Mais intimidade e segredo

Ver original aqui.
Num post anterior, falei de intimidade e segredo. Afirmei que segredo sem intimidade é o cúmulo da solidão. Mas ela, a solidão, pode ser aprazível e a intimidade, um inferno. Inclusive, o segredo, não contado, pode fazer parte da estratégia de transformar a intimidade numa “vida de ilusão” — a intimidade torna-se um jogo, no qual o segredo comanda, e a relação converte-se num claro-escuro de verdade e engano.
Leiam essa passagem sintomática do Retrato de Dorian Grey (traduzido por Clarice Lispector):
_[...] Das criaturas de quem gosto muito, nunca digo o nome a outras pessoas. Seria o mesmo que me privar de uma parte delas. Criei-me adorando o segredo. A meu ver só ele é capaz de nos tornar misteriosa ou maravilhosa a vida dos nossos dias. A coisa mais comum, se a ocultarmos, é um deleite. Quando saio da cidade, nunca digo aos meus aonde vou. Se o dissesse, estragaria todo o meu prazer. Um hábito absurdo, concordo; mas sei lá por que dá à vida um cunho romanesco. Acha-me bem tolo, não? Seja franco.
_Pelo contrário, meu caro Basil, pelo contrário! - protestou Lorde Henry. - Esquece que sou casado e que o único encanto do casamento é tornar absolutamente necessária aos dois cônjuges uma vida de ilusão. Não sei nunca onde anda minha mulher; nem ela sabe jamais o que eu faço. Quando nos encontramos - isto acontece uma ou outra vez - quando jantamos fora, ou visitamos o duque, impingimo-nos mutuamente, com a cara mais desavergonhada, as histórias mais extravagantes. Nisso, minha mulher se sai muito bem… muito melhor do que eu. Ao contrário do que me sucede, ela nunca se atrapalha com as datas. E, se me pega em falso, não arma cenas. Às vezes, eu até gostaria de vê-la zangar-se. Mas limita-se a rir de mim.
Um casal ancien régime pode, a seu bel prazer, transformar o segredo num jogo alegre, principalmente quando visita o duque. Com o fim da aristocracia e dos valores aristocráticos, para o casal moderno, brincar com a intimidade, através do segredo, tornou-se tabu e hipocrisia. Aos poucos, as provas cansam a verdade, e a vida deixa de ser uma ilusão e se torna uma realidade.
12 de maio de 2008, às 19:35h
Acho muito interessantes as relações de anonimato nos exemplos de Blanchot e… Hakim Bey. Como você disse, a intimidade é uma relação apenas autêntica quando há um “nós”.
Mas precisamente por isso, no caso do Hakim Bey o anonimato, a estratégia de afastar e dificultar o contato, o modo de se contactar “extraordinariamente” (via TAZ), fariam parte de uma estratégia de negar os lugares comuns e a futilidade que, sob muitos modos, circunscreveu esse “nós” na atualidade.
O mesmo para a questão da autoria, em Blanchot. Não reduzi-la a querelas psicologizantes de autoria (”quem é esse que diz o que diz?”), manter a linguagem literária como superfície e também como profundidade, diria respeito a fazer com que a obra de arte nada deva ao autor. Mais ou menos no sentido de que o que se diz não serve apenas para medir um autor, mas sim para nos situarmos precisamente naquilo que é dito… apenas a partir daí é que dois seres humanos poderiam olhar-se de igual para igual, não julgando QUEM diz, mas (se for para julgar) O QUÊ é dito.
Acho interessantes esses dois exemplos (ou pelo menos a direção que evocam), porque mostram precisamente como a ilusão pode servir para algo mais autêntico e efetivo do que a própria efetividade do “real” (ou do imediatamente dado).
12 de maio de 2008, às 21:48h
Catatau, seu rizomático! Na Zona Autônoma Permanente, lugar de realização perene do desejo utópico, não existiria mais a problemática da “autencidade”. Acho que, para um anarquista, como Hakim Bey, não existe algo mais ilusório — no caso, aqui, ilusão como dispositivo de poder ou de assujeitamento - do que essa visão da intimidade autêntica (defendida por mim). A intimidade continuaria a envolver um nós, mas um bem diferente, implicando um anonimato que quebraria esse, no fundo, falso nós da autoria de sujeitos íntimos.
Tenho a necessidade de saber quem é o outro, quem é o autor; nesse sentido, reproduzo a necessidade moderna de, ao saber a autoria, controlar os processos de subjetivação. Eu me realizaria plenamente como um comissário do povo (minhas entranhas estão prenhes de totalitarismo — hehe).