Pequena Vingança

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Por Gil Camargo do Tietê 

Faz dois bares que vou pra casa. Penso em você.

- Que puta frase, meu! Foi você que escreveu?

Divido as pessoas que conheço em dois grupos: um não precisa saber muito de mim. Outro não deve.

O Intec estava no segundo grupo, daí a minha preocupação dele ter chegado no bar justo quando eu ensaiava uma crônica nova e espiado meus escritos.

O apelido foi o Peninha quem arrumou. O nome dele era Pedro.

É que uma vez o Intec me apresentou para um grupo de amigos dele em um churrasco mais ou menos assim: “esse é o Gil, um dos raros amigos meus que não é intelectual”.

Duas surpresas de uma vez só. Pela apresentação, que me pareceu elitista, e porque, quem diria, intelectuais também faziam churrasco.

Resolvi contar a história pra nossa turma. De cara o Peninha fez valer seu humor e uma certa implicância com o cara e tascou o apelido de Intec. Nunca mais foi chamado pelo nome, ao menos desse lado de cá, a turma dos não intelectuais.

- Fui eu sim, mas é uma bobagem, não consigo sair da primeira frase.

- Tem a ver com você?

- Claro que não, Intec!

O Intec andava cismado que eu vivia um momento de tristeza e solidão. Em qualquer momento, qualquer frase ele enxergava alguma coisa acontecendo. E queria porque queria me ajudar.

Eu levava na boa, o Intec é um sujeito do bem. Complicado mesmo era quando ele estava com a bebida pra mais da metade. Quando ele ficava “do meio dia pra seis”.

Teve uma vez, durante a feijoada do sábado, que o Intec relembrou os tempos em que eu era apaixonado pela Chris Evert, do tênis. Como eu estava falando dos tempos que a Chris jogava e eu ficava babando com aquele uniforme dela, o Intec veio com uma típica de intelectual semibêbado.

- Você precisa desconstruir a Chris Evert.

Voltando ao boteco, resolvi não perder meu tempo explicando que aquilo era uma crônica sem musa. O Peninha já devia estar chegando e o melhor era beber minha cerveja em paz.

Quando o Peninha chegou, para nossa surpresa, veio acompanhado de três mulheres do trabalho dele lá no Sindicato. Moças simpáticas que eu já conhecia, boas de copo e de conversa.

O Intec, que nunca tinha visto as meninas, já foi levantando todo animado pra se enturmar quando o Peninha se antecipou:

- Esse é o Intec, um dos raros amigos nossos que é intelectual.

Levou vinte anos, mas eu estava vingado…

6 Comentários para “Pequena Vingança”

  1. VanVan:

    Legal Gil, adorei a crônica! Mas fiquei grilado, ela veio logo agora que estava convencido que Artur era um dos raros intelectuais que eu conhecia! Muito embora não existam registros dele em churrascos… E agora, ele é ou não é?…

    Abraços,

    VanVan

  2. Gil:

    Ah, Artur é sim. Quer dizer… intelectual. Era disso que você falava, certo?

    E não, ele não frequenta churrasco, diz que é coisa de perdulários pequeno-burgueses.

    Ele, porém, distorce a linha do Jaguar (Pasquim) que dizia: Intelectual não vai a praia, intelectual bebe.

    Artur faz as duas coisas. Peça pra ele contar a história do dia que foi à praia e não tinha calção pra usar.

  3. Dimas Lins:

    Gil,

    Excelente crônica, muito bem construída.

    E concordo com você: Artur é intelectual e também não frequenta churrasco. Sua praia é mesmo boteco e, num grau maior, um bom mercado público.

    Falar em praia, fiquei cabreiro. Artur precisa explicar esta história.

    Um abraço,

    Dimas

  4. Artur:

    Tava quequéu, não tinha calção e fui de cueca. Chamaram a policia aos gritos _olha o intelectual de cueca!, corri pela praia e me escondi no Pina. Ninguém gosta da PM no Pina e, por isso, ainda bebi de graça e comi chambaril ou mocotó, como queiram.

  5. Gil:

    Cada capital tem o Fernando Gabeira que merece…

  6. taciana:

    Gil, gostei da crônica e me encantei com a frase que lhe dá início!
    Artur, nesse blog eu to descobrindo coisas da tua vida que em quase 20 anos de amizade eu nem sequer ousaria imaginar. Intelectual faz de um tudo nessa vida ! E tu ainda diz que eu sou insana…

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