Archive for abril, 2008

Orelha do Livro da Semana

14 de abril de 2008, às 23:14h

Transcrevo a orelha do livro de Ivan Domingues, “Epistemologia das Ciências Sociais, Tomo I: positivismo e hermenêutica, Durkheim e Weber”, Edições Loyola, 2004. O cabra é professor da UFMG, sendo especialista em teoria do conhecimento. Tenho ainda de sua lavra, “O fio e a trama: reflexões sobre o tempo e a história”, editora Iluminuras, 1996, e de sua organização, “Conhecimento e transdisciplinaridade”, UFMG/IEAT, 2004. Quem escreveu a orelha foi Marcelo Perine, professor da PUC/Rio (muito fraquinha, mas vá lá…).

Lá vai:

Este primeiro tomo de Epistemologia das ciências humanas, Ivan Domingues, apresenta ao estudioso das ciências humanas a primeira parte, dedicada a Durkheim e Weber, de um panorama que só vai se completar com a publicação do segundo tomo sobre Marx e Lévi-Strauss. Entretanto, desde agora o leitor pode ter uma idéia da magnitude do projeto em curso e da acribia com que vem sendo realizado.

Fruto de uma longa familiaridade com os problemas relativos ao conhecimento humano, o Autor não poupa a seus leitores o esforço de cavar em torno dos fundamentos da questão. Embora a segunda e a terceira parte da obra possam polarizar a atenção do leitora já a partir do subtítulo, é na primeira parte que se encontra a ponta do diamante do labor filosófico do autor.

Com efeito, ao discorrer sobre as “formas de racionalidade e estratégias discursivas das ciências humanas na contemporaneidade”, o Autor enfrenta com acuidade problemas de epistemologia geral e suas implicações para as ciências humanas, tais como a questão dos paradigmas e modelos nas ciências humanas, seus padrões de cientificidade, seus esquemas de interpretação e suas exigências de verdade e de objetividade.

A grande coerência de uma obra tão extensa se deve, antes de tudo, ao fato de fazer da segunda e terceira partes uma espécie de campo de prova dos resultados obtidos em torno das questões epistemológicas fundamentais, desenvolvidas a partir do argumento do conhecimento criador. Sendo a coerência uma das virtudes maiores do discurso filosófico, o leitor tem motivos mais que suficientes para esperar verificá-la no já anunciado segundo tomo sobre Marx e Lévi-Strauss. 

Por que os coiotes uivam?

13 de abril de 2008, às 20:55h

Post antigo…


Um coiote uivando no bosque de Intermares.

Muitas vezes, não é fácil minha relação com os paraibanos; talvez, porque insistam em desmerecer minhas afirmações. Eu digo algo e não me dão crédito. Quando falo e explico alguma coisa, na maior parte do tempo, ficam calados; mas, não posso reclamar de um fato: eles me escutam. Darei um exemplo: ontem, tive uma conversa com um amigo sobre a presença de coiotes em Intermares.

_Não há coiotes por aqui, Artur - disse meu amigo, dando aquele suspiro abominável, que significa, entre os paraibanos, descrença.
_Há, sim. Eles estão surgindo e uivando macabramente nas noites de chuva.
_Devem ser cachorros. Os cães também uivam.
_Nunca escutei cão uivar. Por que uivariam?
_Por que os coiotes uivam?
_Perguntei primeiro, carai. Pra que virar um espelho e refletir as perguntas que faço? Você é lacaniano? Só temos, aqui, uma certeza: os coiotes uivam. Duvido que tenha fé sobre o uivo dos cães.
_Rapaz, parti da seguinte premissa: não há coiotes em Intermares; logo, quem uiva são os cães. Ou tem lobisomem em Cabedelo?
_Lobisomem uiva?
_Que eu saiba, sim. Em todo filme americano, o lobisomem uiva.
_Mas não há lobisomens em Intermares…
_Assim como não há coiotes…


Um coiote mal-humorado no inverno de Intermares.

Percebam, leitores, como é difícil a conversa com um paraibano. Eles são teimosos e inseguros, ao mesmo tempo. É uma combinação explosiva. Duvidam de um ponto, insistem nele, duvidam novamente, voltam a insistir, num círculo retórico infernal.

Para fins de convencimento, decidi mostrar ao meu amigo as gravações, que fiz, dos uivos dos coiotes. Eram lamentos impressionantes. Davam calafrios, mas também tristeza. Parecia o anúncio do fim do mundo ou do tsunami que destruirá Intermares, segundo o cientista cearense Vancarder, após a explosão de um vulcão nas Ilhas Canárias.  Porém, o paraibano não se convenceu e insistiu na tecla dos uivos de cachorros. Diante de mais uma incredulidade, decidi levá-lo à praia de Intermares. Queria encontrar pegadas de coiote e, com isso, acabar com a polêmica.

Encontrei logo pegadas de coiote. Achei a descoberta uma obviedade, pois estava na cara que Intermares está repleta dessa espécie de lobo. Mas meu amigo duvidou e perguntou:

_Qual é a diferença entre pegadas de coiotes na areia e pegadas de seus primos, os cães?

Ele se abaixou e ficou olhando de perto a pegada. Meneou a cabeça e afirmou que aquilo ali era uma pegada de cachorro. Confesso que fiquei um tanto irritado; afinal, tive o trabalho de levá-lo até a praia e mostrar uma autêntica pegada de coiote. Mas não, o cabra insistia que era uma de cão.

_Veja, essa pegada não tem marcas de garras. As garras dos cães tendem a ser mais longas, já que eles passam pouco tempo cavando.
_Isso não prova nada. A elite paraibana corta as unhas de seus cães!
_ Como assim?! - só faltava essa: uma afirmação sociológica sobre os hábitos da elite paraibana que desmentia minha prova factual.
_A elite paraibana copia a elite carioca e gaúcha. Todos cortam as unhas de seus cachorros. Sei, sei, é um costume ridículo, mas (o que podemos fazer?) os cariocas e os gaúchos são muito esquisitos.

Fiquei calado, pensando. Então, tive uma bela de uma intuição. Levei meu amigo para um lugar mais alto. De lá, dava para ver não apenas uma pegada, mas várias, uma trilha de pegadas, mais precisamente.

_Veja, olhe a trilha. As pegadas seguem uma extraordinária linha reta e estão em fila única. Um cão não deixa uma trilha assim. Olhe as patas traseiras alinhadas de forma perfeita com as patas dianteiras. A trilha de um cachorro é, geralmente, desordenada, já que o cachorro, feito um alesado, corre pra lá e pra cá. O cachorro é bem alimentado, o coiote não. Economia de calorias, meu caro.
_E um vira-lata?
_Mesmo um vira-lata não deixaria esse alinhamento tão perfeito. Além do mais, eles são bem alimentados; têm as latas de lixo. Você já viu um vira-lata numa praia? A elite paraibana não deixa — tentei ironizar.


Um coiote pronto para atacar uma tartaruga de Intermares!

Desta vez, quem ficou calado foi meu amigo. Ele parecia mais ou menos convencido da existência de coiotes em Intermares. Mas, como todo paraibano, precisava contestar alguma coisa:

_Mas… o que explica o uivo do coiote?
_Não sei… eu…
_Não gasta energia?
_De fato, gasta um bocado. O uivo não seria um chamado geral para a trepação entre coiotes? — eu disse, tentando salvar a ciência, a racionalidade e a evolução.
_Não há qualquer indício disso nas pesquisas sobre coiotes. O seu uivo é um mistério - disse meu amigo, agora um especialista em coiotes.
_Não sei…
_Acho o uivo um comportamento sem relação alguma com a adaptação, logo, não seria antidarwiniano? O uivo do coiote não demonstra que a teoria da evolução está errada? Não é a prova de que Deus existe?
_O uivo?!
_É, o uivo.
_Assim, sem mais, nem menos?
_É, o uivo.

Não retruquei, apenas dei meia-volta e abandonei as provas cabais da existência do Canis latrans. Provei a um paraibano que existiam coiotes em Intermares, mas perdera a discussão por causa de uma simples questão metafísica. Não esperava por aquilo. O uivo dos coiotes cravou incertezas na minha alma. Como ser ateu e tolerar o uivo do coiote?

Voltamos calados e calados ficamos

Pensamentos (absolutamente) obscuros

13 de abril de 2008, às 20:44h


Chove em Intermares e não é nenhum golpe de Estado!

Chove pra carai, aqui, em Cabedelo. Não sei mais o que fazer. É de lascar. É o dilúvio. O fim do mundo — não deixa de ser irônico — começa justamente em Intermares?!

Só me resta pensar. E penso de forma sombria, fria e chuvosa… Acho que estou com dor de cabeça, também.

Estia um pouco, mas aproximam-se rapidamente nuvens negras. Vejo lá embaixo, pastando e cagando no gramado, várias vacas e bois . Percebo que já existem alguns cogumelos nas bostas dos ruminantes. Cogumelos? Achei a cura para minha dor de cabeça! Produza uma vasodilatação cerebral e terá um efeito analgésico imediato. Claro, há alguns efeitos colaterais e… deixa pra lá! Boto a capa, pego o guarda-chuva, desço até o gramado, colho os cogumelos, subo, faço um chá, sento na varanda, olho a chuva, tomo a infusão e começo a pensar…


Baseando-me nalgum filósofo, cujo nome esqueci completamente, absolutamente, diria que, sem mais nem menos, aconteceu uma revolução a partir de 1870, na Europa e na Rússia, em que a linguagem separou-se de vez do referente. Seus protagonistas seriam, fundamentalmente, Mallarmé e Rimbaud: o primeiro defendeu uma “ausência real”, e fez desaparecer qualquer ligação entre a palavra e o mundo exterior, apenas existindo o mundo interior da linguagem; o segundo operou uma desconstrução da primeira pessoa do singular, explodindo o ego numa pluralidade sem limites: “je est un autre”.


Qual é o filósofo? Mais um golinho de chá…

Vale frisar que, mesmo o ceticismo antigo, tipo Hume e Montaigne, mantinha uma fidelidade à linguagem, escapando assim de um completo niilismo ontológico. Não há, aqui, uma dúvida autêntica que colocasse em xeque a utlização do aparato linguístico para colocar em evidência as incertezas, os limites, as ilusões; em suma, não se coloca em dúvida o comércio discursivo do homem com aquilo que ele considera como fatos. A linguagem, no caso, é usada ainda como um instrumento de verdade. Com o ceticismo moderno, a verdade da palavra é a ausência do mundo.


Recalquei o nome do filósofo. Efeito do chá? Mais um golinho…

Existe um mistério que seria o da recepção estética. De Platão a Freud, a especulação ocidental se baseou na intuição do re-conhecimento, do déjà-vu, do déjà-entendu. Uma sensação de novo re-encontro.

A arte é anterior ao mito? O mito não teria suas raízes e sua eficácia na gramática e na linguagem? Já a arte não teria suas raízes profundas no começo e nas origens do homem, num mundo ainda pré-gramatical, onde a música  iniciava o processo de construção de uma identidade de si?


Enquanto o chá traz a analgesia, embora um dos seus efeitos colaterais seja o esquecimento, penso nas instigantes questões de Robin Lane Fox no seu livro “Bíblia - verdade e ficção”:

“1) Qual seria exatamente a posição da primeira mulher como ajudante do homem: era ela uma igual ou uma subordinada, antes que os dois desobedecessem a Deus?
2) Como devemos imaginar as primeiras horas de nossos primeiros ancestrais?
3) Estavam nus, mas eram imortais, contanto que permanecessem inocentes: seriam talvez semelhantes a crianças, como hoje tendemos inicialmente a imaginá-los, até descobrirem os fatos da vida e serem lançados na vida adulta? Ou seriam mortais desde o início, e desde sempre sexualmente ativos em seu primeiro jardim das delícias, como tantos rabinos judeus e John Milton os apresentaram?”


O efeito do chá vai passando. O mundo recobra, aos poucos, seu enfado. As cores desaparecem e tudo fica cinza. Ao longe, escuto o ruflar de tambores celestiais. É a alma do céu que geme de dor. E o mundo começa a chorar. É o inverno sobre as casas.

O sentido de nada

13 de abril de 2008, às 12:56h

sacerdotisa.jpgA leitura gera associações, ainda mais ao se ler um conto que parece perfeito para estabelecer relações funcionais entre estados e atividades psíquicas: “Loteria em Babilônia” de Jorge Luis Borges (para quem quiser ler o conto, aí vão a tradução em português e a versão original em espanhol). Bem, não tenho o costume de analisar produções literárias. Não é fácil. Quando leio ficção, tenho a tendência a fazer associações um tanto obscuras, muitas delas completamente fora do contexto. E a leitura do conto levou-me longe, bem longe, inclusive para fora da fronteira temática do próprio conto. Além disso, acho Borges, muitas vezes, incognoscível, por isso, passível  das mais variadas interpretações.

O conto fala de uma sociedade tomada completamente pelo jogo lotérico e dominada pela companhia responsável pela loteria. Tudo vira loteria e a companhia passa a controlar o arbitrário e a contingência da vida cotidiana. Vira uma sorte de Estado Ideal Totalitário ou uma espécie de deus. Poderia insisitir nesse tema e nessa associação, mas, para o bem ou para o mal, embrenhei-me num caminho diferente e fiquei matutando sobre a loteria. Na verdade, fugi do conto. Fiz algumas associações e me lembrei de algumas análises de meu filósofo favorito, Daniel Dennett, sobre adivinhações. E fiquei pensando… De uma certa forma, a loteria decide nosso destino; não precisamos tomar mais algumas decisões na vida, pois a loteria já “decidiu” por nós. Igualmente, a adivinhação serve para resolver diversos problemas, “tomando” uma decisão que seria, normalmente, de nossa estrita responsabilidade.

Dennett diz que é difícil tomar decisões na vida, e que uma das formas mais fáceis de decidir é apelar para a adivinhação. Pego o emprego ou não, peço o divórcio ou não, entrego meu coração ou não, faço isso ou faço aquilo. Sim, a decisão não é fácil e, até mesmo, envolve um “cálculo” mais ou menos complexo, com muitas variáveis, inclusive diversas do tipo não-racional. Qualquer coisa que alivie o fardo decisório é interessante. Há vários exemplares no mercado do aleatório: cara ou coroa, por exemplo. Esse procedimento gera uma certa paz espiritual, pois deslocamos, com isso, a nossa responsabilidade para algo exterior, independente de nossa vontade.

Tentei implementá-lo no departamento de ciências sociais da UFPB, alegando que a Morte do Sujeito, tão defendida pelos pós-pós da academia, livrava-nos das tomadas de decisão; afinal, sem sujeito, não há escolha, logo, não há propriamente responsabilidade. Fiz ver aos meus pares que poderíamos deslocar nossa vontade para outras estruturas de escolha, principalmente as aleatórias, e que seríamos apenas vetores dessa estrutura, o que corroboraria algumas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas, mas fui voto vencido, infelizmente.

No fundo, até concordo com a decisão dos meus colegas, pois ”cara ou coroa” é muito simples e rudimentar. Para decisões difíceis, tipo “façamos mais uma greve e desmoralizemos de vez a universidade pública”, esse artifício é insuficiente. Como diz Dennett, a escolha precisa de um bom motivo. E, depois do resultado do “cara ou coroa”, tem-se que aceitar a decisão – ou não?! Eis o problema. Por isso, precisamos de algo mais forte. Se possível, algum procedimento com grandes cerimoniais e que envolva entidades além de nossa compreensão. Se temos a necessidade de deslocarmos a responsabilidade das decisões para algum processo externo à nossa vontade, que seja um que tenha uma certa “intencionalidade”, isto é, que assuma, justamente, alguma responsabilidade. A cerimônia é importante, pois solidifica o deslocamento da responsabilidade e “encarna” o procedimento randômico, valorizando-o simbolicamente. Com tudo isso, caso a decisão não dê certo, pelo menos temos um culpado ao alcance de nossas projeções. Outra vantagem: não precisamos compreender como funciona o processo. Aliás, o desconhecimento é vital e ajuda a fortalecer a legitimidade do deslocamento.

Cá entre nós, isso é muito reconfortante.

(como ateu, tenho uma incapacidade muito grande de deslocar minhas responsabilidades. Por isso, vivo culpado. O jeito é sempre acusar o capitalismo e a burguesia das decisões equivocadas que pululam nesse mundo velho e enfadado)

Pensando nisso, sugeri aos meus colegas (claro, não desisti de convencê-los da minha empreitada, pois a responsabilidade envelhece-me a cada dia) uma série de exteriorizações de responsabilidades. Uma antropóloga poderia jogar flechas ao léu (belomancia); um cientista político, bastões (rabdomancia); uma bruxa do departamento, ossos ou cartas (sortilégios); um sociólogo poderia interpretar folhas de chá (tasseografia); eu mesmo poderia examinar algum fígado de animal (hepatoscopia), exceto o de pequenos cachorros (por causa de Ideafix), ou alguma outra víscera (haruspicia); tenho um amigo psicólogo e behaviorista que poderia facilmente interpretar o comportamento dos roedores (miomancia) e outro, dessa vez filósofo, o comportamento das nuvens (nefomancia)…

Bem… er… mais uma vez fui voto vencido.

Minha derrota, talvez, tenha uma explicação — um tanto paradoxal, convenhamos: os cientistas sociais não gostam da sorte e do aleatório. Não suspeitam que alguns eventos podem ser aleatórios. Acham, com uma certa razão, que tudo tem significado — boa parte da atração da psicanálise, por exemplo, é baseada nessa premissa. Antigamente, na Babilônia, tudo tinha sentido, porque o significado existia e vinha, necessariamente, do além-mundo; meus colegas acham que, agora, tudo tem sentido nesse mundo, porque tudo ao redor pulula de significado. O pensamento determinístico só mudou de mundo, mas não de procedimento.

(muitos combatentes por um mundo melhor, os CMMs, sofrem do mal do determinismo. Percebem, de forma compulsiva, relações de dominação em tudo que é banalidade. _Nada do que é banal me é indiferente, dizem. O banal, assim, vira relevância, e a vida torna-se mais triste. Não saber o que tem sentido e o que não tem ou a diferença entre o que é importante e o que é trivial leva, inevitavelmente, à falta de humor e outras coisitas mais. Sou da opinião de que, se não há ninguém que faça rir esse pessoal, estamos perdidos)

Além disso, meus colegas confundem acaso com contingência. Posso até admitir que a idéia de acaso, num sentido absoluto, é uma noção metafísica. Acho apenas que relativizar o acaso já é postular a contingência, que não é acaso. A contingência é o encontro casual de séries causais. E pensar que tudo tem sentido impede o raciocínio probabilístico e a apreensão dos processos contingentes.

Acho que meus colegas não compreendem que 

“a opção deliberada por uma opção sem sentido, apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida, provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil às pessoas” (Dennett).

Não, a gente tem que discutir, discutir, achar motivos, razões e sentidos em tudo e em todos. Ainda prefiro o “cara e coroa”.

Enfim, li o conto de Borges, não entendi nada e findei brigando com meu departamento.

Depois da análise sociológica, o que mais detesto é a análise literária.

No tempo do patriarcalismo institucional…

11 de abril de 2008, às 19:45h

SENTENÇA JUDICIAL EM 1833 (”Ipsis litteris, ipsis verbis”).

PROVÍNCIA DE SERGIPE

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’ Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova.

CONSIDERO:

QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;

QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas;

QUE Manoel Duda é um sujetio perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO:

O cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa.

Nomeio carrasco o carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos,

Juiz de Direito da Vila de Porto da Folha Sergipe, 15 de Outubro de 1833.

Fonte: Instituto Histórico de Alagoas.

Meu voto

11 de abril de 2008, às 12:00h

Sou cidadão italiano. Tenho duas nacionalidades. E, como cidadão, eu voto nas eleições italianas. Já sei meu objetivo nesse pleito: impedir a eleição do imperador Belusconi. É voto útil. Voto até no diabo contra esse cara.

Mas queria mesmo era votar para a prefeitura de Roma. Daria um voto ideológico e extremamente politizado. Votaria em Milly D’Abbraccio, a fulgurosa atriz pornô, que  transformará Roma, caso eleita, numa cidade do amor. Como a mesma diz: Sogno una “love city” nella capitale! Legal, né?!

Eis aqui o cartaz de Milly. A imagem de seu traseiro é o cúmulo da persuasão política. Há pesquisas, na Universidade de Harvard, que demonstram a capacidade persuasiva de uma bunda política. Como pano de fundo dessas nádegas, existe todo um programa político e urbano para a Cidade Eterna. E, como diz o cartaz, “basta com essas caras de c.”

millydabbraccio.jpg

Quem desejar um processo rápido de ideologização, é só conferir o site de Milly: http://www.millydabbraccio.com/.

Eis aqui uma foto, entre outras. Faz parte da campanha “vamos alegrar os ferros-velhos “.

millydabbraccio3.jpg

Gosto dos italianos, justamente porque são parecidos conosco. Por isso, votarei em Gretchen, para o que der e vier.

O infanticídio visto por uma gata

10 de abril de 2008, às 21:05h

Houve uma discussão na blogosfera sobre o infantícídio e sua prática entre alguns povos indígenas. Tudo começou quando surgiu a notícia, na Folha Online, de que, na etnia kamaiurá, gêmeos devem ser mortos ao nascer, porque são sinônimo de maldição. Houve quem defendesse a superioridade da cultura ocidental. Teve até uma boutade, típica de um humor não muito simpático ao relativismo cultural, “o etnocentrismo pode ser um humanismo”. E, de fato, o humanismo foi um etnocentrismo… ora, no tempo da colonização, quando a assimilação era uma política identitária para neutralizar e “tornar semelhante” a diferença do outro — um humanismo de jesuíta, digamos assim. Mas, noves fora a superioridade ocidental, liberal e cristã, a discussão foi intensa.

Preocupado com o problema, perguntei sobre o assunto a uma antropóloga especialista na questão indígena. Pelos padrões ocidentais, é uma profissional curiosa, pois segue fanaticamente a etnia Calango-Tango do Calango-da-Lacraia que considera as gatas iguais a seres humanos. Assim, adotou uma gata récem-nascida que tem um nome esquimó: Inuit, em homenagem a um povo assassino de bebês focas.

Fui no seu apartamento e tive um choque cultural. Como em Orwell, na Revolução dos bichos, a gente não sabe mais quem é a gata, quem é a antropóloga. Há boatos que é mais fácil conversar com Inuit — aparentemente, o único ser racional da casa.

gato.jpg
Inuit em plena elocubração cartesiana: _mio, logo existo!

De todo modo, perguntei: “como vc se coloca em relação ao costume do infanticídio, que é perpetrato por alguns povos indígenas? Adota uma postura relativista forte, tipo “não interferir em culturas não-ocidentais”, ou uma fraca, tipo “diálogo intercultural visando o fim do infanticídio”. Em relação a essa última posição, pode-se acrescentar um adendo, que seria (quase) uma outra posição: “diálogo intercultural visando o fim do infanticídio, proibindo-o imediatamente, mas sem criminalização”. Hein, hein?!

Eis a resposta definitiva da antropologia, que acaba com qualquer polêmica e é um punhal nas costas do absolutismo de valores:

Depois da experiência com Inuit, acho que resolveria o problema do infanticídio pela “terceira via”: adotaria os indiozinhos enjeitados. Faria uma verdadeira creche com eles, ou melhor, um laboratório de antropologia física especializado em craniometria. Uma vez crescidos e independentes, deixá-los-ia na floresta e faria experimentos: um indiozinho e uma indiazinha, dois indiozinhos e uma indiazinha, duas indiazinhas e um indiozinho, duas indiazinhas e um macaco… Resolveria o velho problema da origem da cultura.

A miséria do anonimato

10 de abril de 2008, às 12:10h

Discussão interessante no OI. Como evitar a baixaria na Internet? Moderando os comentários? Blogs de grande popularidade, como o Blog do Santinha, tiveram de se render, por exemplo, à moderação, para evitar, inclusive, processos jurídicos. Mas o interessante da discussão abaixo, na minha opinião, é a afirmação da necessidade de uma “deontologia” para o internauta comentarista.

O comentarista anônimo é completamente livre na internet. Comenta o que quiser, xinga contra quem quiser. Usufrui de uma intensa “liberdade positiva”, estando imerso até o gogó no mundo dos direitos — por isso, despreza os deveres? Parece um menino paraibano de classe média dirigindo um carro; não há lei, nem placas, muito menos esperança para o pedestre. O comentarista anônimo assemelha-se a uma mônada — logo, enquanto tal, separada e imune às injunções de uma mínima conduta moral. No fundo, realiza ficticiamente o fim da autoridade — uma conduta “anarquista”? Sim, fim da autoridade, mas realização de um “grande poder”. Ora, fazer qualquer coisa numa determinada situação, envolvendo pessoas, não significa, afinal de contas, ter poder?

Para o comentarista anônimo, regras de conduta nos comentários parece uma normatização abusiva que surge de fora, tipo uma espécie de intervenção externa, como se fosse uma insuportável violação da individualidade. Falando de uma maneira bem abstrata, penso que esse tipo de liberdade, que goza o comentarista anônimo, é a realização idealizada de sua independência enquanto indivíduo (daí a aspiração monadológica). Fora do âmbito de seu umbigo ou de sua individualidade, tudo é interpretado como interferência externa.

Alguns internautas colocam que, no fundo, a lógica da moderação nos comentários é uma lógica autoritária e interrompe a democratização da internet. Outros colocam a moderação como uma condição necessária ao convívio civilizado entre internautas.

Bem… er… o Blog dos Perrusi está longe dessa discussão. Nosso blog não é, definitivamente, um espaço democrático. A moderação, para os Perrusi, é a sublimação do Grande Censor (Perrusi Pai, por exemplo, sonhou sempre em ser um Grande Comissário das Letras e da Imprensa — GCLI). Ele próprio confessa: _fui Torquemada em outra reencarnação! Acho que, também, Lavrenti Beria, mas não me lembro mais…

Lá vai o artigo:

Quem vigia os vigilantes dos vigilantes?

Por Andre Deak em 8/4/2008

Talvez seja a hora de atualizar uma questão proposta por Platão há mais de 2 mil anos. Em suas discussões com Sócrates, chegaram a uma sociedade perfeita organizada sobre quatro categorias: trabalhadores, comerciantes, escravos e guardiões. Sócrates teria perguntado a ele então: “Quem vigia os vigilantes?”. Essa questão já foi bastante usada em outros sentidos: Quem fiscaliza a polícia? Quem fiscaliza os jornalistas? Para ambas as perguntas, costuma-se dar a mesma resposta: a sociedade.Atualmente, entretanto, a situação pode ter se tornado mais complexa. Não apenas a polícia ou os jornalistas, agora, são capazes de cometer crimes impunemente (apesar de existirem ouvidorias e corregedorias de polícia para os primeiros e Lei de Imprensa e ombudsman para os segundos). Pessoas comuns, agora, podem usar a internet para caluniar ou difamar, sem medo algum de punição, inclusive. O que nos leva à atualização da questão platônica: quem vigia os vigilantes dos vigilantes?

Dezenas de leitores se indignaram com a sugestão do jornalista Eugênio Bucci de que deveria haver um código de ética para os leitores, assim como há um para os jornalistas, para que os leitores fossem mais responsáveis ao deixar comentários pela rede – comentários que, às vezes, se tornam ataques pessoais, apócrifos, inclusive [ver "Estereótipos e conspirações de leitores"].

Porta fica aberta

Dito assim, de supetão, pode parecer um argumento de jornalistas que não querem ouvir críticas de leitores, mas é um dos principais debates da rede hoje. Uma tradução para essa preocupação seria: é necessário moderação de comentários? Ou, indo mais além: é preciso criar alguma forma de identificar quem publica algo na rede para responsabilizar criminosos?

Hoje existem métodos que tornam quase impossível identificar alguém que resolva publicar anonimamente algo na internet. Não são métodos simples de serem aplicados, tanto que a organização Repórteres Sem Fronteiras criou uma cartilha explicando como fazer isso, alegando poder ser útil para escrever livremente em países onde o governo pode prender sem justificativa qualquer um que publica algo na internet. Como nos Estados Unidos, por exemplo, depois da lei chamada Patriot Act.

Se responsabilizar jornalistas por informações falsas é possível – apesar de que a lei, nesse caso, é usada menos para fazer justiça e mais para intimidar jornalistas –, o mesmo se torna muito mais complicado no caso dos usuários da internet, especialmente aqueles que fazem comentários maliciosos. A polícia até tem como descobrir um criminoso, já que é possível, na maior parte das vezes, localizar o endereço residencial de alguém a partir de uma publicação – como ocorre com a prisão de pedófilos. Mas é bem improvável que a polícia invista tempo localizando um comentarista de blog. Sem punição à vista, a porta fica aberta aos ataques.

Não há espaço para identificação

A Justiça, aliás, nem mesmo interpreta que a culpa por um comentário malicioso seja de quem escreveu – a culpa é de quem o publicou. Entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006, alguns dos autores do blog coletivo Direitos de Resposta (eu, inclusive) foram intimados em uma investigação policial que pretendia descobrir o proprietário do site. O inquérito, iniciado a pedido de João Kleber, provavelmente seria usado para processar os donos do veículo por calúnia e difamação – por conta, justamente, de comentários dos leitores. O blog tratava dos bastidores do programa de televisão que foi ao ar na RedeTV! por decisão judicial, a partir de um pedido de resposta de seis organizações civis e do Ministério Público Federal ao programa Tardes Quentes, do qual Kleber era apresentador.

As ONGs alegaram que uma parcela da sociedade foi ofendida pelo programa e exigiram reparação, concedida pela Justiça – o programa saiu do ar e no lugar dele, durante 30 dias, foi transmitido outro programa, feito pelas ONGs, chamado Direitos de Resposta. No blog deste programa, vários leitores deixaram alguns impropérios contra o apresentador. Segundo a Justiça, a responsabilidade dos comentários é de quem mantém o site. Os xingamentos saíram do ar, o processo não seguiu adiante, mas casos semelhantes se dão com certa freqüência. A responsabilidade, hoje, não está com quem escreve, mas com quem publica – o que modifica um pouco as coisas. Interpretações assim determinaram, por exemplo, que o YouTube fosse bloqueado no Brasil durante alguns dias.

A cultura atualmente desenvolvida pelos usuários da rede impediria qualquer tentativa de regular ou monitorar a participação das pessoas. Projetos como os do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que propõe que o usuário tenha um cadastro para entrar na internet e seus passos sejam monitorados – just in case, na base do “quem não deve não teme” – são fortemente combatidos pelos defensores do direito à privacidade. Não há espaço, aparentemente, para exigir que usuários da internet se identifiquem. Qual a saída então?

“Convenci e fui convencido”

A cultura desenvolvida pela televisão talvez seja mesmo culpada pela forma como muitas pessoas interagem hoje na internet. Bucci compara os comentários agressivos postados por alguns leitores com a atitude dos dois personagens da MTV dos anos 1990.

“Penso nas posturas habituais da dupla Beavis e Butthead diante da TV. Os dois se batem contra o monitor vomitando impropérios entre arrotos que parecem risadas e risadas que soam como arrotos. Imagino um sujeito grudado no sofá, berrando vulgaridades para a mocinha seminua que dá duro no programa de auditório e que, por certo, não pode escutá-lo. Ele não sabe que a insulta, ou, pior, supõe que a elogia. Em seu delírio, acredita que a rapariga, se o ouvisse, tomaria seu grunhido gutural por galanteio. A televisão adestrou o sujeito anônimo, diluído na multidão, a falar sozinho entre quatro paredes. Adestrou-o com a promessa de que ele jamais seria visto nem ouvido.” É bem possível que as pessoas tenham se acostumado a uma participação pouco edificante diante da TV, com o passar das décadas no sofá. Qual seria a porcentagem de críticas construtivas que iriam ao ar em um sistema de comentários online, sem filtro, em tempo real, que acompanhasse uma transmissão de jogo narrada por Galvão Bueno?A interatividade cada vez mais simples, entretanto, e o hábito de participação no espaço público talvez sejam capazes de melhorar o nível dos comentários. Provocadores natos são banidos de listas de discussão e, por mais que voltem com outros nomes, são banidos novamente até que cessem as provocações; comentários criminosos são retirados do ar; comentários agressivos recebem também respostas agressivas quando são mantidos no ar – normalmente acabando com a discussão, mas ensinando que não dá para existir discussão assim.

Filipe Fonseca escreveu um, entre as dezenas de comentários ao texto de Bucci, e creio que exemplifica esse raciocínio:

“Já tive discussões interessantes neste OI. Já convenci e já fui convencido, e isso só é possível se os envolvidos na discussão estiverem dispostos a discutir de fato. Também já errei. Já exagerei na crítica ou na agressividade, o que teve a serventia de me ensinar que não é possível travar um debate sem que se demonstre respeito pelo pensamento alheio.” Mais participaçãoSteven Johnson, no livro Cultura da Interface, identifica Beavis e Butthead como um tipo de programa de uma fase de transição cultural. Ele chama de “formas parasitas” programas que surgem para dar sentido a outros dados, num mar de informação.

“As formas parasitas vicejam em situações em que a informação disponível excede em muito nossa capacidade de processá-la (…). Nesses climas, aparece todo tipo de metaforma: condensadores, satiristas, intérpretes, sampleadores, tradutores. Eles se alimentam do excesso de informação, da atordoante sobrecarga sensorial da mediasfera contemporânea.”“Podemos assistir ao vídeo musical diretamente da MTV, é claro, mas podemos também fazê-lo através dos filtros de Beavis e Butthead, com seus comentários staccato correndo como pano de fundo. Ou podemos ver o mesmo vídeo no Yak Live, da MTV, com um fluxo de comentários ao vivo rolando sob a imagem em tempo real, transmitidos diretamente de uma sala de conversa da AOL, como um cruzamento de texto de capa de disco com grafites de banheiro. Beavis e Butthead e Yak são metaformas, filtros; ainda assistimos ao próprio vídeo, mas a experiência é necessariamente transformada (se não sempre intensificada) pelo filtro que a transmite para nós.”

Os comentários de Beavis foram talvez o primeiro ensaio de interatividade – uma interatividade falsa, onde o próprio emissor (a MTV) comentava os seus próprios vídeos na pele de dois adolescentes (uma sátira ao seu próprio público, aliás). A evolução para o modelo Yak, que existe até hoje, é mais verdadeira: coloca o próprio telespectador comentando – assim como são as caixas de comentários.A internet semântica talvez resolva isso. No Overmundo, por exemplo, é possível votar não apenas nos textos – que sobem de lugar na edição da página se são julgados interessantes, ou vão para um limbo onde quase ninguém os lerá –, mas também se pode votar nos comentários. Ou seja: os leitores também decidem quais comentários são úteis ao debate e quais são nocivos, jogando os nocivos no fundo da rede.

A solução contra os baderneiros da rede não precisa vir do controle sobre a participação, mas justamente do outro lado: mais participação. Se o leitor vigia o jornalista, quem vigia o leitor? Os vigilantes dos vigilantes serão vigiados por outros vigilantes: nós mesmos, os cidadãos. Inclusive nós, os jornalistas…

Os antropólogos são engraçados ou é só Lévi-Strauss?

8 de abril de 2008, às 9:39h

Continuo a ler a longa entrevista de Didier Eribon com Claude Lévi-Strauss (o “livro da semana” - ao lado). E continuo, para dizer a verdade, a rir à beça. Embora @s antropólog@s que conheço sejam amostrad@s até dizer basta, a ponto de serem passíveis de internamento imediato por exibicionismo patológico, mas tendo sorte porque a reforma psiquiátrica retirou meus poderes mutantes de internação, pensei que Lévi-Strauss fosse fleumático, com um olhar distante e meio triste, sem saudade dos trópicos. Bem, pelo menos nessa entrevista, até agora, esse gênio do século XX é irônico e engraçado, desconstruindo um dos males da natureza humana, a seriedade (essa forma cruel de exibicionismo, atributo de 9 entre 10 antropólogos — por isso, são alvos de tanta gozação da parte dos povos das florestas, dos desertos, das águas, das planícies, das cavernas, etc e tal).

Transcrevo aqui alguns trechos da entrevista. Nesse trecho abaixo, Lévi-Strauss relembra sua entrada no curso de licenciatura em filosofia e a forma pela qual passou no concurso para o magistério:

E lá (na licenciatura), alguns professores o impressionaram ou influenciaram?

_ Receio ter de responder-lhe “não” mais uma vez. Não com um espírito crítico com relação a eles: antes com relação a mim mesmo. Eu frequentava as aulas de Brunschvicg, mas não compreendia nada.

Durante quanto tempo frequentou suas aulas?

_Muitos anos, até fazer concurso para o magistério.

Sempre sem entender nada?

_Sempre com a impressão de entender tudo! (…) No fundo, quase passei por aquilo tudo como um zumbi. Com a sensação de ficar de fora. Para mostrar-lhe até que ponto eu me sentia pouco envolvido: no mesmo dia em que foram divulgados os resultados do concurso para o magistério, fui a uma livraria especializada presentear-me com um livro de astrologia. Não que eu acreditasse em astrologia: por represália, e a fim de provar a mim mesmo que eu não tinha perdido minha independência de espírito.

O senhor não era apaixonado pelos seus estudos?

_Decididamente, não. Eu era apaixonado pela política, pela relfexão política. Como consegui passar no concurso? É um mistério. Mas, enfim, passei sem problema, em terceiro lugar, no meu primeiro concurso. Milagre para o qual só encontro duas explicações. Tinha sido ajudado por um colega muito brilhante, católico fervoroso, que provavelmente acariciava a idéia de uma conversão. O grego era seu forte e ele me ajudou a preparar os textos. Não sei o que ele é hoje, mas devo-lhe muito. A segunda explicação é muito cômica. Um médico amigo de minha família presenteara-me com uma ampola - morfina? Cocaina? -, que segundo ele me inspiraria se eu bebesse antes da aula. Para preparar esta prova definitiva, fechavam-nos durante sete horas na biblioteca da Sorbonne. Apressei-me em beber o contéudo da ampola num copo d’água e me senti tão mal que tive de passar as horas de preparação estirado sobre duas cadeiras. Sete horas de enjôo! Além do mais, o tema que eu sorteei era o mais catastrófico que se possa imaginar: “Existe uma psicologia aplicada?”. Henri Wallon era membro da banca, devia-se a ele este tipo de tema. Compareci desvairado, sem ter conseguido preparar coisa alguma, e improvisei uma aula que foi julgada brilhante, na qual acho que só falei de Spinoza. Afinal, talvez a droga tenha cumprido seu papel…

(Mais adiante, o entrevistador aborda sua relação com Simone de Beauvoir. Os dois foram colegas no estágio para o magistério. Encontraram-se lá. Há uma certa insistência do entrevistador em relação à mãe de todas as feministas. Lévi-Strauss, talvez embevecido com a doce lembrança, compara Simone a uma… maçã. Ato falho ou ironia estruturalista? Mas o que acho mais interessante é a conveniente e absoluta falta de memória do antropólogo.

No seu leito de morte, ele dirá, provavelmente, a algum entrevistador: _não me lembro de nada. Não me lembro de absolutamente nada.

O esquecimento é uma espécie de memória.)

Simone de Beauvoir evoca esse episódio nas suas memórias. Ela escreveu a seu respeito: “Ele me intimidava com sua fleuma, mas usava-a com habilidade e eu o achava muito engraçado quando, com uma voz neutra, o rosto sem expressão, falava ao auditório sobre a loucura das paixões…”

_Não me lembro nada disso.

Suas relações com ela eram boas?

Acho que sim. Ainda tenho na memória a imagem de Simone de Beauvoir naquela época: muito jovem, com uma pele fresca, corada, de camponesinha. Lembrava uma maçã.

O senhor nunca se tornou amigo de Simone de Beauvoir?

_Nunca. Mas não por hostilidade.

Não houve empatia entre o senhor e ela?

_Tampouco é isto. Sarte e ela tornaram-se logo famosos, ocupavam uma posição muito acima da minha na vida intelectual. Eles me intimidavam e não precisavam de mim. Quando Margareth Mead veio a Paris, em 1949, parece-me, arrisquei-me a reunir a First Lady da vida intelectual americana com a First Lady da vida intelectual francesa. Dei uma pequena recepção em homenagem a elas. Elas não trocaram uma palavra.

Talvez devido à barreira dos idiomas?

Cada uma ficou num canto da sala, rodeada por sua corte.

(♥♥♥)

Por fim, transcrevo a orelha do livro da semana (um ato que não fiz até agora, com os outros livros, por um problema grave de preguiça):

“Notoriamente discreto, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss concedeu, em 1988, esta longa entrevista a Didier Eribon, em que fala de sua infância, formação intelectual e inquietações teóricas. Ao revisar sua trajetória, sublinha a convivência com figuras como Fernand Braudel, Jacques Lacan e Roman Jakobson, e destaca as viagens a São Paulo, ao interior do Brasil e o exílio em Nova York - onde frequentou o círculo dos surrealistas e dos antropólogos americanos. Neste depoimento fluido, nos fornece chaves de acesso a sua extensa obra, indicando as linhas de força da teoria estruturalista.

Testemunha privilegiada de seu tempo, Lévi-Strauss nos oferece uma visada do século XX que percorreu, quase de cabo a rabo, levado por sua paixão pelo conhecimento.

Didier Eribon é filósofo e um dos mais importantes intelectuais franceses da atualidade. Publicou uma célebre biografia de Michel Foucault (Flammarion, 1989) e obras como Réflexions sur la question gay (Fayard, 1999) e Hérésies - Essais sur la théorie de la sexualité (Fayard, 2003). Tornaram-se também memoráveis as entrevistas que realizou com George Dumézil (Gallimard, 1989), Pierre Bourdieu (1998) e Jacques Derrida (1989)”.

Os outros da vida

7 de abril de 2008, às 21:00h

Texto pesado, pesadíssimo de Guilherme Fiúza, jornalista do antigo NoMínimo, autor do Meu nome não é Johnny, que deu origem ao filme. Ele contrapõe ao caso trágico de Isabella Nardoni a sua própria tragédia. Não é fácil de ler, já que causa um embrulho no estômago, afora o soco na alma da gente, imaginar-se no lugar dele. Não só isso: espanta-me sua coragem de escrever sobre um tema tão doloroso. Espanta-me, sim, mas não nego minha admiração. São palavras que mostram um abismo. Há beleza no seu depoimento, mas ela, a beleza, pode ser terrível. Nada nesse mundo pode nos familiarizar ou, melhor, reconciliar-nos com a morte, e muito menos lhe arrancar, pelas lágrimas, sua finalidade. Porém, escrever é uma conquista, pois significa alguma forma de superação e mesmo de esperança — uma reconciliação consigo mesmo e com a vida.

 Lá vai:

A vida dos outros 

É difícil escrever sobre uma tragédia sem ser acusado de insensibilidade com a dor alheia. Talvez a saída mais segura seja falar da nossa própria.

No dia 2 de julho de 1990 meu primeiro filho, Pedro, caiu do oitavo andar do prédio onde morávamos, em Botafogo.

Desci de escada achando que seria mais veloz do que o elevador, talvez do que a própria queda. Encontrei-o já morto, e não precisava ser médico para constatar. Os ferimentos eram brutais.

Voltei com ele de elevador, mas ainda com pressa, agora de dizer à mãe dele que não podíamos fazer mais nada.

Antes que pudéssemos entender o que fazer da nossa própria vida, já tínhamos uma certeza: não podíamos sair de casa. Estávamos presos lá, com dois policiais militares armados na porta do apartamento.

Antes de poder enterrar meu filho, tive que contratar um advogado. Recebi-o no quarto de empregada, para poupar a mãe do Pedro, minha ex-mulher, daquela conversa surrealista.

Embora vivêssemos em harmonia e fôssemos particularmente tranqüilos, o advogado vinha relatar depoimentos comprometedores do síndico e de vizinhos à polícia. Eles diziam ter ouvido ruídos altos de portas batendo, discussões febris, gritaria.

Foi longo o tempo até encerrar esse processo insano e provar que os vizinhos tinham delirado. Mas foi muito rápido, instantâneo, o castigo imposto pelos homens da lei, de mãos dadas com os vizinhos diligentes: ser tratado como suspeito da morte do próprio filho.

Quando a Polícia Militar nos permitiu deixar o apartamento, no qual nunca mais voltaríamos a morar, tivemos que deitar no chão do carro, para evitar a multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.

Escapamos de passar pelo que passou a mãe de Isabella Nardoni, quase jogada no chão pela sanha da imprensa. Uma mãe de quem a vida acabara de arrancar uma filha, que portanto mal se punha de pé por si mesma… Bem, colegas, morram de vergonha.

No Espírito Santo, há outro pai preso pela morte da filha que caiu da janela. São todas situações sobre as quais é preciso encontrar a verdade. Se os pais forem desgraçadamente culpados, precisam ser exemplarmente punidos.

Nada disso dá direito à sociedade de invadir a vida de uma família com a sua curiosidade mórbida e a sua estupidez.

Se não é possível à coletividade imaginar na sua própria pele o ardor da tragédia, já seria um belo avanço civilizatório se ela entendesse, de uma vez por todas, que a vida (dos outros) não é um Big Brother.