O neoliberalismo acabou (…)
Publico o artigo de Bresser-Pereira na Folha, sinalizando o fim da dita onda neoliberal. Não é qualquer um que diz isso; afinal, como ministro, Bresser fez parte de um governo acusado de “neoliberal”. Se um “neoliberal” faz tal afirmação, justamente que acabou o neoliberalismo, acho ponderado acreditar no cabra. Assim, pode-se dizer: _ufa, enfim acabou a era neolibera!. E, sinceramente, o ideal, após tamanha afirmação, seria que, com o fim do neoliberalismo, a alcunha “neoliberalismo” desaparecesse das práticas discursivas. Claro, podemos discutir algum tempo a seguinte questão: se, com o fim de uma “realidade”, desaparece também o seu “nome”. De fato, não sei se acaba, mas como seria bom que acabasse, pelo menos nesse caso, pois encheu o saco essa ladainha de neoliberalismo, noção bombril que serve fundamentalmente para apontar inimigos ideológicos. Mostra-se o canino e se acusa: _neoliberal! Pronto, incinera-se o pobre coitado numa fogueira ideológica. Não há escapatória desse ato de fala que enreda performativamente o sujeito numa armadilha retórica. Enfim, depois de muito tempo, pode-se discutir, com o fim da coisa e do nome, quais foram os governos realmente neoliberais no Brasil: FHC era neoliberal? Lula é neoliberal? Houve momentos neoliberais? Apostaria apenas em Color…
Lá vai:
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Fim da onda neoliberal
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O socorro ao Bear Stearns e as revoltas em paÃses atingidos pela alta de preço de alimentos marcam esse fim inglório |
CHEGOU AO fim a onda ideológica neoliberal que dominou o mundo nos últimos 30 anos no quadro da hegemonia americana. Dois fatos ocorridos nas últimas semanas marcaram esse fim inglório; de um lado, o socorro do banco de investimento Bear Stearns; de outro, as revoltas populares em vários dos 33 paÃses hoje seriamente atingidos pelo aumento dos preços dos alimentos. Essa ideologia reacionária que visava reformar o capitalismo global para fazê-lo voltar aos tempos do capitalismo liberal do século 19 revelou ter fôlego curto. E não poderia ser de outra forma, já que estava em contradição com os avanços polÃticos e institucionais que transformaram o Estado liberal do século 19 no Estado democrático e social da segunda metade do século 20. Apoiada na hegemonia americana, a onda ideológica neoliberal teve inÃcio em 1980, com a eleição de Ronald Reagan, e chegou ao auge nos anos 1990, com o colapso da União Soviética, mas nos anos 2000 entrou em declÃnio. Três fatores contribuÃram para a crise: 1) o fracasso das reformas e da macroeconomia neoliberais em promover o desenvolvimento econômico dos paÃses periféricos que a aceitaram; 2) o desastre polÃtico e humano representado pela guerra contra o Iraque; e 3), mais recentemente, a grande crise bancária que a desregulamentação financeira facilitou.
Nos últimos dias, a intervenção para salvar um banco de investimento e a ameaça de fome causada pela elevação dos preços dos alimentos marcam definitivamente o fim da utopia neoliberal de uma sociedade regulada principalmente pelo mercado. Não preciso de maior argumentação para demonstrar por que o socorro do Bear Stearns tem esse sentido. Conforme afirmou na ocasião Martin Wolf abrindo seu artigo semanal, “lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu”. (Folha, 26/ 3/08). Engana-se, porém, Wolf em falar em “sonho”. Trata-se antes de um pesadelo, porque, se é verdade que o mercado é um excelente alocador de recursos, mesmo nesse campo precisa de regulação para evitar instabilidade. Já em relação aos demais valores que a humanidade tão arduamente construiu, o mercado é cego, ignorando os princÃpios mais elementares de honestidade, proteção da natureza e justiça social.
Essa cegueira assumiu caráter dramático com a notÃcia de que as populações pobres de pelo menos 33 paÃses estão ameaçadas de fome devido à alta dos preços dos elementos. Se a ideologia neoliberal dominante nestes últimos 30 anos não houvesse se encarregado de convencer os paÃses pobres de que não precisavam de suas culturas de produtos alimentÃcios, de que era mais econômico especializar-se em alguma outra atividade (geralmente de valor adicionado per capita igualmente baixo) e importar seus alimentos básicos, os povos desses paÃses não estariam agora em justa revolta.
Creio que existem boas razões para acreditarmos no desenvolvimento econômico e polÃtico dos povos. É absurda, porém, a ideologia que pretende alcançar o bem-estar econômico capitalista sem se beneficiar do desenvolvimento polÃtico democrático -sem contar com a ação corretiva e regulatória do Estado democrático e social que tão arduamente a sociedade moderna vem construindo e do qual faz parte um mercado livre mas regulado. Não teremos saudades do neoliberalismo.
4 de julho de 2008, Ã s 13:45h
Gostaria de saber quais PaÃses não adotaram o NEOLIBERALISMO?
Por favor me responda até sengunda-feira 07/07.