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Os outros da vida
Texto pesado, pesadíssimo de Guilherme Fiúza, jornalista do antigo NoMínimo, autor do Meu nome não é Johnny, que deu origem ao filme. Ele contrapõe ao caso trágico de Isabella Nardoni a sua própria tragédia. Não é fácil de ler, já que causa um embrulho no estômago, afora o soco na alma da gente, imaginar-se no lugar dele. Não só isso: espanta-me sua coragem de escrever sobre um tema tão doloroso. Espanta-me, sim, mas não nego minha admiração. São palavras que mostram um abismo. Há beleza no seu depoimento, mas ela, a beleza, pode ser terrível. Nada nesse mundo pode nos familiarizar ou, melhor, reconciliar-nos com a morte, e muito menos lhe arrancar, pelas lágrimas, sua finalidade. Porém, escrever é uma conquista, pois significa alguma forma de superação e mesmo de esperança — uma reconciliação consigo mesmo e com a vida.
Lá vai:
A vida dos outros
É difícil escrever sobre uma tragédia sem ser acusado de insensibilidade com a dor alheia. Talvez a saída mais segura seja falar da nossa própria.
No dia 2 de julho de 1990 meu primeiro filho, Pedro, caiu do oitavo andar do prédio onde morávamos, em Botafogo.
Desci de escada achando que seria mais veloz do que o elevador, talvez do que a própria queda. Encontrei-o já morto, e não precisava ser médico para constatar. Os ferimentos eram brutais.
Voltei com ele de elevador, mas ainda com pressa, agora de dizer à mãe dele que não podíamos fazer mais nada.
Antes que pudéssemos entender o que fazer da nossa própria vida, já tínhamos uma certeza: não podíamos sair de casa. Estávamos presos lá, com dois policiais militares armados na porta do apartamento.
Antes de poder enterrar meu filho, tive que contratar um advogado. Recebi-o no quarto de empregada, para poupar a mãe do Pedro, minha ex-mulher, daquela conversa surrealista.
Embora vivêssemos em harmonia e fôssemos particularmente tranqüilos, o advogado vinha relatar depoimentos comprometedores do síndico e de vizinhos à polícia. Eles diziam ter ouvido ruídos altos de portas batendo, discussões febris, gritaria.
Foi longo o tempo até encerrar esse processo insano e provar que os vizinhos tinham delirado. Mas foi muito rápido, instantâneo, o castigo imposto pelos homens da lei, de mãos dadas com os vizinhos diligentes: ser tratado como suspeito da morte do próprio filho.
Quando a Polícia Militar nos permitiu deixar o apartamento, no qual nunca mais voltaríamos a morar, tivemos que deitar no chão do carro, para evitar a multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.
Escapamos de passar pelo que passou a mãe de Isabella Nardoni, quase jogada no chão pela sanha da imprensa. Uma mãe de quem a vida acabara de arrancar uma filha, que portanto mal se punha de pé por si mesma… Bem, colegas, morram de vergonha.
No Espírito Santo, há outro pai preso pela morte da filha que caiu da janela. São todas situações sobre as quais é preciso encontrar a verdade. Se os pais forem desgraçadamente culpados, precisam ser exemplarmente punidos.
Nada disso dá direito à sociedade de invadir a vida de uma família com a sua curiosidade mórbida e a sua estupidez.
Se não é possível à coletividade imaginar na sua própria pele o ardor da tragédia, já seria um belo avanço civilizatório se ela entendesse, de uma vez por todas, que a vida (dos outros) não é um Big Brother.

















Fiúza conseguiu escrever o que eu senti desde o começo dessa tragédia. Não sei o que me horroriza mais: a morte da garota ou a forma com que a imprensa trata do assunto.
Corrobora com o texto de Fiúza as cenas serenas do pai com os filhos no supermercado e no (acho) shopping na tarde da tragédia. A menina dentro do carrinho de compras, passeando de mãos dadas com o pai… não parecia haver clima para um ato brutal dali a instantes como o que espera o público… apesar das infinitas possibilidades que cercam o gênero humano, prefiro achar dificil crer.