Archive for março, 2008

31 de março de 2008, às 1:00h


Marshall Sahlins- Esperando Foucault, ainda- Cosacnaify

Bilhetes amorosos

29 de março de 2008, às 19:45h

bilhete.jpg

Curioso, remexia no Baú de Freud, lá no sótão de minha casa, e encontrei alguns bilhetes um tanto enigmáticos. Aparentemente, não são de Freud. De quem são?! Sua cunhada? Lou Salomé? Jung?

Aí vão seis bilhetes:

Bilhete nº 1: “… Ao mesmo tempo, entretanto, a mulher é diferente do homem - é um contrário semelhante. A relação entre ambos precisa da diferença para existir. Mas precisa também da experiência de não deixar que a imagem continue sendo apenas uma imagem, ou seja, de também se aventurar no real. Assim na identificação imaginária homem-mulher, primeiro aparece a diferença, mas para logo ser abolida. O prazer, o gozo regridem na abolição da diferença, na morte dos termos de sujeito e objeto: homem e mulher reafirmam o poder de se assemelhar, de buscar o duplo imaginário de si mesmo, de espreitar a morte, esse outro radical, objeto fascinante, do sujeito”

Bilhete nº2: “A gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva”

Bilhete nº3: “O ato sexual é o meio pelo qual a vida nos fala, como se o amante não fosse apenas ele mesmo, mas também a folha que treme sobre a árvore, o raio que cintila sobre a água - mágico da metamorfose de todas as coisas, uma imagem explodida na dimensão do todo, de tal modo que nos sentimos em casa onde estivermos”

Bilhete nº4: “… o amor que não tem finalidade, não tem fim, não se destina, enorme vão livre, monolito, monumento no nada, afirmação e desejo (que permanece, mas não tem onde se apoiar senão em si mesmo). Fragmentos, passagens dessa relação entre vida e morte, trabalhada de novas formas, na tradição da paixão e sua metafísica (que diz respeito a uma comcepção de sujeito constituído sobre a falta), mas revertendo num salto mortal a dimensão de aniquilamento que o amor contém: ‘Quem poderá fazer aquele amor morrer/ se o amor é como um grão/ morre e nasce trigo/ vivo e morre pão’ “

Bilhete nº5: “A alegria é passagem de uma perfeição menor a outra maior, sentimento de que nossa capacidade ou aptidão para existir e agir aumentam em decorrência de uma causa externa, na paixão, e de uma causa interna, na ação”

Bilhete nº6: “O desejo, longe de perder de vista a carne que lhe deu à luz, tende em definitivo a erotizar o universo!”

Faça-me rir.

28 de março de 2008, às 16:00h

Lula atingiu seu melhor desempenho desde a sua posse no primeiro mandato. Quem mostrou isso foi a pesquisa encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Tecnicamente, acho muito estranho uma pesquisa burguesa mostrando a liderança acachapante de um líder operário, justamente em plena hegemonia do capital financeiro, isto é, não bate com os ditames da luta de classes. Meus instintos conspirativos dizem-me que tem traição nesse bolero. Ora, o capitalismo brasileiro é venal (o que é um truísmo, convenhamos). Esse gobierno de mierda comprou uma pesquisa burguesa da burguesia brasileira? Os esquerdistas brasileiros são loucos, diria Obelix.

Critico muito o reformismo do governo Lula. É cor-de-rosa demais. Esse gobierno de mierda é um bombeiro jogando água no fogo revolucionário da classe operária que, como todo mundo sabe, está prenhe de rebelião. Mas confesso que o Eneadáctilo faz-me rir. Sim, o cabra é engraçado. Por exemplo, esse papo com Bush é hilário. Saiu no UOL:

Em discurso durante o fórum empresarial entre Brasil e México, em Recife (PE), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a crise nos EUA e a manutenção da auto-estima dos empresários brasileiros são as únicas coisas que o preocupam com relação à economia brasileira.

“Essa crise pode não ser tão grande, como a gente imagina, mas pode ser maior do que a gente imagina”, disse.

“Eu liguei para ele para falar: Bush, o problema é o seguinte, meu filho, nós ficamos 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar. Resolve, resolve a tua crise”, afirmou.

Em seguida, disse que o Brasil tem know-how para salvar bancos, citando o Proer, programa criado para recuperar instituições financeiras que estavam com problemas financeiros na década de 90. “Se precisarem, podemos mandar esta tecnologia para eles [EUA]“, disse Lula.

Enquanto estava caído no chão com uma crise convulsiva de tanto rir, quase meu esôfago saía pela boca à procura de ar, quando li o derradeiro discurso, que versava sobre a multiplicação dos pães:

No mesmo discurso, Lula cobrou uma ampliação dos negócios entre Brasil e México. O presidente falou também da importância do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para o aquecimento do mercado interno e comparou o Bolsa Família à multiplicação dos pães, um dos milagres atribuídos a Jesus Cristo. “A multiplicação dos pães que Cristo falava é justamente essa”, afirmou. 

Esse gobierno de mierda não fará a revolução, infelizmente, mas ainda nos fará rir muito da cara dos carolas e dos tucanos… Tenho pena, confesso, pois não gosto de deixar ninguém na berlinda da gozação. Coitados, tempos difíceis. É duro viver.

Os esquemas

27 de março de 2008, às 18:00h

:twisted: Mais um crônica picante de Camargo, o Gil:

 trocadecasaisi.jpgO Marcelo e a Laura faziam parte da turma há muito tempo sem nunca terem participado do que os outros chamavam de “esquema”. Não pela Laura, que até tinha vontade. Mas o Marcelo não aceitava de jeito nenhum.

“Ainda mais porque você pode cair com o Renato”.

A implicância era antiga, culpa daquela vez que ela deixou escapar em uma festa de final de ano que, antes de namorar o Marcelo, tinha ficado com o Renato. E falou, segundo o marido, “toda animadinha”.

Nem a mulher do Renato viu problema nisso, mas o Marcelo não gostou. E, daí pra frente, a chance deles participarem diminuiu.

O esquema era um segredo guardado pela turma, um grupo de 5 casais, a sete chaves. Somente eles sabiam do que se tratava. Isso era levado muito a sério por todos tanto para se preservarem como para aumentar o prazer. Só conversavam sobre o assunto quando não havia mais ninguém por perto.

Tinha começado há uns 5 anos, depois que o Renato comprou uma antiga fazenda no interior e reformou a casa principal. Uma bela reforma, por sinal, que deixou de saldo 5 suítes, no andar de cima, e duas salas imensas, além de piscina e churrasqueira, na parte de baixo.

Ninguém lembra muito bem quem deu a sugestão, parece que foi o próprio Renato. O fato é que as regras foram criadas e o esquema já tinha funcionado várias vezes. E tinha dado certo, apesar da sentida ausência do Marcelo e da Laura.

Até esse ano quando o Marcelo finalmente topou participar.

O esquema tinhas regras rigorosas que foram repetidas, por precaução, ao casal de novatos. No final de semana marcado eles chegaram, no sábado pela manhã, e foram deixando as coisas espalhadas pelo andar de baixo.

Passaram o dia bebendo e conversando.

No começo da noite, descontraídos pela bebida e até excitados pelo que viria, tomaram banho, arrumaram-se e se reuniram na sala maior. Conforme uma das regras, o Renato já tinha colocado uma fita de cada cor na porta das 5 suítes. Era a identificação.

O esquema começava com as mulheres pegando roupas e pertences e subindo, uma de cada vez, pra escolher um dos quartos, qualquer um, começando pela mais nova do jogo. Naquela noite, a Laura.

Depois desciam e contavam apenas para os respectivos maridos a cor onde estavam hospedadas, justamente para que eles não escolhessem o quarto delas. Afinal, perderia a graça cair com a própria mulher.

Naquele sábado, depois do ritual feminino completado, voltaram para o quarto ali pelas dez da noite e ficaram esperando.

Então os homens fizeram a mesma coisa, pegando o que quiseram levar e escolhendo uma chave sobre a mesa, simbólica, com uma fita colorida amarrada apenas para ter certeza, antes de subir, que ninguém “sobraria” no quarto da própria mulher.

Depois subiram, em intervalos de 5 minutos, para o quarto correspondente a chave escolhida. O esquema era esse. Passar a noite com alguém do grupo, sem saber quem seria até entrar no quarto.

A partir desse momento as regras ficavam ainda mais rigorosas:

Ninguém podia sair do quarto até as 11 da manhã seguinte, de novo em intervalos de 5 minutos e na mesma ordem da subida. As 11:30 as mulheres desceriam e, reunidos na sala maior, tomariam café.

Não era permitido, até que se separassem, alguém contar com quem estivera. Esse era o segredo que fazia o esquema ficar mais interessante a cada ano. Depois, a caminho de casa, ficava por conta de cada casal revelar ou não o que tinha acontecido.

Depois que todos tinham escolhido a chave, Marcelo, o novato entre os homens, subiu até o andar de cima. Guardou o sorriso antes de abrir a porta e entrou.

– Vermelho! Eu falei vermelho, seu idiota!

– Verde, Laura, verde. Você falou verde. Não põe a culpa em mim, cacete! Não sou débil mental, você falou verde!

– Você é um desastre, Marcelo, desastre total! Quanto tempo a gente ficou ensaiando de entrar nessa porra desse esquema? Cinco anos! Você nunca queria, tinha ciúmes do Renato, essa babaquice toda. Aí, de repente, se encheu de coragem e decidiu que íamos entrar de cabeça.

– E não entramos?

– Entramos? Entramos? Vai se fuder, Marcelo! Depois de passar o dia inteiro esperando a hora do jogo vou trepar com você? Só porque você é surdo? Eu falei vermelho! E o pior é que essa maldita regra não deixa a gente melar o jogo. Deve estar todo mundo se divertindo enquanto a gente fica aqui feito dois idiotas!

Dito isso, Laura entrou no banheiro batendo a porta com força e se trancou.

Marcelo apagou a luz e ficou quieto no seu canto lembrando a cara de puto que o Renato, segundo da fila na escolha das chaves, fez quando ele escolheu a vermelha. Fora salvo pela regra e estava aliviado.

No quarto da fitinha azul Renato tentava explicar para uma decepcionada morena que a culpa não era dela não, ele é que não estava bem.

“Não sei, acho que exagerei na bebida…”.

Globalização é eufemismo de imperialismo

27 de março de 2008, às 16:00h

Alon Feuerwerker, do Blog do Alon, é nacionalista e de esquerda. Trotski diria que isso é estalinismo. E, de fato, Alon gosta de fazer uma média com Stalin — claro, se não fosse a gloriosa URSS, o mundo seria um gigantesco Vietnã ou um enorme Camboja. Diante da destruição da esquerda, almejada pela mídia burguesa, devemos repercutir, por uma questão de princípio, toda análise que acumule forças na luta de classes. E, confesso, que simpatizo com alguém que chama a “globalização” pelo seu antigo nome: imperialismo. Eu mesmo ainda utilizo um eufemismo: internacionalização do capital. E criticar o ambientalismo, essa invenção pequeno-burguesa, faz bem ao coração de um bolchevique. E, convenhamos, todo estalinista é sensato, enquanto não chega ao poder, é claro.

Li o texto abaixo no seu blog:

Um mundo cada vez mais perigoso (24/03)

O que impressiona na crise americana desencadeada pelos créditos podres no mercado imobiliário é que os especialistas parecem tão ou mais perdidos que os leigos. Claro que os verdadeiros especialistas, os dignos do nome, estão ganhando dinheiro enquanto os supostos especialistas cuidam de dar opinião. Este post me coloca na segunda e populosa categoria, dos que dão palpites. No feriado, tentei chegar a uma definição relativamente sintética das raízes da crise do subprime. Aí vai a opinião do leigo. A economia dos Estados Unidos tomou um tranco porque o país mais rico do mundo não produz riqueza suficiente para, simultaneamente, 1) alimentar o altíssimo nível médio de consumo de seus cidadãos, 2) manter uma máquina militar atuante e capaz de garantir sua hegemonia planetária na era das guerras assimétricas e da emergência de múltiplos países candidatos a potência e 3) poupar e captar poupança suficiente para alavancar um crescimento sustentado. Há quem busque as explicações para a crise na esfera da circulação e das finanças. Eu, que não sou especialista, prefiro enveredar pela observação da produção e do estado da economia nacional da superpotência. Os fatos indicam a atualidade do conceito de imperialismo e a fragilidade das idéias alicerçadas na ilusão de um mundo “globalizado”, em que as fronteiras e os estados nacionais perdem progressivamente a importância. Mais de um ano atrás, escrevi em O ambientalismo num só país:

Quem já leu um pouco desconfia de que globalização é o nome novo que se dá a algo velho: o imperialismo. Neste blog, você sabe, sobrevivem as categorias da boa ciência social. Mas deixemos de lado a expressão clássica, para não ferir suscetibilidades. Usemos “globalização”. Notei aqui outro dia (O muro mexicano realiza o sonho da esquerda) que as mesmas vozes que enaltecem a livre circulação dos capitais e da informação não se batem pela contrapartida: a livre circulação do trabalho. O que está em curso no planeta não é a formação de um mercado global, é a captura agressiva de mercados nacionais por capitais também nacionalmente baseados, apoiados nos respectivos Estados. Você acha meu pensamento obsoleto? Então faça a experiência você mesmo. Tente emigrar para os Estados Unidos ou para a Europa, como um trabalhador livre. Diga no controle de passaportes que você é um cidadão do mundo e vá em frente.

Clique para ler O ambientalismo num só país. Os crentes na globalização que tentam, por exemplo, viajar à Espanha, sabem do que estou falando. Leia En Barajas se habla portugués, no El País. Veja também este trecho do já célebre discurso de Barack Obama, semana passada, sobre a questão racial nos Estados Unidos. Ele discorria sobre a repetição sistemática de manobras diversionistas nas eleições americanas:

Desta vez queremos falar sobre as fábricas abandonadas que no passado ofereciam vida decente a homens e mulheres de todas as raças, e sobre as casas à venda que no passado pertenceram a pessoas de todas as religiões, todas as regiões, todas as ocupações. Desta vez queremos falar sobre o fato de que o verdadeiro problema não é que alguém de aparência diferente possa tomar nosso emprego, mas sim que a empresa para a qual alguém trabalha possa decidir despachar esse emprego a outro país em busca de nada mais que lucro.

Uma boa tradução para o português do discurso de Obama está na Folha Online. Na era do imperialismo, o capital financeiro, resultante da fusão de capitais produtivos com capitais originalmente bancários, captura os estados nacionais e os transforma em alicerce da sua expansão. Que tem por objetivo atrair e aprisionar em sua órbita mercados consumidores, força de trabalho e fontes de matérias-primas. Um erro cometido por críticos contemporâneos do imperialismo é imaginar que essa expansão se dá necessariamente promovendo a pobreza e a exclusão social. Leia Deng 2010. Por compreender mal a essência do imperialismo (reflexo disso é a adoção do conceito eclético de “neoliberalismo”, que a rigor não significa nada, ainda que todos nós o utilizemos, mesmo que só de vez em quando), a esquerda acaba tentada a imaginar que a luta de classes contemporânea se dá entre ricos e pobres. O que, além de um equívoco intelectual, é também um atalho para o isolamento político e a radicalização sem futuro. Os capitais exportados para a periferia do sistema são um suporte para a criação de valor pelo trabalho -e uma parte desse valor ajuda a elevar o padrão de vida dos trabalhadores. O problema está em outros aspectos. Está na distribuição injusta e desigual do valor criado, na drenagem da riqueza para o centro do sistema e na submissão dos países periféricos aos hegemônicos. O neocolonialismo. De volta à crise dos Estados Unidos. Por que os tomadores de empréstimos para casa própria passaram a ter dificuldade de honrar os compromissos? Ora, porque faltou dinheiro. Mas quando os credores emprestaram dinheiro para as pessoas não o fizeram para tomar calote. Alguma coisa deu errado para que se travasse a roda da bicicleta do crédito imobiliário no Estados Unidos. Assim, é mais razoável supor que o ritmo insuficiente de crescimento da economia americana esteja na raiz da crise do subprime do que o contrário. E por que a economia dos Estados Unidos está de língua de fora? Pela impossibiliade de combinar pacificamente as variáveis descritas no início deste texto. E qual é saída? Em países sem força imperial suficiente, coisas assim resolvem-se habitualmente com inflação e ajuste fiscal. Corta-se o consumo, desvalorizam-se a moeda e os salários e a vida segue, no mais das vezes sob um novo governo. Já os países imperialistas dispõem de outra saída, menos dolorosa para eles e mais problemática para os demais. Eles podem optar por aumentar agressivamente as demandas pela abertura de mercados para seus capitais e por acesso privilegiado a matérias-primas (e energia). Daí que o imperialismo tenda a sair das crises recorrendo à guerra. E, como bem vem notando Barack Obama, o capital é mestre em mobilizar forças internas nas situações de crise explorando o ódio racial, étnico e social. Uma questão chave para a economia americana são as fontes de energia. Os Estados Unidos são, de longe, o maior consumidor de energia, notadamente de petróleo. Os países produtores de petróleo, em sistema de cartel, cuidam de evitar que o preço caia. O ideal para os Estados Unidos seria um mundo em que o fornecimento de petróleo fosse abundante, de modo a que o preço descesse a níveis em que fosse possível manter o padrão de consumo atual dos americanos, mas custando bem menos. O resultado dessa contradição é o crescimento das pressões, militares principalmente, sobre os detentores de óleo. Tratei do assunto quando escrevi sobre a importância da Colômbia na estratégia americana em relação à Venezuela, o país líder no movimento para fortalecer a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Por mais que a paz seja uma aspiração universal legítima, é forçoso admitir que os ventos internacionais não ajudam. Os mais espertos já devem, nesta altura do campeonato, ter lembrado da velha máxima segundo a qual se você deseja a paz deve preparar-se para o cenário contrário.

A necessidade do PAC no período eleitoral

27 de março de 2008, às 8:00h

A rede da Mídia Burguesa é impressionante. Tudo que é realizado pelo governo é oportunismo eleitoral. A tendenciosidade é tão grande que são incapazes de compreender um fenômeno singelo como a coincidência. Não, tudo é maquinação e conspiração do Foro de São Paulo. Paranóicos! Infelizmente, um jornal pequeno-burguês, como a “Folha“, entrou nessa barca furada, cujo objetivo é a destruição da esquerda. Aviso aos navegantes: a esquerda é eterna, pois, mesmo acabando o capitalismo, continuará viva nos gulags, ops!, no comunismo. Desde a Revolução Francesa, os conservadores e os agentes do atraso tentam destrui-la… em vão. Jamais conseguirão eliminar a chama da esperança por um mundo melhor.

Lembrem-se todos: mais vale uma esquerda imunda do que uma direita nojenta. Governo Lula? Este es un gobierno de mierda, pero es mi gobierno, mierda!

Li essa matéria abaixo em Nassif:

As ações eleitorais

A “Folha” insiste na história de que todo gasto público tem objetivo eleitoral. É evidente que todo governante procura maximizar o retorno eleitoral de suas obras.

Mas a implicância com o PAC é demais. Daqui a pouco, nenhum governante vai poder fazer qualquer obra em ano eleitoral (independentemente da sua relevância ou dos critérios de distribuição) porque será considerado eleitoral.

Olha a matéria da “Folha”. Na capa:

PAC privilegia 158 cidades no ano eleitoral

O governo Lula driblou o veto da lei eleitoral a repasses de recursos para obras novas nos três meses anteriores à eleição municipal e, sem alarde, listou por decreto quase 1.800 ações do PAC que terão gastos liberados na reta final, informa Marta Salomon. A lista de projetos tratados como prioritários, de transferência obrigatória, é liderada por saneamento, urbanização de favelas e construção de casas.

Veja só: privilegia cidades em ano eleitoral. Como se cidades fossem partidos políticos. Nas matérias internas, se lê que a cidade mais beneficiada será o Rio de Janeiro (de César Maia) seguido de São Paulo (de Gilberto Kassab). E em questões fundamentais: saneamento, habitação popular.

Onde, então, o caráter eleitoreiro das verbas? Aí a repórter tem que se virar e encontrar uma justificativa para a primeira página:

Os votos mobilizados pelo PAC poderão beneficiar tanto os atuais prefeitos que disputam a reeleição como seus adversários no pleito de outubro (!!!). No caso de São Paulo, por exemplo, a expectativa dos governistas é que a petista Marta Suplicy apareça vinculada ao PAC e não o atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM).

Se podem beneficiar tanto um quanto outro, o parágrafo poderia ter terminado com a frase: “E a expectativa dos governistas de São Pauylo é que o prefeito Gilberto Kassab (DEM) apareça vinculado às obras”.

Agora, cá para nós: se receber verbas do PAC em ano eleitoral fosse ruim para as eleições, Serra, Kassab e César Maia teriam assinado os convênios?

A idiotice do TSE

27 de março de 2008, às 0:29h

Incrível, o TSE decidiu censurar a internet nas próximas eleições. No artigo 18 da Resolução Nº 22.718,  aparece a seguinte idiotice: “A propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral“. Ora, lendo o restante da resolução, o TSE proíbe toda comunicação política eleitoral via YouTube, Orkut, Twitter, etc e tal. E se pode muito bem deduzir que é proibido a qualquer cidadão manifestar-se politicamente, através de banners, por exemplo, nos seus blogs.

Por que diabos eu não poderei fazer propaganda de meus candidatos no meu blog?

E logo agora que a internet, mais especificamente a blogosfera, possui um peso eleitoral considerável, a começar entre os jovens. Como o TSE é uma gerontocracia, levanto a hipótese prosaica de que os ministros desconhecem a diferença entre um spam e um orkut ou um blog. Cometeram um erro imbecil que acarretará consequências antidemocráticas. Impedem assim a livre associação e organização política no mundo virtual visando as eleições. Outra hipótese é que são mesmo autoritários, independentemente da faixa etária.

Deduzo que o TSE proibiria a Prensa de Gutemberg durante o período eleitoral. Agora, sabemos por que o alemão fugiu de sua cidade natal, Mainz, exilando-se e transferindo-se para Estrasburgo. Era o ministro relator do TSE, vociferando e perseguindo o coitado.

Em tempo:

Pesquei um texto mais esclarecedor sobre o TSE e suas besteiradas, lá no “O Biscoito Fino e a Massa“, do sempre atento Idelber Avelar. Lá vai:

Judiciário brasileiro inventa a campanha eleitoral sem internet

Numa mesa-redonda com a participação da editora Luciana Villas Boas, do escritor Paulo Cesar de Araújo e da advogada Deborah Sztajnberg que se realizará às 16 horas de sexta-feira, aqui em Tulane, como parte do congresso da BRASA, eu defenderei a tese de que a grande ameaça contemporânea à democracia brasileira é a inacreditável tacanhice, ignorância, atraso e reacionarismo do seu Judiciário. Que se critique o que for no Executivo e no Legislativo, mas que se reconheça: o Judiciário é hors-concours.

Considerando que a história recente do Judiciário brasileiro inclui os atos de proibir livros, condenar um blog por um comentário anônimo feito seis meses depois do post, lavrar sentença concedendo a um político o direito de resposta num blog extinto pela própria sentença, multar jornalista a priori por ofensa que pudesse vir a ser feita, impedir a divulgação de sentença do próprio judiciário e finalmente proibir joguinhos, eu não precisava de mais nenhuma munição para a intervenção nessa mesa-redonda em solidariedade ao grande pesquisador Paulo Cesar de Araújo. Não precisava, mas é claro que nestes casos, desgraça pouca é bobagem.

Acabo de ler a inacreditável resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral, que regulamenta a campanha deste ano no Brasil. Não se fiem do meu resumo. Sigam o link e leiam por si próprios. O artigo 1 estabelece que a propaganda eleitoral nas eleições municipais de 2008, mesmo quando realizada pela Internet e por outros meios eletrônicos, seguirá o determinado pela resolução. Até aí, tudo bem. Daí em diante, começa o Febeapá.

O artigo 3 estabelece que a propaganda só será permitida a partir de 6 de julho. Se alguém resolver fazer campanha para seu candidato no seu próprio blog antes disso, vão fazer o quê? Tirar o blog do ar? Impugnar a candidatura? O artigo 18 é a pérola mais sensacional: a propaganda eleitoral na internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Em outras palavras? Ou eu já não entendo a língua portuguesa ou o Tribunal Superior Eleitoral acaba de proibir a campanha política na Internet, com a exceção de uma página para cada candidato. Está proibida, nos blogs, no orkut, no facebook, qualquer manifestação de preferência eleitoral que possa ser entendida como campanha.

A proibição refere-se, claro, a uma realidade sobre a qual ela não tem nenhum controle. A Internet continuará ignorando o Judiciário brasileiro - talvez não tanto como este a ignora, mas o suficiente para que suas resoluções continuem caindo no ridículo. Mas também me parece evidente que a repetida publicação de resoluções como esta vai criando aberturas judiciais para atos de supressão de opinião, justamente num momento em que a democratização proporcionada pela Internet revoluciona a experiência política em países da América do Norte e da Europa. Chega a ser comovente a ignorância dos togados brasileiros — com raras e honrosas exceções — sobre os princípios mais básicos de funcionamento da rede mundial de computadores. O problema é que eles insistem em querer regulá-la.

O TSE, no fundo, está dizendo: não permitiremos que apareça um Barack Obama por aqui. Cabe a nós dar o troco.

Cuba x Blog

26 de março de 2008, às 14:54h

O regime castrista sobreviverá à aposentadoria de Fidel, mas não aos blogs. Fui no blog Generación Y e gostei. Lá tem links para outros blogs cubanos. Todos, pelo que entendi, anti-establishments e residindo em provedores fora da Ilha. Alguns fazem análise política, como esse blog de nome tão longo quanto os antigos discursos de Fidel: Lo que yo y otros pensamos sobre la realidad cubana. Parece defender que ocorre uma distensão no PC cubano com a chegada de Raúl Castro — uma luta entre o velho e um novo socialismo. Será Raúl um novo Gorbachev? Numa leitura rápida do blog, achei as críticas açucaradas demais em relação ao regime cubano.

De todo modo, a gerontocracia cubana cairá, pois não resistirá ao charme da gatinha do Generación Y:

yoani_graffiti.jpg

Como escreveu Gaspari na Folha:

Começou uma bonita briga, a da ditadura cubana com os blogueiros. Os septuagenários veteranos da Sierra Maestra têm uma nova guerrilha pela frente. Em vez de viver escondida no mato, ela está na rede de computadores e seu símbolo mais visível é Yoani Sanchez, uma micreira filóloga de 32 anos que publica a página “Generación Y” (1,2 milhão de visitas em fevereiro). No lugar dos fuzis, cabos, pen-drives e celulares com câmeras.

Os novos pecados e o Sicav

26 de março de 2008, às 12:00h

Para fazer um pouco de terror com os ímpios, em particular com os agnósticos, esses tucanos da espiritualidade, elenco os novos pecados capitais, juntamente com os velhos: 

Os velhos (muito mais interessantes e divertidos):

1. gula
2. luxúria
3. avareza
4. ira
5. soberba
6. vaidade
7. preguiça

Os novos (chatos e politicamente corretos; meu Deus!, como a esquerda influencia — por sinal, esse pecado “causar pobreza” deve ser um horror para um liberal brasileiro): 

8. modificações genéticas :-D
9. experimentos em humanos ;-)
10. poluição do meio ambiente :mrgreen:
11. injustiça social :cry:
12. causar a pobreza :oops:
13. ambição financeira :twisted:
14. ingestão de drogas 8-O

A Igreja moderniza-se, tornando-se patética. Os católicos não terão mais tempo, nem mesmo para um papai-mamãe, nem ainda para colocar uma camisinha, com tanta reza, penitência e pecado.

Enquanto isso, a igreja espanhola investe nos mercados de capitais (sociedades de investimento de capital variável - Sicav) que, de fato, são… milagrosos.  Investir no mercado não é pecado, claro — aliás, por que seria? O vil metal beatiza-se e o espírito do capitalismo, enfim, baixa no catolicismo.

Li a matéria abaixo no UOL:

Fuga de fiéis faz Igreja espanhola investir nos mercados de capitais

Igreja católica espanhola usa sociedades financeiras para investir suas doações na bolsa de valores

David Fernández

A igreja católica determinou recentemente que “acumular riquezas excessivas” é pecado. Mas a hierarquia eclesiástica continua utilizando as mesmas estratégias financeiras próprias dos milionários, como as polêmicas sociedades de investimento de capital variável (Sicav), que têm uma tributação mais do que atrativa. Essas sociedades, gerenciadas por profissionais do setor financeiro, aplicam parte do capital da Igreja na bolsa de valores, sem se guiar por outros critérios que não os meramente financeiros. O que não exclui, por exemplo, comprar ações de companhias farmacêuticas mesmo que elas fabriquem anticoncepcionais.

Já faz tempo que o dinheiro da Igreja vem sendo motivo de polêmica. Primeiro, por causa do próprio modelo que garante o financiamento da instituição, que combina contribuições privadas de seus fiéis com fundos públicos pagos pelos contribuintes. Depois, porque viu parte de suas economias serem reduzidas consideravelmente, vinculadas a algumas das maiores fraudes recentes do país (AVA, Gescartera, Afinsa, entre outras). Agora, questiona-se se os investimentos da Igreja não correm o risco de cair em contradição com a nova moral que o Vaticano apregoa e se as sociedades que a Igreja utiliza para obter lucro com suas doações não poderiam ser incluídas nessa nova categoria de pecadores: os ricos.

Para entender o que levou os clérigos a investirem nas milagrosas operações financeiras que hoje sustentam suas economias ou a confiarem seu dinheiro a entidades de reputação duvidosa, é necessário observar primeiro quais são suas fontes de renda. Uma delas tem sua origem no acordo feito pelo Estado espanhol e a Santa Sé sobre Assuntos Econômicos em 3 de janeiro de 1979.

Esse acordo, que reconhecia a contribuição pública mas também previa sua substituição progressiva na medida em que a Igreja passasse a se auto-sustentar - coisa que não aconteceu -, foi modificado em duas ocasiões. A primeira, em 1987, no governo de Felipe González, e a última, há dois anos, sob a administração de José Luis Rodríguez Zapatero. As últimas mudanças entrarão em vigor no próximo mês de maio quando começar a campanha do imposto de renda e os cidadãos fizerem a declaração do exercício de 2007.

Este ano a Igreja católica receberá, pela primeira vez, 0,7% das declarações do Imposto de Renda Sobre Pessoa Física (IRPF) dos contribuintes que optem pela doação, em vez dos 0,5239% que recebeu nos últimos 20 anos. Em troca desse aumento, que tem duração indeterminada, o clero deixará de receber dinheiro do Orçamento Geral da União para seu sustento básico e renuncia à isenção do IVA na aquisição de bens imóveis.

O orçamento das 68 dioceses espanholas, segundo dados oficiais, gira em torno de 1,3 bilhão de euros, sem contar as ordens religiosas e seus colégios, residências e centros eclesiásticos. No período de 1997-2006 a Igreja recebeu do Estado 2,2 bilhões de euros em virtude dos acordos já descritos. Em 2006, por exemplo, a soma do IRPG com o dinheiro vindo do orçamento garantiu a entrada de um total de 144 milhões, quantidade que, no entanto, cobre pouco mais do que 10% dos gastos eclesiásticos. O restante é financiado pelos rendimentos sobre o patrimônio, as atividades financeiras e, principalmente, pelas doações dos fiéis.

A alta dependência da famosa caixinha de doações é problemática na medida em que a sociedade espanhola começa a emitir sinais de uma crescente secularização. Em 1998, 83,5% dos espanhóis se declaravam católicos, enquanto que em 2007 o número havia baixado para 77%, segundo os dados do Centro de Investigações Sociológicas (CIS). Hoje, somente 15,8% dos que se dizem católicos assistem à missa todos os domingos. Além disso, o número de contribuintes que opta por doar dinheiro na declaração de renda caiu 10 pontos percentuais em menos de uma década.

Com a pouca fidelidade por parte dos fiéis, não é de se estranhar que nos últimos anos a Igreja espanhola tenha buscado vias alternativas de financiamento nos mercados de capitais. “Do ponto de vista legal, a Igreja é uma pessoa jurídica e como tal pode realizar todas as operações mercantis que são permitidas às pessoas jurídicas, incluindo o investimento na bolsa de valores”, afirma José Landete, professor de Direito Eclesiástico da Universidade de Valência.

A relação da Igreja católica espanhola com os mercados financeiros enfrentou várias dificuldades nos últimos anos. Talvez a mais grave tenha sido o episódio da Gescartera. Essa corretora de valores sumiu com mais de 100 milhões de euros de seus dois mil clientes, entre eles estavam cerca de trinta instituições religiosas. Mais recentemente, veio à tona o golpe dos selos. A promessa de altos rendimentos da Afinsa também atraiu o dinheiro do clero. A intervenção dessa sociedade filatélica fez com que o Arcebispado de Madri passasse a ser um de seus inúmeros credores. Além de confiar suas economias a outras entidades (com os resultados que já foram citados), a Igreja também criou suas próprias sociedades de investimento. Entre 1999 e 2000 foram registradas na CNMV três fundos de investimento de capital variável (Sicav) que têm o clero entre seus acionistas. Essas sociedades são o instrumento de investimento favorito dos milionários espanhóis. Entre as personalidades que possuem Sicav estão Amancio Ortega, Alicia Koplowitz, Juan Abelló, Rosalía Mera, Manuel Jove e as famílias Entrecanales e Del Pino, entre outros.

A principal propaganda das Sicav são seus atrativos fiscais uma vez que, por serem consideradas instrumentos de investimento coletivo, tributam apenas 1% sobre os benefícios em vez de pagar o imposto sobre as sociedades (que caiu para 30%). Esse sistema despertou as suspeitas da Fazenda. Um dos requisitos para constituir uma Sicav (e se aproveitar de seus benefícios) é ter pelo menos 100 acionistas. As suspeitas da Agência Tributária se devem ao fato de que, em muitos casos, esses 100 investidores não existem e são especialmente fornecidos ao cliente pela própria entidade gestora, para constituir a sociedade. São os denominados “mariachis”. No caso das três Sicav da Igreja, elas superam por muito pouco o limite de 100 acionistas.

Ao todo, as sociedades financeiras do clero têm um patrimônio de 17,79 milhões de euros. A maior delas, Umasges, é gerenciada pela Caja Madrid e seu principal acionista é a Mutua Umas, uma seguradora constituída em 1981 com o patrocínio da Conferência Episcopal. Também são acionistas da sociedade os arcebispados de Burgos e Madri. Apesar da sociedade possuir ações de companhias de grande capitalização (Telefónica, BBVA, Repsol, Ferrovial e Iberdrola), o grosso de seus investimentos está voltado para o que se conhece no jargão econômico como “chicharros”, ou seja, valores pequenos, muito voláteis e de maior caráter especulativo. Entre esses últimos se encontram as companhias Cie Cie Automotive, Campofrío, Viscofan y GAM. O perfil agressivo desses investimentos também é delatado pelo perfil de sua principal aplicação em renda variável estrangeira, o fundo CAAM Arbitrage Volatilité, um produto de retorno absoluto (muito similar aos temidos hedge funds, ou fundos de alto risco) que aproveita as oportunidades oferecidas pelo universo dos juros vinculados à inflação.

A Umasges reduziu em muito sua exposição à renda variável. Enquanto em 30 de junho passado cerca de 75,35% de sua carteira estava investida em ações espanholas, hoje esse valor é de apenas 52,12%. Entretanto, esse perfil mais conservador não impediu que os efeitos da crise financeira detonada pelas hipotecas norte-americanas diminuíssem seu capital. O patrimônio da Umasges caiu em um milhão de euros em menos de seis meses.

As outras duas Sicav vinculadas à Igreja espanhola são Vayomer e BI Gran Premiere. A primeira, com participação do Bispado de Astorga, é gerenciada pelo Banco Santander, enquanto a segunda tem a presença do Arcebispado de Oviedo e seu gestor é o banco português Espírito Santo. A BI Gran Premiere também tem um alto perfil especulativo e conta com investimentos tão pequenos como Fersa, Indo, Inypsa, Service Point ou Lingotes Especiales em sua carteira. Além disso, a BI Gran Premiere, na parte da carteira destinada à renda variável estrangeira, tem ações da Pfizer. Este investimento tem sido alvo de polêmica já que a farmacêutica norte-americana é fabricante do Viagra e de anticoncepcionais como Depo-Provera. Semelhante estratégia de investimentos vai contra a doutrina moral e sexual que o Vaticano defende.

Entramos em contato com a Conferência Episcopal com a intenção de conhecer sua opinião sobre os investimentos realizados pelas Sicav onde há participação religiosa. Entretanto, nenhum membro do órgão máximo da Igreja na Espanha quis dar qualquer declaração. Dizem estar “centrados” na próxima campanha de Imposto de Renda.

“Não é lógico que a Igreja exija umas condutas de comportamento e que não seja coerente com as mesmas na hora de investir seu dinheiro”, diz Alejandro Torres Gutiérrez, professor de Direito Eclesiástico da Universidade Pública de Navarra. Para o especialista, a Igreja não deveria se arriscar a perder seu capital nem deveria cair em contradições entre sua doutrina e seus investimentos. A solução para o financiamento da Igreja, segundo Torres Gutiérrez, está em dizer a seus fiéis que a contribuição que fazem é insignificante em relação aos serviços que recebem. “O clero vai receber esse ano em torno de 155 milhões pelo IRPF. Se 32 dos 44 milhões de habitantes da Espanha são católicos, isso significa que cada um doa apenas cinco euros por ano. O preço da missa fica a dez centavos por ano”, argumenta.

José Landete assinala que também não é conveniente cair na demagogia na hora de analisar os investimentos da Igreja. “Como ocorre com todas as sociedades de investimentos, elas são geridas por terceiros e seus profissionais estão mais preocupados em maximizar o lucro do cliente do que verificar se sua estratégia está adequada à moral dele”. Se por um lado o dia-a-dia da gestão de uma Sicav cabe aos profissionais, por outro os proprietários dessas sociedades normalmente fazem reuniões semestrais com os gestores dos bancos privados para unificar estratégias e decidir onde investir ou não.

Alguns bispos, ao se referirem às suas finanças, chegaram a chamar a Igreja de “uma mulher empobrecida cheia de jóias”. Será que a Bolsa é a solução para conservar essas jóias?

Cristina Quicler/AFP - 16.mar.2008  
Penitentes participam de procissão da irmandade La Paz, em Sevilha, na Semana Santa

Esse acordo, que reconhecia a contribuição pública mas também previa sua substituição progressiva na medida em que a Igreja passasse a se auto-sustentar - coisa que não aconteceu -, foi modificado em duas ocasiões. A primeira, em 1987, no governo de Felipe González, e a última, há dois anos, sob a administração de José Luis Rodríguez Zapatero. As últimas mudanças entrarão em vigor no próximo mês de maio quando começar a campanha do imposto de renda e os cidadãos fizerem a declaração do exercício de 2007.

Este ano a Igreja católica receberá, pela primeira vez, 0,7% das declarações do Imposto de Renda Sobre Pessoa Física (IRPF) dos contribuintes que optem pela doação, em vez dos 0,5239% que recebeu nos últimos 20 anos. Em troca desse aumento, que tem duração indeterminada, o clero deixará de receber dinheiro do Orçamento Geral da União para seu sustento básico e renuncia à isenção do IVA na aquisição de bens imóveis.

O orçamento das 68 dioceses espanholas, segundo dados oficiais, gira em torno de 1,3 bilhão de euros, sem contar as ordens religiosas e seus colégios, residências e centros eclesiásticos. No período de 1997-2006 a Igreja recebeu do Estado 2,2 bilhões de euros em virtude dos acordos já descritos. Em 2006, por exemplo, a soma do IRPG com o dinheiro vindo do orçamento garantiu a entrada de um total de 144 milhões, quantidade que, no entanto, cobre pouco mais do que 10% dos gastos eclesiásticos. O restante é financiado pelos rendimentos sobre o patrimônio, as atividades financeiras e, principalmente, pelas doações dos fiéis.

A alta dependência da famosa caixinha de doações é problemática na medida em que a sociedade espanhola começa a emitir sinais de uma crescente secularização. Em 1998, 83,5% dos espanhóis se declaravam católicos, enquanto que em 2007 o número havia baixado para 77%, segundo os dados do Centro de Investigações Sociológicas (CIS). Hoje, somente 15,8% dos que se dizem católicos assistem à missa todos os domingos. Além disso, o número de contribuintes que opta por doar dinheiro na declaração de renda caiu 10 pontos percentuais em menos de uma década.

Com a pouca fidelidade por parte dos fiéis, não é de se estranhar que nos últimos anos a Igreja espanhola tenha buscado vias alternativas de financiamento nos mercados de capitais. “Do ponto de vista legal, a Igreja é uma pessoa jurídica e como tal pode realizar todas as operações mercantis que são permitidas às pessoas jurídicas, incluindo o investimento na bolsa de valores”, afirma José Landete, professor de Direito Eclesiástico da Universidade de Valência.

A relação da Igreja católica espanhola com os mercados financeiros enfrentou várias dificuldades nos últimos anos. Talvez a mais grave tenha sido o episódio da Gescartera. Essa corretora de valores sumiu com mais de 100 milhões de euros de seus dois mil clientes, entre eles estavam cerca de trinta instituições religiosas. Mais recentemente, veio à tona o golpe dos selos. A promessa de altos rendimentos da Afinsa também atraiu o dinheiro do clero. A intervenção dessa sociedade filatélica fez com que o Arcebispado de Madri passasse a ser um de seus inúmeros credores. Além de confiar suas economias a outras entidades (com os resultados que já foram citados), a Igreja também criou suas próprias sociedades de investimento. Entre 1999 e 2000 foram registradas na CNMV três fundos de investimento de capital variável (Sicav) que têm o clero entre seus acionistas. Essas sociedades são o instrumento de investimento favorito dos milionários espanhóis. Entre as personalidades que possuem Sicav estão Amancio Ortega, Alicia Koplowitz, Juan Abelló, Rosalía Mera, Manuel Jove e as famílias Entrecanales e Del Pino, entre outros.

A principal propaganda das Sicav são seus atrativos fiscais uma vez que, por serem consideradas instrumentos de investimento coletivo, tributam apenas 1% sobre os benefícios em vez de pagar o imposto sobre as sociedades (que caiu para 30%). Esse sistema despertou as suspeitas da Fazenda. Um dos requisitos para constituir uma Sicav (e se aproveitar de seus benefícios) é ter pelo menos 100 acionistas. As suspeitas da Agência Tributária se devem ao fato de que, em muitos casos, esses 100 investidores não existem e são especialmente fornecidos ao cliente pela própria entidade gestora, para constituir a sociedade. São os denominados “mariachis”. No caso das três Sicav da Igreja, elas superam por muito pouco o limite de 100 acionistas.

Ao todo, as sociedades financeiras do clero têm um patrimônio de 17,79 milhões de euros. A maior delas, Umasges, é gerenciada pela Caja Madrid e seu principal acionista é a Mutua Umas, uma seguradora constituída em 1981 com o patrocínio da Conferência Episcopal. Também são acionistas da sociedade os arcebispados de Burgos e Madri. Apesar da sociedade possuir ações de companhias de grande capitalização (Telefónica, BBVA, Repsol, Ferrovial e Iberdrola), o grosso de seus investimentos está voltado para o que se conhece no jargão econômico como “chicharros”, ou seja, valores pequenos, muito voláteis e de maior caráter especulativo. Entre esses últimos se encontram as companhias Cie Cie Automotive, Campofrío, Viscofan y GAM. O perfil agressivo desses investimentos também é delatado pelo perfil de sua principal aplicação em renda variável estrangeira, o fundo CAAM Arbitrage Volatilité, um produto de retorno absoluto (muito similar aos temidos hedge funds, ou fundos de alto risco) que aproveita as oportunidades oferecidas pelo universo dos juros vinculados à inflação.

A Umasges reduziu em muito sua exposição à renda variável. Enquanto em 30 de junho passado cerca de 75,35% de sua carteira estava investida em ações espanholas, hoje esse valor é de apenas 52,12%. Entretanto, esse perfil mais conservador não impediu que os efeitos da crise financeira detonada pelas hipotecas norte-americanas diminuíssem seu capital. O patrimônio da Umasges caiu em um milhão de euros em menos de seis meses.

As outras duas Sicav vinculadas à Igreja espanhola são Vayomer e BI Gran Premiere. A primeira, com participação do Bispado de Astorga, é gerenciada pelo Banco Santander, enquanto a segunda tem a presença do Arcebispado de Oviedo e seu gestor é o banco português Espírito Santo. A BI Gran Premiere também tem um alto perfil especulativo e conta com investimentos tão pequenos como Fersa, Indo, Inypsa, Service Point ou Lingotes Especiales em sua carteira. Além disso, a BI Gran Premiere, na parte da carteira destinada à renda variável estrangeira, tem ações da Pfizer. Este investimento tem sido alvo de polêmica já que a farmacêutica norte-americana é fabricante do Viagra e de anticoncepcionais como Depo-Provera. Semelhante estratégia de investimentos vai contra a doutrina moral e sexual que o Vaticano defende.

Entramos em contato com a Conferência Episcopal com a intenção de conhecer sua opinião sobre os investimentos realizados pelas Sicav onde há participação religiosa. Entretanto, nenhum membro do órgão máximo da Igreja na Espanha quis dar qualquer declaração. Dizem estar “centrados” na próxima campanha de Imposto de Renda.

“Não é lógico que a Igreja exija umas condutas de comportamento e que não seja coerente com as mesmas na hora de investir seu dinheiro”, diz Alejandro Torres Gutiérrez, professor de Direito Eclesiástico da Universidade Pública de Navarra. Para o especialista, a Igreja não deveria se arriscar a perder seu capital nem deveria cair em contradições entre sua doutrina e seus investimentos. A solução para o financiamento da Igreja, segundo Torres Gutiérrez, está em dizer a seus fiéis que a contribuição que fazem é insignificante em relação aos serviços que recebem. “O clero vai receber esse ano em torno de 155 milhões pelo IRPF. Se 32 dos 44 milhões de habitantes da Espanha são católicos, isso significa que cada um doa apenas cinco euros por ano. O preço da missa fica a dez centavos por ano”, argumenta.

José Landete assinala que também não é conveniente cair na demagogia na hora de analisar os investimentos da Igreja. “Como ocorre com todas as sociedades de investimentos, elas são geridas por terceiros e seus profissionais estão mais preocupados em maximizar o lucro do cliente do que verificar se sua estratégia está adequada à moral dele”. Se por um lado o dia-a-dia da gestão de uma Sicav cabe aos profissionais, por outro os proprietários dessas sociedades normalmente fazem reuniões semestrais com os gestores dos bancos privados para unificar estratégias e decidir onde investir ou não.

Alguns bispos, ao se referirem às suas finanças, chegaram a chamar a Igreja de “uma mulher empobrecida cheia de jóias”. Será que a Bolsa é a solução para conservar essas jóias?

A bopezização do capitalismo

26 de março de 2008, às 11:46h

O capitalismo é invencível. Por isso, Marx tinha razão quando defendia a violência revolucionária, pois o sistema só cairá na porrada. Ele absorve tudo, aproveita tudo, reverte tudo a seu favor. Os comunistas precisarão de dois séculos de totalitarismo para extirpar todos os efeitos do empreendedorismo na mentalidade das pessoas.

Li o texto abaixo na revista eletrônica milica DefesaNet:

Caveira Motivacional

por Maeli Prado

Como as regras do Batalhão de Operações Especiais, da PM do Rio, que inspirou o premiado e polêmico “Tropa de Elite”, viraram bíblia de palestras e são aplicadas no dia-a-dia de grandes empresas.

“Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você.” Os versos da trilha sonora do filme brasileiro mais visto e comentado dos últimos tempos ecoam no pequeno auditório em uma das ?liais da seguradora Unibanco AIG, em um casarão da avenida Brasil, em São Paulo. São 20h de uma quinta-feira, 28 de fevereiro, quando o “caveira 69″, Paulo Storani, 45, ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais), é anunciado à platéia. Na tela de projeção, um slide com a frase “Construindo uma Tropa de Elite” esclarece o motivo do improvável encontro de mundos: um ex-policial do grupo de operações especiais da Polícia Militar do Rio e vendedores de seguro paulistanos.

Sob aplausos, o palestrante entra na sala repleta e grita: “Caveira!” Storani, que está se convertendo em estrela do segmento motivacional, recebe de volta, em uníssono, a saudação, típica dos oficiais do batalhão. Entre os 60 ouvintes, estão clientes e funcionários da quarta maior seguradora do país. A maioria é de homens engravatados ou de camisa social. Poucas mulheres, de tailleur e salto alto, arriscam-se no ambiente nitidamente masculino.

Storani veste terno e gravata como os integrantes de sua platéia, mas fala e age como um líder do Bope, corporação onde trabalhou por três anos e que abandonou há dez. “Volta aí, o senhor está muito rápido”, ordena, em tom de brincadeira. É prontamente atendido pelo funcionário que troca os slides. Em seguida, exibe fotos do treinamento que deu aos atores de “Tropa de Elite”, ainda na fase de pré-produção do longa. Faz piadas com o fato de ter levado um soco na cara do protagonista Wagner Moura, que personificou o Capitão Nascimento.

Depois do rápido preâmbulo, o palestrante chega ao ponto: “Você é um operação especial ou é um convencional na sua atividade? O convencional é o invertebrado, é quem desmonta no primeiro tiro ou na primeira meta [de vendas]“.

Storani inflama a platéia com a terminologia usada pelos policiais no filme. “E quem não está satisfeito…”, provoca ele. O público reage, de pronto. “Pede pra sair!”, respondem os engravatados, usando o bordão que tomou conta do país logo após o lançamento do filme em outubro do ano passado.

Funcionários cumprem “missão” dentro d’água

Àquela altura, uma hora depois do início da preleção, a audiência está bem familiarizada com as lições de Storani. Seu manual evoca paralelos entre as regras do batalhão e as do mundo corporativo: naquele contexto, o jargão do Bope “missão dada é missão cumprida” ganha a conotação de “meta dada é meta cumprida”. “Vá e vença” vira “vá e venda”. Alguns riem, um pouco constrangidos. Muitos balançam a cabeça em sinal de concordância. Por volta das 21h30, o “grand finale”. Liderados pelo palestrante, todos gritam: “Eu sou caveira!”

As cenas presenciadas pela Revista viraram rotina na vida de Storani. Ele começou a dar palestras motivacionais em outubro e está com agenda lotada até maio. Nesse ramo, os cachês costumam variar entre R$ 5.000 e R$ 10 mil.

O ex-capitão do Bope já falou para funcionários de bancos, de montadoras, de indústrias das áreas têxtil e de tecnologia. Virou guru de executivos. “O conceito de superação de limites e de encarar as adversidades com naturalidade pode ser aplicado à iniciativa privada. Montei a palestra e me surpreendi com os resultados”, afirma Storani, mestrando em antropologia, com dissertação sobre o Bope. Ele ainda concilia a agenda de palestrante com o cargo de secretário de Segurança Pública de São Gonçalo, município do Rio.

Pedindo para sair

Os mais empolgados levam os conceitos para dentro das empresas. Não falta nem a caveira, símbolo máximo dos policiais durões do batalhão. “Quando alguém consegue bater a meta, faz no computador um bonequinho com a caveira do Bope e manda por e-mail”, conta Patrícia Olivani, 36, coordenadora de vendas do Unibanco AIG. “Nas palestras, fazemos uma auto-reflexão, buscando as características do ‘caveira’ dentro da gente.”

Gustavo Rosset, 33, diretor comercial da Rosset Têxtil, proprietária de marcas como a Valisère e Cia. Marítima, foi além, depois de contratar a palestra do ex-capitão no início de fevereiro. “Na empresa, a gente agora só se chama por número”, afirma. No filme, Capitão Nascimento trata os subordinados de aspira 01, 02 e assim sucessivamente, durante o duro treinamento para ser aceito no batalhão de elite.

Rosset conta que, depois da palestra de Storani, dois funcionários “pediram pra sair”. Na telona, a expressão sintetiza o momento da desistência daqueles que, por exaustão ou fraqueza, não vão se tornar “caveira”. “Um [pediu pra sair], três dias depois da palestra, e outro, 15 dias depois, porque viram que o bicho ia pegar”, diz o diretor e herdeiro da Rosset Têxtil, maior grupo brasileiro no segmento de tecido de lycra, com 3.000 funcionários.

O empresário mandou colocar, na sede da empresa, em São Paulo, banners pretos com a caveira e dizeres do Bope. “Temos que tirar as pessoas da zona de conforto”, afirma Rosset. “Elas começam a fazer um paralelo entre suas vidas pessoais e profissionais com a vida dele [Storani], que era subir morro e lidar com o tráfico.”

O discurso de André Rutowitsch, 36, diretor-executivo da Unibanco AIG, vai em outra direção. “Todos os anos contratamos vários palestrantes para falar com os nossos clientes, sempre voltados para esse lado motivacional. Nos últimos anos, tivemos o Bernardinho [técnico da seleção brasileira de vôlei] e agora trouxemos o Storani”, afirma. “Ele é alguém que fala de liderança, de trabalho em equipe, e fala do batalhão de uma forma alegórica. Buscamos, o tempo todo, que não haja uma associação muito direta com o filme.”

O executivo diz que a pressão sobre os profissionais está presente em toda empresa. “Quando existem metas a serem cumpridas há uma pressão inerente ao negócio em qualquer ramo de atividade.”

Caveiras e invertebrados

A filosofia para se tornar oficial do batalhão é muito clara: o mundo se divide entre caveiras (como são chamados os policiais do grupo especial) e invertebrados (os fracos, que não agüentam a pressão). Os primeiros fazem o impossível, mesmo em condições extremamente adversas. “A dona-de-casa que sustenta todos os filhos sozinha e não desiste é caveira. O vendedor que bate suas metas é caveira”, compara Storani.

Misturar os dois universos desperta críticas. “Se é capitalismo selvagem, talvez uma abordagem de guerra seja uma boa idéia”, ironiza Marcelo Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, ao comentar as palestras.

“Ninguém abre empresa para fazer caridade, vivemos em um mundo capitalista”, diz Storani. “O invertebrado é a pessoa que não está habituada a lidar com pressão, e isso não é demérito nenhum.” Continuando com a analogia, ele ressalta que no Bope tem gente que não consegue se adaptar às exigências do batalhão e vai fazer policiamento comunitário. “É a mesma coisa com vendedores: é uma profissão que exige saber lidar com a pressão de ouvir um não e mesmo assim continuar tentando convencer alguém a comprar.”

É legítimo transpor os métodos do Bope, que muitos consideram questionáveis até mesmo na guerra urbana, para o universo das empresas? Para Viviane de Oliveira Cubas, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, usar tática de guerra em outro ambiente é desumanizador. “É característica do mundo empresarial exigir uma eficiência cada vez maior dos seus funcionários, dar responsabilidades cada vez maiores”, afirma. “Você estabelece metas que às vezes não são reais. O que essa pressão e essa cobrança constantes podem causar à saúde desses funcionários?”

Um dos autores de “Elite da Tropa” (livro que originou o filme) e um dos roteiristas de “Tropa de Elite”, o ex-capitão do Bope e sociólogo Rodrigo Pimentel, 37, também se converteu em palestrante. Faz entre quatro e cinco preleções por mês em empresas.

“A primeira coisa que eu falo é: ‘Não vão bater nos seus vendedores’”, diz ele, que foi contratado para falar a funcionários de empresas, como Perdigão, gigante do ramo alimentício, e até multinacionais farmacêuticas.

Um dos temas de seus discursos é “a força de um símbolo”. “Toda empresa tem símbolos e lemas”, compara. “Também existe sempre um ritual de passagem, estabelecido quase sempre em função das dificuldades de pertencer a um grupo.”

Ao analisar esse tipo de palestra, o psicanalista Jorge Forbes aponta fragilidades. “Todos os discursos motivacionais são reducionistas da experiência humana. São uma tentativa de estimular a adesão a uma corporação apelando para o narcisismo. Quem não adere deve se envergonhar”, diz o psicanalista, ao analisar o estímulo exagerado à competição e à superação de limites tão em voga no dicionário corporativo e reforçado nessas palestras. “De qualquer forma, é um discurso velho que vem com uma nova roupagem.”

Capitão galã

O diretor José Padilha, assim como o comando do Bope, não quis se manifestar sobre o novo fenômeno das palestras motivacionais, mais um subproduto do sucesso do filme. Muito se falou sobre o impacto de “Tropa de Elite” sobre a sociedade brasileira: das discussões sobre tortura policial e do papel da classe média no tráfico de drogas a programas de TV como o “Bofe de Elite”, na Rede Record, com o qual Tom Cavalcante bateu a Globo em audiência.

De polêmica em polêmica, o mercado continua surfando na onda de sucesso do longa. Em pesquisa encomendada pela rede varejista Marisa para descobrir qual seria o “homem ideal” na opinião das brasileiras, Wagner Moura recebeu 90% dos votos. O Capitão Nascimento da ficção ficou à frente de galãs “clássicos” como Reynaldo Gianecchini e Fábio Assunção. Foi contratado como novo garoto-propaganda da marca.

Em resposta à jogada de marketing da concorrente, as lojas Renner contra-atacaram com o lançamento há dois meses de uma coleção de camisetas com expressões do filme, como “fanfarrão” e “aspira”, gravadas no peito. A linha já esgotou. Outra marca, a goiana Eckzem, também criou uma camiseta com uma estampa que mostra um desenho do Capitão América, herói de quadrinhos americano, com o nome “Captain Nascimento”. Ao lado, o jargão mais famoso do filme: “Pede pra sair!”.

Transformar um policial truculento e angustiado como Capitão Nascimento em herói, seja em camisetas ou diante de uma platéia de vendedores, deixa surpreso o ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, que enfrentou uma gravíssima crise de segurança pública com os ataques do PCC em 2006. “Uma coisa é respeitar a polícia, outra é transformar os policiais em heróis”, afirma.

Para Lembo, o sucesso do filme reflete a insegurança da sociedade. “Principalmente de uma classe média desesperada por segurança, que adora o herói que vai protegê-la de todos os perigos.” Quanto aos treinamentos motivacionais em empresas, o ex-governador também faz ressalvas. “Todos nós, sejamos do Bope ou não, somos humanos e não podemos ir além dos nossos limites.”

Quem ultrapassou fronteiras foram os integrantes de um grupo de strippers, “Os Sedutores”. Eles começaram a se apresentar vestidos de oficiais do Bope e com metralhadoras em uma casa de suingue em São Paulo. O cachê de cada um dos sete componentes é de R$ 150 por apresentação de 45 minutos. “Essa coisa de Bope mexe com a fantasias das mulheres”, constata Alexandra Valença, 26, coreógrafa do grupo. Uma prova de que nem a libido dos brasileiros ficou imune ao fenômeno cinematogrático.

A influência do longa em terrenos tão distintos pode ser explicada na diversidade de interpretações que a produção oferece. “Quem tem algum tipo de orgulho militar se vê ali, quem tem críticas sociais à elite brasileira se vê ali, quem critica o bom mocismo exagerado das ONGs se vê ali”, afirma Forbes. Uma identificação que lotou as salas de cinema e agora enche auditórios. Neste caso, com uma platéia dividida entre aqueles que aplaudem e aqueles que se arrepiam diante dos jargões usados pelo Capitão Nascimento. Em cartaz, mais uma polêmica de “Tropa de Elite”.