Archive for abril, 2008

O gene da Galiléia

29 de abril de 2008, às 8:28h

Por essa não esperava. Anos de pesquisa do reverendo Tsé-Tsé foram atropelados pelo mercado científico. Seu nome não estará mais nos anais das Grandes Descobertas Científicas (GDC).

Pesquei essa incrível informação no blog de Pedro Dória:

O blogueiro esclarece o instigante vídeo:

Uma pena que não tenha legendas. Um grupo de cientistas gays descobriu o gene da cristandade. A descoberta traz a esperança de cura para cristãos em todo o mundo. Através de terapia genética, já conseguiram curar um rato cristão. (Os procedimentos ainda não foram testados em humanos.) Alguns cristãos ainda rejeitam a idéia - insistem na idéia de que a fé é uma escolha pessoal. Mas outros, discretamente, já começam a buscar algum tipo de terapia, estimulados por pais e amigos.

Pessoalmente, fiquei surpreso com a existência de ratos cristãos. Não bate com minhas próprias pesquisas que desvincularam a condição roedora desse estado religioso. Os ratos são budistas, embora eu tenha encontrado murídeos taoístas e até sufistas. Pois são os canídeos os maiores representantes da Cristandade no reino animal; assim, desconfio que o vídeo tenha informado errado, sei lá.

Aqui, em Cabedelo, com a aprovação discreta do Reverendo, abri um CTGC (Centro de Tratamento Genético da Cristandade). Há uma demanda razoável. O problema são os efeitos colaterais da terapia. De fato, ao retirar a alça paulina do DNA, os cristãos perdem a compostura e assumem atitudes, digamos assim, indecorosas. Creio que a alça paulina envolve uma série de recalques (para empregar uma linguagem psicanalítica) que controlam os pecados da carne (emprego aqui um termo politicamente correto); logo, ao removê-la, a libido explode, sem objeto e sem estribeira, e o cristão perde a cabeça. As famosas tartarugas de Intermares têm sofrido horrores, o que levou o CTGC a entrar em contato com os ecologistas, tentando negociar uma solução. Há outros animais em Intermares, falaram, mas tenho receio da reação da SPAC (Sociedade Protetora de Animais de Cabedelo).

Outra hipótese, boatada pela praia de Intermares, é a seguinte: para tratar geneticamente cristãos, somente terapeutas gays. Assim, retira-se a alça paulina, mas, através de procedimentos profundos de aproximação corporal, realizadas pelo especialista, sublima-se a libido num comportamento civilizado e mais ou menos pudico. Politicamente, sou contra essa forma de tratamento, que criaria mais uma corporação desnecessária no sistema de saúde, além disso é focal e sou universalista, defensor do SUS, etc e tal.

Quando era permitido rir…

29 de abril de 2008, às 7:00h

Um clássico do debate político. Tempos engraçados…

Terra de índio

27 de abril de 2008, às 10:47h

Artigo interessante sobre a demarcação das terras indígenas. Diante da pergunta da Folha (”As terras indígenas são uma ameaça à soberania nacional?”), a resposta foi um retumbo “não”. Entretando, não publiquei o “sim” de Hélio Jaguaribe, porque achei os argumentos… senis. De todo modo, quem quiser lê-lo, já que posso, com minha reticência, reproduzir injustamente um preconceito contra um velhinho de 85 anos, clique aqui.

Lá vai:

A ameaça é outra

MANUELA CARNEIRO DA CUNHA e ANA VALÉRIA ARAÚJO

DE NOVO esse surrado espantalho e, agora, em benefício de seis poderosos arrozeiros de Roraima instalados de má-fé em terra indígena? Que compraram benfeitorias dos que saíam dessa terra quando ela estava sendo reconhecida? Que gozam de isenção fiscal de um Estado fronteiriço que se sustenta à custa de dinheiro federal? Que se insurgiram violentamente contra o Executivo e o Judiciário? Que são, com quem os sustenta politicamente, uma verdadeira ameaça à soberania nacional?

A diversidade dos povos indígenas é patrimônio do Brasil. Nosso país é megadiverso em mais de um sentido, em riqueza biológica e em riqueza cultural. Por isso a Constituição garante as terras necessárias aos índios para reprodução física e social. Isto é, os padrões culturais de sociabilidade e exploração de recursos têm de poder ser mantidos, e a continuidade da terra indígena é condição para tanto.

Terras indígenas são bens da União, inalienáveis e indisponíveis, e os índios têm a posse e o usufruto delas. Por isso o Estado pode ter sobre essas terras uma vigilância mais ampla do que a que pode exercer sobre terras privadas. Além disso, o Exército deve estar presente em todas as áreas de fronteiras, indígenas ou não.

O então ministro da Justiça Nelson Jobim, em 1995, despachou favoravelmente à declaração de uma extensa área fronteiriça como sendo de posse permanente indígena, deixando claro que terra indígena e presença do Exército não se excluem.

Historicamente, a posse indígena assegurou ao Brasil o desenho de algumas de suas fronteiras internacionais. Roraima, cujo território há cem anos foi disputado entre o Brasil e a Inglaterra, é um exemplo. Joaquim Nabuco, que defendeu a posição brasileira, argumentou justamente a presença indígena nas terras hoje conhecidas como Raposa/Serra do Sol para fundamentar o direito brasileiro.

Hoje, a vigilância e a atuação dos ashaninka do Acre contra a invasão de madeireiros do Peru têm sido essencial na defesa de nossas fronteiras.

Vem então outro surrado espantalho: ONGs internacionais ou com ligações internacionais. Somos inteiramente favoráveis a que se separe o joio do trigo. Se há indícios, que se investiguem, mas uma teoria conspiratória generalizada lembra o protocolo dos sábios de Sião: serve apenas para justificar o arrepio da ordem legal.

Pois a verdadeira questão é o (des)respeito ao Estado de Direito: Raposa/Serra do Sol foi identificada, demarcada e homologada a muito custo durante três décadas e sob procedimento inteiramente legal.

Os ocupantes da Raposa/Serra do Sol tiveram desde a demarcação em 1998 ocasião de contestá-la amplamente. Quando saiu, cumprindo a lei, uma primeira leva de ocupantes não-indígenas, os arrozeiros compraram algumas de suas benfeitorias. A Funai depositou em juízo o valor das indenizações para os últimos 53 ocupantes, que se recusaram a recebê-las -entre eles estão os arrozeiros.

Imagens de satélite demonstram que, em 1992, as plantações de arroz ocupavam cerca de 2.000 ha, passando para 15 mil em 2005, ano da homologação pelo presidente da República.
Os arrozeiros expandiram o cultivo mesmo sabendo que eram terras indígenas e desafiando o governo federal.

Alega-se que as terras indígenas em Roraima, que correspondem a 46% de sua extensão, ameaçam inviabilizar o Estado. Porém, os 54% restantes equivalem à soma da extensão de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Alagoas, ocupados por menos de 400 mil habitantes, concentrados na capital, Boa Vista. Roraima depende até hoje da remessa de recursos federais para a sua manutenção, não tendo conseguido estabelecer uma base de arrecadação local que viabilize o Estado. No entanto, o governo do Estado, em 2003, concedeu aos rizicultores isenção fiscal até o ano de 2018. Sem projeto de desenvolvimento definido e instituições republicanas consolidadas, o Estado propicia o enriquecimento ilegal, sendo os custos sociais e ambientais arcados pelo país inteiro.

Quem ameaça a soberania nacional?


MANUELA CARNEIRO DA CUNHA, 64, é professora titular de antropologia da Universidade de Chicago (EUA) e membro da Academia Brasileira de Ciências.
ANA VALÉRIA ARAÚJO, 44, é advogada, mestre em direito internacional pelo Washington College of Law (EUA) e coordenadora-executiva do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

A conjugalidade em perigo

27 de abril de 2008, às 10:14h

Pode-se usar a ciência para um auto-conhecimento? Bem, isso é uma aspiração inocente do Iluminismo. Pode-se usar, isto sim, a ciência para o mal. Os capitalisas, por exemplo, são os maiores leitores de “O Capital”, utilizando-o para maximizar o lucro e aumentar a mais-valia. Outro exemplo prosaico: Margareth Thatcher tinha como livro de cabeceira o “18 Brumário” de Marx.

_Foi fundamental para lidar com a greve dos mineiros! Disse a Dama de Ferro, ao mesmo tempo que alisava o cabelo de Tony Blair, ainda juvenil, e o chamava de “my boy”.

Claro, alguém pode discordar dessa relação causa-efeito entre a leitura thatcheriana do “18 Brumário” e o abafamento da greve dos mineiros; enfim, pode-se alegar que a base do sufoco do movimento paredista foi o uso indiscriminado da polícia, isto é, da porrada ou ainda, numa linguagem menos chula, pancada com cacete.  Mas isso, convenhamos, não vem bem ao caso.

De todo modo, o artigo abaixo é de uma maldade pura. Criará uma série de problemas para as pessoas de bem que não suportam ou não conseguem suportar os ditames da relação monogâmica moderna. As coitadas repetem a todo momento que o fundamental, numa relação amorosa, não é a fidelidade e sim a lealdade, e são, por isso e, talvez, injustamente, chamadas de cafajestes. Com a leitura do artigo, a vida, certamente, ficará difícil, mas sempre se arrumará um jeito para se evitar as coerções monogâmicas — tento ser otimista para não abalar @s leit@res. Em todo caso, recomendo a utilização do aforismo gramsciano para essas situações: “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. E vamos em frente.

Encontrei o estudo científico, que abalará a conjugalidade moderna, no Yahoo. Podia ser na Marie Claire ou na Veja, como queiram, mas não foi. Pensar que encontramos tais informações com um simples clicar no computador causa calafrios — quem fez esse artigo mereceria o Inferno, sem dúvida. Lá vai:

“O sentimento de culpa sempre me acompanhará. Em minha vida pública, sempre exigi que as pessoas assumissem a responsabilidade de sua conduta. Não posso pedir menos de mim, nem o farei. Por isso, apresento a minha renúncia do posto de governador. Sinto muito não ter estado à altura do que se esperava de mim. Com toda sinceridade, peço perdão”.

Com estas frases, pronunciadas na presença de sua esposa e da imprensa, o até então governador de Nova York, Eliot Spitzer, apresentou sua renúncia em 12 de março depois da descoberta de que estava sendo investigado pelo uso de um serviço de prostituição, em um caso no qual a brasileira Andréia Schwartz seria uma das principais testemunhas.

A infidelidade - ou melhor, o fato de se descobrir uma infidelidade - nem sempre tem conseqüências tão públicas e notórias, como a de acabar com uma promissora carreira política, mas sempre é um terremoto psicológico e emocional, para o enganado e o enganador.

As razões que levam uma pessoa a trair podem variar muito. A maioria das relações passa por momentos críticos, que costumam ser a causa ou a conseqüência de uma infidelidade. No entanto, as estatísticas mostram que a infidelidade nem sempre é o resultado de um casamento que passa por uma crise ou está em conflito, mas, muitas vezes, começa como uma experiência de flerte e sedução, até que a história vai longe demais e termina em uma relação sexual.

Quando um dos dois quebra o compromisso de lealdade sentimental feito com o outro e rompe a promessa de exclusividade sexual, costuma deixar inadvertidamente uma série de pistas sutis, que acabam desmascarando o infiel.

Indícios de uma possível aventura.

Verificar o celular do parceiro para ler mensagens de texto ou consultar a conta de telefone para ver quais foram os números mais discados podem ser um dos caminhos mais diretos para obter indícios ou provas de uma mentira.

Um recente estudo realizado na Itália, solicitado por uma companhia de detetives especializada em descobrir infidelidades, indica que o telefone celular é usado em 9 de cada 10 relacionamentos clandestinos.

Mas há muitos outros indícios de que o parceiro está se afastando do par legítimo e se aproximando perigosamente de outra pessoa, ou que já está no caminho da infidelidade.

Quando eles são infiéis:

  • Mostram-se inseguros ao explicar as razões de ter ficado fora de casa ou dizer com quem esteve.

  • Recebem telefonemas misteriosos e não conseguem ser naturais nem espontâneos ao atendê-los.

  • Dão explicações e detalhes desnecessários sobre o que farão, embora a mulher não tenha perguntado.

  • Começam a ter uma repentina sobrecarga de trabalho que os obriga a ficar muito tempo fora de casa.

  • Saem com amigos com uma freqüência fora do comum.

  • Adquirem cuidado exagerado com o modo de se vestir e com a aparência física.

  • Mostram um persistente desinteresse sexual e uma atitude distante, se esquivando de qualquer aproximação, o que faz o relacionamento esfriar.

  • Reclamam continuamente dos defeitos e das carências da parceira, e discutem por qualquer motivo.

  • Ao voltar para casa, ficam de mau humor, o que significa que estão mais felizes fora e com outra pessoa do que com a mulher.

Quando são elas que enganam:

  • Costumam se mostrar mais ariscas para esconder que estão apaixonadas e felizes.

  • Em relação ao dinheiro, têm despesas excessivas e injustificadas.

  • Mostram-se sorridentes sem causa aparente e relevam muitas atitudes masculinas que antes as irritavam.

  • Fazem comentários sarcásticos ou excessivamente irônicos quando falam com o parceiro, sem se preocupar muito com a reação do outro.

  • Quando vão fazer compras, demoram muito mais do que o costume e dizem que encontraram uma amiga.

  • Erram o nome do cônjuge ou fazem comentários sobre coisas que acreditam ter dito a ele, mas que na realidade falaram ao outro.

  • Inventam desculpas para evitar sair com o marido, compartilhar momentos de intimidade ou demonstram rejeição com freqüência.

  • Mudam de repente seus gostos quanto a roupas, comida, música ou cinema.

  • Mostram mais preocupação com a roupa, o corpo e o cabelo, e se esforçam para ficar cada vez mais atraentes.

A seleção natural e a cor da pele

26 de abril de 2008, às 21:31h

Uau! Belo artigo darwinista de Drauzio Varella.

Aqui, na Folha:

Éramos todos negros

ATÉ ONTEM , éramos todos negros. Você dirá: se gorilas e chimpanzés, nossos parentes mais chegados, também o são, e se os primeiros hominídeos nasceram justamente na África negra há 5 milhões de anos, qual a novidade?

A novidade é que não me refiro a antepassados remotos, do tempo das cavernas (em que medíamos um metro de altura), mas a populações européias e asiáticas com aparência física indistinguível da atual.

Trinta anos atrás, quando as técnicas de manipulação do DNA ainda não estavam disponíveis, Luca Cavalli-Sforza, um dos grandes geneticistas do século 20, conduziu um estudo clássico com centenas de grupos étnicos espalhados pelo mundo.

Com base nas evidências genéticas encontradas e nos arquivos paleontológicos, Cavalli-Sforza concluiu que nossos avós decidiram emigrar da África para a Europa há meros 100 mil anos.
Como os deslocamentos eram feitos com grande sacrifício, só conseguiram atingir as terras geladas localizadas no norte europeu cerca de 40 mil anos atrás.

A adaptação a um continente com invernos rigorosos teve seu preço. Como o faz desde os primórdios da vida na Terra sempre que as condições ambientais mudam, a foice impiedosa da seleção natural ceifou os mais frágeis. Quem eram eles?

Filhos e netos de negros africanos, nômades, caçadores, pescadores e pastores que se alimentavam predominantemente de carne animal. Dessas fontes naturais absorviam a vitamina D, elemento essencial para construir ossos fortes, sistema imunológico eficiente e prevenir enfermidades que vão do raquitismo à osteoporose; do câncer, às infecções, ao diabetes e às complicações cardiovasculares.

Há 6.000 anos, quando a agricultura se disseminou pela Europa e fixou as famílias à terra, a dieta se tornou sobretudo vegetariana.

De um lado, essa mudança radical tornou-as menos dependentes da imprevisibilidade da caça e da pesca; de outro, ficou mais problemático o acesso às fontes de vitamina D.

Para suprir as necessidades de cálcio do esqueleto e garantir a integridade das demais funções da vitamina D, a seleção natural conferiu vantagem evolutiva aos que desenvolveram um mecanismo alternativo para obter esse micronutriente: a síntese na pele mediada pela absorção das radiações ultravioletas da luz do sol.

A dificuldade da pele negra de absorver raios ultravioletas e a necessidade de cobrir o corpo para enfrentar o frio deram origem às forças seletivas que privilegiaram a sobrevivência das crianças com menor concentração de melanina na pele.

As previsões de Cavalli-Sforza foram confirmadas por estudos científicos recentes.

Na Universidade Stanford, Noah Rosemberg e Jonathan Pritchard realizaram exames de DNA em 52 grupos de habitantes da Ásia, África, Europa e Américas.

Conseguiram dividi-los em cinco grupos étnicos cujos ancestrais estiveram isolados por desertos extensos, oceanos ou montanhas intransponíveis: os africanos da região abaixo do Saara, os asiáticos do leste, os europeus e asiáticos que vivem a oeste do Himalaia, os habitantes de Nova Guiné e Melanésia e os indígenas das Américas.

Quando os autores tentaram atribuir identidade genética aos habitantes do sul da Índia, entretanto, verificaram que suas características eram comuns a europeus e a asiáticos, achado compatível com a influência desses povos na região.

Concluíram, então, que só é possível identificar indivíduos com grandes semelhanças genéticas quando descendem de populações isoladas por barreiras geográficas que impediram a miscigenação.

No ano passado, foi identificado um gene, SLC24A5, provavelmente responsável pelo aparecimento da pele branca européia.

Num estudo publicado na revista “Science”, o grupo de Keith Cheng seqüenciou esse gene em europeus, asiáticos, africanos e indígenas do continente americano.

Tomando por base o número e a periodicidade das mutações ocorridas, os cálculos iniciais sugeriram que as variantes responsáveis pelo clareamento da pele estabeleceram-se nas populações européias há apenas 18 mil anos.

No entanto, como as margens de erro nessas estimativas são apreciáveis, os pesquisadores tomaram a iniciativa de seqüenciar outros genes, localizados em áreas vizinhas do genoma. Esse refinamento técnico permitiu concluir que a pele branca surgiu na Europa, num período que vai de 6.000 a 12 mil anos atrás. A você, leitor, que se orgulha da cor da própria pele (seja ela qual for), tenho apenas um conselho: não seja ridículo.

Música de final de feriado

21 de abril de 2008, às 19:15h

Bem, pesquisei sobre o que era “White Hinterland” (se era uma banda, sei lá) e descobri que é um projeto de uma cantora americana de 22 anos, Casey Dienel. Cantando, parece Regina Spektor, entre jazz et folk.

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Seu primeiro álbum é o Wind-Up Canary, que eu não conhecia, mas parece bem interessante. Abaixo, duas músicas do álbum “Phylactery Factory” do White Hinterland (seja lá o que for…):

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

The Destruction of the Art Deco House

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Hometown Hooray

 Aí vão alguns comentários sobre o disco, pescados no site E-Music:

The delicate sound of plunder.
Destruction reigns on Phylactery Factory, from the crumbling art deco house that opens the album to the beached whale slowly rotting away at its center. The first album from White Hinterland - a group helmed and directed by Boston singer/songwriter Casey Dienel - Factory is one big obituary, a testament to a world where all that glitters is probably decaying from the inside.

You’d never know it from just a casual listen. Casey Dienel sings with a kind of Baroque relish, rolling and hiccupping phrases, making each line as deliberately sculpted and richly embellished as a white marble balustrade. It’s tempting to compare her fluttering delivery to Nellie McKay’s, but Dienel isn’t nearly as whimsical or aloof or sarcastic. Instead, her songs are straight darkness - a long black night at the jazz club Ozymandius. “Hometown Hooray” may open like a trolley ride into the Land of Make-Believe, with glittering vibraphone and two-step piano, but give Dienel just two minutes and the song becomes a grim lullaby for a slain soldier who died for no good reason. “Dreaming of Plum Trees,” a breathless jazz vamp built around a tumbling keyboard phrase, introduces a barefoot little girl only to have her slice her foot open on a chunk of glass halfway through.

All of this bleeding and rotting and dying sounds like a drag, but in reality it’s a large part of what makes Phylactery Factory so thoroughly riveting. Dienel is obsessed with exploring the ways beautiful things go bad; that she wraps these considerations inside whirligig piano-pop is a kind of further Statement Of Theme - big doom wrapped in glimmering packages. Phylactery Factory is the loveliest funeral you’ve ever attended

O neoliberalismo acabou (…)

21 de abril de 2008, às 17:43h

Publico o artigo de Bresser-Pereira na Folha, sinalizando o fim da dita onda neoliberal. Não é qualquer um que diz isso; afinal, como ministro, Bresser fez parte de um governo acusado de “neoliberal”. Se um “neoliberal” faz tal afirmação, justamente que acabou o neoliberalismo, acho ponderado acreditar no cabra. Assim, pode-se dizer: _ufa, enfim acabou a era neolibera!. E, sinceramente, o ideal, após tamanha afirmação, seria que, com o fim do neoliberalismo, a alcunha “neoliberalismo” desaparecesse das práticas discursivas. Claro, podemos discutir algum tempo a seguinte questão: se, com o fim de uma “realidade”, desaparece também o seu “nome”. De fato, não sei se acaba, mas como seria bom que acabasse, pelo menos nesse caso, pois encheu o saco essa ladainha de neoliberalismo, noção bombril que serve fundamentalmente para apontar inimigos ideológicos. Mostra-se o canino e se acusa: _neoliberal! Pronto, incinera-se o pobre coitado numa fogueira ideológica. Não há escapatória desse ato de fala que enreda performativamente o sujeito numa armadilha retórica. Enfim, depois de muito tempo, pode-se discutir, com o fim da coisa e do nome, quais foram os governos realmente neoliberais no Brasil: FHC era neoliberal? Lula é neoliberal? Houve momentos neoliberais? Apostaria apenas em Color…

Lá vai:

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Fim da onda neoliberal


O socorro ao Bear Stearns e as revoltas em países atingidos pela alta de preço de alimentos marcam esse fim inglório


CHEGOU AO fim a onda ideológica neoliberal que dominou o mundo nos últimos 30 anos no quadro da hegemonia americana. Dois fatos ocorridos nas últimas semanas marcaram esse fim inglório; de um lado, o socorro do banco de investimento Bear Stearns; de outro, as revoltas populares em vários dos 33 países hoje seriamente atingidos pelo aumento dos preços dos alimentos. Essa ideologia reacionária que visava reformar o capitalismo global para fazê-lo voltar aos tempos do capitalismo liberal do século 19 revelou ter fôlego curto. E não poderia ser de outra forma, já que estava em contradição com os avanços políticos e institucionais que transformaram o Estado liberal do século 19 no Estado democrático e social da segunda metade do século 20. Apoiada na hegemonia americana, a onda ideológica neoliberal teve início em 1980, com a eleição de Ronald Reagan, e chegou ao auge nos anos 1990, com o colapso da União Soviética, mas nos anos 2000 entrou em declínio. Três fatores contribuíram para a crise: 1) o fracasso das reformas e da macroeconomia neoliberais em promover o desenvolvimento econômico dos países periféricos que a aceitaram; 2) o desastre político e humano representado pela guerra contra o Iraque; e 3), mais recentemente, a grande crise bancária que a desregulamentação financeira facilitou.

Nos últimos dias, a intervenção para salvar um banco de investimento e a ameaça de fome causada pela elevação dos preços dos alimentos marcam definitivamente o fim da utopia neoliberal de uma sociedade regulada principalmente pelo mercado. Não preciso de maior argumentação para demonstrar por que o socorro do Bear Stearns tem esse sentido. Conforme afirmou na ocasião Martin Wolf abrindo seu artigo semanal, “lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu”. (Folha, 26/ 3/08). Engana-se, porém, Wolf em falar em “sonho”. Trata-se antes de um pesadelo, porque, se é verdade que o mercado é um excelente alocador de recursos, mesmo nesse campo precisa de regulação para evitar instabilidade. Já em relação aos demais valores que a humanidade tão arduamente construiu, o mercado é cego, ignorando os princípios mais elementares de honestidade, proteção da natureza e justiça social.

Essa cegueira assumiu caráter dramático com a notícia de que as populações pobres de pelo menos 33 países estão ameaçadas de fome devido à alta dos preços dos elementos. Se a ideologia neoliberal dominante nestes últimos 30 anos não houvesse se encarregado de convencer os países pobres de que não precisavam de suas culturas de produtos alimentícios, de que era mais econômico especializar-se em alguma outra atividade (geralmente de valor adicionado per capita igualmente baixo) e importar seus alimentos básicos, os povos desses países não estariam agora em justa revolta.

Creio que existem boas razões para acreditarmos no desenvolvimento econômico e político dos povos. É absurda, porém, a ideologia que pretende alcançar o bem-estar econômico capitalista sem se beneficiar do desenvolvimento político democrático -sem contar com a ação corretiva e regulatória do Estado democrático e social que tão arduamente a sociedade moderna vem construindo e do qual faz parte um mercado livre mas regulado. Não teremos saudades do neoliberalismo.

A realidade é uma novela

20 de abril de 2008, às 12:39h

Qual é a importância do caso Isabella? Bem, tudo indica que é mais importante do que todas as questões relevantes que aconteceram nesses últimos dias no Brasil e no mundo — o problema das reservas indígenas, por exemplo, é uma questão menor, apesar do esbravejado da paranóia milica de Augusto Heleno Ribeiro Pereira, ops!, quero dizer, General Augusto Heleno Ribeiro Pereira (o grande psiquiatra J.B. Barnes já dizia: “todo militar é paranóico, mas nem todo paranóico é militar”).

Sim, a escandalização de mortes trágicas de crianças de classe média é um fato de mídia e extremamente relevante nesses dias cruéis e violentos.

Do ponto vista midiático, o caso Isabella é mais importante ou comparável ao 11 de setembro, segundo Daniel Castro, da Folha:

O caso Isabella derrubou ontem um dos pilares da política de qualidade da Globo: o respeito aos intervalos comerciais. Para transmitir o deslocamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina, até uma delegacia, a Globo jogou fora na Grande SP toda a sua programação infantil e exibiu um “SP TV” “especial” com três horas e 16 minutos de duração.

Ou, em outras palavras:

Com a suspensão da “TV Globinho”, a Globo igualou o caso Isabella a coberturas de alta relevância, como o 11 de Setembro, os ataques do PCC (2006) e a visita do papa (2007). 

A cobertura da grande mídia deve seguir o interesse público ou o interesse do público? Há uma discussão interessante a respeito no Observatório de Imprensa. Nesse sentido, partindo da hipótese de que muitíssimos brasileiros têm uma predileção pelo linchamento e um pé na barbárie, a grande mídia deve alimentar, por motivos estritamente comerciais, as entranhas de determinado caráter tupiniquim? Algumas vezes, o comércio não é doce, podendo alimentar monstros.

Não, não se deve exagerar. A notícia virou apenas novela — claro, cruel e violenta, mas a novelização da realidade precisa ter como referente, afinal de contas, a própria realidade. O caso Isabella tem todos os ingredientes de uma novela; inclusive, tem alguma duração, personagens para serem escandalizados, reviravoltas no enredo e um público ávido e consumidor de violência simbólica.

Não, talvez seja ainda pior, pois, como disse um colega meu, Geraldo Limão de Araújo: _você tá errado. A realidade já é um reality show!

(cismado, pedi um exemplo a Geraldo Limão, que respondeu, imediatamente: _um encontro de ongs, por exemplo, é um reality show! Diga que não! E apontou o dedo na minha cara. Covarde e não querendo confusão, fiquei calado. Mas acho que é sectarismo de sua parte)

Pois é…

Bem, parodiando o antropólogo Claude Lévi-Strauss, passamos de uma situação de barbárie para outra de desumanidade, sem conhecermos a civilização, muito menos, o que é uma pena, uma situação de decadência.

Ataque

18 de abril de 2008, às 15:00h

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Confesso uma coisa; afinal, um blog é um confessionário. Tenho medo de insetos voadores. Baratas aladas, são exemplos dessas abominações. Freud disse, uma vez, quando estava completamente bêbado de tanto tomar leite de gironda, vale frisar, que medo de barata é medo de vulva. Assim, tecnicamente, eu teria medo de vulvas voadoras? Fiz tal questionamento a alguns psi, mas não recebi resposta, apenas incredulidade. Já sonhei com vaginas dentadas e vaginas cheias de serpentes, mas estava tranquilo no sonho, já que não eram voadoras. Depois, descobri que há mitos apaches e indus a respeito dessas entidades horrorosas. Em suma, sonhei com arquétipos.

Falando nisso, lembrei-me de um fato que aconteceu comigo: uma noite, um baratossauro invadiu a sala de aula e, no seu vôo absolutamente histérico, foi parar no meu ombro. Sim, as baratas têm, quando voam, uma falta de controle absoluto sobre seus atos e emoções. Aquele ziguezague só significa apenas uma realidade: ela vem sempre na nossa direção!

Olhando-a no meu ombro, inferi que um acontecimento desse naipe só podia ocorrer na Paraíba, estado-onde-tudo-pode-acontecer. Estava sentado na mesa e, diante do ataque, comecei a bater desesperado na criatura antidiluviana. Não caí, mas dei diversos pulinhos de equilíbrio, enquanto escutava as gargalhadas dos malditos alunos, até que consegui dar uma tapa forte no bicho. O problema foi que o optóptero abominável saiu direto do meu ombro até o rosto de uma aluna. A coitada, enlouquecida, começou a bater na própria face, esmagando a barata e fazendo-a espirrar seu suco marrom, que ficou escorrendo entre o nariz e a boca. Ela teve uma crise nervosa, e eu uma crise convulsiva de riso. Tive que respirar fundo, mas fundo mesmo, e atuar de forma profissional. Duas alunas ajudaram-me e retiramos a aluna da sala, que não parava de chorar.

Lá fora, junto da porta, a menina deitou-se e começou a tremer. Tudo indicava que ela engolira, sem querer, a gosma da barata, que é, como todo mundo sabe, extremamente venenosa. Começou a apresentar salivação excessiva, lacrimejamento, secreção nasal, aumento dos sons respiratórios por broncoconstricção, dificuldade respiratória, edema pulmonar, diarréia, diminuição dos batimentos cardíacos, constricção da pupila, tosse, vômito, micção freqüente, incoordenação motora. Depois apareceram tremores musculares, espasmos, hiperatividade.

Falando friamente para vocês, mas entre médicos, de uma maneira calorosa, parece que a morte se deu por insuficiência respiratória e asfixia (paralisia dos músculos respiratórios). Enfim, foi uma morte dolorosa.

Ela era uma ex-evangélica. Era a primeira vez que usava uma calça jeans, disse-me uma aluna, acreditando que era uma vingança divina.

Há coisas que só acontecem numa sala de aula.

Velhice e adaptação

17 de abril de 2008, às 23:55h

Cada vez mais darwinista, pensando em adaptação, adaptação… encontrei uma frase de Steven Pinker – Como a mente funciona – que diz muito do meu estado de espírito:

“A veneração dos ancestrais deve ser uma idéia atraente para aqueles que estão prestes a se tornar ancestrais”

Ou, ainda, devemos ser mais prosaicos: meu avelhantamento explica minhas simpatias e meu futuro.

Mas penso nessa frase… Imagino o futuro ancestral que sairá de mim, depois de me escafeder e do serviço implacável dos vermes, único trabalho que, aliás, elimina as diferenças de classe. Pelo menos, sigo o destino dos Perrusi: quanto mais velho, mais impaciente e mais hedonista. Carpe diem, pessoal, carpe diem. Espero entregar-me a Thánatos quando meu corpo tiver exaurido a última chama de vida — não ficará nem uma última brasa de desejo. O safado ficará apenas com a carne putrefata; quem sabe, somente pó e nada mais. O hedonismo, claro, não vence a morte, mas lhe deixa uma vantagem mínima: o que adianta ficar com um corpo que, em vida, roeu até a moela todo o prazer de viver o mundo?

Certo, no final das contas, a morte é a única certeza que resta de uma biografia; mas, para que esperá-la e, até mesmo, pensá-la como redenção? Defendo que a melhor conduta diante de Thánatos é desprezá-lo até o fim, e de forma insolente: alegre e rindo sempre! Sim, é isso: o hedonismo é a arte do desprezo pela morte. Por isso, agora, comerei algo bem gorduroso e abarrotado de colesterol. Não seguirei o conselho das amigas defensoras de dietas espartanas e apologistas da ascese alimentar — viva o Bacon, o único deus materialista!