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Acontece…

10 comentários

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A mestranda andava pra lá e pra cá. Era uma beleza de segundo olhar, daquele tipo que só se nota no segundo encontro. Um tipo que impõe, digamos assim, uma percepção estética dependente do tempo e do conhecimento. Era alta, esguia e andava com a cabeça baixa. Havia nela uma timidez que constrangia e parecia frágil feito uma porcelana chinesa. Seu rosto era um acúmulo de signos em desordem, aparentemente sem arte; mas, depois de um certo vagar, notei que, fazendo o filtro, podia-se eliminar o acessório e conservar o significativo. Fazendo tal esforço, aos poucos se percebia uma bela silhueta. Não neguei que estava diante de uma raridade. Matutei sobre uma pessoa assim, desse jeito. Ela, talvez, exigisse um amor proustiano, quando a paixão não se dirige à pessoa ou às suas particularidades, pois mira o enigma do Outro, sua distância e seu mistério. Nunca se está de igual a igual com alguém dessa cepa, mesmo nos momentos mais íntimos. Dizer “eu te amo”, aqui, não implica uma igualdade ou o fim das assimetrias de uma vida cotidiana, e sim, no fundo, uma procura do sentido desse anacronismo. Não deve ser fácil, pensei, olhando a platéia, que esperava a defesa da dissertação. Uma relação assim deve gerar uma sensação paradoxal de estar absolutamente juntos, mas nunca próximos…

_Deus me livre! – exclamei.
_Como?! Perguntou a orientadora da mestranda.
_Nada não, nada não…

Quase que lhe explico que sou hegeliano, dando um valor positivo ao ser amado, independentemente de suas propriedades singulares e perecíveis. Mas não diria jamais tal coisa; afinal, estava num ambiente de economistas, esses seres abomináveis, que acreditam que, no mercado, as pessoas são máquinas de bom senso. O máximo de metafísica que construíram foi a teoria da ação racional, pensei, oferecendo meu melhor sorriso à orientadora, uma economista de renome. Eles acreditam piamente que o conhecimento econômico não é mágico! Pensam que fazem ciência!

Sem querer, dei uma gargalhada.

_Que foi?! perguntou a orientadora da mestranda
_Nada não, nada não…

Continuei divagando: como discutir paixão, se esses brutos derivam toda genealogia moral da cupidez e do interesse de aquisição? Para esses selvagens, não existe generosidade sem contrapartida, gratidão sem vantagem e entrega sem que seja, no fundo, um desejo de possuir e dominar o Outro. Fiquei furioso com tais divagações e, para me acalmar, tirei do meu bolso um bonequinho de vudu de Milton Friedman, metendo-lhe uns espetos bem afiados. E ainda disse ao boneco, num tom de desafio: todo almoço é grátis na paixão, estúpido!

Enquanto eu espumava de raiva dos economistas, a orientadora deu o sinal para começar a defesa da dissertação. Junto comigo estava um professor carioca da UFRJ. Eu bocejei, pois estava cansadíssimo. Muito trabalho e muita confusão na universidade. Afinal, sou um psiquiatra cercado de doidos das ciências sociais. E, com a maldita Reforma Psiquiátrica, perdi meus poderes mutantes de internamento em massa — imaginem, minha máquina Mitsubishi (novinha, novinha) de dar choques virou sucata! Interno todos e jogo a chave do asilo no bueiro, eis meu delírio.

Começa a defesa, a menina fica na nossa frente, abre os braços e começa a falar, sem papel, sem Power Point, sem nada, só de cabeça e com os olhos fechados:

Prazer.

Prazer enorme e tonitruante. Poderia falar da paixão, mas falo do prazer. Posso muito bem dizer que o prazer em movimento é minha paixão – não importa. Eu insisto no prazer.

Nesse abismo que mergulho, nesse vício que me faz à flor da pele, é impossível fugir. É como se estivesse comandada, fosse marionete do Destino (das ficelas do Destino). Um tropismo inadiável. Um imã. Um desvairamento. O prazer é a sensação de que voam cardumes de aves.

Deixo-me levar, pois a única vontade que tenho é a de ser levada…
pelas correntes do mar…

E eu fico sem saber; não sei mais nada. E eu só consigo pensar no prazer. Libertada do espírito, despojada da carne. Uma possessão. Um prazer sacro.

Por isso, não tenho mais liberdade,
só tenho delicadeza;
sou uma mística da delicadeza;
uma mártir da delicadeza –  um monstro da delicadeza.
Só fiquei com tal compromisso: a delicadeza.

Maior que o amor e a carne,
um secreto acordo,
uma promessa.

De plenitude?

Porque não existe apenas o nada.

Fiquei em silêncio. Repito: estava cansado. Lera até de madrugada a dissertação da garota. Uma boa dissertação. Há coisas que só acontecem na Paraíba. A orientadora olhou-me pedindo ajuda. O carioca estava meio boquiaberto. O público, completamente pasmado. Achei que lá, no canto, a mãe chorava. A menina estava, agora, calada e continuava de olhos fechados. Infelizmente, a minha antiga profissão impunha-me condutas e posições normativas. Bocejei profundamente. Detestava essas exposições públicas — a psiquiatria é uma atividade dissimulada, da calada da noite, feita na surdina. Fui lá e lhe dei umas tapas bem fortes no rosto. Ela acordou de um sonho longuíssimo, deu um grito e caiu no chão. Começou a tremer e a babar. Segurei sua língua e pedi, calmamente, que chamassem uma ambulância.

Ela está internada. Não era uma crise epiléptica. Aparentemente, teve um surto psicótico bem na frente da banca examinadora.

A orientadora teve uma crise de pânico. Mediquei-a. O carioca, dei umas tapinhas no seu ombro – sempre funciona.

Foucault tinha razão: psiquiatria é uma merda!

E foi a melhor defesa de dissertação que vi na minha vida.

DimasLins
  1. Mudando de assunto pero no mucho: intrigante como a “melhor alguma coisa” de nossas vidas costuma não ser partilhada. Para assuntos acadêmicos, profissionais ou apenas para o singelo cotidiano.

    Parece que a percepção de que não houve, nas pessoas a nossa volta, conhecidas ou não, a mesma sensibilização nos leva à afirmação de “melhor isso ou aquilo”. Como uma espécie de tentativa de convencimento.

    Sexta de manhã é foda, fico pensando em sair daqui e largar o trampo rumo à chácara e dá nisso, esse descontrole em filosofar sobre assuntos que caberiam no Almanaque do Biotônico Fontoura.

    Desculpa aí…

  2. Você é um sentimental…

  3. Que fofa a defesa dela…

    E você, seu Artur, devia se envergonhar de chamá-la à razão dessa forma tão brutal.

  4. Eu sou um bruto, sim; eu sou um psiquiatra…

  5. Vou lembrar disso antes de convidar você para uma banca por aqui. Se bem que, a julgar pela UFPB, as nossas defesas são absolutamente insossas e desconfio que suas habilidades disciplinantes não seriam necessárias. Pelo sim, pelo não…

  6. Arthur,

    Ainda tem contato com a menina? Me faz um favor? Pega o telefone do fornecedor dela. Metadinha disso que ela ingeriu antes de ir para a banca já ia me satisfazer. Depois é só garantir que não vai ter nenhum psiquiatra por perto e tudo fica bem!
    Arthur, você literalmente agiu como um estraga-prazer! Que coisa!

  7. Artur,

    Uau! Como faço para entrar nesse departamento? 😉

  8. É fácil, Catatau, e as reuniões são regadas a disfóricos!

  9. Talvez outro efeito do abandono das Mitsubishi ?

  10. Hehe, quem não vai de choque, vai de diazepam!

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