A crescente vejização da Folha
A Folha parece, aos poucos, mas já acelerando, mudar seu caminhos editoriais, num processo cada vez mais semelhante ao realizado pela Editora Abril, atualmente a cara da Veja, isto é, uma cara marrom, parecendo um factóide. O episódio do Dossiê, no qual a Folha insisitiu e insiste em não esclarecer os leitores, é um sintoma de “marromização” de seu jornalismo. Suas reportagens estão cada vez mais ”editorializadas”. Seus colunistas, com raras exceções, não conseguem distinguir-se da linha editorial do jornal. Em suma, estamos diante de uma unificação selvagem das diversas linhas jornalÃsticas existentes na Folha, que antes, aparentemente, conviviam num ambiente de redação mais ou menos democrático.Â
Agora, o jornal condiciona a permanência do seu ombudsman, Mário Magalhães, a determinações fundamentalmente mercantis (competição no mercado jornalÃsticos). Mais lucro pode, em tese, significar mais competência, mas não, necessariamente, mais crÃtica ou mais transparência no seu jornalismo, ao contrário do que pensam muitos liberais. Inclusive, argumentos de mercado não são neutros, muitos diriam “técnicos”, e sim mascaram, muitas vezes, injunções ideológicas e de poder. Compreendendo isso e não aceitando as novas determinações do jornal, o ombudsman da Folha pediu demissão, já que haveria, na nova conjuntura, uma nÃtida diminuição do papel crÃtico da função do ombudsman e, consequentemente, uma perda de transparência diante de seus leitores.
Lembro do grande mote da Folha: “Um jornal de rabo preso com o leitor“. Diminuindo a transparência, o rabo da Folha ficará mais à mercê da editorialização do seu jornalismo, como também, e principalmente, ficará preso aos “acasos” da competição empresarial no mercado midÃatico. Acho que a Folha descobriu que, do ponto de vista do mercado, muita transparência é burrice.
Sinal de perigo? Talvez não, mas é, no mÃnimo, um retrocesso. A transparência é um valor essencial para o jornalismo que pretende realizar sua deontologia numa democracia (vide o manual de redação da própria Folha). Para cada jornal que prescinde da transparência, morre o leitor cidadão, agoniza a república, fenece a democracia.
Ao longe, no caminho de 2010, nuvens negras aproximam-se…
Leiam a despedida do Ombudsman da Folha:
Despedida
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A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das crÃticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto |
NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famÃlias saÃam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficarÃamos em casa -ou pelo menos não irÃamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.
De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crÃtica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia.
Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois perÃodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.
A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das crÃticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.
A crÃtica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL.
A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.
Como se constata no site www.folha.com.br/ombudsman, desde 2000 as crÃticas vão ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los.
Não poderão mais.
Regras
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalÃstico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.
E continuará a ocorrer.
Quase 20 anos atrás, as crÃticas ainda denominadas internas eram distribuÃdas em papel à Redação.
Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.
Com a difusão por e-mail, será ainda mais difÃcil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?
Já os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornalÃstica de sucesso, serão barrados. A medida não resolve o problema a cuja solução se propõe, mas prejudica quem é alheio a ele.
A não-renovação do mandato é legÃtima, respeita a Constituição do jornal. Sua direção tem a prerrogativa de convidar ou não o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. Não há quebra de contrato, e sim respeito.
No meu caso, haveria mudança de regra no meio da gestão, composta de um a três mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.
Autópsia
Não é praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.
Assim como, na conferência da Organização dos Ombudsmans de NotÃcias, com participantes de 13 paÃses, não encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma crÃtica ou memorando.
A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou públicas as crÃticas antes limitadas à Redação. Mais do que as colunas dominicais, essa espécie de parecer se destina a uma autópsia das edições. Em minúcias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Expõe as vÃsceras do jornal.
O desafio do ombudsman é ser a melhor sÃntese possÃvel dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas crÃticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da véspera.
Essa confluência faz do ombudsman um benefÃcio potencial ao leitor e ao jornal.
Mesmo com as crÃticas vetadas aos leitores, a Folha não perderá a primazia em transparência no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistirão, e a publicação de um artigo como este expressa tolerância com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de análise fossem eles?
Regressão
A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica “um jornalismo cada vez mais crÃtico e mais criticado”. Reconhece que “o leitor fiscaliza a pauta de compromissos” do jornal.
O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessÃveis (as crÃticas de segunda a quinta; não escrevo à s sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles.
Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilÃbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.
O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofÃcio carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?
A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalÃsticas. A novidade da Folha aparece na contramão.
Agradecimentos
A crÃtica diária é valiosa como instrumento de diálogo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi possÃvel conferir se eu perguntei à Folha quem lhe forneceu o dossiê do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. Não é verdade.
Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter à crÃtica on-line, não sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estatÃstica, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.
Em janeiro, fevereiro e março de 2008, registraram-se marcas inéditas. O salto de 24% na comparação com idêntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como eleição e OlimpÃada.
O vigor do Departamento de Ombudsman é manifestação da mudança de comportamento de cidadãos e consumidores de notÃcias: a fé nos relatos jornalÃsticos dá lugar ao ceticismo; troca-se a submissão a versões pela leitura crÃtica; a passividade, por cobrança. Essa é a principal caracterÃstica do jornalismo do século 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.
Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.
Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos anúncios de prostituição aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.
Pelo ano em que fui feliz, agradeço à confiança que a direção da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um “ombudsman crÃtico”. Tentei desempenhar escrupulosamente a missão.
Sou muito grato à minha supersecretária, Rosângela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Redação, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut.
Na editoria de Arte, a Fábio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.
Minha gratidão maior é para quem me deu lições inestimáveis -hoje à noite, em casa ou na rua, não esquecerei o brinde aos leitores da Folha.
6 de abril de 2008, Ã s 14:11h
… TRANSPARÊNCIA, eis a questão !? O que se percebe é uma manupulação de informações, é o interesse em ‘derrubar’ as pessoas, é a intenção de ser ‘espetaculoso’ !!!! É lamentável, mais o ‘jornalismo’ perdeu a essência, perdeu o que há de mais sagrado, que é ser imparcial, VERDADEIRO !!!!!
6 de abril de 2008, Ã s 14:11h
* MANIPULAÇÃO *
6 de abril de 2008, Ã s 20:36h
Pois é, meu caro, vulgo Andrezinho… Mas o Santinha ganhou, lá fora e no torró, do esquadrão do Porto. É o Santa Júnior, a salvação do povo. Isso prova que o mundo há de ter esperança.