Os esquemas
Mais um crônica picante de Camargo, o Gil:
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O Marcelo e a Laura faziam parte da turma há muito tempo sem nunca terem participado do que os outros chamavam de “esquema”. Não pela Laura, que até tinha vontade. Mas o Marcelo não aceitava de jeito nenhum.
“Ainda mais porque você pode cair com o Renato”.
A implicância era antiga, culpa daquela vez que ela deixou escapar em uma festa de final de ano que, antes de namorar o Marcelo, tinha ficado com o Renato. E falou, segundo o marido, “toda animadinha”.
Nem a mulher do Renato viu problema nisso, mas o Marcelo não gostou. E, daà pra frente, a chance deles participarem diminuiu.
O esquema era um segredo guardado pela turma, um grupo de 5 casais, a sete chaves. Somente eles sabiam do que se tratava. Isso era levado muito a sério por todos tanto para se preservarem como para aumentar o prazer. Só conversavam sobre o assunto quando não havia mais ninguém por perto.
Tinha começado há uns 5 anos, depois que o Renato comprou uma antiga fazenda no interior e reformou a casa principal. Uma bela reforma, por sinal, que deixou de saldo 5 suÃtes, no andar de cima, e duas salas imensas, além de piscina e churrasqueira, na parte de baixo.
Ninguém lembra muito bem quem deu a sugestão, parece que foi o próprio Renato. O fato é que as regras foram criadas e o esquema já tinha funcionado várias vezes. E tinha dado certo, apesar da sentida ausência do Marcelo e da Laura.
Até esse ano quando o Marcelo finalmente topou participar.
O esquema tinhas regras rigorosas que foram repetidas, por precaução, ao casal de novatos. No final de semana marcado eles chegaram, no sábado pela manhã, e foram deixando as coisas espalhadas pelo andar de baixo.
Passaram o dia bebendo e conversando.
No começo da noite, descontraÃdos pela bebida e até excitados pelo que viria, tomaram banho, arrumaram-se e se reuniram na sala maior. Conforme uma das regras, o Renato já tinha colocado uma fita de cada cor na porta das 5 suÃtes. Era a identificação.
O esquema começava com as mulheres pegando roupas e pertences e subindo, uma de cada vez, pra escolher um dos quartos, qualquer um, começando pela mais nova do jogo. Naquela noite, a Laura.
Depois desciam e contavam apenas para os respectivos maridos a cor onde estavam hospedadas, justamente para que eles não escolhessem o quarto delas. Afinal, perderia a graça cair com a própria mulher.
Naquele sábado, depois do ritual feminino completado, voltaram para o quarto ali pelas dez da noite e ficaram esperando.
Então os homens fizeram a mesma coisa, pegando o que quiseram levar e escolhendo uma chave sobre a mesa, simbólica, com uma fita colorida amarrada apenas para ter certeza, antes de subir, que ninguém “sobraria” no quarto da própria mulher.
Depois subiram, em intervalos de 5 minutos, para o quarto correspondente a chave escolhida. O esquema era esse. Passar a noite com alguém do grupo, sem saber quem seria até entrar no quarto.
A partir desse momento as regras ficavam ainda mais rigorosas:
Ninguém podia sair do quarto até as 11 da manhã seguinte, de novo em intervalos de 5 minutos e na mesma ordem da subida. As 11:30 as mulheres desceriam e, reunidos na sala maior, tomariam café.
Não era permitido, até que se separassem, alguém contar com quem estivera. Esse era o segredo que fazia o esquema ficar mais interessante a cada ano. Depois, a caminho de casa, ficava por conta de cada casal revelar ou não o que tinha acontecido.
Depois que todos tinham escolhido a chave, Marcelo, o novato entre os homens, subiu até o andar de cima. Guardou o sorriso antes de abrir a porta e entrou.
– Vermelho! Eu falei vermelho, seu idiota!
– Verde, Laura, verde. Você falou verde. Não põe a culpa em mim, cacete! Não sou débil mental, você falou verde!
– Você é um desastre, Marcelo, desastre total! Quanto tempo a gente ficou ensaiando de entrar nessa porra desse esquema? Cinco anos! Você nunca queria, tinha ciúmes do Renato, essa babaquice toda. AÃ, de repente, se encheu de coragem e decidiu que Ãamos entrar de cabeça.
– E não entramos?
– Entramos? Entramos? Vai se fuder, Marcelo! Depois de passar o dia inteiro esperando a hora do jogo vou trepar com você? Só porque você é surdo? Eu falei vermelho! E o pior é que essa maldita regra não deixa a gente melar o jogo. Deve estar todo mundo se divertindo enquanto a gente fica aqui feito dois idiotas!
Dito isso, Laura entrou no banheiro batendo a porta com força e se trancou.
Marcelo apagou a luz e ficou quieto no seu canto lembrando a cara de puto que o Renato, segundo da fila na escolha das chaves, fez quando ele escolheu a vermelha. Fora salvo pela regra e estava aliviado.
No quarto da fitinha azul Renato tentava explicar para uma decepcionada morena que a culpa não era dela não, ele é que não estava bem.
“Não sei, acho que exagerei na bebida…”.
29 de março de 2008, às 10:31h
Não sei. Acho que Marcelo é nordestino. Esse negócio de deixar os outros comerem tua mulher… sei não.
Boa crônica. Divertida, como sempre.
Dimas