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Do espaço privado ao não lugar

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Publico, agora, uma pequena resenha sobre um livro que sempre me causou a seguinte ambiguidade: gosto muito, não gosto nada. Toda vez que o releio ou o folheio, a ambiguidade retorna — não sei bem o motivo. A resenha é descritiva e não problematiza essa minha postura. 

  • 1. SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo, Companhia das letras, 1998.

O livro de Sennett foi e ainda é um best-seller. Publicado originalmente em 1974, alavancou a carreira acadêmica do autor, tornando-o conhecido internacionalmente. O livro, sem dúvida, é um clássico. O autor possui um agudo senso crítico a respeito das dimensões psicossociais da vida moderna. Sua erudição é desconcertante: transita com autoridade por vários autores, sem jamais admitir, contudo, uma lealdade ou uma adesão incondicional. Seria um autor independente que “usa” as fontes com certo rigor, mas sem muita preocupação com a exegese. Além disso, não encontramos um rigor conceitual nas suas análises, e sim um tipo de procedimento no qual uma idéia complexa pode ser formulada num enunciado simples e quase coloquial – nesse sentido, seria o oposto do rigor compulsivo e repetitivo de um Bourdieu. Pode, assim, flutuar com desenvoltura entre o histórico e o contemporâneo, o psicológico e o sociológico, o público e o privado. Contudo, muitas vezes ocorre uma “preguiça conceitual”, e algumas noções são jogadas ao leitor sem muita explicação e base empírica – “ego grupal”, por exemplo, é um conceito (?) de difícil apreensão.

No livro, Sennett antecipa diversas discussões atuais sobre as conseqüências da exacerbação do individualismo no cotidiano do mundo contemporâneo. Seria uma crítica liberal que antecipa as mazelas do dia-a-dia dos indivíduos na dita era neoliberal. Procura mostrar as conseqüências contraditórias do desenvolvimento da intimidade na sociedade moderna. A intimidade, nesse sentido, ao se desenvolver e se expandir, cria o que chama de “tirania intimista”, trazendo como conseqüência o declínio da esfera púbica e a apologia da vida privada. O desenvolvimento da intimidade possui uma relação umbilical com a valorização histórica do indivíduo — a individualidade colocada como fundamento de uma hierarquia de valores; na verdade, parece que, para Sennett, a intimidade leva a uma tirania justamente por “privatizar” o valor do indivíduo. As conseqüências da intimidade seriam, principalmente, o narcisismo e a valorização exacerbada do self. O social, assim, seria representado a partir da personalidade. Haveria uma “psicologização” do sociedade, na qual seu aspecto social seria simplesmente despercebido. Com a perda de foco do social, ocorreria também uma despolitização geral da esfera pública, inclusive e principalmente dos homens públicos, vistos apenas do ponto de vista de suas personalidades. A impessoalidade dos processos sociais seria sentida de forma negativa, enquanto os contatos afetivos, os sentimentos e a vida familiar seriam valorizados. O curioso, nessa situação, é que a intimidade, ao tiranizar o cotidiano, cria seus contrários: a compulsão afetiva gera frieza; o narcisismo gera solidão; o privado gera o esvaziamento do público; a comunidade de indivíduo gera a incivilidade – e a cidade vai perdendo seu fundamento, deixando de ser uma geografia da esfera pública.

O indivíduo passa a contar apenas consigo mesmo: torna-se narcisista e egoísta. Procura o contato dos outros, buscando reconhecimento, mas apenas para tornar-se cada vez mais só e desconfiado. O indivíduo depende apenas de si mesmo para vencer na vida. Sozinho, produz a construção solitária de sua performance. Tenta a todo momento construir a si mesmo. Sennett percebe, com maestria, que a privatização do público e a valorização da intimidade, ao invés de tornar o indivíduo invisível ao olhar dos outros, já que refugiado no mundo privado, cria ao contrário uma obrigação de visibilidade. Produz-se uma ode à visibilidade: desde o acting-out até a visibilidade dos excluídos através da violência (Sennett já fala das “tribos”…). O hedonismo é o novo princípio de realidade. Vai modelar principalmente as expressões artísticas e de vanguarda. Com a valorização do hedonismo, as identidades não serão mais construídas obrigatoriamente via a repressão sexual.

Assim, a intimidade é vista de uma forma negativa. Sennett não parece perceber que muitos processos históricos na modernidade calcam-se na ambigüidade, inclusive o desenvolvimento da intimidade. Aparentemente, só perceberia as conseqüências negativas da intimidade, esquecendo-se do seu lado, digamos assim, “libertário”. Muitas vezes, buscando a tirania da intimidade, Sennett cunha frases rápidas demais, como por exemplo: “ao nos rebelarmos contra a repressão sexual, rebelamo-nos contra a idéia de que a sexualidade tem uma dimensão social” (pp. 21). Será que foi apenas assim? Será que a rebelião contra a repressão sexual não foi também uma rebelião contra a dimensão social repressora da sexualidade? A luta contra a repressão sexual, ao recolocar em cena uma nova intimidade, não implementou o surgimento de novas condutas e comportamentos individuais, em suma: novas regras, normas, representações da sexualidade que implicam uma nova dimensão social da sexualidade?

Acreditamos que Sennett decreta, sem muita base empírica, o fim de uma cultura pública. Estamos realmente vivenciando o fim da cultura pública ou estamos numa época de transição onde ainda se procuram pelo tato novas formas de fazer política e, principalmente, novas identidades e novos projetos políticos? Talvez as novas formas de fazer política, isto é, de expressarmos a cidadania, não estejam atualmente tão visíveis. Quem sabe a despolitização não seja tão generalizada, e signifique apenas que o que está mudando, realmente, são as modalidades de ação e seus referenciais políticos. Contudo, Sennett é pessimista: na esfera privada, o indivíduo sofre da tirania da intimidade; na esvaziada esfera pública, a ação dos indivíduos é vista como máscara.

Não seria possível recuperar a intimidade do ponto de vista da emancipação humana? Como não relacioná-la ao desenvolvimento da democracia? Mais ainda: como não pensá-la como um suporte necessário a uma democratização da vida cotidiana? Curiosamente, Sennett não valoriza devidamente um dos fatores do desenvolvimento da intimidade que foi a emancipação feminina. Não relaciona a intimidade, enquanto valor, à autonomia do indivíduo. A intimidade pode ser também a base fundamental para o entendimento numa relação afetiva, em particular numa relação afetiva – base para uma política da vida privada. A intimidade não implica necessariamente a imposição de um “eu”, podendo significar, ao contrário, um processo de negociação de espaço e tempo entre sujeitos. A emoção, com a intimidade, pode ser um meio importante de comunicação; a paixão, com a intimidade, pode ser uma forma de conhecimento. Ou não?!

Se a tirania da intimidade esvazia a esfera pública, a intimidade, enquanto base para a autonomia na esfera privada, ao colocar como fundamental o respeito ao outro, cria uma atmosfera de tolerância. E a tolerância é um valor político que implica um respeito ao pluralismo (de sujeitos). A intimidade, enquanto tal, não é de esquerda nem de direita, progressiva ou conservadora, podendo assim tanto ser uma tirania como também uma ponte entre a esfera privada e a esfera pública. Ao permitir uma política da vida privada, a intimidade ameniza o fosso entre o público e o privado na modernidade.

O mérito de Sennett foi perceber os efeitos perversos da intimidade; seu defeito foi de absolutizá-los.

Sementeiras

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