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O infanticídio visto por uma gata

10 de abril de 2008, às 21:05h

Houve uma discussão na blogosfera sobre o infantícídio e sua prática entre alguns povos indígenas. Tudo começou quando surgiu a notícia, na Folha Online, de que, na etnia kamaiurá, gêmeos devem ser mortos ao nascer, porque são sinônimo de maldição. Houve quem defendesse a superioridade da cultura ocidental. Teve até uma boutade, típica de um humor não muito simpático ao relativismo cultural, “o etnocentrismo pode ser um humanismo”. E, de fato, o humanismo foi um etnocentrismo… ora, no tempo da colonização, quando a assimilação era uma política identitária para neutralizar e “tornar semelhante” a diferença do outro — um humanismo de jesuíta, digamos assim. Mas, noves fora a superioridade ocidental, liberal e cristã, a discussão foi intensa.

Preocupado com o problema, perguntei sobre o assunto a uma antropóloga especialista na questão indígena. Pelos padrões ocidentais, é uma profissional curiosa, pois segue fanaticamente a etnia Calango-Tango do Calango-da-Lacraia que considera as gatas iguais a seres humanos. Assim, adotou uma gata récem-nascida que tem um nome esquimó: Inuit, em homenagem a um povo assassino de bebês focas.

Fui no seu apartamento e tive um choque cultural. Como em Orwell, na Revolução dos bichos, a gente não sabe mais quem é a gata, quem é a antropóloga. Há boatos que é mais fácil conversar com Inuit — aparentemente, o único ser racional da casa.

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Inuit em plena elocubração cartesiana: _mio, logo existo!

De todo modo, perguntei: “como vc se coloca em relação ao costume do infanticídio, que é perpetrato por alguns povos indígenas? Adota uma postura relativista forte, tipo “não interferir em culturas não-ocidentais”, ou uma fraca, tipo “diálogo intercultural visando o fim do infanticídio”. Em relação a essa última posição, pode-se acrescentar um adendo, que seria (quase) uma outra posição: “diálogo intercultural visando o fim do infanticídio, proibindo-o imediatamente, mas sem criminalização”. Hein, hein?!

Eis a resposta definitiva da antropologia, que acaba com qualquer polêmica e é um punhal nas costas do absolutismo de valores:

Depois da experiência com Inuit, acho que resolveria o problema do infanticídio pela “terceira via”: adotaria os indiozinhos enjeitados. Faria uma verdadeira creche com eles, ou melhor, um laboratório de antropologia física especializado em craniometria. Uma vez crescidos e independentes, deixá-los-ia na floresta e faria experimentos: um indiozinho e uma indiazinha, dois indiozinhos e uma indiazinha, duas indiazinhas e um indiozinho, duas indiazinhas e um macaco… Resolveria o velho problema da origem da cultura.

A miséria do anonimato

10 de abril de 2008, às 12:10h

Discussão interessante no OI. Como evitar a baixaria na Internet? Moderando os comentários? Blogs de grande popularidade, como o Blog do Santinha, tiveram de se render, por exemplo, à moderação, para evitar, inclusive, processos jurídicos. Mas o interessante da discussão abaixo, na minha opinião, é a afirmação da necessidade de uma “deontologia” para o internauta comentarista.

O comentarista anônimo é completamente livre na internet. Comenta o que quiser, xinga contra quem quiser. Usufrui de uma intensa “liberdade positiva”, estando imerso até o gogó no mundo dos direitos — por isso, despreza os deveres? Parece um menino paraibano de classe média dirigindo um carro; não há lei, nem placas, muito menos esperança para o pedestre. O comentarista anônimo assemelha-se a uma mônada — logo, enquanto tal, separada e imune às injunções de uma mínima conduta moral. No fundo, realiza ficticiamente o fim da autoridade — uma conduta “anarquista”? Sim, fim da autoridade, mas realização de um “grande poder”. Ora, fazer qualquer coisa numa determinada situação, envolvendo pessoas, não significa, afinal de contas, ter poder?

Para o comentarista anônimo, regras de conduta nos comentários parece uma normatização abusiva que surge de fora, tipo uma espécie de intervenção externa, como se fosse uma insuportável violação da individualidade. Falando de uma maneira bem abstrata, penso que esse tipo de liberdade, que goza o comentarista anônimo, é a realização idealizada de sua independência enquanto indivíduo (daí a aspiração monadológica). Fora do âmbito de seu umbigo ou de sua individualidade, tudo é interpretado como interferência externa.

Alguns internautas colocam que, no fundo, a lógica da moderação nos comentários é uma lógica autoritária e interrompe a democratização da internet. Outros colocam a moderação como uma condição necessária ao convívio civilizado entre internautas.

Bem… er… o Blog dos Perrusi está longe dessa discussão. Nosso blog não é, definitivamente, um espaço democrático. A moderação, para os Perrusi, é a sublimação do Grande Censor (Perrusi Pai, por exemplo, sonhou sempre em ser um Grande Comissário das Letras e da Imprensa — GCLI). Ele próprio confessa: _fui Torquemada em outra reencarnação! Acho que, também, Lavrenti Beria, mas não me lembro mais…

Lá vai o artigo:

Quem vigia os vigilantes dos vigilantes?

Por Andre Deak em 8/4/2008

Talvez seja a hora de atualizar uma questão proposta por Platão há mais de 2 mil anos. Em suas discussões com Sócrates, chegaram a uma sociedade perfeita organizada sobre quatro categorias: trabalhadores, comerciantes, escravos e guardiões. Sócrates teria perguntado a ele então: “Quem vigia os vigilantes?”. Essa questão já foi bastante usada em outros sentidos: Quem fiscaliza a polícia? Quem fiscaliza os jornalistas? Para ambas as perguntas, costuma-se dar a mesma resposta: a sociedade.Atualmente, entretanto, a situação pode ter se tornado mais complexa. Não apenas a polícia ou os jornalistas, agora, são capazes de cometer crimes impunemente (apesar de existirem ouvidorias e corregedorias de polícia para os primeiros e Lei de Imprensa e ombudsman para os segundos). Pessoas comuns, agora, podem usar a internet para caluniar ou difamar, sem medo algum de punição, inclusive. O que nos leva à atualização da questão platônica: quem vigia os vigilantes dos vigilantes?

Dezenas de leitores se indignaram com a sugestão do jornalista Eugênio Bucci de que deveria haver um código de ética para os leitores, assim como há um para os jornalistas, para que os leitores fossem mais responsáveis ao deixar comentários pela rede – comentários que, às vezes, se tornam ataques pessoais, apócrifos, inclusive [ver "Estereótipos e conspirações de leitores"].

Porta fica aberta

Dito assim, de supetão, pode parecer um argumento de jornalistas que não querem ouvir críticas de leitores, mas é um dos principais debates da rede hoje. Uma tradução para essa preocupação seria: é necessário moderação de comentários? Ou, indo mais além: é preciso criar alguma forma de identificar quem publica algo na rede para responsabilizar criminosos?

Hoje existem métodos que tornam quase impossível identificar alguém que resolva publicar anonimamente algo na internet. Não são métodos simples de serem aplicados, tanto que a organização Repórteres Sem Fronteiras criou uma cartilha explicando como fazer isso, alegando poder ser útil para escrever livremente em países onde o governo pode prender sem justificativa qualquer um que publica algo na internet. Como nos Estados Unidos, por exemplo, depois da lei chamada Patriot Act.

Se responsabilizar jornalistas por informações falsas é possível – apesar de que a lei, nesse caso, é usada menos para fazer justiça e mais para intimidar jornalistas –, o mesmo se torna muito mais complicado no caso dos usuários da internet, especialmente aqueles que fazem comentários maliciosos. A polícia até tem como descobrir um criminoso, já que é possível, na maior parte das vezes, localizar o endereço residencial de alguém a partir de uma publicação – como ocorre com a prisão de pedófilos. Mas é bem improvável que a polícia invista tempo localizando um comentarista de blog. Sem punição à vista, a porta fica aberta aos ataques.

Não há espaço para identificação

A Justiça, aliás, nem mesmo interpreta que a culpa por um comentário malicioso seja de quem escreveu – a culpa é de quem o publicou. Entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006, alguns dos autores do blog coletivo Direitos de Resposta (eu, inclusive) foram intimados em uma investigação policial que pretendia descobrir o proprietário do site. O inquérito, iniciado a pedido de João Kleber, provavelmente seria usado para processar os donos do veículo por calúnia e difamação – por conta, justamente, de comentários dos leitores. O blog tratava dos bastidores do programa de televisão que foi ao ar na RedeTV! por decisão judicial, a partir de um pedido de resposta de seis organizações civis e do Ministério Público Federal ao programa Tardes Quentes, do qual Kleber era apresentador.

As ONGs alegaram que uma parcela da sociedade foi ofendida pelo programa e exigiram reparação, concedida pela Justiça – o programa saiu do ar e no lugar dele, durante 30 dias, foi transmitido outro programa, feito pelas ONGs, chamado Direitos de Resposta. No blog deste programa, vários leitores deixaram alguns impropérios contra o apresentador. Segundo a Justiça, a responsabilidade dos comentários é de quem mantém o site. Os xingamentos saíram do ar, o processo não seguiu adiante, mas casos semelhantes se dão com certa freqüência. A responsabilidade, hoje, não está com quem escreve, mas com quem publica – o que modifica um pouco as coisas. Interpretações assim determinaram, por exemplo, que o YouTube fosse bloqueado no Brasil durante alguns dias.

A cultura atualmente desenvolvida pelos usuários da rede impediria qualquer tentativa de regular ou monitorar a participação das pessoas. Projetos como os do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que propõe que o usuário tenha um cadastro para entrar na internet e seus passos sejam monitorados – just in case, na base do “quem não deve não teme” – são fortemente combatidos pelos defensores do direito à privacidade. Não há espaço, aparentemente, para exigir que usuários da internet se identifiquem. Qual a saída então?

“Convenci e fui convencido”

A cultura desenvolvida pela televisão talvez seja mesmo culpada pela forma como muitas pessoas interagem hoje na internet. Bucci compara os comentários agressivos postados por alguns leitores com a atitude dos dois personagens da MTV dos anos 1990.

“Penso nas posturas habituais da dupla Beavis e Butthead diante da TV. Os dois se batem contra o monitor vomitando impropérios entre arrotos que parecem risadas e risadas que soam como arrotos. Imagino um sujeito grudado no sofá, berrando vulgaridades para a mocinha seminua que dá duro no programa de auditório e que, por certo, não pode escutá-lo. Ele não sabe que a insulta, ou, pior, supõe que a elogia. Em seu delírio, acredita que a rapariga, se o ouvisse, tomaria seu grunhido gutural por galanteio. A televisão adestrou o sujeito anônimo, diluído na multidão, a falar sozinho entre quatro paredes. Adestrou-o com a promessa de que ele jamais seria visto nem ouvido.” É bem possível que as pessoas tenham se acostumado a uma participação pouco edificante diante da TV, com o passar das décadas no sofá. Qual seria a porcentagem de críticas construtivas que iriam ao ar em um sistema de comentários online, sem filtro, em tempo real, que acompanhasse uma transmissão de jogo narrada por Galvão Bueno?A interatividade cada vez mais simples, entretanto, e o hábito de participação no espaço público talvez sejam capazes de melhorar o nível dos comentários. Provocadores natos são banidos de listas de discussão e, por mais que voltem com outros nomes, são banidos novamente até que cessem as provocações; comentários criminosos são retirados do ar; comentários agressivos recebem também respostas agressivas quando são mantidos no ar – normalmente acabando com a discussão, mas ensinando que não dá para existir discussão assim.

Filipe Fonseca escreveu um, entre as dezenas de comentários ao texto de Bucci, e creio que exemplifica esse raciocínio:

“Já tive discussões interessantes neste OI. Já convenci e já fui convencido, e isso só é possível se os envolvidos na discussão estiverem dispostos a discutir de fato. Também já errei. Já exagerei na crítica ou na agressividade, o que teve a serventia de me ensinar que não é possível travar um debate sem que se demonstre respeito pelo pensamento alheio.” Mais participaçãoSteven Johnson, no livro Cultura da Interface, identifica Beavis e Butthead como um tipo de programa de uma fase de transição cultural. Ele chama de “formas parasitas” programas que surgem para dar sentido a outros dados, num mar de informação.

“As formas parasitas vicejam em situações em que a informação disponível excede em muito nossa capacidade de processá-la (…). Nesses climas, aparece todo tipo de metaforma: condensadores, satiristas, intérpretes, sampleadores, tradutores. Eles se alimentam do excesso de informação, da atordoante sobrecarga sensorial da mediasfera contemporânea.”“Podemos assistir ao vídeo musical diretamente da MTV, é claro, mas podemos também fazê-lo através dos filtros de Beavis e Butthead, com seus comentários staccato correndo como pano de fundo. Ou podemos ver o mesmo vídeo no Yak Live, da MTV, com um fluxo de comentários ao vivo rolando sob a imagem em tempo real, transmitidos diretamente de uma sala de conversa da AOL, como um cruzamento de texto de capa de disco com grafites de banheiro. Beavis e Butthead e Yak são metaformas, filtros; ainda assistimos ao próprio vídeo, mas a experiência é necessariamente transformada (se não sempre intensificada) pelo filtro que a transmite para nós.”

Os comentários de Beavis foram talvez o primeiro ensaio de interatividade – uma interatividade falsa, onde o próprio emissor (a MTV) comentava os seus próprios vídeos na pele de dois adolescentes (uma sátira ao seu próprio público, aliás). A evolução para o modelo Yak, que existe até hoje, é mais verdadeira: coloca o próprio telespectador comentando – assim como são as caixas de comentários.A internet semântica talvez resolva isso. No Overmundo, por exemplo, é possível votar não apenas nos textos – que sobem de lugar na edição da página se são julgados interessantes, ou vão para um limbo onde quase ninguém os lerá –, mas também se pode votar nos comentários. Ou seja: os leitores também decidem quais comentários são úteis ao debate e quais são nocivos, jogando os nocivos no fundo da rede.

A solução contra os baderneiros da rede não precisa vir do controle sobre a participação, mas justamente do outro lado: mais participação. Se o leitor vigia o jornalista, quem vigia o leitor? Os vigilantes dos vigilantes serão vigiados por outros vigilantes: nós mesmos, os cidadãos. Inclusive nós, os jornalistas…