A história de Rand

Pesquei no blog de Pedro Dória essa estória horrível. Fundamentalismo é uma desgraça. Fascismo é eufemismo na frente desses caras. A vida é difícil.

Lá vai:


‘A morte era o mínimo que ela merecia’, diz Abdel-Qader. ‘Não me arrependo. Tive o apoio de meus amigos, que também são pais e, portanto, sabem o que é aceitável ou não para qualquer muçulmano que honre sua religião’, ele disse.

Sentado em frente à sua porta, cercado por gérberas e margaridas brancas que ele plantou no jardim da família, Abdel-Qader se justifica.

‘Não tenho mais uma filha e prefiro dizer que nunca tive uma. Essa menina me humilhou na frente da família e dos amigos. Ao conversar com um soldado estrangeiro, ela perdeu o que há de mais precioso para uma mulher. Talvez as pessoas do ocidente se choquem, mas nossas meninas não são como as filhas de lá que podem dormir com o homem que quiserem e às vezes engravidar sem ter casado. Nossas meninas devem respeitar sua religião, sua família e seus corpos.’

‘Agora, só tenho dois filhos. Aquela filha foi um erro em minha vida. Sei que Deus me abençoa pelo que fiz’, ele disse, sua voz soa honrada. ‘Meus filhos estão do meu lado e eles foram homens o suficiente para me ajudar a terminar a vida de alguém que nos trouxe vergonha.’

A filha de Abdel-Qader se chamava Rand. Tinha 17 anos. Foi espancada e morta por seu pai em Basra, no Iraque, por ter conversado com um soldado britânico. Para uma amiga, ela disse que estava apaixonada pelo rapaz. Era seu primeiro amor. Não trocou mais que palavras. Horrorizada, a mãe da Rand, pediu o divórcio. Foi espancada, teve o braço quebrado. Está escondida. Os irmãos mais velhos da moça ajudaram o pai. São muçulmanos xiitas.

Abdel-Qader ficou detido por duas horas na delegacia. Aí foi liberado. Os policiais o congratularam.

Por causa da aulas, tenho lido sobre o multiculturalismo. O que um multiculturalista faria diante do que foi feito e dito acima, já que todas as culturas equivalem-se? O que fazer diante de uma expressão cultural como a defendida acima?  Será que a luta contra o etnocentrismo tem como preço o nivelamento de todas as culturas, através de um relativismo cultural, beirando o absoluto? Será que existe um mínimo moral, isto é, um espaço comum de humanidade, no qual é possível julgar valores? Existe uma racionalidade prática que possa julgar princípios morais, isto é, uma razão prática conectada a valores universalizáveis?

Creio que essa discussão tornou-se fútil, já que Rand morreu… Seria esse o problema do Discurso: ele sempre chega post mortem.

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