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Há 150 mil anos…

5 de maio de 2008, às 21:00h

Mas olha! Estudo invocado. Na Folha.

Lá vai: 

A segunda humanidade

Estudo genético revela que espécie humana quase se dividiu em duas há cerca de 150 mil anos

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Os bosquímanos da África do Sul sempre foram considerados povos singulares: são fisicamente distintos, preservam uma cultura de caçadores-coletores que remete aos hábitos da humanidade na Idade da Pedra e têm línguas que não se parecem com nenhuma outra (uma de suas consoantes, por exemplo, é um estalo feito com a boca). Agora, um grupo de geneticistas encontrou uma razão para tamanhas diferenças: os ancestrais dos bosquímanos estiveram a ponto de originar uma outra espécie humana.

Durante um tempo que variou de 50 a 100 milênios, os khoisan (nome comum dado a todos esses povos) estiveram evoluindo isoladamente do restante das populações de Homo sapiens, uma espécie relativamente nova e com talento para colonizar novas terras -mas que, no entanto, ainda não havia deixado a África.

Esse isolamento só se rompeu há 40 mil anos. Não fosse essa troca recente de genes, os khoisan possivelmente estariam a caminho da especiação, evento que acontece quando duas populações de organismos evoluem separadamente a ponto de não poderem mais se cruzar entre si.
“Especiação não é um termo adequado”, corrige o geneticista Fabrício Santos, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). “Deve-se falar em diferenciação. Demonstrou-se que realmente eles ficaram separados por um tempo significativo, mas não foi tempo suficiente para haver também isolamento reprodutivo, que é a marca final da especiação. Cinqüenta mil anos são 2.000 gerações, o que é um tempo relativamente curto para a evolução de novas espécies com isolamento reprodutivo.”

Marcas

Seja como for, essa longa separação entre os khoisan e o restante da humanidade deixou marcas profundas nos genes dos bosquímanos. A dimensão dessas marcas foi revelada na semana passada por Santos e colegas de várias instituições de pesquisa ao redor do mundo. Esse grupo de cientistas compõe o Projeto Genográfico, um esforço para mapear a história das populações humanas e de suas migrações ao redor do planeta olhando o DNA.

Em um artigo publicado on-line na revista científica “American Journal of Human Genetics”, o geneticista americano Spencer Wells e colegas de oito países olharam um tipo específico de DNA, contido nas mitocôndrias (as usinas de energia das células). O chamado DNA mitocondrial é um excelente contador de histórias de migração, porque escapa do embaralhamento genético ocorrido entre os cromossomos no núcleo celular durante a fecundação. Além disso, ele só é transmitido de mãe para os filhos e sofre mutações (trocas espontâneas em alguma das letras químicas A, T, C e G que compõem a molécula de DNA) a uma taxa conhecida. Estudando o DNA mitocondrial (mtDNA, na sigla) de duas pessoas quaisquer, é possível saber em que ponto do passado elas compartilharam um ancestral materno comum.

Wells e seu grupo, no entanto, não estão atrás de um ancestral de duas pessoas, mas sim dos ancestrais maternos de toda a humanidade. Para isso, eles seqüenciaram o DNA mitocondrial completo de 624 pessoas, comparando as mutações que elas têm em comum (haplogrupos) e datando as separações entre cada população de acordo com o relógio molecular oferecido pelo mtDNA (no qual uma mutação ocorre a cada 5.138 anos, em média). Isso permitiu montar a árvore genealógica materna humana.

Dois troncos

O que os cientistas verificaram foi que essa árvore não tem um único tronco e sim dois, ambos enraizados na África -que os cientistas chamam de ramo L0 e ramo L1′5.

Ao tronco L0 pertencem os khoisan. Ao L1′5 pertence basicamente todo o resto da humanidade. As linhagens que deixaram o continente africano a partir de 60 mil anos atrás e geraram desde os índios americanos até os aborígenes da Austrália, passando pelos europeus e os asiáticos, são apenas duas; as outras são todas africanas.

“Simplificando, um bantu (típico africano) é mais relacionado conosco [de ancestrais europeus ou indígenas] do que com os khoisan”, diz Santos.

Para o cientista, o achado foi uma surpresa: “Pouca atenção havia sido dada à diversidade genética na África. Sabia-se que ela era maior, mas o estudo detalhado mostrou que, na maior parte do tempo, nossa espécie esteve lá pela África, diferenciando-se internamente”, antes das migrações para fora.

A análise também indica a formação de pequenas comunidades independentes em vez de um espalhamento uniforme dos humanos modernos. O tamanho pequeno das populações provavelmente facilitou o isolamento dos ancestrais dos khoisan no sul do continente, devido talvez a uma mudança no clima. A barreira só seria rompida milênios mais tarde, quando a tecnologia “moderna” do fim da Idade da Pedra permitiu recolonizar o sul.

Há boatos de que o pessoal das cotas raciais importarão khoisans para justificar suas posições. Outros foram mais longe: _há mais khoisans espalhados no Brasil do que pensam os ant-cotistas! Eu fico é calado.

68

5 de maio de 2008, às 20:00h

Ah, enfim, uma posição sem frescura sobre 68. Tinha que ser Jacques Rancière! A crítica total a Maio de 68 só interessa a algumas posições ideológicas: direita, conservadores, TFP, carolas, DEM, liberal brasileiro, Veja, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho…

Algumas palavras-de-ordem do 68 francês;

É proibido proibir
A imaginação no poder
Sob o asfalto, a praia
Tudo, imediatamente e para sempre
O respeito se perde, não mais o procure
Expulse a polícia da tua cabeça
Somos todos judeus alemães
Sou marxista, tendência Groucho
Compraram tua felicidade, roube-a de volta
Seja realista, peça o impossível

Lá vai o artigo (na Folha): 

VAMOS INVADIR!

DE ALGOZ E SALVADOR DO CAPITALISMO, MOVIMENTO RENASCE HOJE CONTRA O SISTEMA

JACQUES RANCIÈRE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Liqüidar a herança do Maio de 68: essa foi uma das grandes palavras de ordem da campanha presidencial de Nicolas Sarkozy. Mas ele se enganou sobre a época: a liqüidação intelectual dessa herança havia começado com a chegada ao poder do Partido Socialista em 1981 e foi, basicamente, conduzida por intelectuais que se diziam de esquerda.

O que havia, portanto, de tão terrível para liqüidar? Qualquer que tenha sido a parte das ilusões e dos desprezos dessa época, uma coisa é certa: a paisagem de maio de 1968 foi a das manifestações e assembléias em pátios de fábricas em greve, enfeitados de bandeiras vermelhas ao som de palavras de ordem anticapitalistas e contra o Estado.

Na França, esse movimento foi o ponto culminante do grande “revival” do pensamento marxista e da esperança revolucionária que se alimentou, nos anos 1960, da energia das lutas de descolonização e dos movimentos de emancipação do Terceiro Mundo.

Ele acreditou encontrar seus modelos na Revolução Cubana [1959] ou na Revolução Cultural chinesa e nos princípios de um marxismo regenerado na teoria de Louis Althusser, nos chamados à ação de Frantz Fanon ou nas análises das novas formas de exploração capitalista e da resistência operária conduzidas pelos marxistas italianos.

Mas Maio de 68 foi sobretudo a revelação de um segredo perturbador: a ordem de nossas sociedades e de nossos Estados -uma ordem aparentemente garantida pela multiplicidade dos aparelhos estatais de gestão populacional e pelo intricamento das vias individuais na lógica global da economia capitalista- poderia desmoronar em poucas semanas.

Em maio de 1968, na França, quase em todos os setores, foram questionadas as estruturas hierárquicas que organizavam as atividades intelectual, econômica e social, como se subitamente se revelasse que a política não tinha outro fundamento além da ilegitimidade por trás de toda dominação.

Esse gênero de aturdimento não conduz por si só a um resultado determinado. É principalmente o questionamento de todos os esquemas de evolução histórica que atribuem a essa revolução um objetivo necessário.

Os militantes do Maio de 68 pensavam fazer a revolução marxista. Mas, ao contrário, sua ação a desfazia, ao mostrar que uma revolução é um processo autônomo de reconfiguração do visível, do pensável e do possível, e não a realização de um movimento histórico conduzido por um partido político até sua meta.

Essa lição não agrada aos sábios em revoluções e em ciências sociais. Quando a efervescência dos anos 68 terminou, com a chegada dos socialistas ao poder, o trabalho de desfiguração pôde começar.

Primeiramente, ele eliminou a dimensão internacional e, depois, a dimensão social e operária do movimento. Os 9 milhões de operários em greve e as bandeiras vermelhas em todas as fábricas desapareceram da memória.

Maio de 68 foi definitivamente consagrado como uma revolta da juventude. A juventude é tida como o tempo dos amores, e o movimento de 1968 foi assimilado a uma aspiração dos jovens a abolir o jugo paterno e os tabus sexuais. Mas por que uma reivindicação inerente à própria natureza da juventude teria esperado até então para provocar essa insurreição em massa?

A resposta estava pronta: o que motivou essa insurreição da juventude foi, disseram, o frenesi de consumo nascido da prosperidade dos anos 50, foi a incitação ao gozo desenvolvida, com suas vitrinas e sua publicidade, pela triunfante sociedade de consumo.

Na verdade, a crítica a essa sociedade havia sido uma das grandes palavras de ordem do movimento de 1968, mas pouco importa: Maio de 68 tornou-se retrospectivamente o movimento de uma juventude impaciente para gozar todas as promessas do livre consumo do sexo e das mercadorias.

Peso desastroso

Nos anos 60, sociólogos americanos já haviam reconvertido suas esperanças revolucionárias frustradas em crítica aos perigos do individualismo consumidor para o bem público. Os esquerdistas franceses reconvertidos dos anos 80 retomaram maciçamente o tema.

Assim, o movimento de 1968, depois de ser reduzido a transbordamentos de juventude sem conseqüência para a ordem social, viu-se carregado, ao inverso, de um peso histórico desastroso. Era, diziam eles, a insurreição do individualismo democrático destruindo todas as estruturas de autoridade que mantinham a vida social: família, religião ou escola.

Ao transformar a sociedade inteira em uma agregação de consumidores narcisistas, desligados de qualquer elo social, ele garantiu o triunfo definitivo do mercado capitalista.

Mas ainda não bastava. Era preciso provar que ele havia oferecido ao capitalismo não somente seus sonhados consumidores, mas os meios para sua reorganização.

Dois sociólogos -Luc Boltanski e Eve Chiapello- publicaram em 1999 “Le Nouvel Esprit du Capitalisme” [O Novo Espírito do Capitalismo], destinado a sustentar uma tese simples: se o capitalismo em dificuldades havia conseguido superar a crise dos anos 70, foi graças às idéias emprestadas da “crítica artista” realizada pelos estudantes -o privilégio dado à livre criatividade e à atividade em rede contra as estruturas de direção tradicionais.

A verborragia da filosofia gerencial servia como peça de convicção para apoiar a tese de um capitalismo à moda de 68, transformando o executivo em treinador, favorecendo o dinamismo individual de assalariados tolerantes e flexíveis, envolvidos com entusiasmo em estruturas leves e inovadoras.

Na verdade, esses temas de um capitalismo “new look” foram elaborados antes de 1968. E, principalmente em nome da globalização, o patronato soube encontrar meios de pressão sobre os salários e a produtividade de seus empregados mais diretos que esses idílios para seminários de gerentes.

Ressurgimento

Mas, assim, a grande inversão estava concluída. Maio de 68 estava consagrado como o providencial salvador do capitalismo decadente. Sarkozy podia chegar. Não havia mais nada para liqüidar.
Mas isso quer dizer justamente que a tendência podia começar a se inverter. Este aniversário deveria ser um enterro definitivo. Mas foi, ao contrário, a ocasião para ressurgir uma multiplicidade de testemunhos e documentos que reatualizam o teor político do movimento e seu caráter anticapitalista de massa.

A liqüidação da liqüidação talvez tenha começado.


JACQUES RANCIÈRE é professor na Universidade de Paris 8 e autor de “O Dissenso” e “A Partilha do Sensível” (ambos pela ed. 34). Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves .

A sinceridade fascista

5 de maio de 2008, às 20:00h

Entrevista de militar francês na Folha. Causa arrepios. O fascismo rondou sempre a França. Não fosse a primeira guerra mundial e o descalabro alemão, talvez, o fascismo e o antisemitismo (vide Caso Dreyfus) aparecessem primeiro na terra do coq au vin. Hoje, o fascismo ainda ronda a política francesa — Le Pen que o diga! Aliás, o peso eleitoral do fascismo francês é ainda maior do que o do italiano.

Interessante é a citação do nome de Figueiredo, nosso general-presidente que adorava o cheiro do povo, envolvendo seu nome num caso de tortura.

Lá vai:

LENEIDE DUARTE-PLON
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

O GENERAL francês Paul Aussaresses, 89, é a memória viva dos atropelos aos direitos humanos praticados durante a ditadura brasileira (1964-1985). Ex-agente do serviço secreto da França, veterano das guerras do Vietnã e da Argélia, Aussaresses colaborou com o regime militar no Brasil, ensinando aos oficiais técnicas de tortura e também de combate à guerrilha.

“No curso, os estagiários representavam o papel dos torturadores e dos torturados”, afirmou o militar reformado, no livro “Je N’ai Pas Tout Dit - Ultimes Révélations au Service de la France” (Eu não contei tudo - últimas revelações a serviço da França), que acaba de ser lançado em Paris.
A obra é uma série de entrevistas concedidas ao jornalista Jean-Charles Deniau. Em suas revelações, Aussaresses revelou que o governo Médici forneceu armas e aviões para o golpe militar que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. E vai além, ao relatar que o ex-presidente João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), o telefonou para dizer que seus homens haviam torturado e matado um “francês subversivo”, em referência a Laurent Schwartz.

Aussaresses recebeu a Folha para uma longa entrevista na casa que tem na Alsácia. Não se furtou a reiterar tudo o que disse no livro e acrescentou que não se arrepende de nada, mesmo que seu livro anterior o tenha levado a responder a um processo por “apologia de crimes de guerra”. “Acho que Figueiredo apreciou minha conduta em relação aos brasileiros.
Minha colaboração foi frutuosa para eles e para nós”, disse. 

 

FOLHA - O senhor viveu no Brasil entre 1973 e 1975. Qual sua missão junto à embaixada francesa?
PAUL AUSSARESSES - Eu era adido militar.

FOLHA - O sr. fazia trabalho de informação?
AUSSARESSES
- É isso que os adidos militares fazem. Todos eles se informam sobre o que pode interessar a seus países e sobretudo as necessidades do país no qual servem, do ponto de vista do que podemos vender a eles.

FOLHA - Naquela época, a França já vendia armas ao Brasil?
AUSSARESSES
- Claro. Havia muito tempo existiam adidos militares no Brasil. O chefe era do Exército, mas havia um da Aeronáutica e um oficial de Marinha. O Brasil tinha se interessado pelos aviões franceses fabricados pela Société Dassault. O Mirage.

FOLHA - Em seu livro, há um capítulo em que o senhor narra os cursos de interrogatório e informação a oficiais no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus. Quais eram suas atribuições?
AUSSARESSES
- Eu dava aulas nessa escola militar porque tinha sido instrutor das Forças Especiais do Exército Americano no Fort Bragg. Fui nomeado instrutor dos pára-quedistas da infantaria americana em Fort Benning, na Geórgia, e me pediram para ser também instrutor em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Isso foi nos anos 60. Nessa escola, encontrei oficiais estagiários das forças especiais de vários países da América do Sul.

FOLHA - Inclusive do Brasil?
AUSSARESSES
- Exatamente.

FOLHA - Quem eram esses oficiais?
AUSSARESSES
- Não me lembro de seus nomes. Lembro de Umberto Gordon, que se tornou chefe das Forças Especiais do Chile, a DINA, o serviço secreto de Pinochet. Éramos muito amigos.

FOLHA - O senhor chegou ao Brasil em outubro de 1973, pouco depois do golpe militar do Chile. O Brasil participou ativamente no golpe contra Allende?
AUSSARESSES
- Que pergunta! Você pensaria que sou um idiota se não estivesse a par. Claro que o Brasil participou!

FOLHA - O senhor conta no livro. Gostaria que repetisse. O Brasil enviou aviões e armas?
AUSSARESSES
- Mas claro, armas e aviões.

FOLHA - E enviou oficiais também?
AUSSARESSES
- Sim, claro. As armas não sei dizer exatamente quais. Mas os brasileiros enviaram aviões franceses com projéteis fabricados na França pela sociedade Thomson-Brandtà

FOLHA - Para a qual trabalhou depois, quando saiu do Exército.
AUSSARESSES
- Exatamente.

FOLHA - O senhor foi muito amigo de João Baptista Figueiredo, chefe do SNI e último presidente militar. Ele e o delegado Sérgio Fleury eram os responsáveis pelos esquadrões da morte brasileiros, como o senhor escreveu?
AUSSARESSES
- É uma maneira de falar. Nós não chamávamos assim. Sérgio Fleury era o responsável pelos esquadrões da morte e Figueiredo, pelo SNI. O embaixador Michel Legendre não podia ouvir falar de esquadrões da morte.

FOLHA - O sr. diz que o embaixador não suportava Sérgio Fleury. E de Figueiredo, tinha melhor impressão?
AUSSARESSES
- Um dia o embaixador me disse: “Você tem amigos estranhos”. Eu respondi: “São eles que me permitem manter o senhor bem informado”. Ele não disse mais nada.

FOLHA - Como seu trabalho era importante para a França?
AUSSARESSES
- Todas as informações são importantes. Mas era sobretudo para mostrar que a França era um país amigo. Os brasileiros tinham a necessidade de tal material, estávamos dispostos a vender. Tinham necessidade de fabricar.

FOLHA - De quais materiais?
AUSSARESSES
- Materiais de aviação. Tínhamos conhecimentos técnicos, mas o que era importante é que podíamos ir aos nossos superiores pedir informação para os brasileiros.

FOLHA - No livro o sr. narra o episódio de tortura de uma mulher que veio ao Brasil para, segundo o general Figueiredo, espionar o senhor. Figueiredo o fez vir de Manaus às pressas para mostrar a moça, já irreconhecível depois das sessões. Ele depois o informou que ela morrera no hospital. Nunca questionou o método bárbaro usado para obter informações daquela mulher?
AUSSARESSES
- De jeito algum! A morte dessa mulher era um ato de defesa.

FOLHA - Qual é sua impressão sobre os presidentes militares: Ernesto Geisel, João Figueiredo e Garrastazu Médici?
AUSSARESSES
- Ernesto Geisel era um homem racional, de uma profunda moralidade. Era um homem que tinha uma fé religiosa e respeitava as regras da moral cristã que considera que os homens merecem viver numa atmosfera de ordem que lhes permite trabalhar, cuidar da família.
De Emilio Garrastazu Medici tenho boas lembranças. Conheci-o na embaixada da França, conversamos em português. João Figueiredo era adorável, sedutor. Era o chefe do SNI quando eu cheguei como adido. O representante francês dos serviços especiais no Brasil me disse: “Todo mundo sabe que você fez parte do serviço de inteligência francês, principalmente do “Action”, logo, não deve esconder. Você vai encontrar Figueiredo, chefe do SNI, não esconda que você pertenceu ao serviço equivalente na França”.

FOLHA - E vocês ficaram amigos?
AUSSARESSES
- Muito amigos. Acho que Figueiredo apreciou minha conduta em relação aos brasileiros. Minha contribuição foi apreciada. Minha colaboração foi frutuosa para eles e para nós.  

FOLHA - Quais são os fundamentos que justificam o uso da tortura numa guerra ou como no caso do Brasil, nos anos 60 e 70?
AUSSARESSES
- Acho que, se podemos evitá-la, nada a justifica.

FOLHA - E quando é que não se pode evitá-la?
AUSSARESSES
- Quando a ação terrorista adversa quer ter efeitos de propaganda e tem por vítimas sobretudo mulheres e crianças. Penso que, se a tortura pode evitar a morte de inocentes, ela se justifica. É meu ponto de vista. Não a aprecio, não a aprecio, não a aprecio.

FOLHA - Na Argélia, o sr. e o general Jacques Massu estavam de acordo com todos os métodos de informação, inclusive a tortura?
AUSSARESSES
- Totalmente de acordo. Mas quando houve o ataque de Philipeville, Massu ainda não estava comandando os pára-quedistas. Descobri que ia haver um ataque porque havia compras diárias de uma enorme quantidade de farinha de cuscuz num armazém. E tudo era comprado em dinheiro. E as notas de dinheiro vinham da França, do salário dos operários argelinos. Foi meu serviço de informação que descobriu tudo.

FOLHA - Parece que foi por causa de compras em uma aldeia que Che Guevara e seu grupo de guerrilheiros foram descobertos na Bolívia.
AUSSARESSES
- Penso que Che Guevara era um homem brilhante, muito inteligente mas ambicioso. Ele queria substituir Fidel Castro, mas Fidel não estava apressado em deixar o posto de chefe de Estado de seu país e enviou-o em missão à Bolívia com outro homem muito brilhante que ainda está vivo, Régis Debray. Então, Fidel Castro quis dar uma ocupação a esses homens brilhantes e enviou-os em missão à Bolívia.

FOLHA - O sr. pensa que Fidel Castro armou uma cilada?
AUSSARESSES
- Eles eram brilhantes, mas bebiam muito e os espiões de Fidel Castro ouviam o que eles diziam. E eles escreviam também, escreviam demais e quando foram para a Bolívia as forças de segurança bolivianas sabiam de todos os detalhes dos deslocamentos deles. Debray foi capturado rapidamente e depois encontraram sua agenda, uma bela agenda Hermès, de couro.

FOLHA - E quem os denunciou?
AUSSARESSES
- A tagarelice deles.

FOLHA - Mas a CIA [serviço de inteligência dos EUA] estava na Bolívia.
AUSSARESSES
- Claro, que dúvida!

FOLHA - O senhor foi sempre anticomunista?
AUSSARESSES
- Sempre. Não me vanglorio disso, mas também não nego.

FOLHA - Hoje, após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, qual seria o grande perigo para um país como a França?
AUSSARESSES
- A organização terrorista maometana, árabe, os islâmicos.

FOLHA - A maioria dos militares pensa que o dever é manter o silêncio. Por que o sr. resolveu falar?
AUSSARESSES
- Porque penso que era meu dever falar.

FOLHA - Mesmo arriscando a sua reputação?
AUSSARESSES
- Há regras de vida e da carreira militar que tratam do dever. Eu fiz o que era meu dever.

FOLHA - No livro anterior, “Services Spéciaux - Algérie 1955-1957″ (Serviços especiais - Argélia 1955-1957), o sr. contou a participação na guerra da Argélia, inclusive o uso da tortura. Em 2003, foi processado por apologia a crimes de guerra, mas não houve condenação. Os crimes estavam prescritos e anistiados. Por que agora esse livro de entrevistas?
AUSSARESSES
- Fui levado à Justiça por apologia à tortura. Disse que não era verdade e que escreveria outros livros para me justificar de tudo o que tinha feito em missões fora da França. Escrevi um outro livro depois, que era uma resposta aos ataques injustos contra mim. O livro é “Pour la France, Services Spéciaux, 1942-1954″ (Pela França, serviços especiais)

FOLHA - O senhor se arrepende de algo que fez?
AUSSARESSES
- Não me arrependo de nada. E recusei uma proposta que me foi feita no tribunal, quando fui acusado de fazer a apologia da tortura, o que não é verdade. Meu advogado e meu editor me propuseram declarar que eu me arrependia do que fizera e do que escrevera.
Não posso, não me arrependo, eu seria desprezado por minha mulher. Minha falecida esposa era uma heroína da Resistência Francesa antinazista, foi ferida em combate. Fomos casados por mais de 50 anos. Ela morreu e depois me casei novamente. E, se eu escrever que me arrependo, merecerei o desprezo de minha atual esposa. Recusei o arrependimento que me propunham e fui condenado.