Arquivos para 12 de maio de 2008, às 14:33h

Retratos femininos

12 de maio de 2008, às 14:33h

Uau! Pesquei o belíssimo vídeo abaixo no Hermenauta, que o pegou, por sua vez, no blog la nostalgie. Neste, é dada a seguinte informação:

Vídeo por: Philip Scott Johnson
Música por: Yo-Yo Ma, interpretando Bach’s Suite No. 1, BWV 1007 In G Major- Sarabande.
A seqüência dos quadros, com o nome dos mesmos e de seus respectivos pintores, pode ser vista aqui:
http://www.maysstuff.com/womenid.htm

A vida melhorou um pouco, olhando o vídeo…

P.J Harvey e Deerhoof

12 de maio de 2008, às 10:30h

Eu gosto da maga (Good fortune):

Olha ela, aqui, cantando indecente com o doido do Nick Cave (sinto ciúme, confesso) — Henry Lee:

Mas doido mesmo é o Deerhoof (The Perfect Me):

Mais intimidade e segredo

12 de maio de 2008, às 9:58h


Ver original aqui.

Num post anterior, falei de intimidade e segredo. Afirmei que segredo sem intimidade é o cúmulo da solidão. Mas ela, a solidão, pode ser aprazível e a intimidade, um inferno. Inclusive, o segredo, não contado, pode fazer parte da estratégia de transformar a intimidade numa “vida de ilusão” — a intimidade torna-se um jogo, no qual o segredo comanda, e a relação converte-se num claro-escuro de verdade e engano.

Leiam essa passagem sintomática do Retrato de Dorian Grey (traduzido por Clarice Lispector):

_[...] Das criaturas de quem gosto muito, nunca digo o nome a outras pessoas. Seria o mesmo que me privar de uma parte delas. Criei-me adorando o segredo. A meu ver só ele é capaz de nos tornar misteriosa ou maravilhosa a vida dos nossos dias. A coisa mais comum, se a ocultarmos, é um deleite. Quando saio da cidade, nunca digo aos meus aonde vou. Se o dissesse, estragaria todo o meu prazer. Um hábito absurdo, concordo; mas sei lá por que dá à vida um cunho romanesco. Acha-me bem tolo, não? Seja franco.
_Pelo contrário, meu caro Basil, pelo contrário! - protestou Lorde Henry. - Esquece que sou casado e que o único encanto do casamento é tornar absolutamente necessária aos dois cônjuges uma vida de ilusão. Não sei nunca onde anda minha mulher; nem ela sabe jamais o que eu faço. Quando nos encontramos - isto acontece uma ou outra vez - quando jantamos fora, ou visitamos o duque, impingimo-nos mutuamente, com a cara mais desavergonhada, as histórias mais extravagantes. Nisso, minha mulher se sai muito bem… muito melhor do que eu. Ao contrário do que me sucede, ela nunca se atrapalha com as datas. E, se me pega em falso, não arma cenas. Às vezes, eu até gostaria de vê-la zangar-se. Mas limita-se a rir de mim.
Um casal ancien régime pode, a seu bel prazer, transformar o segredo num jogo alegre, principalmente quando visita o duque. Com o fim da aristocracia e dos valores aristocráticos, para o casal moderno, brincar com a intimidade, através do segredo, tornou-se tabu e hipocrisia. Aos poucos, as provas cansam a verdade, e a vida deixa de ser uma ilusão e se torna uma realidade.

A história de Rand

12 de maio de 2008, às 8:04h

Pesquei no blog de Pedro Dória essa estória horrível. Fundamentalismo é uma desgraça. Fascismo é eufemismo na frente desses caras. A vida é difícil.

Lá vai:


‘A morte era o mínimo que ela merecia’, diz Abdel-Qader. ‘Não me arrependo. Tive o apoio de meus amigos, que também são pais e, portanto, sabem o que é aceitável ou não para qualquer muçulmano que honre sua religião’, ele disse.

Sentado em frente à sua porta, cercado por gérberas e margaridas brancas que ele plantou no jardim da família, Abdel-Qader se justifica.

‘Não tenho mais uma filha e prefiro dizer que nunca tive uma. Essa menina me humilhou na frente da família e dos amigos. Ao conversar com um soldado estrangeiro, ela perdeu o que há de mais precioso para uma mulher. Talvez as pessoas do ocidente se choquem, mas nossas meninas não são como as filhas de lá que podem dormir com o homem que quiserem e às vezes engravidar sem ter casado. Nossas meninas devem respeitar sua religião, sua família e seus corpos.’

‘Agora, só tenho dois filhos. Aquela filha foi um erro em minha vida. Sei que Deus me abençoa pelo que fiz’, ele disse, sua voz soa honrada. ‘Meus filhos estão do meu lado e eles foram homens o suficiente para me ajudar a terminar a vida de alguém que nos trouxe vergonha.’

A filha de Abdel-Qader se chamava Rand. Tinha 17 anos. Foi espancada e morta por seu pai em Basra, no Iraque, por ter conversado com um soldado britânico. Para uma amiga, ela disse que estava apaixonada pelo rapaz. Era seu primeiro amor. Não trocou mais que palavras. Horrorizada, a mãe da Rand, pediu o divórcio. Foi espancada, teve o braço quebrado. Está escondida. Os irmãos mais velhos da moça ajudaram o pai. São muçulmanos xiitas.

Abdel-Qader ficou detido por duas horas na delegacia. Aí foi liberado. Os policiais o congratularam.

Por causa da aulas, tenho lido sobre o multiculturalismo. O que um multiculturalista faria diante do que foi feito e dito acima, já que todas as culturas equivalem-se? O que fazer diante de uma expressão cultural como a defendida acima?  Será que a luta contra o etnocentrismo tem como preço o nivelamento de todas as culturas, através de um relativismo cultural, beirando o absoluto? Será que existe um mínimo moral, isto é, um espaço comum de humanidade, no qual é possível julgar valores? Existe uma racionalidade prática que possa julgar princípios morais, isto é, uma razão prática conectada a valores universalizáveis?

Creio que essa discussão tornou-se fútil, já que Rand morreu… Seria esse o problema do Discurso: ele sempre chega post mortem.