótese bem mais poderosa e importante, recalcada na história parricida. Na verdade, seria menos uma hipótese do que uma estória, justamente aquela que Freud escreveu e que quero publicar.

Lá vai:

“Desde o início fora assim, como se fosse uma coisa imutável, um direito eterno e inquestionável. Orravan — segundo Freud, nome absurdamente primitivo, talvez o fonema essencial tão procurado pelos lingüistas —, pai da horda primitiva, logo de todos, tinha o poder monopolista, quase divino, de possuir todas as fêmeas do bando. Nunca que isso tivesse realmente chateado os filhos machos, principalmente no começo, quando todos eram ainda crianças. Além disso, o pai era bem grande e tinha uma carranca de meter medo — sem dúvida, parecia que a força, a agressividade e a violência detinham uma natural superioridade nessa cripto-sociedade. Mesmo assim, o grande divisor proto-moral da horda que dissuadia os filhos machos, diminuindo as suas vontades, era o Falo de Orravan, ereto e onisciente, cuja incomensurabilidade afastava qualquer possibilidade de competição — na verdade, pelos padrões modernos, o negócio não era tão grande assim e precisaria de uma pinça para a sua manipulação; mas, estamos na pré-história, época dos tamanhos liliputianos.

Com o tempo, a testosterona foi fazendo os seus efeitos, moldando a forma do mundo, dando vigor e atiçando o desejo dos filhos. O hormônio fez com que a representação da coisa se tornasse a do nome, permitindo que a semântica fosse inscrita na necessidade fisiológica e pudesse, aos poucos, insinuar-se como uma palavra, ainda arcaica, é verdade, embora a sua significação já contivesse todo o seu sentido civilizador supremo: sexo! Assim, os filhos passaram a interpretar a cena primitiva via princípio da realidade, ultrapassando o princípio do prazer, o que acarretou um desagrado geral na horda. Ora, o desgosto era compreensível, já que, segundo Freud, a cena primitiva era o pai arcaico possuindo a mãe ancestral, cujos urros de prazer ainda reverberam na evolução humana, constituindo aquele nojo ontológico que sentimos, quando criança, ao flagrar nosso pai (…) a nossa mamãezinha querida. Talvez o problema fosse a insistência de Orravan em demonstrar a sua potência sexual na frente de todos, visto que os rapazes estavam, por um processo desconhecido, desenvolvendo os primeiros rudimentos da privacidade e do pudor público.

O pai arcaico, aparentemente, desconhecia isso ou, simplesmente, era mal acostumado. Ele tinha o costume de deixar a mãe ancestral, as tias primordiais, as irmãs primícias e as primas primitivas de jejum forçado, distribuindo-lhes penitências que iam de três dúzias de ave-ppgs (uma espécie de ave-maria dos inícios ) até pisas de tabica no lombo e rezas sem fim. Terminava o ritual exatamente ao meio-dia, quando liberava todas dos entreveiros e se punha a copular com cada uma, meticulosamente, no primeiro banco de palha da antropologia humana. A última a ser acasalada era geralmente a mais nova (cobiçada por todos da horda) que encenava o ppgs e era depois malhada até sangrar. Orravan lambia o sangue com a sua língua de boi e ria para os seus filhos. Depois, imitava uma cabra e balia de forma estridente (o cúmulo da conduta blasé). No final, todos, inclusive os filhos, iam se banhar no rio sagrado Sanha Hoá, onde o Fornicador Alfa continuava a se amostrar, mostrando o membro desonesto e deixando o resto dos machos abufelados e avexados.

A situação explodiu quando um dia, sem motivo aparente, na hora do ritual de ppgs, enquanto corria atrás da mais nova do bando, Orravan proferiu as primeiras palavras chulas da história: Arreda, Ppgs! Vou fazer tu te mijar todinha. Ah! minha Santa Agonia, hoje eu arrebento essas pregas. Toma no caiçuma, filha de ninguém. Fica de quatro. Tu vai penar que nem Santa Terezinha, diaba dos quintos!

(Completamente misteriosa essa alusão a Santa Terezinha. Bosquímano, estudioso profundo da psicanálise, insinua que Freud, aqui, projeta do fundo do seu inconsciente o nome da sua professora do primário, Terezinha Milchkuh — Ver Gil, Inveja do Pênis, aprenda agora! – Jampa, Manufatura, 2007).

A raiva e a indignação alastraram-se como fogo na Califórnia. O mais forte dos filhos lançou-se, feito um alucinado, contra Orravan e, logo imediatamente, foi seguido por todos. As fêmeas da horda foram as mais cruéis e suas pantomimas não se diferenciaram muito daquelas feitas durante a fornicação sagrada. Elas, num só gesto, fizeram os extremos se tocarem: Eros e Thanatos, num rodopio ardente que seria repetido milhares de anos depois pelas bacantes. O pai da horda primitiva foi literalmente massacrado e seus restos ficaram boiando numa pocilga que, com tanto sangue, parecia uma pequena corredeira, indo desaguar no rio Sanha Hoá e o tornando completamente rubro. Inebriados, os machos comeram os restos de Orravan para adquirir a sua força e virilidade; no entanto, deixaram o seu Falo intacto, transformando-o no primeiro totem miniatura existente e, depois, tomaram uma cachaça para esquecerem o festim e o menu.

Na aurora do primeiro dia sem pai e, do ponto de vista conceitual, do primeiro da civilização, os filhos refestelados, ainda preguiçosos da barbaria passada, olharam-se uns aos outros, cada qual com a sua mancha de sangue, cada qual com fiapos da carne do Pai entre os dentes, e tiveram um medo pavoroso: e se fizessem aquilo tudo novamente entre si? Afinal, as fêmeas estavam lá, e todas com aquele jeito meio zonzo, sem função. Havia o perigo da disputa e do monopólio. Havia o perigo da guerra eterna. Os olhares, então, tornaram-se acordo e surgiu o pacto dos pactos: todos deviam renunciar aos frutos da vitória, evitando com isso uma auto-carnificina. Surgira, assim, a primeira conquista cultural baseada no consenso: o contrato social do incesto. Todos interiorizaram rapidamente a proibição, através de uma instância nova que estava surgindo, o superego, e deixaram em paz as mulheres do grupo.

Contudo, não deu uma semana e o onanismo, inventado pelo mais tarado dos machos do grupo, Samid, floresceu a ponto de causar calos nas mãos.

(Neste ponto, vale assinalar que Freud foi radicalmente contra as teses marxistas de que o calo na mão surgiu da praxis do trabalho. Assim, como o mesmo disse: “o onanismo, enquanto praxis, realiza a autonomia transcendental do homem vis-à-vis do arquétipo feminino”).

Nosso amigo, insatisfeito com a sua invenção — de fato, o cabra era mesmo um tarado —, ficou desconfiado de que, mais dia menos dia, os machos do grupo poderiam, sem sexo feminino, imitar aquele animal bizarro chamado de paca.

(Freud sempre se interessou pelo tema da paca, certamente influenciado pelos estudos naturalistas de Darwin que, em Galápagos, ficara intrigado com os hábitos alvirrosas deste animal).

Teve, assim, outra brilhante idéia: por que não atacar o acampamento de Aduf — outro nome absurdamente primitivo de que nos fala Freud — e roubar as suas mulheres? Afinal, o Outro Bando tinha muitas mulheres — certo, todas cabeludas e androfóbicas, mas ainda assim seres femininos… Além do mais, Aduf já estava senil e balofo na sua vidinha sedentária e não ofereceria uma grande resistência. Dito e feito, aprovada a idéia, foram todos amolar as pedras de sílex, munirem-se de cordas, redes, lanças, etc, preparando-se para a grande empreitada. O caminho era longo, pois o lugar de moradia do Outro Bando era meio longe, lá pelos lados de Apmaj — região terrível, habitada por dragões, ganos e sapuris, onde era inevitável o suicídio masculino. _ Passe lá quatro meses e você se mata! – já dizia Yrret, um velho celta, o doido ancestral.

O ataque pegou o Outro Bando completamente de surpresa. Muitos homens, paralisados de medo, morreram ali mesmo, não oferecendo qualquer resistência. Nesse ínterim, o mais bonito e o mais esperto da ex-horda, chamado de Per Usi, entretia-se com algumas gatinhas, fornicando com enxerimento e, nesse rústico movimento, inventando novas posições sexuais que contagiaram de prazer e de alegria as intumescidas fêmeas.

(Há indícios de que Per Usi foi o inventor do Candelabro Italiano, do Minueto Alemão, da Clava Javanesa, da Mazurca Polonesa, do Torno Polinésio e da Mamadeira Búlgara. Freud escreverá no seu caderninho de notas: “Não existiu legado mais importante do que o de Per Usi”).

Nunca que tivessem visto um macho como ele, tão carinhoso e tão homem, tão doce e tão furioso! O malandro rapaz sabia instintivamente que era apenas uma questão de saber explorar a riqueza interior com que a natureza houvera por bem presentear a cada filho. A infelicidade consistia em não saber fazer esta exploração. Macho e fêmea se complementavam, e tanto mais seriam felizes quanto mais se explorassem e usassem mutuamente seus corpos e seus espíritos. Aduf ficou invocado e arretado com a cena, principalmente com os gritinhos de prazer das mulheres (ultraje dos ultrajes), partindo furioso na direção de Per Rusi, que não teve dúvida e meteu-lhe o sarrafo, arrancando a sua cabeça num só golpe. Durante um segundo, que pareceu uma eternidade, um silêncio de morte tombou no campo de batalha e os filhos de Aduf constataram com estupor a morte do seu chefe/pai, ficando imóveis e petrificados diante do horror daquela cena dantesca: a cachola venerada rolando ensangüentada pelo chão.

Quando Per Usi aproximou-se da cachimônia e ensaiou de pegá-la, a paralisia do Outro Bando, como por encanto, acabou e todos se lançaram para reaver a sede da razão de Aduf. Se tinham perdido o Pai, dariam a vida para, pelo menos, manterem-se com o seu bestunto. Per Usi, acossado pelo instante e não tendo tempo para apanhar a cabeça com as mãos, resolveu de improviso sair chutando o quengo e levá-lo a um lugar seguro. Ele passou pelo primeiro, driblou o segundo, deu uma saia no terceiro, lançou Ramde, que corria pela lateral do acampamento; este deu um traço num que se aproximava, deu um banho noutro e mandou de volta o crânio para Per Usi, que estava numa espécie de área retangular, onde tinha um tipo de guardião (um eunuco chamado de Andes) protegendo duas árvores paralelas, julgadas sagradas pelo Outro Bando e unidas por uma delicada rede de seda, e que fora feita especialmente pelas mulheres de Aduf. Nesse exato momento, os irmãos de Per Usi já estavam esperando-o do Outro Lado com as fêmeas seqüestradas. Ele somente precisava passar a cabeça entre as árvores, sem que o guardião a apanhasse, e os seus parentes a pegariam definitivamente. Houve um grande momento de suspense, o tempo gelou, os pássaros pararam de cantar, os papagaios de falar, os coelhos de trepar, os petistas de… bem… er…; então, Per Usi, quase em câmara lenta, encheu o pé, dando um chute de trivela no juízo de Aduf que, feito um foguete, furou a rede de seda — o guardião, de tão atordoado, nem viu a cabeça passar. Nosso rapaz saiu correndo bêbado de alegria, dando pulos e socando o ar, enquanto os seus irmãos e, praticamente, o mundo inteiro, davam um grito ancestral, guardado há muito na noite dos tempos: gooooool!

(…)

Era noite e era festa no acampamento dos nossos antepassados, todos bebiam e fornicavam, inclusive as próprias mulheres da antiga horda, pois lhes trouxeram alguns prisioneiros que não se incomodaram de participar da geléia geral. Per Usi tinha recebido como prêmio a língua e os miolos do coco de Aduf. Estava satisfeito e saciado. Olhava a Lua, afastado de todos, meio pensativo e distraído, enquanto uma fêmea procurava piolhos e fazia cafuné nos seus longos cabelos encaracolados. Sabia de algum modo que o mundo tinha mudado, sendo impossível um retorno ao que era antes; a ponte que ligava o homem às suas origens estava irremediavelmente destruída; novas aventuras aguardavam a sua espécie, novas descobertas e também novos mistérios. Um horizonte praticamente infinito se descortinava na sua frente.

Contudo, uma leve inquietação, como uma brisa suave, insinuou-se no seu espírito: e se essa consciência de si, que o homem tinha conquistado, fosse um cataclismo, uma separação de nós mesmos em que teríamos de suportar pesadas conseqüências? Será que sermos nós mesmos implica assumirmos nossa existência, esse álter fundamental, não coincidência de si, que é próprio do seres auto-realizados no tempo? Per Usi não sabia, mas o homem tinha, assim, inventado o tempo indicativo do presente e a… frescura. As ligações entre os pensamentos de Per Usi, bêbado e sonilundo, com o existencialismo sartreano são, convenhamos, mais do que evidentes.

De repente, um grito de alegria despertou-o dos seus devaneios, era Samid, completamente embriagado, que o chamava de volta ao acampamento. Ele desvincilhou-se da fêmea, esqueceu-se dos seus sonhos, antecipações e medos, e retornou correndo para o seu povo”.

Aqui, terminam as anotações de Freud. Mais do que o parricídio ou a fundação da cultura, o homem feito humanidade tinha descoberto o Ludopédio. E, como vocês sabem muito bem, tal esporte não mudou muito desde essa época, exceto por uma regra: hoje, não se come mais a bola.

Tenho dito.

Torcedor
  1. André Tricolor Virtual

    Tudo o que o homem construiu – as artes, as ciências, suas instituições e a própria civilização – num contexto mais amplo, não passa de sublimações dos seus impulsos sexuais e agressivos.

    Segundo Freud, existem dois instintos básicos que governam absolutamente a vida do homem e da sociedade: o instinto de morte, que prevaleceu até agora por meio da civilização moderna, industrial, dominada pela técnica, que tende a impor a violência de uns sobre os outros e dos homens sobre a natureza, levando pouco a pouco e inevitavelmente à destruição da humanidade. Opondo-se a thanatos (o instinto de morte), surge das profundidades da psique o instinto sexual, o “deus” Eros, que tende a unir todos os homens pelo amor. A maturação final desse instinto deve resultar — mediante a união panteística de todos os seres humanos no seio desse “deus” — numa paz universal e perfeita.

  2. Sim, sim, mas… e o ludopédio? Além do que, o Santinha tem uma pulsão de morte na sua direção: o diminutivo!

  3. André Tricolor Virtual

    (rsrsrsrsrs), pois é, e aí podemos até afirmar que o ‘diminutivo’ estaria de fora da “fundação do mundo”, pois acredito que o mesmo não teria competência nem mesmo pra ajudar, e o pior é que a pessoa que não tem a capacidade para se relacionar com as pessoas, certamente não seria o ‘espermatozóide’ escolhido (entre milhões) para fecundar, contribuir com a vida.

    A vida é dos simples !!!!

    Abraços amigo !!!!

  4. Simplesmente genial os estudos de Freud. Daí vem a fundamentação de duas coisas importantes: os homens só pesam em sexo e no Santa Cruz.

    Agora, devia ser melhor o tempo em que depois do jogo se comia a bola. Imagem a fartura que seria comer o crânio de certo dirigente de futebol.

    Dizem que foi da história de onanismo de Samid que surgiu esse negócio de fazer justiça com as próprias mãos.

    Dimas

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