Duas cartas
3 de maio de 2008, às 22:56h
Leio, agora, o livro “O teatro das idéias: prosa crítica de Bernard Shaw”, especialmente a seção Mundus Mullieris, na qual estão algumas cartas amorosas de Shaw. Publico, aqui, duas cartas, nas quais o tom de irritação é bem engraçado. Shaw era impetuoso e um tanto intempestivo. Uma vez, disse que “um estilo só pode chegar até onde chegam suas idéias”. E ele foi longe, nas idéias e nas emoções.
Carta a Florence Farr Emery (saindo cedo de uma reunião na Sociedade Fabiana para visitar a sra. Emery, Shaw “encontrou o lugar às escuras” e anotou no diário “Vagueei desapontado…”). Shaw levou uma sobrada e, com isso, foi acometido de tragédia. Vejam sua reação (posso até compreendê-la, afinal…):
29 Fitzroy Square W.
4 de maio de 1891Mulher de olho mau, miserável, o que você fez? Quando a minha necessidade estava no auge, e o meu cansaço no ápice, o meu amor no cúmulo do mais sagrado, encontro a escuridão, o vazio, a ausência. Não posso crer agora que voltemos a nos encontrar. Os anos passaram por mim — longos e solenes: amiguei-me com a minha amante da juventude, a solidão, e vagueei com ela a esmo, mais uma vez, perambulando como a lua insatisfeita. Meu coração verteu lágrimas — lágrimas de desapontamento mortal, a recordar-me dos dias em que o desapontamento parecia ser a minha sorte inevitável e constante. Perdi a fé em todas as realizações e perdi a confiança desde então: quaisquer que tenham sido meus sonhos, dormi onde nasci, no vale das sombras. Como você pôde fazer isso? Será que não existem fluidos sutis, fios telepáticos que lhe avisem quando o capítulo dos acidentes rompe os meus grilhões? Essa seria a maior de todas minhas maiores felicidades, a mais profunda e descansada de todas as minhas máximas tranquilidades, o mais íntimo de todos os meus amores. E ele me foi roubado, no momento em que eu ia abraçá-lo, por seu capricho, seu desbragado capricho — você me disse que não tinha nada para fazer. E eu maquinei tão engenhosamente, tão pacientemente; mandei minha mãe à ópera; induzi um colega a romper um compromisso que eu tinha com ele; saí cedo de uma reunião e passei a outro as notas; e pra quê? Desgraçada! Desgraçada sem coração, egoísta, indiferente! Você está reprovada um milhão de vezes, para todo o sempre. Adeus: toda a felicidade que eu lhe devia está cancelada e o saldo agora está do outro lado — um enorme déficit, incalculável, incompensável. Você nunca poderá me pagar.
G.B.S
Carta de Bernard Shaw a Stella Campbell (Stella, que Shaw tinha em mente quando escreveu o papel de Cleópatra, tornou-se a Cleópatra da sua própria vida em 1913, quando pôs em risco a carreira e o casamento, oferecendo-se para fugir com ela. O encontro, no hotel Guilford, Sandwich, malogrou, pois ela chegou e em seguida fugiu, dando-se conta de que as vidas de ambos poderiam ficar destruídas. “Tive de me comportar como um homem — e como um cavalheiro”, ela escreveu-lhe depois, “não foi?”. Shaw ficou arrasado — por quase um mês. Ele tinha então 57 anos e Stella, 48. Um ano depois ela representou Eliza Doolittle — de dezoito anos — no Pigmalião, de Shaw). A reação de Shaw é melodramática e orgulhosa:
The Guilford Hotel, Sandwich.
11 de agosto de 1913Muito bem, vá: a perda de uma mulher não é o fim do mundo. O sol brilha; é gostoso nadar; é bom trabalhar; minha alma pode estar só. Mas estou muito, muito, muito ferido. Você me experimentou e não se sentiu à vontade; não consigo dar-lhe paz, nem descanso, nem mesmo diversão; afinal, na nosas relação não há nenhuma franqueza. Eu é que tenho sido feliz, descuidado e feliz, à vontade, capaz de andar quilômetros depois do jantar, bem depressa, para estar com você, cantando pelo caminho (aliás, andei treze quilômetros de manhã e escrevi uma cena da minha peça); capaz de sentir um sono sadio e bem-humorado depois, ao ver que você estava mal-humorada e que o vento estava soprando na direção errada. Bah! Você não tem coragem; não tem cérebro; você é a caricatura de um homem sentimentalista do século XVIII, uma Hedda Gabler enfeitada com as roupas do armário de Burne Jones; você não sabe nada, pobre coitada, e aprendeu tudo ao contrário; fica ofuscada com a luz do dia; corre furtivamente atrás da vida, mas, quando ela surge e lhe abre os braços, você foge ou então se encolhe e grita; você é a desgraça e a cegueira de um homem, e não sua coroa “acima de qualquer rubi”; ao invés de ficar com o mundo para si, você se afasta, se exclui, se preserva; ao invés de mil encantos para mil pessoas diferentes, você tem um só fascínio e sai por aí com ele, desferindo golpes a torto e a direito em velhos e jovens, criados, crianças, artistas e filisteus; você é uma atriz de um papel só e o papel não é de verdade; você é uma coruja e ficou tonta com dois dias do meu sol; eu tratei você bem demais, idolatrei, entreguei meu coração e minha cabeça (entrego para todo o mundo) para você fazer o que quisesse; e o que você quis fazer foi ir embora. Pois vá: o meu ar puro queima os seus pulmõezinhos; vá buscar um pouco de ar abafado que lhe faz bem. Você não vai casar com George*! No último momento você vai fugir de medo ou vai ser trocada por alguma alma mais corajosa. Você feriu a minha vaidade: audácia inconcebível. Crime imperdoável.
Adeus, infeliz que eu amei.
G.B.S
(*) George Cornwallis (uau, que nome!) West, que era muito mais jovem que a sra. Campbell. Eles se casaram em abril de 1914, quando Pigmalião estava sendo ensaiada.
Gostei do “crime imperdoável”! Mulheres, jamais ousem ferir a vaidade de um homem! Bem… er… eu só peço um pouco de carinho, por favor.








