Tenho amigos e amigas fazendo tese. Tenho pena. Sofrem, e muito. É um ritual de passagem que se compara aos rituais pigmeus de caçar um leão ou meter a cabeça num vespeiro. Ninguém sai incólume de uma tese. Geralmente, sai mau feito um pica-pau, querendo descontar no aluno mais próximo aqueles anos terrÃveis. Quem não sofre numa tese, merece uma morte cruel. É um mau exemplo. De todo modo, vive em perigo de vida e deve mudar, urgentemente, o discurso de um “ah, foi fácil fazer uma tese!” a um “cruzes, foi um carma, tomei na jaca!”, do contrário será incinerado vivo.
Se um conhecido aparece com uma crise de auto-estima, pergunte logo: _é a tese?! Depois, aguente o choramingado. Faz parte.
Em homenagem a todos os thésards, publico um texto antigo e simpático de Samir Kassar:
Quarta-feira, 7 de Outubro de 1998
CADERNO 2 - O ESTADO DE SÃO PAULO
Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.
As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice.. Tem até teses pós-morte.
O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aà ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma
decepção. Em tese. ImpossÃvel ler uma tese de cabo a rabo. São gatÃssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma.
E nós?
Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentÃssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto SIC e tanto apud? SIC me lembra o
Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto. Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autocrata. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.
E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo. Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.
Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes, que não votamos no Apud Neto. Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daÃ? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossÃvel que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é
tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto? Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para
terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?
E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese. Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:
- Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.
Os dois pararam - momentaneamente - de pensar nas teses.
- O quê? Pirou?
- Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês? Pensando bem, até que não é uma má idéia!
Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história? Acho que seria um tesão.Â
Â
Abraços para todos
Â
Samir Kassar
Este artigo foi postado
em 14 de maio de 2008, Ã s 18:52h na categoria Artigo.
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14 de maio de 2008, Ã s 19:19h
Como eu só to na tesina, ainda resta vida. Mas só essa semana, pois tá tudo atrasado e setembro é logo ali!!!
15 de maio de 2008, Ã s 12:11h
ôxxxx…..eu conheço este texto como se fosse do Mário Prata. Fiquei agora confusa…..está neste endereço abaixo. Mas eu gosto muito, é que li recentemente neste endereço então chamou minha atenção. http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata981007.html.
bjs
15 de maio de 2008, Ã s 22:01h
Eita, Yvette, vc tem razão. O texto está, de fato, no site de Mário Prata. O arranjo dos parágrafos só está diferente. Recebi o texto de uma amiga, terminando sua tese, que, por sua vez, recebeu de uma outra pessoa, e por aà vai. Coisas da internet. Provavelmente, a autoria escafedeu-se durante o vaivém da divulgação, ou melhor, a autoria mudou durante sua circulação no mundo virtual. Valeu pelo alerta. Abração.
PS: agora, entendo por que estranhei tanto o “gatÃssima”, que não fazia nenhum sentido, já que é, na verdade, no texto do site de Mário Prata, “chatÃssima”.
16 de maio de 2008, Ã s 8:29h
Na internet tem umas coisas que se voce não estiver ligado vou te contar…rsrsrsrs…..grande beijo!
16 de maio de 2008, Ã s 10:13h
Rapaz, o texto caiu tão certo que mesmo com areia e vidro não faria diferença nenhuma, hehehhe
E tem aqueles professores ainda que pressupoem que você escolheu o doutorado meramente por uma questão de gosto. Algo como “Hum, vamos ver: moro em Paris, cuido de minha fazenda ou das indústrias, compro um pacote para as olimpÃadas, ou ainda planejo uma viagem de transatlântico ao redor do mundo? Ah, tem esse doutorado aqui… quem sabe amanhã não bata a vontade, e faço ele?” (e o pior é que você ainda encontra colegas que tem bem esse perfil mesmo!)
E do outro lado, daqueles afastados da academia, o vetor oposto: “Mas e aÃ, você não trabalha?” Ou ainda, “É engraçado o caso do Fulano: ele diz que faz doutorado, mas nem é PHD, e só fica dentro de casa, trancado no quarto, o dia inteiro. Ê vidão, heim?!”
29 de maio de 2008, Ã s 15:12h
Olha Perrusi, bem que alguém poderia escrever um texto sobre como o dinheiro hoje em dia se deslocou das fixações anais para o funcionamento mÃnimo do ego. O doutorado é uma prova disso: ou você tem um ego gigantesco para suportar os problemas efetivos e inventados pelos outros, ou você tem um dinheiro gigantesco para suportar os mesmos problemas.