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	<title>Comentários sobre: Cotas raciais</title>
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	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
	<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 00:33:15 +0000</pubDate>
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		<title>Por: cynthia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-964</link>
		<dc:creator>cynthia</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 May 2008 22:42:04 +0000</pubDate>
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		<description>Aff, Catatau, cansei. Tô com preguiça de continuar a pensar nisso. Quando Artur colocar outro tema polêmico, a gente continua a bater bola. Que tal?

Bjs</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Aff, Catatau, cansei. Tô com preguiça de continuar a pensar nisso. Quando Artur colocar outro tema polêmico, a gente continua a bater bola. Que tal?</p>
<p>Bjs</p>
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		<title>Por: Catatau</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-963</link>
		<dc:creator>Catatau</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 May 2008 13:53:08 +0000</pubDate>
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		<description>Cynthia, 

Enquanto Articzewski-Godot não vem, ergo sum, quer dizer, ego sum Renatus Cartesius, em meio ao mar, o sol e os toupinambouts, pela natura desvairada destes ares, rsss

Quanto à Vênus Hotentote, no que poderia ajudar? N tenho mto conhecimento, apenas algumas menções, mas qualquer coisa dê um toque!

Quanto ao assunto, pior que quando escrevia o comentário pensei em escrever um pouquinho mais, e isso evitaria tua observação de "&lt;i&gt;Quando você diz que deveríamos ver as questões raciais com lentes sociais, creio que é isso mesmo que estamos fazendo.&lt;/i&gt;". 

Acho que ficou bem claro que eu admitia isso, mas também que eu chamava atenção a outra coisa: é claro que o resultado é social, mas o primado é racial. Trata-se de uma hierarquia: se admitimos uma política de radicalização democrática, quanto mais abrangentes as ações, mais democratizantes. Daí minha preocupação, das ações se direcionarem à raça (e ficarem por aí), e ainda mais em um país no qual o problema racial não se separa do problema social. 

Bom, tenho uma preocupação que é mais ou menos a seguinte (Artur, desculpe o comentario grande!): as lutas por grupos minoritários (embora no Brasil sejam majoritários) são um movimento que data mais ou menos da segunda metade do século XX para cá, devido a problemáticas bem definidas dos chamados capitalismos "avançados". Daí as lutas pelos negros, índios, homossexuais, mulheres, e assim por diante, terem grosso modo datas não muito distantes (e não falo sobre a luta eterna dos negros contra brancos como resistência à escravidão, por exemplo, mas da relativa formalização de movimentos identitários dentro do horizonte social, durante o século XX). Essas lutas 'minoritárias' de algum modo se agenciaram com lutas mais antigas, que provinham por exemplo dos movimentos socialistas do início do século XX. 

Algumas vezes, Foucault (grosso modo um desses ativistas "minoritários") veio para o Brasil, e ficou espantado como, com as diferenças abissais que existem por aqui, teríamos um panorama ainda de necessidade de conquistas mínimas. Assim, sem querer ele enunciava um problema: ao mesmo tempo em que no Brasil se instauravam os embriões de novas políticas "minoritárias", conquistas mínimas ainda não haviam sido alcançadas. 

Moral da história: o Brasil padece ao mesmo tempo de questões minoritárias, e majoritárias, inclusive de modo às duas questões se confundirem, e não se separarem. Ainda mais, a dinâmica daqui é diversa das lutas dos outros países. O direito dos presos e dos homossexuais, de alguma forma, tem pontos de confluência com o direito dos pobres, dos índios, da mulher, dos negros, dos desempregados, e assim por diante. 

Devido a esse imbróglio geral de desprivilégio que caracteriza o Brasil, vemos vários movimentos despontarem conforme movimentos lá da gringolândia. Daí, a meu ver, ser acertada a palavra "americanalhada" do Artur, que sugeriria que os movimentos cotistas daqui se inspiram em movimentos minoritários, e em exemplos de discriminação que ocorrem por lá, com estatuto diverso da discriminação daqui. Por isso, no fim das contas, haver em algum momento uma "generalização equivocada": primeiro se insere a discriminação racial no desprivilégio social ("a marioria negra é pobre, a maioria pobre é negra"), para depois chamar as políticas sociais apenas para a questão racial. Torna-se ao mesmo tempo uma política de maiorias (pobres), e uma política de minorias (negros), sem esclarecer o estatuto dessas passagens. Nas cotas, os negros se apoiam de modo &lt;i&gt;decisivo&lt;/i&gt; no argumento social, para legitimá-las. Daí a questão racial nunca estar sozinha, e derivar sua legitimidade de outra questão.

Com certeza, você está certa ao apontar a questão "focal" para os negros. Mas não vejo, por exemplo, movimentos de maior visibilidade se preocuparem com necessidades de um horizonte mais amplo. Daí, a meu ver, a observação de que a visibilidade diante dos negros é boa, mas que, diante do contexto brasileiro, talvez o ponto de apoio não seja o mais efetivo - na política de cotas, acaba ficando muita gente pobre de fora, por exemplo. 

Bom, é mais ou menos por aí!

abraços,</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Cynthia, </p>
<p>Enquanto Articzewski-Godot não vem, ergo sum, quer dizer, ego sum Renatus Cartesius, em meio ao mar, o sol e os toupinambouts, pela natura desvairada destes ares, rsss</p>
<p>Quanto à Vênus Hotentote, no que poderia ajudar? N tenho mto conhecimento, apenas algumas menções, mas qualquer coisa dê um toque!</p>
<p>Quanto ao assunto, pior que quando escrevia o comentário pensei em escrever um pouquinho mais, e isso evitaria tua observação de &#8220;<i>Quando você diz que deveríamos ver as questões raciais com lentes sociais, creio que é isso mesmo que estamos fazendo.</i>&#8220;. </p>
<p>Acho que ficou bem claro que eu admitia isso, mas também que eu chamava atenção a outra coisa: é claro que o resultado é social, mas o primado é racial. Trata-se de uma hierarquia: se admitimos uma política de radicalização democrática, quanto mais abrangentes as ações, mais democratizantes. Daí minha preocupação, das ações se direcionarem à raça (e ficarem por aí), e ainda mais em um país no qual o problema racial não se separa do problema social. </p>
<p>Bom, tenho uma preocupação que é mais ou menos a seguinte (Artur, desculpe o comentario grande!): as lutas por grupos minoritários (embora no Brasil sejam majoritários) são um movimento que data mais ou menos da segunda metade do século XX para cá, devido a problemáticas bem definidas dos chamados capitalismos &#8220;avançados&#8221;. Daí as lutas pelos negros, índios, homossexuais, mulheres, e assim por diante, terem grosso modo datas não muito distantes (e não falo sobre a luta eterna dos negros contra brancos como resistência à escravidão, por exemplo, mas da relativa formalização de movimentos identitários dentro do horizonte social, durante o século XX). Essas lutas &#8216;minoritárias&#8217; de algum modo se agenciaram com lutas mais antigas, que provinham por exemplo dos movimentos socialistas do início do século XX. </p>
<p>Algumas vezes, Foucault (grosso modo um desses ativistas &#8220;minoritários&#8221;) veio para o Brasil, e ficou espantado como, com as diferenças abissais que existem por aqui, teríamos um panorama ainda de necessidade de conquistas mínimas. Assim, sem querer ele enunciava um problema: ao mesmo tempo em que no Brasil se instauravam os embriões de novas políticas &#8220;minoritárias&#8221;, conquistas mínimas ainda não haviam sido alcançadas. </p>
<p>Moral da história: o Brasil padece ao mesmo tempo de questões minoritárias, e majoritárias, inclusive de modo às duas questões se confundirem, e não se separarem. Ainda mais, a dinâmica daqui é diversa das lutas dos outros países. O direito dos presos e dos homossexuais, de alguma forma, tem pontos de confluência com o direito dos pobres, dos índios, da mulher, dos negros, dos desempregados, e assim por diante. </p>
<p>Devido a esse imbróglio geral de desprivilégio que caracteriza o Brasil, vemos vários movimentos despontarem conforme movimentos lá da gringolândia. Daí, a meu ver, ser acertada a palavra &#8220;americanalhada&#8221; do Artur, que sugeriria que os movimentos cotistas daqui se inspiram em movimentos minoritários, e em exemplos de discriminação que ocorrem por lá, com estatuto diverso da discriminação daqui. Por isso, no fim das contas, haver em algum momento uma &#8220;generalização equivocada&#8221;: primeiro se insere a discriminação racial no desprivilégio social (&#8221;a marioria negra é pobre, a maioria pobre é negra&#8221;), para depois chamar as políticas sociais apenas para a questão racial. Torna-se ao mesmo tempo uma política de maiorias (pobres), e uma política de minorias (negros), sem esclarecer o estatuto dessas passagens. Nas cotas, os negros se apoiam de modo <i>decisivo</i> no argumento social, para legitimá-las. Daí a questão racial nunca estar sozinha, e derivar sua legitimidade de outra questão.</p>
<p>Com certeza, você está certa ao apontar a questão &#8220;focal&#8221; para os negros. Mas não vejo, por exemplo, movimentos de maior visibilidade se preocuparem com necessidades de um horizonte mais amplo. Daí, a meu ver, a observação de que a visibilidade diante dos negros é boa, mas que, diante do contexto brasileiro, talvez o ponto de apoio não seja o mais efetivo - na política de cotas, acaba ficando muita gente pobre de fora, por exemplo. </p>
<p>Bom, é mais ou menos por aí!</p>
<p>abraços,</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: cynthia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-959</link>
		<dc:creator>cynthia</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2008 21:34:00 +0000</pubDate>
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		<description>Arture, escreve sobre Habermas. A gente já tem meio artigo pronto. Além disso, é mais neutro. Ou sua verdadeira vocação é semear a cizânia?</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Arture, escreve sobre Habermas. A gente já tem meio artigo pronto. Além disso, é mais neutro. Ou sua verdadeira vocação é semear a cizânia?</p>
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	<item>
		<title>Por: cynthia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-958</link>
		<dc:creator>cynthia</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2008 21:30:43 +0000</pubDate>
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		<description>Meu caro Catatau,

Como era mesmo que Zé Colméia se referia ao seu amigo? Deferências à parte, desconfio que estamos andando em círculos. Quando você diz que deveríamos ver as questões raciais com lentes sociais, creio que é isso mesmo que estamos fazendo. Já concordamos que a questão racial não pode ser reduzida à questão de classe. O que sobra, então do social no racial ou, colocando de outra forma, que elementos sociais são específicos do fenômeno racial, não podendo ser encontrados em outros fenômenos sociais? Percepções fenotípicas! Atribuições e expectativas de comportamento com base em identificações como cor da pele, cabelo, lábios etc etc. Isso que você chamou de ficções que têm efeitos sociais (desigualdade, por ex.). Como identificar os indivíduos com essas características que serão o alvo das políticas raciais? Não sei. É aí onde concordamos. Onde discordamos: uma política focal, para ser mais inclusiva, deveria contemplar os pobres (em sua maioria negros). Ocorre que políticas focais, por definição, visam à inclusão de grupos específicos, em desvantagem e, neste sentído, são excludentes. Certamente que os pobres estão em desvantagem, mas por razões diversas dos negros. E as desvantagens raciais, onde ficam? O que fazer? Sei lá. Talvez pensar em formas mais eficientes de identificar as vítimas do racismo do que as que têm sido colocadas em prática até o momento. 

Em resumo: a única coisa da qual tenho certeza é que a defesa de "cotas sociais" (cotas raciais não são sociais?) para resolver a desigualdade entre negros e brancos não vai endereçar o problema específico do racismo a que os negros estão sujeitos cotidianamente no Brasil. Mais: racismo se combate, primeiramente, com a consciência de que somos racistas. Negar a existência de raças no discurso do brasileiro comum (nós) é só uma forma sofisticada de enterrar a cabeça na areia com a ajuda de justificativas biológicas. É esse tipo de argumento que tenho visto em boa parte dos defensores anti-cotas (e não estou me referindo a você).

Mudando de assunto, estou escrevendo um artigo sobre a Vênus Hotentote e sua importância para a emergência de um discurso racialista, sexista e colonialista. Mais ou menos isso. Seria ótimo se pudesse contar com os seus comentários.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Meu caro Catatau,</p>
<p>Como era mesmo que Zé Colméia se referia ao seu amigo? Deferências à parte, desconfio que estamos andando em círculos. Quando você diz que deveríamos ver as questões raciais com lentes sociais, creio que é isso mesmo que estamos fazendo. Já concordamos que a questão racial não pode ser reduzida à questão de classe. O que sobra, então do social no racial ou, colocando de outra forma, que elementos sociais são específicos do fenômeno racial, não podendo ser encontrados em outros fenômenos sociais? Percepções fenotípicas! Atribuições e expectativas de comportamento com base em identificações como cor da pele, cabelo, lábios etc etc. Isso que você chamou de ficções que têm efeitos sociais (desigualdade, por ex.). Como identificar os indivíduos com essas características que serão o alvo das políticas raciais? Não sei. É aí onde concordamos. Onde discordamos: uma política focal, para ser mais inclusiva, deveria contemplar os pobres (em sua maioria negros). Ocorre que políticas focais, por definição, visam à inclusão de grupos específicos, em desvantagem e, neste sentído, são excludentes. Certamente que os pobres estão em desvantagem, mas por razões diversas dos negros. E as desvantagens raciais, onde ficam? O que fazer? Sei lá. Talvez pensar em formas mais eficientes de identificar as vítimas do racismo do que as que têm sido colocadas em prática até o momento. </p>
<p>Em resumo: a única coisa da qual tenho certeza é que a defesa de &#8220;cotas sociais&#8221; (cotas raciais não são sociais?) para resolver a desigualdade entre negros e brancos não vai endereçar o problema específico do racismo a que os negros estão sujeitos cotidianamente no Brasil. Mais: racismo se combate, primeiramente, com a consciência de que somos racistas. Negar a existência de raças no discurso do brasileiro comum (nós) é só uma forma sofisticada de enterrar a cabeça na areia com a ajuda de justificativas biológicas. É esse tipo de argumento que tenho visto em boa parte dos defensores anti-cotas (e não estou me referindo a você).</p>
<p>Mudando de assunto, estou escrevendo um artigo sobre a Vênus Hotentote e sua importância para a emergência de um discurso racialista, sexista e colonialista. Mais ou menos isso. Seria ótimo se pudesse contar com os seus comentários.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Artur</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-957</link>
		<dc:creator>Artur</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2008 19:10:22 +0000</pubDate>
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		<description>Tô lascado! Ocuparam minha seara (hehe). E até sábado não tenho tempo de fazer a postagem,  que essa discussão mereceria, dada a qualidade do debate que vocês fizeram; mas, aviso logo, não abordarei propriamente a questão das cotas e sim a seguinte: "é útil a noção de raça para as ciências sociais"?</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Tô lascado! Ocuparam minha seara (hehe). E até sábado não tenho tempo de fazer a postagem,  que essa discussão mereceria, dada a qualidade do debate que vocês fizeram; mas, aviso logo, não abordarei propriamente a questão das cotas e sim a seguinte: &#8220;é útil a noção de raça para as ciências sociais&#8221;?</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Catatau</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-954</link>
		<dc:creator>Catatau</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2008 13:06:03 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=309#comment-954</guid>
		<description>Oi Cynthia, 

pô, fico aguardando o comentário tb, heheheh  No fim das contas, meu raciocínio completo sobre as cotas está lá &lt;a href="http://catatau.blogsome.com/2007/06/15/raca-entre-o-argumento-biologico-e-o-socio-historico/" rel="nofollow"&gt;naquele post&lt;/a&gt;, colocando as posições dos pró e dos contra essa medida. 

Com certeza, vc repôs a questão de um modo que complementa a minha: &lt;i&gt;"o problema é diminuir a desigualdade entre ricos e pobres (e, por tabela, entre brancos e negros), ou diminuir a desigualdade entre brancos e negros (e, por tabela, entre ricos e pobres)? Qual o foco da política pública?"&lt;/i&gt;. 

Aí a resposta pode ser duas, e conhecemos a dos cotistas (que é a única): reduzimos a desigualdade entre brancos e negros, e de tabela, a de ricos e pobres. Isso é correto, porque embora racismo não seja identificado com classe, a política de cotas em algum momento faz essa identificação, para tornar o argumento bom (está implícito no próprio enunciado acima). 

Daí retornarmos ao fato: é melhor haver política democrática (no caso, de acesso a cotas raciais) do que não haver nenhuma. Mas salta aos olhos que, se a população pobre é maioria negra, não se separa questão racial da social, e por isso mesmo cota para pobres seria uma medida menos "exclusória" do que cotas apenas para negros. Se os próprios cotistas raciais reclamam do desprivilégio social, a cota social ao invés de racial cumpriria o mesmo papel, e até mesmo papel ampliado.

Como você disse, é uma questão de foco, e os focos estão todos em ver questões sociais com lentes raciais. Mas não deveríamos ver as questões raciais com lentes sociais?</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Oi Cynthia, </p>
<p>pô, fico aguardando o comentário tb, heheheh  No fim das contas, meu raciocínio completo sobre as cotas está lá <a href="http://catatau.blogsome.com/2007/06/15/raca-entre-o-argumento-biologico-e-o-socio-historico/" rel="nofollow">naquele post</a>, colocando as posições dos pró e dos contra essa medida. </p>
<p>Com certeza, vc repôs a questão de um modo que complementa a minha: <i>&#8220;o problema é diminuir a desigualdade entre ricos e pobres (e, por tabela, entre brancos e negros), ou diminuir a desigualdade entre brancos e negros (e, por tabela, entre ricos e pobres)? Qual o foco da política pública?&#8221;</i>. </p>
<p>Aí a resposta pode ser duas, e conhecemos a dos cotistas (que é a única): reduzimos a desigualdade entre brancos e negros, e de tabela, a de ricos e pobres. Isso é correto, porque embora racismo não seja identificado com classe, a política de cotas em algum momento faz essa identificação, para tornar o argumento bom (está implícito no próprio enunciado acima). </p>
<p>Daí retornarmos ao fato: é melhor haver política democrática (no caso, de acesso a cotas raciais) do que não haver nenhuma. Mas salta aos olhos que, se a população pobre é maioria negra, não se separa questão racial da social, e por isso mesmo cota para pobres seria uma medida menos &#8220;exclusória&#8221; do que cotas apenas para negros. Se os próprios cotistas raciais reclamam do desprivilégio social, a cota social ao invés de racial cumpriria o mesmo papel, e até mesmo papel ampliado.</p>
<p>Como você disse, é uma questão de foco, e os focos estão todos em ver questões sociais com lentes raciais. Mas não deveríamos ver as questões raciais com lentes sociais?</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: cynthia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-953</link>
		<dc:creator>cynthia</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2008 11:31:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=309#comment-953</guid>
		<description>Oi, Catatau,

É, acho que tá rendendo mais do que Artur queria. Já tô com vergonha de escrever aqui. Tentando ser breve: dê uma olhada na redução da participação negra nas universidades brasileiras entre a década de 70 e agora e veja se isso corresponde pari passu à distância entre ricos e pobres. Acho que, embora sua pergunta seja pertinente, ela deixa de fora uma questão importante: o problema é diminuir a desigualdade entre ricos e pobres (e, por tabela, entre brancos e negros), ou diminuir a desigualdade entre brancos e negros (e, por tabela, entre ricos e pobres)? Qual o foco da política pública? Outra coisa que é importante lembrar: políticas de ação afirmativa devem ser estabelecidas por um curto período de tempo a fim de evitar maiores distorções. Saiu um estudo do IPEA sobre a população negra esta semana que, talvez, possa ajudar: 

http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/08_05_13_120anosAbolicaoVcoletiva.pdf

Artur me passou o link para o seu blog. Muito lindo. E resisti bravamente comentar a discussão de vocês sobre raça e etnicidade! Estou super orgulhosa de mim mesma.

Abraço</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Oi, Catatau,</p>
<p>É, acho que tá rendendo mais do que Artur queria. Já tô com vergonha de escrever aqui. Tentando ser breve: dê uma olhada na redução da participação negra nas universidades brasileiras entre a década de 70 e agora e veja se isso corresponde pari passu à distância entre ricos e pobres. Acho que, embora sua pergunta seja pertinente, ela deixa de fora uma questão importante: o problema é diminuir a desigualdade entre ricos e pobres (e, por tabela, entre brancos e negros), ou diminuir a desigualdade entre brancos e negros (e, por tabela, entre ricos e pobres)? Qual o foco da política pública? Outra coisa que é importante lembrar: políticas de ação afirmativa devem ser estabelecidas por um curto período de tempo a fim de evitar maiores distorções. Saiu um estudo do IPEA sobre a população negra esta semana que, talvez, possa ajudar: </p>
<p><a href="http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/08_05_13_120anosAbolicaoVcoletiva.pdf" rel="nofollow">http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/08_05_13_120anosAbolicaoVcoletiva.pdf</a></p>
<p>Artur me passou o link para o seu blog. Muito lindo. E resisti bravamente comentar a discussão de vocês sobre raça e etnicidade! Estou super orgulhosa de mim mesma.</p>
<p>Abraço</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Catatau</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-949</link>
		<dc:creator>Catatau</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 May 2008 01:25:06 +0000</pubDate>
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		<description>Poisé Cynthia, 

Não penso que o problema se reduz à classe, pois "preto rico" também é discriminado por ser "preto". Mas "preto" não é problema racial como é por exemplo nos EUA, e recordo Darcy Ribeiro falando sobre como a colonização de apartheid que ocorreu na gringolândia é algo bem diverso do que acabou ocorrendo por aqui... a mistura das etnias africanas, e dos africanos com índios e brancos, acabou criando algo mais difícil do que a divisão pura e simples de negros e brancos. 

Isso é beabá, mas serve para mostrar como o problema é mais complexo: nem apenas classe, mas tb nem apenas discriminação de fenótipos. As próprias cotas vem mostrar isso: se existe uma dívida racial, como ela está sendo paga por via social? É claro que existe uma minoria negra nas universidades; mas isso é tão claro, e correspondente, ao fato de haver uma minoria pobre. Enfim, talvez se coloque melhor o problema: em um momento se reune raça e socius (negros são pobres, o racismo é institucional no Brasil, etc.), o que é correto; em outro, propõe-se a solução apenas para raça (cotas para negros), o que é duvidoso. 

Isso repõe a pergunta, na prática das cotas: cotas para pobres não atingiriam os mesmos propósitos, e até mais amplos, do que cotas raciais? 

Rapaz, o negócio aqui tá rendendo, heheh

abraços,</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Poisé Cynthia, </p>
<p>Não penso que o problema se reduz à classe, pois &#8220;preto rico&#8221; também é discriminado por ser &#8220;preto&#8221;. Mas &#8220;preto&#8221; não é problema racial como é por exemplo nos EUA, e recordo Darcy Ribeiro falando sobre como a colonização de apartheid que ocorreu na gringolândia é algo bem diverso do que acabou ocorrendo por aqui&#8230; a mistura das etnias africanas, e dos africanos com índios e brancos, acabou criando algo mais difícil do que a divisão pura e simples de negros e brancos. </p>
<p>Isso é beabá, mas serve para mostrar como o problema é mais complexo: nem apenas classe, mas tb nem apenas discriminação de fenótipos. As próprias cotas vem mostrar isso: se existe uma dívida racial, como ela está sendo paga por via social? É claro que existe uma minoria negra nas universidades; mas isso é tão claro, e correspondente, ao fato de haver uma minoria pobre. Enfim, talvez se coloque melhor o problema: em um momento se reune raça e socius (negros são pobres, o racismo é institucional no Brasil, etc.), o que é correto; em outro, propõe-se a solução apenas para raça (cotas para negros), o que é duvidoso. </p>
<p>Isso repõe a pergunta, na prática das cotas: cotas para pobres não atingiriam os mesmos propósitos, e até mais amplos, do que cotas raciais? </p>
<p>Rapaz, o negócio aqui tá rendendo, heheh</p>
<p>abraços,</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: cynthia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-946</link>
		<dc:creator>cynthia</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 May 2008 20:56:40 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=309#comment-946</guid>
		<description>Putz! Desculpem o tamanho dos comentários.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Putz! Desculpem o tamanho dos comentários.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: cynthia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/05/13/cotas-raciais/#comment-945</link>
		<dc:creator>cynthia</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 May 2008 20:55:57 +0000</pubDate>
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		<description>Oi, Catatau,

O que você chama de social seria equivalente a classe? Diversas pessoas defendem a idéia de que, no Brasil, não há preconceito de raça (ou de cor), mas de classe. É a idéia expressa no ditado que afirma que, no Brasil, "um branco pobre é preto e, um preto rico, branco". Essa tese foi defendida por pessoas importantes, inclusive Donald Pierson, mas acredito que a base dela é o famoso mito da democracia racial.

Gente como Florestan Fernandes, Lívio Sansone e Carlos Hasenbalg, por outro lado, argumentam que a questão de raça e de classe devem ser distinguidas e nenhum deles defende uma idéia biológica de raça. Florestan, em particular, tem um estudo famoso sobre a formação da classe trabalhadora em São Paulo, que mostra como os negros foram excluídos do sistema de classes. Isto significa, para ele (e eu concordo), que a questão racial antecede a questão de classe, embora elas se reforcem mutuamente. 

Talvez uma forma menos pedante de defender essas idéias seria pensar nas formas como o racismo institucional se manifesta no Brasil. Sabe-se, por ex., que negros são parados com mais freqüencia em blitz, que empregados de lojas são instruídos a vigiar clientes negros mais de perto, que a maioria dos presos são negros etc. Será que isso aponta apenas para preconceito de classe (embora possa ser também isso)?

Com exceção das populações indígenas, os negros ocupam os piores lugares em todos os indicadores sociais do Brasil. Isso significa dizer que, mesmo quando pertencem às classes médias e altas, ocupam piores posições que as pessoas brancas de sua classe. Deve ter algo que explique isso - e eu suspeito que é o preconceito racial e o racismo que, aliás, é social em todos os lugares, não apenas no Brasil. 

Agora, eu concordo com você em relação aos riscos de uma política racial, especialmente no que diz respeito à identificação de quem deve ser alvo dessa política. A questão é realmente complicada, mas não acho que pode ser resolvida ao se reduzir o problema racial a um problema de classe. 

Abçs</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Oi, Catatau,</p>
<p>O que você chama de social seria equivalente a classe? Diversas pessoas defendem a idéia de que, no Brasil, não há preconceito de raça (ou de cor), mas de classe. É a idéia expressa no ditado que afirma que, no Brasil, &#8220;um branco pobre é preto e, um preto rico, branco&#8221;. Essa tese foi defendida por pessoas importantes, inclusive Donald Pierson, mas acredito que a base dela é o famoso mito da democracia racial.</p>
<p>Gente como Florestan Fernandes, Lívio Sansone e Carlos Hasenbalg, por outro lado, argumentam que a questão de raça e de classe devem ser distinguidas e nenhum deles defende uma idéia biológica de raça. Florestan, em particular, tem um estudo famoso sobre a formação da classe trabalhadora em São Paulo, que mostra como os negros foram excluídos do sistema de classes. Isto significa, para ele (e eu concordo), que a questão racial antecede a questão de classe, embora elas se reforcem mutuamente. </p>
<p>Talvez uma forma menos pedante de defender essas idéias seria pensar nas formas como o racismo institucional se manifesta no Brasil. Sabe-se, por ex., que negros são parados com mais freqüencia em blitz, que empregados de lojas são instruídos a vigiar clientes negros mais de perto, que a maioria dos presos são negros etc. Será que isso aponta apenas para preconceito de classe (embora possa ser também isso)?</p>
<p>Com exceção das populações indígenas, os negros ocupam os piores lugares em todos os indicadores sociais do Brasil. Isso significa dizer que, mesmo quando pertencem às classes médias e altas, ocupam piores posições que as pessoas brancas de sua classe. Deve ter algo que explique isso - e eu suspeito que é o preconceito racial e o racismo que, aliás, é social em todos os lugares, não apenas no Brasil. </p>
<p>Agora, eu concordo com você em relação aos riscos de uma política racial, especialmente no que diz respeito à identificação de quem deve ser alvo dessa política. A questão é realmente complicada, mas não acho que pode ser resolvida ao se reduzir o problema racial a um problema de classe. </p>
<p>Abçs</p>
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