A realidade é uma novela
Qual é a importância do caso Isabella? Bem, tudo indica que é mais importante do que todas as questões relevantes que aconteceram nesses últimos dias no Brasil e no mundo — o problema das reservas indígenas, por exemplo, é uma questão menor, apesar do esbravejado da paranóia milica de Augusto Heleno Ribeiro Pereira, ops!, quero dizer, General Augusto Heleno Ribeiro Pereira (o grande psiquiatra J.B. Barnes já dizia: “todo militar é paranóico, mas nem todo paranóico é militar”).
Sim, a escandalização de mortes trágicas de crianças de classe média é um fato de mídia e extremamente relevante nesses dias cruéis e violentos.
Do ponto vista midiático, o caso Isabella é mais importante ou comparável ao 11 de setembro, segundo Daniel Castro, da Folha:
O caso Isabella derrubou ontem um dos pilares da política de qualidade da Globo: o respeito aos intervalos comerciais. Para transmitir o deslocamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina, até uma delegacia, a Globo jogou fora na Grande SP toda a sua programação infantil e exibiu um “SP TV” “especial” com três horas e 16 minutos de duração.
Ou, em outras palavras:
Com a suspensão da “TV Globinho”, a Globo igualou o caso Isabella a coberturas de alta relevância, como o 11 de Setembro, os ataques do PCC (2006) e a visita do papa (2007).
A cobertura da grande mídia deve seguir o interesse público ou o interesse do público? Há uma discussão interessante a respeito no Observatório de Imprensa. Nesse sentido, partindo da hipótese de que muitíssimos brasileiros têm uma predileção pelo linchamento e um pé na barbárie, a grande mídia deve alimentar, por motivos estritamente comerciais, as entranhas de determinado caráter tupiniquim? Algumas vezes, o comércio não é doce, podendo alimentar monstros.
Não, não se deve exagerar. A notícia virou apenas novela — claro, cruel e violenta, mas a novelização da realidade precisa ter como referente, afinal de contas, a própria realidade. O caso Isabella tem todos os ingredientes de uma novela; inclusive, tem alguma duração, personagens para serem escandalizados, reviravoltas no enredo e um público ávido e consumidor de violência simbólica.
Não, talvez seja ainda pior, pois, como disse um colega meu, Geraldo Limão de Araújo: _você tá errado. A realidade já é um reality show!
(cismado, pedi um exemplo a Geraldo Limão, que respondeu, imediatamente: _um encontro de ongs, por exemplo, é um reality show! Diga que não! E apontou o dedo na minha cara. Covarde e não querendo confusão, fiquei calado. Mas acho que é sectarismo de sua parte)
Pois é…
Bem, parodiando o antropólogo Claude Lévi-Strauss, passamos de uma situação de barbárie para outra de desumanidade, sem conhecermos a civilização, muito menos, o que é uma pena, uma situação de decadência.
20 de abril de 2008, às 16:34h
Artur,concordo com as questoes que voce coloca sobre a cobertura da midia com relacao ao caso Isabella, ressaltando o quase esquizofrenico comportamento da propria imprensa, vide materia de ontem 19 de abril da FSP, que de um modo velado ou fingindo-se de desentendido, critica o comportamento das pessoas que ficam na porta da casa ou delgacia e so gritam quando as luzes da tv sao ligadas. Hipocrita, no minimo. Mas o assassinato de Isabella nao eh apenas isso, um reality show ou uma novela. A tragica morte da menina e a sua espetacularizacao sao a realidade bem concreta e cotidiana de uma sociedade estruturada na violencia. Pensa-la como novela ou show eh ficar apenas na posicao de assistente que quando quer pode mudar de canal e ver um filme romatico ou cult.
Quanto ao exemplo que seu amigo Geraldo Limao deu - e que vc reproduz ainda que achando que nem eh bem assim- de encontro de ongs como reality show digo apenas que as ongs quando se encontram fazem mais do que lamentar a decadencia civilizatoria como destino da humanidade, dado que os nossos encontros se fazem porque acreditamos e lutamos todo dia por possibilidades de transformar radicalmente a miseria da vida de todo dia. Talvez sejamos estranhos/as para muitos/as exatamente porque temos um projeto de mundo que vai muito alem de nos mesmos/as, porque tudo nos importa e nos afeta. Somos reais e atuamos no real, ainda que seja mais comodo para muita gente acreditar na nossa irrealidade. Feminista e da diretora da associacao brasieira de ongs, para muita gente devo ser uma personagem da novela das 8! Mas nem ligo, porque continuo a fazer fe na minha lucidez utopica.
20 de abril de 2008, às 20:05h
Ih, cometi uma bobeira… E se o prof. Gustavo Limão, que nem é meu amigo, lê o blog e a resposta de Taciana, diretora da associação brasileira de ongs? Vai na minha goela! Por que vc falou logo de “lucidez utópica”, pelo amor de Deus?! E como defenderei tua realidade, se vc é surreal, ô bestinha?
Acho que a mídia transforma a violência privada em escândalo público e em novela. Foi isso, basicamente, o que quis dizer. Já comparar ong a reality show é provocação de Limão (como editor de um blog anarquista, ateu e doido, era impossível não citá-lo).
21 de abril de 2008, às 22:51h
Se a mídia transforma a vilência privada em escândalo público e em novela, o padre M. Rossi vai além e transforma em culto.
Gastão o vomitador, personagem de Jaguar,cairia muito bem nesse contexto.
25 de abril de 2008, às 10:32h
“Artur”, um outro psicanalista famoso que não me recordo o nome tb afirmou que a notoriedade desse caso se deve ao povo brasileiro ‘gostar’ muito de TRAGÉDIAS !
É uma situação que, claro, não pode perder a ‘audiência’, porém não podemos apenas ter ao fim da novela a prisão dos autores do crime bárbaro, temos que na qualidade de seres humanos conseguir pôr um fim na violência que tanto destrói a vida de todos nós! E se dizem que gostamos tanto de tragédias, o pior é esquecê-las como se nosso mundo fosse perfeito, foi o caso do garoto arrastado até a morte por bandidos pelas ruas de SP, e nesse caso tb a justiça foi feita, porém outros garotos e garotas andam morrendo pelo Brasil afora!
Gostei muito tb do comentário na “taciana”, tenho um irmão que faz parte da ONG “Amigos do Nordeste”, que se ao menos não possui a capacidade de acabar com a violência no país, ao menos leva esperança a famílias pobres do Nordeste Brasileiro!
“ducaldo”, concordo com vc tb !!!!
Abraços a todos !!!!
25 de abril de 2008, às 10:34h
* Corrigindo: Pessoal, Onde tem Psicanalista ler-se: PSIQUIATRA !!!