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Lindalva, sem ti, não viverei!

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Tudo doía. Não me contorcia no ônibus porque tinha vergonha. É besteira, mas tenho a impressão de que ninguém mostra fraqueza dentro de um ônibus. Estava gripado, com cefaléia, tinha tido uma diarréia há pouco, piorando, e muito, a minha astenia. A afta ardia e me dava uma irritação impossível, com o mundo, as tartarugas de Intermares, uma vontade de destruição – as Bacantes tinham aftas, dizem alguns historiadores mais antigos. Estava, até, com azia.

Porém, o pior não era isso. Nunca foi isso. A dor física a gente esquece. A angústia, a ansiedade e a melancolia: dor psíquica fica, gruda feito aquele cascão de ferida que, quando tentamos arrancar, dói pra cacete, avisando-nos que a ferida tem memória e ainda está magoada.

A  angústia é um sentimento cósmico. O Universo surgiu quando do Nada absoluto apareceu uma fagulha virtual de Angústia, ocorrendo assim o Big-Ban. Tal sentimento, portanto, é anterior à criação – ele emerge do Nada e se impõe como realidade virtual. Deus, nesse sentido, foi o Grande Angustiado, que conseguiu a Sublimação Divina da Angústia Primeva.

O meu grande desafio, dessa forma, era a sublimação de tal sentimento. Freud, inclusive, tinha razão quando colocava a sublimação como o fator criativo por excelência. Ele sabia que, atrás da Arte e do Conhecimento, existia a sublimação de uma angústia ancestral. Ele sabia também que, sem sublimação, o que nos resta é a melancolia.

Dentro daquele ônibus, olhando vazio para todos, descobri que a minha angústia não seria sublimada. Na verdade, nem à depressão, eu tinha direito. Eu tinha direito à Nada. Para o meu supremo horror, tinha descoberto que, se a angústia emerge do Nada, para este pode voltar. Naquele eterno segundo, eu compreendera que era tarde demais: o fim da minha angústia era a danação da alma!

Por quê?! Pra quê?! Voltava no tempo e rememorava a causa da minha angústia: a falta de cartas de Lindalva conduzira-me a um estado de não estar! Não estava no Recife, não estava em Jampa, não estava em lugar algum. Minha crise tinha-me levado a lugar nenhum – se é que isso é possível. Ora, nada é nada, já dizia um filósofo. Não receber cartas dela é não estar. Minha angústia, portanto, estaria comigo em qualquer lugar onde não recebesse suas cartas. Por causa disso, Lindalva transformara-se na minha sombra, no meu rosto no espelho, na minha imagem nas águas turvas do Capibaribe. Eu estaria angustiado no Recife, em São Paulo, em Paris e, provavelmente, histérico em Tóquio, em qualquer lugar, se não recebesse suas cartas. Assim, eu estava angustiado porque não estava.

Compreendendo filosoficamente a minha crise, não tinha por que ficar naquele ônibus. Assim, saltei na primeira parada que surgiu. Para minha surpresa, foi defronte à torre de Malakoff e, olhando a sua altura, tive uma iluminação metafísica. Ora, não estar é incompatível com existir. Minha existência, então, tinha-se tornado fútil. Meu objetivo, naquele momento, desnudava-se na minha frente, e eu tremia, por isso. Meu alvo era pontiagudo como um punhal, pesado feito a pedra de Sísifo e doloroso como a morte de Julieta para Romeu. SIM! Minha alma dilacerada pela angústia da falta de cartas de Lindalva queria como bálsamo o suicídio!

Era um suicida, pois.

Ser um suicida era uma condição estranha para quem queria conquistar a Paraíba e o mundo. Mas, naquele momento, pareceu-me uma coisa grandiosa. Era como se eu enchesse de vazio o vazio da minha alma. A idéia de acabar com a minha existência sumia com o meu sentimento devastador e me deixava calmo. Tudo estava claro na minha mente: não estar não era um produto do meu sofrimento e sim a sua solução. Não estar implicava não existir, trazendo, enfim, um verdadeiro vazio que eliminasse o meu estado mórbido. O suicídio era o pedido derradeiro da minha alma, acorrentada pelos grilhões da dor e abufelada pela falta de cartas de Lindalva.

Estava com sede de morte – da minha morte. Não podia representar mais, tinha que assumir, morrendo, toda a minha responsabilidade perante o mundo. Se as pedras são responsáveis, e os anjos, principalmente os anjos, são responsáveis, era a minha vez, então. Um suicida é o maior responsável de todos, embora seja somente para si mesmo. O compromisso é tão grande e tão ardente, que ele se sente eleito e em paz consigo mesmo. Mas o suicida, enquanto tal, ainda é um ser vivo, faltando-lhe o seu fim bendito. O sofrimento e a dor ainda correm, apesar da sua decisão, seja como lembranças, seja como sombras, pelas suas veias.

Portanto, lancei-me como uma flecha em direção à torre de Malakoff e, enquanto subia as intermináveis escadas, veio-me uma saudade de mim mesmo, saudade sob a aparência de remorso, de tanto que não fui, sozinho com os outros, sempre a esmo e percebendo a ausência de sentido ao meu redor. Meu coração batia de cansaço e me falava do horror que é ter pena de si mesmo, e eu lhe dizia para pensar no nosso inventário partilhado, bem como nessa maldita Lindalva que não escreve cartas. Ele se calou, pois o argumento era cardíaco demais a um pobre coração, deixando-me mudo na subida das escadas.

Cheguei, enfim, lá em cima, e olhei, subitamente emocionado, o Recife. Sentia seu cheiro sui generis de mijo.

_ Recife, eu te amo! – bradei ao infinito.

Sabia que amava a cidade, pois ela tinha-me permitido compreender que

a felicidade é uma característica da vida que exige o desaparecimento da vida para existir. Se a felicidade é uma qualidade total de um homem, então é necessário esperar que a vida daquele homem se cumpra com a morte: a felicidade não existe!

Fiquei em pé na janela e, diante da Morte, pensei em beijar todos os símbolos religiosos, com a esperança de uma vida no além. “Até no suicídio, sou covarde”, ruminei a mim mesmo. Durante alguns segundos, vacilei. Ao sentir o sabor da Morte, tive medo. Mas, o que era a minha finitude existencial, perante a falta de cartas? Não seria melhor abandonar tão cruel existência e abraçar o gélido abraço de Thanatos?

Fechei os olhos e…

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Uma voz exclamou, atrás de mim:

Suicídio, hein, rapaz? Você acha mesmo que é o melhor caminho? – disse um velhinho de uns 70 anos, todo arrumado e elegante. Ele era alto e tinha os cabelos completamente brancos. Achei-o altivo, também.
_ Sim, acho. Não recebo cartas dela – disse, um tanto desanimado, e não me importando se ele compreenderia ou não.
_ Dela?! De uma mulher?
_ Sim, justo. Não aguento viver sem as cartas dela! Beberei das águas da Morte, que trazem o esquecimento.
_ Essa foi a maior estupidez que já escutei nesses últimos 40 anos! – disse o velhinho, rindo da minha cara.
Retire isso! Você vai retirar ou eu… – esbravejei, sentindo-me insultado.
_ Calma, rapaz, calma. Você parece mais apaixonado pela distância do que jamais esteve pela garota!
_ Não ouse falar dela!
_ Calma, calma. Eu sinto que a ausência de cartas te atingiu como um soco no peito, e que você chorou. Mas isso acontecerá cada vez menos com o passar do tempo. Ela não escreve. Você vive. Viva! Eu sei o que é não receber cartas; tenha a minha simpatia.
_ Não preciso da pena de ninguém!
_ Foi dada livremente, menino. Você não devia desprezá-la.

Quem era aquele velhinho, porra?!

Eu já tinha descido do parapeito e decidido investigar aquela situação insólita.

_ Quem é você, afinal de contas?
_ Pode me chamar de Orpheus, se quiser.
_ Orpheus!? Você quer insinuar que o seu problema foi maior do que o meu?!
_ Bem maior, meu caro, bem maior. Há 40 anos, Eurydice parou de me escrever e, a partir daquele momento, eu quis morrer…
_ Ora, você está vivo!
_ Sim, é verdade, estou vivo. Não tive… você sabe… eu não consegui.
_ Eu vou conseguir. Eu não sou covarde!
_ Meu rapaz, a questão não é de covardia. Eu sinto que você sabe disso. No fundo, o suicídio é uma coragem fundada na covardia diante da vida – Falou meio triste o velhinho. Ele hesitou, como se realmente procurasse a vida, e continuou: _ Eu tinha quase 30 anos quando ela parou de me mandar cartas, passei assim 40 anos, todo sábado, o dia da sua última carta, indo à ponte da Capunga, querendo me jogar, embora toda vez desistisse. Há 10 anos, venho à torre de Malakoff, mas continuo desistindo… Mas passemos para um assunto mais ameno: aquela que não lhe manda cartas é bonita?
_ Oh, sim! – disse, emocionado e com lágrimas nos olhos – é uma mulher em estado puro, de pele tão alva quanto os seus dentes…
_ Dentes?!
_ Sim, dentes, qual é o problema?
_ Nenhum, nenhum… E suas pernas?… – perguntou o velhinho. Notei leves traços de sudorese na sua testa.
_ Ouça-me – resolvi, de vez, desabafar – “proclamar que suas pernas são perfeitas só serve para lamentar que o conceito de perfeição seja ainda muito, mas muito imperfeito. Sugerir que a parte final do seu dorso parece o resultado febril da visão de um pintor renascentista seria enaltecer demais os grandes mestres da pintura. Insinuar que o seu rosto se assemelha ao de uma deusa grega seria um louvor excessivo àquelas meninas do Olimpo”. Ela é um perigo para os homens: uma sofisticação talhada a machadadas…
_ Cuidado, meu jovem, os anjos são demônios! Lembrar de Circe é uma armadilha mortal para os incautos!
_ Prefiro, então, a armadilha; o delírio à razão. Prefiro escutar seus lábios cheios de vida, suas faces frescas e animadas do que o silêncio da covardia e do medo. O amor é uma lâmpada mágica que guarda dentro de si a imagem de todas as cores, com pirilampos esfuziantes brilhando num prisma caleidoscópio! – disse-lhe, completamente tomado de furor passional.
_ Você, assim, prefere ficar preso no cárcere cruel da dor. Coitado… De minha parte, eu me afasto de tal masoquismo. Como já dizia um poemazinho:

Nas mulheres não sei mais crer,
Nenhuma mais me seduz.
Se ela não quer me conhecer.
As desconheço em minha cruz.
Nenhuma delas me convém.

E o que elas fazem não tem nexo,
De nenhuma quero saber,
Desprezo a todas do seu sexo.

_ Nossa! Você ficou mal mesmo, hein?
_ Não tanto quanto você ficará, meu caro, se decidir esborrachar-se lá embaixo.
_ Mas… e as cartas? Eu vou continuar sem as cartas!
_ Ora, meu menino, há coisas muito mais importantes do que receber cartas de uma mulher. Você devia, por exemplo, ocupar a sua mente com uma questão fundamental da humanidade.
_ Que diabo de questão é essa?
_ Ora, isso é óbvio! Seria saber “por que Eva foi tirada exatamente da costela de Adão, já que Deus podia usar um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Se não estava, então Adão estaria sendo privado por Deus de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que desde o início estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou Adão tinha treze costelas de um lado e doze do outro? Era uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés”?

Notei, para o meu completo estarrecimento, que o velhinho era gagá e que, talvez, tivesse inventado toda a estória. Nesse momento, falava sozinho, bem baixinho, e olhava bem triste a paisagem de Recife. De qualquer forma, eu tinha desistido de morrer, não por causa do velhinho, e sim por um motivo prosaico: a catarse suicida dura pouco tempo e, se não a aproveitamos, ela passa e nos desistimos. Voltei para casa, um tanto sonilundo.

Dois dias depois, o telejornal anunciou um suicídio na Torre de Malakoff…

Tinha sido o velhinho.

E não fora num sábado…

Torcedor
  1. Artur,

    Parece mesmo que você voltou à ativa, para delírio dos leitores. Valeu a pena esperar por novos textos, ainda que com sofreguidão pela ausência forçada.

    Primeiro, veio a crônica sobre a Saudade de Paris e agora um diálogo inusitado de dois potenciais suicidas. Aliás, um potencial e o outro, suicida de fato.

    A quem diga que o texto sobre o suicida surgiu por ocasião da sua permanência em Intermares na semana santa, o que o teria deixado um tanto macambúzio. Não creio que seja verdade, afinal você mesmo comparou Jampa a Paris. Agora, bateu mesmo foi a curiosidade em saber que fim levou Lindalva.

    Um abraço,

    Dimas

  2. Aquela ingrata? Casou com um major do exército, pelotão de selva, e vive na Amazônia profunda — a mulher do major brasileiro. Há quem diga que tem um caso com um guerrilheiro das FARCS, mas isso é um boato, quiçá excessivamente maldoso.

  3. A paixão não faz bem. Foi uma maldita invenção dos trovadores, encampada pelo romantismo alemão. Ninguem quer mais ser um Werther! O negócio é a ficação.

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