O sentido de nada
A leitura gera associações, ainda mais ao se ler um conto que parece perfeito para estabelecer relações funcionais entre estados e atividades psÃquicas: “Loteria em Babilônia” de Jorge Luis Borges (para quem quiser ler o conto, aà vão a tradução em português e a versão original em espanhol). Bem, não tenho o costume de analisar produções literárias. Não é fácil. Quando leio ficção, tenho a tendência a fazer associações um tanto obscuras, muitas delas completamente fora do contexto. E a leitura do conto levou-me longe, bem longe, inclusive para fora da fronteira temática do próprio conto. Além disso, acho Borges, muitas vezes, incognoscÃvel, por isso, passÃvel das mais variadas interpretações.
O conto fala de uma sociedade tomada completamente pelo jogo lotérico e dominada pela companhia responsável pela loteria. Tudo vira loteria e a companhia passa a controlar o arbitrário e a contingência da vida cotidiana. Vira uma sorte de Estado Ideal Totalitário ou uma espécie de deus. Poderia insisitir nesse tema e nessa associação, mas, para o bem ou para o mal, embrenhei-me num caminho diferente e fiquei matutando sobre a loteria. Na verdade, fugi do conto. Fiz algumas associações e me lembrei de algumas análises de meu filósofo favorito, Daniel Dennett, sobre adivinhações. E fiquei pensando… De uma certa forma, a loteria decide nosso destino; não precisamos tomar mais algumas decisões na vida, pois a loteria já “decidiu” por nós. Igualmente, a adivinhação serve para resolver diversos problemas, “tomando” uma decisão que seria, normalmente, de nossa estrita responsabilidade.
Dennett diz que é difÃcil tomar decisões na vida, e que uma das formas mais fáceis de decidir é apelar para a adivinhação. Pego o emprego ou não, peço o divórcio ou não, entrego meu coração ou não, faço isso ou faço aquilo. Sim, a decisão não é fácil e, até mesmo, envolve um “cálculo” mais ou menos complexo, com muitas variáveis, inclusive diversas do tipo não-racional. Qualquer coisa que alivie o fardo decisório é interessante. Há vários exemplares no mercado do aleatório: cara ou coroa, por exemplo. Esse procedimento gera uma certa paz espiritual, pois deslocamos, com isso, a nossa responsabilidade para algo exterior, independente de nossa vontade.
Tentei implementá-lo no departamento de ciências sociais da UFPB, alegando que a Morte do Sujeito, tão defendida pelos pós-pós da academia, livrava-nos das tomadas de decisão; afinal, sem sujeito, não há escolha, logo, não há propriamente responsabilidade. Fiz ver aos meus pares que poderÃamos deslocar nossa vontade para outras estruturas de escolha, principalmente as aleatórias, e que serÃamos apenas vetores dessa estrutura, o que corroboraria algumas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas, mas fui voto vencido, infelizmente.
No fundo, até concordo com a decisão dos meus colegas, pois ”cara ou coroa” é muito simples e rudimentar. Para decisões difÃceis, tipo “façamos mais uma greve e desmoralizemos de vez a universidade pública”, esse artifÃcio é insuficiente. Como diz Dennett, a escolha precisa de um bom motivo. E, depois do resultado do “cara ou coroa”, tem-se que aceitar a decisão – ou não?! Eis o problema. Por isso, precisamos de algo mais forte. Se possÃvel, algum procedimento com grandes cerimoniais e que envolva entidades além de nossa compreensão. Se temos a necessidade de deslocarmos a responsabilidade das decisões para algum processo externo à nossa vontade, que seja um que tenha uma certa “intencionalidade”, isto é, que assuma, justamente, alguma responsabilidade. A cerimônia é importante, pois solidifica o deslocamento da responsabilidade e “encarna” o procedimento randômico, valorizando-o simbolicamente. Com tudo isso, caso a decisão não dê certo, pelo menos temos um culpado ao alcance de nossas projeções. Outra vantagem: não precisamos compreender como funciona o processo. Aliás, o desconhecimento é vital e ajuda a fortalecer a legitimidade do deslocamento.
Cá entre nós, isso é muito reconfortante.
(como ateu, tenho uma incapacidade muito grande de deslocar minhas responsabilidades. Por isso, vivo culpado. O jeito é sempre acusar o capitalismo e a burguesia das decisões equivocadas que pululam nesse mundo velho e enfadado)
Pensando nisso, sugeri aos meus colegas (claro, não desisti de convencê-los da minha empreitada, pois a responsabilidade envelhece-me a cada dia) uma série de exteriorizações de responsabilidades. Uma antropóloga poderia jogar flechas ao léu (belomancia); um cientista polÃtico, bastões (rabdomancia); uma bruxa do departamento, ossos ou cartas (sortilégios); um sociólogo poderia interpretar folhas de chá (tasseografia); eu mesmo poderia examinar algum fÃgado de animal (hepatoscopia), exceto o de pequenos cachorros (por causa de Ideafix), ou alguma outra vÃscera (haruspicia); tenho um amigo psicólogo e behaviorista que poderia facilmente interpretar o comportamento dos roedores (miomancia) e outro, dessa vez filósofo, o comportamento das nuvens (nefomancia)…
Bem… er… mais uma vez fui voto vencido.
Minha derrota, talvez, tenha uma explicação — um tanto paradoxal, convenhamos: os cientistas sociais não gostam da sorte e do aleatório. Não suspeitam que alguns eventos podem ser aleatórios. Acham, com uma certa razão, que tudo tem significado — boa parte da atração da psicanálise, por exemplo, é baseada nessa premissa. Antigamente, na Babilônia, tudo tinha sentido, porque o significado existia e vinha, necessariamente, do além-mundo; meus colegas acham que, agora, tudo tem sentido nesse mundo, porque tudo ao redor pulula de significado. O pensamento determinÃstico só mudou de mundo, mas não de procedimento.
(muitos combatentes por um mundo melhor, os CMMs, sofrem do mal do determinismo. Percebem, de forma compulsiva, relações de dominação em tudo que é banalidade. _Nada do que é banal me é indiferente, dizem. O banal, assim, vira relevância, e a vida torna-se mais triste. Não saber o que tem sentido e o que não tem ou a diferença entre o que é importante e o que é trivial leva, inevitavelmente, à falta de humor e outras coisitas mais. Sou da opinião de que, se não há ninguém que faça rir esse pessoal, estamos perdidos)
Além disso, meus colegas confundem acaso com contingência. Posso até admitir que a idéia de acaso, num sentido absoluto, é uma noção metafÃsica. Acho apenas que relativizar o acaso já é postular a contingência, que não é acaso. A contingência é o encontro casual de séries causais. E pensar que tudo tem sentido impede o raciocÃnio probabilÃstico e a apreensão dos processos contingentes.
Acho que meus colegas não compreendem queÂ
“a opção deliberada por uma opção sem sentido, apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida, provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil à s pessoas” (Dennett).
Não, a gente tem que discutir, discutir, achar motivos, razões e sentidos em tudo e em todos. Ainda prefiro o “cara e coroa”.
Enfim, li o conto de Borges, não entendi nada e findei brigando com meu departamento.
Depois da análise sociológica, o que mais detesto é a análise literária.
13 de abril de 2008, Ã s 17:41h
Yeah. Bela tentativa. Passa lá no cazzo que você vai ver a minha resposta. Bem sociológica, porque a parte literária não deu para rolar…
beijinho.