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Brioches e a ética que se escafedeu

3 de abril de 2008, às 22:12h

Baixei a íntegra do dossiê, que circula no congresso, no Blog do Noblat (Clique aqui). Vi uma lista fútil de gastos do poder (tipo os brioches de Maria Antonieta  — aliás, ela nunca mandou o povo comer brioches, mas há injustiças que devem permanecer eternas), nada de mais, nada de menos. Parece um cadastramento de gastos bobocas de gente babaca.

Afinal, é esse o conteúdo desse escandaloso dossiê? Caso seja mesmo, como irrita a mídia. A continuidade da irritação, renovada dia-a-dia pela mediocridade jornalística, sempre se superando, galgando níveis crescentes de imbecilidade…   Sei não, a situação tá preta. Tô ficando cada vez mais… Aliás, pra que liberdade de imprensa? Pra que jornalismo? Imaginem um mundo sem jornalistas e sem jornais? Ah, doce totalitarismo… Sim, estou reacionário até a medula e, para corroborar, ainda cito um reaça monarquista, Balzac, aquele das “Ilusões Perdidas”: se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.

Ainda acham que estou sendo sectário? Ah, então, leiam o seguinte artigo e vejam a situação da formação profissional do jornalista. Pesquei o texto lá no Observatório da Imprensa:

O colapso da razão ética

Por Venício A. de Lima em 1/4/2008

O que leva um jovem profissional ou um aluno de pós-graduação a considerar “normal” que uma empresa de comunicação se alie a um governo ou aos interesses de um poderoso grupo de anunciantes e que seu jornalismo deliberadamente omita, distorça e manipule informações?

Por que as constatações de que “todos fazem do mesmo jeito”, “se não fizer assim não sobrevive”, “esse é o jogo jogado” etc. se tornam suficientes para que profissionais se ajustem inteiramente ao “sistema”?

Por que se considera que as empresas de comunicação “são empresas como quaisquer outras”, “seu objetivo é ter lucro” e para isso “devem fazer o que for necessário que se faça ou ficarão fora do mercado”?

Por que os códigos de ética profissional são desconhecidos ou solenemente ignorados como documentos “fora da realidade” cuja aplicação levaria ao fracasso profissional e da empresa?

Por que esses jovens não se consideram parte do problema - “é assim que funciona” - e consideram “ingênuos” os que eventualmente se sentem indignados e buscam caminhos para alterar a situação?

Essas, por óbvio, não são questões novas e, certamente, não se restringem ao campo profissional das Comunicações. E, exatamente por essa razão, são questões que não podem ser ignoradas e sobre as quais temos o dever de retornar sempre.

Qual a diferença?

Em seu Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética (Editora Perseu Abramo/Unesp, 2005), Bernardo Kucinski chama a atenção para o fato de que os jovens jornalistas rejeitam a possibilidade de uma ética”porque isso está em conflito com seus valores fundamentais, acima de tudo os valores individualismo e tolerância”. Lembra também que…

“…o desemprego estrutural (…) fez da competição com o próprio companheiro uma necessidade de sobrevivência. (…) Nesse ambiente, as éticas socialmente constituídas cederam espaço a uma ética de cada indivíduo. (…) É também uma ética de muitos direitos e poucos deveres. Cada um tem o dever de pensar antes de tudo em si mesmo, em seu projeto de vida. Uma ética em que o dever é definido como negação do social, como celebração da individuação ética”.

As ponderações de Kucinski certamente nos ajudam a compreender o que está acontecendo com os jovens estudantes e profissionais. É algo que vai muito além do próprio campo das Comunicações e - correndo o risco de parecer moralista - tem a ver com os valores e práticas que dominam o nosso tempo de pensamento único e capitalismo globalizado.

A impressão que muitas vezes se tem, no entanto, é que enfrentamos no Brasil questões que já foram experimentadas, debatidas e, sobretudo, superadas em outras democracias capitalistas há várias gerações.

Qual deve ser o compromisso básico norteador da formação dos jovens que buscam tornar-se jornalistas profissionais? O que diferencia uma empresa de comunicação de outra empresa qualquer? Qual é o paradigma dentro do qual o jornalismo deve ser avaliado?

Complexidades contemporâneas

Joseph Pulitzer, dono de jornal, modelo de jornalista e “pai” da famosa Columbia School of Journalism nos EUA, escreveu sobre formação profissional em 1904:

“É a idéia de trabalhar para a comunidade, não para o comércio, não para si próprio, mas primariamente para o público, que precisa ser ensinada. A Escola de Jornalismo é para ser, em minha concepção, não somente `não-comercial´ mas anticomercial”. (”The College of Journalism”, North American Review, cit. por J. Scheuer in The Big Picture, 2008)

Na edição anterior deste Observatório tratei aqui das conclusões do relatório da Hutchins Commission publicadas pela primeira vez em 1947 (”O velho (novo) paradigma faz 61 anos“). A prevalência do paradigma da responsabilidade social de jornalistas e empresários de comunicação foi celebrada pelos membros da Hutchins Commission e tem sido muitas vezes confirmada por decisões judiciais nos Estados Unidos ao longo dos últimos 60 anos.

Atravessamos no Brasil um período de profundas transformações que implicará importantes mudanças estruturais, regulatórias e em relação à natureza mesma do sistema de comunicações. Dessas transformações vai surgir um novo perfil (já em construção) de profissional e uma nova correlação de forças entre os principais atores do setor.

O que literalmente assusta e perturba aqueles que temos responsabilidades na formação de profissionais do setor e na observação da mídia é que essas transformações estejam a ocorrer dentro de um profundo “vazio ético”, como diz Kucinski.

Fazer nascer uma nova ética profissional que leve em conta as complexidades contemporâneas talvez se constitua em um dos principais desafios do campo das Comunicações nos próximos anos.