Seres de Carne

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Numa determinada época da minha vida, fui loser de uma frota de exploração interplanetária. Naquele tempo, era um tanto etéreo e não era feito de carne. Era feliz, principalmente quando a frota estava sozinha no meio da imensidão cósmica. Sentia uma solidão extrema, mas não sofria, justamente o contrário: sentia-me bem. Ali, olhando as galáxias, percebi a diferença entre a solidão e a solitude, pois o estar só expressa-se de duas formas. Digo rapidamente que a diferença é simples: a primeira caracteriza-se pelo sofrimento e pelo desamparo; a segunda, pela serenidade e pela sensação de completude. A solitude é um estado absoluto de serenidade. Necessita de uma catarse, tipo olhar galáxias de uma espaçonave na borda da Via Láctea, e de um tipo de maturidade, isto é, do controle voluntário, por isso livre e consciente, das manifestações instintivas e afetivas. Ali, era o único momento da minha vida no qual podia ser impiedosamente honesto comigo mesmo, revelando-me sem disfarces, sem medo de assumir minha própria loucura.

Claro, toda vez que vivia esse evento luminoso, tirava algumas conclusões. Tinha certeza de que, no fundo, o universo falava comigo. Contudo, sobrava um mistério: por que, na maior parte do tempo, eu não escutava nada? Acho que Horselover Fat, personagem de Philip K. Dick no livro “Valis”, explica esse problema com maestria:

Pensamentos do Cérebro são vivenciados por nós como arranjos e rearranjos — mudança — em um universo físico; mas o que realmente acontece é que substancializamos informações e processamento de informações. Não vemos meramente os pensamentos como objetos, mas como o movimento, ou, de modo mais preciso, a disposição de objetos: como eles são vinculados uns aos outros. Mas não conseguimos ler os padrões de disposição; não conseguimos extrair as informações que existem dentro dele — isto é, ele como informação, porque é exatamente o que ele é. A vinculação e a revinculação de objetos pelo Cérebro são, na verdade, uma linguagem, mas não uma linguagem como a nossa (já que ele está se dirigindo a si mesmo, e não a alguém ou alguma coisa fora de si mesmo).

Nós deveríamos ser capazes de ouvir essa informação, ou narrativa, como uma voz neutra dentro de nós. Mas alguma coisa deu errado. Toda criação é uma linguagem e nada senão linguagem, que por algum motivo inexplicável não conseguimos ler por fora e não conseguimos ouvir por dentro. Então eu digo isto: nós nos tornamos idiotas. Alguma coisa aconteceu com nossa inteligência. Meu raciocínio é o seguinte: o arranjo de partes do Cérebro é uma linguagem. Nós somos partes do Cérebro; logo, somos linguagem. Por que, então, não sabemos disso? Não sabemos sequer o que somos, quanto mais o que é a realidade exterior da qual somos partes. A origem da palavra “idiota” é a palavra “particular”. Cada um de nós se tornou particular, e não compartilha mais o pensamento comum do Cérebro, a não ser em um nível subliminar. Assim, nossa vida e objetivo reais são conduzidos abaixo de nosso limiar de consciência.

Olhando as estrelas, concordava com a afirmação: eu sou um idiota! Entretanto, naquele instante, não era, não. Alguns amigos criticam a minha mania, justamente num momento de profundidade, até mesmo de tragédia, de derrapar para a palhaçada. É que não consigo levar as estrelas comigo. Se levasse, juro que manteria a seriedade. Por isso, a vida inteira foi assim: quando chegava perto da seriedade, pensando que “sim, agora vai”, o gosto pela esculhambação tomava conta do espírito, e a seriedade esvaía-se como fumaça pela chaminé. Mas, naquela espaçonave, tinha outro porém: meu período comigo mesmo nunca durava muito, pois o meu comandante-em-chefe era Orravan, pessoa tecnicamente adepta do idealismo absoluto e descrente da materialidade das coisas, em suma, da inteligência alheia… Toda vez que estava chegando perto de Deus, Orravan gritava alguma ordem imbecil, e eu voltava à minha idiotia sempiterna.

Orravan gostava de explorar planetas a procura de seres sencientes. Adivinhem quem mandava observar e colher informações nos planetas por acaso descobertos? Num desses planetas, um bem azul, fiz diversas explorações, obtive alguns resultados e tive o seguinte diálogo com Orravan. No fundo, tal diálogo não deixa de ser uma boa referência ao misticismo e ao idealismo filosófico:

_Eles são feitos de carne! - disse, já sabendo dos problemas que causaria essa afirmação.
_Carne?! Você é um idiota! disse Orravan, completamente incrédulo.
_Eu sei que sou um idiota, não precisa repetir.
_Carne?! repetiu quase para si mesmo, Orravan.
_Não tenho dúvida. Escolhemos vários espécimes de diferentes partes do planeta, trouxemos a bordo de nossas naves de reconhecimento e cutucamos por toda parte. Eles são inteiramente de carne. Eles até sangram.
_Isso é impossível! E quanto aos sinais de rádio? As mensagens às estrelas?
_Eles usam as ondas de rádio para conversar, mas os sinais… bem, os sinais são gerados por máquinas.
_Então, quem fez as máquinas? É com esses que queremos entrar em contato.
_Eles fizeram as máquinas. É isso que tento dizer até agora: a carne fez as máquinas.
_Isso é ridículo. Como é que carne pode fazer máquina? Você está me pedindo para acreditar em carne senciente.
_Não estou pedindo, estou afirmando. Essas criaturas são a única raça senciente no setor e são feitas de carne.
_Talvez sejam iguais aos Mineiros. Você sabe, aquela inteligência de base carbônica que passa por um estágio de carne.
_Não. Eles nascem carne e morrem carne. Nós os estudamos em várias de suas durações de vida, que não são muito longas. Orravan, você tem alguma idéia da duração de vida da carne?
_Não me interessa. Tudo bem, talvez sejam apenas parcialmente de carne. Você sabe, como os Gaúchos: uma cabeça de carne, com um cérebro de plasma de elétrons em seu interior.
_Não, até pensamos nisso, já que, de fato, têm cabeças de carne como os Gaúchos. Mas eu lhe disse, nós os cutucamos: eles são de carne, totalmente de carne!
_Sem cérebro…
_Ah, existe um cérebro, sim. Só que é feito de carne!
_Então… o que é que pensa?
_Orravan, você não está compreendendo, não é mesmo? É o cérebro que pensa… a carne!
_Carne pensante! Você está me pedindo para acreditar em carne pensante?!
_Não peço nada, nunca pedi, não é mesmo?! Mas sim: carne pensante! Carne consciente! Carne que ama! Carne que sonha! A carne é tudo! Percebeu?

Não sei se meu comandante-em-chefe percebeu ou, simplesmente, não quis, por vontade própria, perceber e acreditar. Parecia um vegetariano, um comedor de alfaces. De qualquer forma, deu ordens para eliminar todas as informações a respeito da localização do planeta daquelas criaturas. A nave deu um salto aleatório no hiperespaço e, com isso, meus amigos ficaram sem saber onde realmente estava localizado o tal planeta. Já o senciente cintilante aqui, ah, eu fiquei. Escapuli antes da decolagem. Queria ser carne. Vivia uma fase romântica e cometi essa asneira. Arrependo-me até hoje. Não tenho mais catarse, nem solitude. Além do mais, tenho crises de furúnculos.

Eis a maldição da carne: a solidão!

PS: o diálogo é uma paródia de um conto de Isaac Asimov. Não sei qual é o conto; na verdade, nem sei se é de Asimov. Blog é desinformação.

5 Comentários para “Seres de Carne”

  1. taciana:

    Se eu entendi direito - se é que há algo para entender- eu gostei. Mas encontro-me num momento de mais absoluta revolta, pois maldição para mim é essa proibição de não fumar mais em bares mesmo nas varandas abertas. Os verdadeiros seres solitários são os fumantes, agora foras da lei com suas armas brancas,que para o resto dos tempos serão confinados em suas casas ou na beira de uma calçada para não contaminar os outros com seu mortal prazer.

  2. Dimas Lins:

    Artur,

    Quem sabe o Orravan, o Comandante-em-Chefe, num momento de redenção cósmica, não volta para resgatá-lo? Se isso acontecer, arruma uma carona para outras carnes.

    Faça uma lista para saber que tipo de carne irá levar: carne-sexy, carne-alcoólatra, carne que come carne e tantos outros tipos.

    Quanto as carnes-fumantes, o perigo está nas leis galáticas de proibição do fumo. Temo que não seja permitido fumar na espaçonave.

    Dimas

  3. perrusi:

    Lutei bastante para ter uma varanda na espaçonave para os fumantes, mas Orravan, como ser espiritual, é politicamente correto.

    Essa política anti-fumante, mesmo nos espaços abertos, é reflexo de um novo higienismo. Alguns setores da esquerda estão abrindo diversas caixas de Pandora: a discussão sobre “raça” (produto da falsa consciência do final do século XIX) e biopolíticas de cunho higienistas (mais século XIX). Já, já vão proibir beijar porque o beijo transmite micróbios, deliciosos micróbios…

  4. Gil:

    Decidida e biblicamente, Rei Artur, a carne é fraca.

    E não sou do Tietê, sou de Piratininga.

    PS: De Asimov me encanta muito “os nove amanhãs”, lido há tempos. Que não acho em lugar nenhum pra comprar.

  5. Artur:

    Gil, saiu uma nova publicação, em dois volumes, do espetacular “nove amanhãs”. Comprei na livraria cultura.

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