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Globalização, pós-modernidade…

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Encontrei algumas anotações antigas sobre um conjunto de autores que abordam  a globalização: Serge Latouche, Paul Hirst, Gilberto Dupas e David Harvey. Como blog é abobrinha, não custa publicar meus comentários. Além do mais, além do mais…. Bem, os textos lidos são, especificamente:

A ocidentalização do mundo – Serge Latouche
Globalização: mito ou realidade? – Paul Hirst
As duas dialéticas do capitalismo global: concentração x fragmentação, exclusão x inclusão – Gilberto Dupas
Condição pós-moderna – David Harvey

Sinceramente, acho a discussão sobre a globalização semelhante ao “antigo” debate a respeito da pós-modernidade. Os dois temas versam sobre uma mudança ou uma transformação de uma situação dada e estabelecida para uma outra nova e um tanto incerta – o novo sobrepondo-se ao antigo; na verdade, um antigo recente, tão recente que é preciso uma ênfase constante para se convencer de que, realmente, ocorreu uma mudança. Tanto a pós-modernidade como a globalização surgem de um antigo “sistema”, isto é, da modernidade, caso da primeira, e da sociedade tardocapitalista, caso da segunda.

Aparentemente, a partir da segunda metade da década de 90, o debate sobre a globalização tomou o espaço da discussão sobre a pós-modernidade. Enquanto esta última enfatizava de sobremaneira a cultura e modos de vida, o debate sobre a globalização voltou a recolocar, como tema central, o trabalho e a economia (de certa maneira, retomando uma discussão, iniciada nos anos setenta e um tanto eclipsada nos anos oitenta, acerca da dita sociedade pós-industrial). Não causa surpresa que o final da década de 80 colocou a “cultura” como tema central da sociologia; agora, com a “globalização”, o trabalho volta novamente a ser revalorizado do ponto de vista temático. As duas discussões são parecidas a ponto de alguns teóricos de esquerda colocarem a pós-modernidade como a personificação do neoliberalismo no campo da arte e da cultura, e a globalização, o neoliberalismo tout court — pessoalmente, discordo de tal posição, embora reconheça que os temas possam intercambiar-se; por exemplo, para alguns teóricos pós-modernos, a globalização seria, no mundo produtivo, a pós-modernidade econômica.

Por fim, acredito que o debate “modernidade x pós-modernidade” esgotou-se, não havendo propriamente vencedores, embora tenha, pessoalmente, a tendência em concordar com Habermas (o projeto moderno continua incompleto) ou com Giddens de que a pós-modernidade é a exacerbação justamente da… modernidade. Talvez, a discussão acerca da globalização, também, já esteja chegando a um impasse teórico, embora ache que ela, a “globalização”, não exista enquanto tal, simplesmente sendo a continuação da internacionalização da economia capitalista (vide as posições de Paulo Nogueira Batista Jr.).

Acredito que as duas discussões tenham um “paradigma comum”: há uma suposição de que a história contemporânea sofreu uma ruptura – ruptura “cultural”, a pós-modernidade; ruptura econômica, a globalização. Creio que tenha, aqui, um a priori de que há sistemas institucionais indivisíveis (no velho jargão: totalidades expressivas) como o capitalismo ou a modernidade, por exemplo, e que estão sendo “superados” por outros sistemas. Há um namoro com a idéia de que os antigos sistemas possuam alguma seqüência evolutiva. O curioso é que algumas posições fazem, com razão, tal crítica às “narrativas” modernas, justamente à noção de “totalidade”, ao mesmo tempo que postulam uma superação dessa mesma totalidade por uma outra – fragmentada, dilacerada, dividida em mil sujeitos, não importa – a pós-modernidade.

Desconfio, nesse sentido, já que não tenho solução para essa discussão, podendo apenas desconfiar, de que não exista, de fato, uma entidade total como o capitalismo nem, talvez, uma como a modernidade, embora reconheça que este último conceito seja mais abrangente e supere o economicismo do conceito de capitalismo. Assim, acho que a substituição completa de um sistema por um outro (socialismo, pós-modernidade ou globalização, por exemplo), pelo menos na história humana, seria uma possibilidade limite. Contudo, acho interessante aplicar o conceito de capitalismo ao sistema econômico da sociedade contemporânea, embora não concorde com sua aplicação como um conceito determinante da totalidade social. Na dialética hegeliana e marxista, a determinação é fundamental para a noção de totalidade, mas talvez nem toda totalidade necessite de uma ou várias determinações; talvez, a totalidade seja um conceito apenas heurístico.

Seguindo tal linha de raciocínio, não fiquei convencido de que exista ou de que seja realmente útil um conceito como o de capitalismo global ou de uma mundialização do planeta ou, ainda, de uma ocidentalização do mundo; em suma, desconfio de que a dita globalização – no sentido de uma transnacionalização total da economia, de um capitalismo prescindindo dos estados-nações e, até ou mesmo, do surgimento de um novo modo de produção – não exista enquanto tal. Minhas simpatias teóricas, dessa forma, ficam com Paul Hirst e David Harvey, principalmente com a prudência deste último. Hirst parece-me que, ao criticar a noção de empresa transnacional, tenta nos mostrar que há uma confusão, nos teóricos da globalização, entre uma economia globalizada e uma economia internacionalizada. A primeira não existiria ainda ou estaria apenas engatinhando; a segunda seria a predominante, tendo como suporte o comércio internacional (as multinacionais) e os estados-nações. A globalização, nesse sentido, seria um mito, inclusive muito bem instrumentalizado pelas nossas elites tupiniquins – convenhamos, o debate sobre a “globalização” presta-se muito mais a interpelações ideológicas do que o sobre a pós-modernidade, discussão mais acadêmica e bem mais “esotérica”; afinal, discutir flexibilidade do emprego, novas tecnologias, reestruturação produtiva, etc e tal, interpelam bem mais o cotidiano dos simples mortais.

A noção de “capitalismo global” (e das outras versões da globalização) sofreria, na minha opinião, de economicismo (ênfase reducionista no econômico como determinante da sociedade moderna), fatalismo (a globalização é um processo inexorável) e transnacionalismo (a globalização é um processo que transcende os estados, rompendo com as antigas fronteiras nacionais). Tal tríade não seria apenas do gosto de “neoliberais”, mas bem simpática a algumas versões do marxismo, principalmente aquele oriundo das ditas teorias da dependência.

Dupas, nesse sentido, exageraria o alcance do “capitalismo global”, confundindo multinacional com empresa transnacional – na verdade, ele usa as duas noções quase como termos intercambiáveis -, embora seus dados sejam passíveis de uma interpretação mais “globalista”: dados suficientemente importantes para autorizar a hipótese de que, talvez, vivamos uma situação de transição. Afinal, o que define uma empresa global? O poder gerado e os lucros beneficiam quem? A matriz? Geralmente, onde se localizam as matrizes? As ditas transnacionais não continuariam americanas, inglesas ou francesas, isto é, “multinacionais”? As duas dialéticas do capitalismo global não seriam as sempiternas dialéticas do dito modo de produção capitalista? Os dados disponíveis permitem responder a tais perguntas? E que tipos de dados – aliás, mais importante ainda, que tipos de interpretações são mais pertinentes?

Já Latouche reduz o conceito de ocidentalização à noção de industrialização. Acredito que a internacionalização da economia seja conduzida pelos países ocidentais, principalmente no campo da difusão dos valores e símbolos econômicos do Ocidente. Contudo, confundir ocidentalização com industrialização talvez seja por demais “economicista”. Acredito que o ocidente, principalmente Europa e EUA, seja a primeira “civilização” a se confundir com a dita modernidade; no entanto, a modernidade seria bem mais ampla do que a industrialização, englobando ainda fenômenos como a democracia e o capitalismo (modernidade = democracia + industrialização + capitalismo?). A ocidentalização seria, assim, a importação de um modelo histórico e específico de modernidade — o Japão e os tigres asiáticos representariam outro “modelo” de modernidade?

Acho Harvey mais prudente, já que admite, pelo menos em tese, de que estaríamos numa situação histórica de transição. Admite que precisamos do recuo histórico para sabermos qual direção societária estamos tomando, isto é, se vivenciamos uma nova etapa da modernidade ou se vivenciamos o surgimento um novo modo de vida social e econômico. Sua prudência vai mais além: nas suas análises econômicas, tenta evitar o economicismo ao utilizar a teoria da regulamentação. O modo de regulamentação incorpora o modo de produção e toda regra, norma, valor, conduta, comportamento, ação social e institucional que reproduza o sistema econômico. Tal posição teórica seria semelhante a algumas posições teóricas de marxistas analíticos que são refratários em explicar toda a superestrutura pela estrutura econômica, contentando-se em condicionar partes da superestrutura, justamente a “superestrutura econômica” (instâncias que normalizam e reproduzem o econômico) que têm relação com a estrutura produtiva capitalista.

Faço, contudo, uma ressalva: boa parte da análise de Harvey do modo de regulamentação, incluído sua hipótese da “acumulação flexível”, parte da premissa marxista de que a fonte do valor é o trabalho. Se substituirmos a teoria da mais-valia, base do edifício econômico marxista, por outra teoria do valor, talvez fique mais fácil perceber uma mudança substancial na economia moderna (não necessariamente uma defesa da globalização, vale assinalar).

Enfim, talvez seja curioso notar que as comparações históricas contrastam a contemporaneidade apenas com o período posterior à segunda guerra mundial. O contraste, sem dúvida, fica evidente: as diferenças são nítidas entre o período fordista e do estado do bem-estar social com o que vivenciamos atualmente. Mas, e o período anterior à primeira guerra? O capitalismo da belle époque parecia muito, inclusive com dados mais “globalizados”, com a atual fase da economia. Inclusive, o dito neoliberalismo parece-se muito com os discursos econômicos dominantes do final do século XIX. A semelhança seria apenas aparente? O período do capitalismo regulado (fordismo, estado do bem-estar social, etc.) foi apenas um interregno causado pelas duas guerras mundiais (lembro que as “classes sociais do trabalho” e suas organizações saíram relativamente fortalecida no pós-guerra)? A “globalização” retomaria o desenvolvimento capitalista do pré-14?

Sei lá.

Torcedor
  1. fica dificil emitir uma oíãp sobreo assunto, haja vista que nem mesmos os autores e estudioso chegaram a alguma conclusão precisa… continuo achando q estamos vivendo a barbarie e o capitalismo continua triufante..infelizmente

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  1. Globalização e Pós-modernidade | Estudo Alternativo - […] em: http://www.blogdosperrusi.com/2008/01/10/globalizacao-pos-modernidade/. Acessado dia 18 de março de […]

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