A horda primitiva

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Muitos anos atrás… 

Talvez, não fosse um bom pai, mas certamente sou um neto legal. Minha avó paterna, que tem um zelo religioso pela Assembléia de Deus, teve um troço e foi parar no hospital. Chamaram-me às pressas, pensando que ainda eu era médico. Quando chego no hospital, está toda reunida a família Perrusi. Freud, diante dos meus parentes, com certeza fugiria gritando: “Socorro, a Horda Primitiva, a Horda Primitiva!”.

Eita família esquisita! O pior é que ninguém conhece ninguém, pois os Perrusi são seres que cultivam um tipo especial de aversão social: a misantropia familiar. Assim, todos os primos foram se apresentando, sempre dizendo: “ah, bom, você é filho de fulano?”. Os meus tios foram fáceis de reconhecer, pois todos são sósias de Perrusi Pai, cagados e cuspidos — inclusive, as minhas tias, o que não é um espetáculo dos mais agradáveis. Ora, imaginem Perrusi Pai como uma mulher! Olhava-as siderado. Faltam bigodes, pensei. Aproximei-me de uma delas que insistia na tese de que a esquizofrenia era uma possessão demoníaca.

_E os micróbios? Perguntei, tentando entrar no papo.
_O que é que tem os micróbios?!
_Não são agentes do demônio? Falei, certo que seguia a lógica da doutrina.
_Tem nada a ver! Micróbio é um organismo unicelular, ou bacteriano, ou vegetal (fungo minúsculo) ou animal (protozoário)! Disse, um tanto indignada com a minha lógica.
_Aaah…

As conversas eram sempre sem pé nem cabeça. Do tipo daquela que tive com um dos meus tios. O dito-cujo chega ao hospital e se apresenta como o meu tio Gamaliel. Embora estivesse acostumado com o segundo nome mais engraçado do mundo, o nome de Perrusi Pai: Gadiel, surpreendi-me com a potência semântica do primeiro nome mais engraçado do planeta. Meu cérebro explodiu numa gargalhada histérica e, para evitar uma desintegração cerebral, comecei a falar besteiras sobre a vida, o Santinha, etc; então, de repente, surge o seu filho, meu primo, que se apresenta como… Gamaliel Júnior. Sinto o golpe, envergo-me todo, contendo o meu esôfago que queria sair, procurando ar.

Gamaliel primo fala qualquer coisa, depois sai. Fico de novo com Gamaliel tio, que me olha e pergunta sobre a minha avó. Provavelmente, devido ao meu esôfago ou a um ato falho, respondo:

_Vovó? Ah, vovó vai muito bem, a sua saúde está firme.

Meu tio olha-me desconfiado e me indaga:

_Mas por que então ela está internada?
_Não, ela não está internada. Ela está em casa direitinha, toda serelepe.
_Ah é? Serelepe? — exclama o meu tio — Eu jurava que ela estava internada! E fizeram um escândalo danado para eu estar aqui. Oh, Gamaliel Júnior! — meu duodeno rompe-se dando gaitadas homéricas —  Por que diabos você me chamou ao hospital? Vamos logo pra casa de mamãe!

Foi aí que entendi a minha gafe: acostumei-me com a minha avó materna e respondi pensando nela e não nessa outra avó, a mãe do meu pai. Como diriam as psicólogas: “falou em avó, pensou em vovó”! Eita inconsciente da bexiga lixa!

Envergonhado, explico-lhe a minha confusão, mas ele não fica lá muito satisfeito. Disfarçamos um pouco o constrangimento e decidimos ir ao quarto, onde minha avó paterna estava internada. No caminho, meu tio me interroga:

_E sua avó, como ela está?
_O quadro está estável - começo a responder - acredito que seja apenas um pico hipertensivo…
_Não, eu estou perguntando pela mãe de sua mãe!

Fico boquiaberto, teorizo um pouco sobre a comunicação paradoxal, bem como sobre um mundo maravilhoso onde existiria apenas uma avó — imaginem um mundo com várias avós, ia ser um caos —, começo a balbuciar, mas sou salvo a tempo pela aparição de Perrusi Pai que, traidor, pergunta-me:

- Você tem alguma notícia de sua avó?

Fico pensando se há um complô dos Perrusi para me endoidar. Tergiverso e saio de fininho, entrando no quarto da minha avó (qual delas?). Foi pior, pois encontrei uma cena dantesca: duas primas e duas esposas de primos ajoelhadas cantando salmos da Bíblia. Tenho vontade de chorar e olho desesperado para Perrusi Pai; este, impassível, fita-me com o seu pátrio poder e entendo o seu recado: é pra ficar! Penso na possibilidade de ele me obrigar a cantar uns salmos. Aí não, penso, aí não! De repente, uma prima puxa-me pelo braço e força a me ajoelhar (eu juro que chorei); mas, Deus existe, já que o puxão era só para cochichar que aquela mise-en-scène acalmava vovó. E, realmente, ela estava serena.

Bem, vovó parece uma pequena Gadiel, e confesso que fiquei hipnotizado olhando aquele pequeno ser, encolhido pela idade, que partilhava comigo, no frigir dos ovos, um quarto dos seus genes. Parte daquilo ali rodava todo dia na minha circulação. Achei que exagerava, fiquei com medo de começar a delirar e emudeci o meu pensamento. Mas tudo aquilo era delirante! Estava diante de um espetáculo antropológico. Eu era um etnólogo em plena Assembléia de Deus!

De repente, vovó me chama - ela quer que eu me sente junto dela. Olho desesperado ao redor, procurando o seu filho. Cadê Perrusi Pai, vulgo Gadiel? Não o encontro no quarto. O miserável abandonara-me, deixando-me sozinho com cristãos devoradores de leões. Que pai eu tenho que abandona o filho nesse coliseu? Imaginei-o gargalhando fora do quarto. Meu pai é assim, adora pregar peças nos filhos. Diz que só desse jeito aguenta o peso da paternidade.

Minha prima olha-me com um olhar pontiagudo. Entendo a mensagem. Devo me sentar ao lado de vovó, mãe de meu pai. Levanto-me e escuto o recrudescimento sonoro dos salmos. Escuto até vários “aleluias”. Por incrível que pareça, sinto-me bem, até uma certa paz celestial, e entendo, enfim, o efeito placebo das salmodias. De fato, diminuem a ansiedade e a angústia, podendo até ser vermicida, dizem os especialistas.

Sento-me ao lado de vovó. Ela está estranha. Sua respiração está pesada, um ronco das profundezas. Seus olhos estão abertos e rútilos. Olha-me intensamente. Sinto um cheiro de enxofre. Não é vovó…

_Você não é vovó!
_Não, não sou.
_Quem é você?
_Eu sou.
_Aaah… E vovó?
_Está no limbo.
_Mas o limbo não existe.
_Não se acaba limbo por decreto.
_Aaah…
_Desde que nasceste, tenho te observado. Fica mais tranquilo.
_Tranquilo?! Em relação a quê?
_Com Ela.
_Ela, quem?!
_A Morte, Ela, a Morte.
_Eita, a Morte é uma mulher?
_Irrite-me mais um pouco e te levo ao Inferno.
_Aaah…
_A Morte não é Nada, nem para os vivos, já que estão dotados de vida e, obviamente, desconhecem-Na, nem para os mortos, já que estes não existem mais.
_Isso é ateísmo!
_Só tem ateu no Inferno. Ter medo da Morte é ter medo de Nada.
_Eu não tenho medo de Nada.
_Então, podes morrer tranquilo, pois o Nada acolher-te-á completamente.
_Mas não quero morrer!
_A vida te dá tão pouco e te pede tanto. Não é melhor morrer, antes que a vida te leve tudo?
_Não…
_Ganha força, motivação e energia para morrer. Evita ficar carcomido e gasto pela vida. Senão morrerás seco, sem nada, feito um mandacaru…
_Mas um mandacaru tem água…
_Esquece o mandacaru! Falo da tua liberdade. Luta contra a Natureza, pois ela é ciosa de seu poder. Ela te quer até o fim, sofrendo até o final, ela quer decidir no teu lugar. Luta contra a sociedade, pois ela determina tua morte. Inclusive, ela é mais sutil do que a Natureza. A sociedade envenena-te aos poucos e te joga num falso jogo de azar. Ela decide a data da tua morte, poluindo o ambiente, estressando o cotidiano, impondo-te o cúmulo da vida: o trabalho, criando acidentes de carro, alimentando-te com BigMac’s…
_Mas adoro McDonald’s!

Mostro-lhe uma foto minha comendo e adorando a existência do McDonald’s (noto que aparece um riso matreiro no seu rosto):

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_Ai, ai, foi duro, mas estamos vencendo… Aliás, isso confirma o que estava dizendo.
_Confirma o quê?!
_Vê, não escolheste tua batata frita, teu pão, tua vida, tua língua, teu país, tua época, teus gostos — sem escolha, não há liberdade. Entende, só restou a suprema Liberdade: a Morte! Ser livre é morrer! Mata-te!
_Suicídio?!
_Sim, caminho direto à Liberdade e ao Inferno.
_Eu não quero ser livre.
_Er… bem… como assim?!
_Você escutou: eu não quero ser livre! Portanto, não quero morrer, entendeu?!
_Como assim?!
_”Como assim” nada! Detesto a liberdade, detesto escolher, detesto autonomia, detesto independência, detesto moda! Quero ser um Adão e viver sob o jugo totalitário de Deus, lá no Paraíso. E, principalmente, quero parar de pensar!

Vovó, ou quem quer que seja, deu um grito furibundo. Ficou em silêncio. Olhei-a e percebi que era, de fato, vovó. Parece que detestar pensamentos e reflexões, em suma, detestar a razão afugenta demônios. Ela cantava um salmo e parecia calma. Mas deu uma piscadela muito esquisita, e saí da cama rápido. Não aguentaria outra conversa. Antes de fechar a porta e sair do quarto, dei uma olhada no povo. Todos pareciam bem vivos. Não eram livres, deduzi. Rezar é viver, ponderei.

Já fora do quarto, encontrei Perrusi Pai, o traidor. Ele sorriu e perguntou:_como está tua avó?

Não respondi.

6 Comentários para “A horda primitiva”

  1. Marília:

    Cuidado com a maldição dos Perrusi: se um tio desses, ou pior, uma tia dessas ler o que você escreveu…você se torna o mais temente dos tementes a Deus! Ah! Quem é aquele adorável garotinho ao seu lado? Orravan?

  2. Artur:

    Sim, é Orravan. Como vc adivinhou? Estava disfarçado…

  3. Vanvan:

    Ô danado de corajoso é esse Artur, se fosse no seio dos Vanderwilsons, de onde venho, um trisco do que fora relatado ai em cima já significaria um linchamento, o meu.

    Ui, não devia ter escrito isso, eles vão ler!… Eles sempre sabem de tudo! MEU DEUS, lasquei-me! A horda contemporânea lá de casa não perdoa…

    Abração!

  4. Ana Cláudia:

    Fa-bu-lo-so, Artur, formidável!!!
    Camarada, esse seu diálogo com Ela vai ficar na história, está maravilhoso. Lembrei da conversa entre deus, o diabo e Jesus no livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, de Saramago.
    Adorei, Artur. Parabéns!

  5. Gil:

    Já dizia Zé Ramalho quando ainda completava o nome com “da Paraiba”:

    Avôhai!

  6. André Tricolor Virtual:

    (rsrsrsrsrs) … Muito bom “Artur”, olha que minha família tb sofre da tal “misantropia familiar e olhe que com um agravante, depois que conhecido os ‘entes querido’, após alguns dias, se nos encontrarmos na rua, é como se nunca nos conhecemos !!!!!

    Com liberdade, muitos salmos no ouvido, e muito MClancheFELIZ, o mais importante de nossas vidas é a FAMÍLIA, pois é nosso alicerce, é nossa fortaleza, aprendendo a viver em comunhão, sendo solidários e amando o bastante para nos sentirmos realizados!

    abração pra todos vcs !!!!

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