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Pensamentos (absolutamente) obscuros
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Chove em Intermares e não é nenhum golpe de Estado!
Chove pra carai, aqui, em Cabedelo. Não sei mais o que fazer. É de lascar. É o dilúvio. O fim do mundo — não deixa de ser irônico — começa justamente em Intermares?!
Só me resta pensar. E penso de forma sombria, fria e chuvosa… Acho que estou com dor de cabeça, também.
Estia um pouco, mas aproximam-se rapidamente nuvens negras. Vejo lá embaixo, pastando e cagando no gramado, várias vacas e bois . Percebo que já existem alguns cogumelos nas bostas dos ruminantes. Cogumelos? Achei a cura para minha dor de cabeça! Produza uma vasodilatação cerebral e terá um efeito analgésico imediato. Claro, há alguns efeitos colaterais e… deixa pra lá! Boto a capa, pego o guarda-chuva, desço até o gramado, colho os cogumelos, subo, faço um chá, sento na varanda, olho a chuva, tomo a infusão e começo a pensar…
Baseando-me nalgum filósofo, cujo nome esqueci completamente, absolutamente, diria que, sem mais nem menos, aconteceu uma revolução a partir de 1870, na Europa e na Rússia, em que a linguagem separou-se de vez do referente. Seus protagonistas seriam, fundamentalmente, Mallarmé e Rimbaud: o primeiro defendeu uma “ausência real”, e fez desaparecer qualquer ligação entre a palavra e o mundo exterior, apenas existindo o mundo interior da linguagem; o segundo operou uma desconstrução da primeira pessoa do singular, explodindo o ego numa pluralidade sem limites: “je est un autre”.
Qual é o filósofo? Mais um golinho de chá…
Vale frisar que, mesmo o ceticismo antigo, tipo Hume e Montaigne, mantinha uma fidelidade à linguagem, escapando assim de um completo niilismo ontológico. Não há, aqui, uma dúvida autêntica que colocasse em xeque a utlização do aparato linguístico para colocar em evidência as incertezas, os limites, as ilusões; em suma, não se coloca em dúvida o comércio discursivo do homem com aquilo que ele considera como fatos. A linguagem, no caso, é usada ainda como um instrumento de verdade. Com o ceticismo moderno, a verdade da palavra é a ausência do mundo.
Recalquei o nome do filósofo. Efeito do chá? Mais um golinho…
Existe um mistério que seria o da recepção estética. De Platão a Freud, a especulação ocidental se baseou na intuição do re-conhecimento, do déjà-vu, do déjà-entendu. Uma sensação de novo re-encontro.
A arte é anterior ao mito? O mito não teria suas raízes e sua eficácia na gramática e na linguagem? Já a arte não teria suas raízes profundas no começo e nas origens do homem, num mundo ainda pré-gramatical, onde a música iniciava o processo de construção de uma identidade de si?
Enquanto o chá traz a analgesia, embora um dos seus efeitos colaterais seja o esquecimento, penso nas instigantes questões de Robin Lane Fox no seu livro “Bíblia – verdade e ficção”:
“1) Qual seria exatamente a posição da primeira mulher como ajudante do homem: era ela uma igual ou uma subordinada, antes que os dois desobedecessem a Deus?
2) Como devemos imaginar as primeiras horas de nossos primeiros ancestrais?
3) Estavam nus, mas eram imortais, contanto que permanecessem inocentes: seriam talvez semelhantes a crianças, como hoje tendemos inicialmente a imaginá-los, até descobrirem os fatos da vida e serem lançados na vida adulta? Ou seriam mortais desde o início, e desde sempre sexualmente ativos em seu primeiro jardim das delícias, como tantos rabinos judeus e John Milton os apresentaram?”
O efeito do chá vai passando. O mundo recobra, aos poucos, seu enfado. As cores desaparecem e tudo fica cinza. Ao longe, escuto o ruflar de tambores celestiais. É a alma do céu que geme de dor. E o mundo começa a chorar. É o inverno sobre as casas.

















Minha nossa, vc pareceu mais o Descartes do Leminski esperando Articzewski, em meio às ervas dos tupinambás, e tudo em mauritzstad, rsssssss
Agora, achou o nome do filósofo? Seria um Foucault, em entrevista tardia? Ou outro?
Agora, a pergunta que não cala é a dos efeitos colaterais dos cogumelos…
)
abração,
Eu, se fosse você, tomaria outra dose. O mundo psicodélico é infinitamente mais divertido. Aproveita a chuva!