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Latin

Por Gil Camargo,
As três mulheres se conheceram no trabalho, no começo dos anos 80.
Gostavam de conversar, de sair pra beber, e estenderam a amizade aos respectivos maridos, que acabaram por também se entender por razões semelhantes às do entendimento feminino: sair e tomar cerveja, conversar e falar do sexo, digamos assim, oposto.
Foram muitas as noitadas a seis e, eventualmente, com grupos separados de três homens e três mulheres. Formavam uma turma tão afinada, gostavam tanto de participar da vida um do outro, que o nascimento dos filhos gerou uma sucessão de apadrinhamentos que só fez melhorar o relacionamento na trupe.
Mas havia uma ligação específica entre duas das mulheres que não era partilhado com a terceira. Ambas nutriam velada atração pelo marido da moça. E por conta desse verdadeiro segredo de estado, planejavam pequenas fugas a dois para poderem conversar livremente sobre o assunto, quando então deliravam sobre o que fariam caso pudessem deixar fluir o que sentiam.
As duas consideravam esse tesão uma espécie de desvio de valores já que, àquela época de suas vidas, sequer concebiam uma traição eventual, que dirá com um dos homens da turma, casado com a amiga comum. Nem pensar.
Embora o grupo tenha se afastado um pouco com o tempo, algumas amizades se mantinham. Especialmente entre as duas que, ocasionalmente, realimentavam o relacionamento com bebidas, agora vinho tinto, e conversas sobre filhos e ex-maridos, já que as duas estavam separadas.
Falavam-se toda semana.
Mesmo assim causou surpresa quando uma ligou para a outra pra contar, algo entusiasmada, que encontrara o (“também separado!”) ex-marido da outra em um café da cidade. E que não só travara com ele uma interessante conversa que a fizera perder a hora de voltar pra casa, como ficou evidente que o homem lhe passara uma cantada.
E antes mesmo que a amiga fizesse a pergunta fatal (“você vai encarar?”) a mulher que encontrara o antigo amigo fez questão de descrevê-lo de maneira desalentadora. Segundo ela, o homem estava envelhecido, careca e gordo. Tinha perdido totalmente o charme de anos atrás e estava muito feio.
“Que puta azar! A gente leva mais de 20 anos pra ter uma chance com o cara e quando acontece ele já não vale mais a pena”. E como você fez pra descartar?”.
“Não descartei. Já está marcado, esse final de semana as crianças ficam com o pai e nós vamos sair”.
“Mas se você achou o cara tão horrível, por que via sair com ele?”
Depois de um pequeno silêncio:
“In memoriam…”.

















De repente, o cara nem estava assim tão horroroso e gordo quanto ela falou… Parabéns, muito bom o texto.
Na verdade, o cabra está como sempre. Foi uma forma de despistar a amiga, que, agora, está com a pulga atrás da orelha e descobrirá tudo quando vê-lo tomando sorvete com sua dileta amiga. Brigarão no meio da rua, uma puxando o cabelo da outra, pois briga feia é assim.
Ah, mulheres…
Ela diria à outra que iria sair com o cara de qualquer jeito. E mais: mesmo que não saísse efetivamente, diria que foi o melhor sexo que teve na sua vida. E depois ficaria torcendo para que a amiga e o ex-amigo nunca se encontrassem.
Vocês, homens, não sabem do prazer que nós, mulheres, desfrutamos ao fazer inveja a uma amiga, ao ganhar uma disputa travada por longos 20 anos…
Na verdade, EU saí com o cara. Ele está mais incrível do que nos verdes anos. A idade só lhe fez bem. Contei essa estória a Gill e ele escreveu o texto… eheheh… Ótimo texto mesmo!
Ah, por isso foste a Paris, hein, sua safadinha, encontrar lá Climério. Assim, a vida fica muito fácil…
Eu sempre soube dessa história. É linda, mas,perigosa,GIL, invejo a te e a Climério.
Gil,
Excelente texto. E o final então bastante divertido. No fim das contas, acho que o cara mudou mesmo, mas o desejo permaneceu. E a amiga não sossegará até fazer o mesmo.
E aí as duas brigaram na rua por ele, como diz Artur. Mas ele, à esta altura, preferirá uma boa pizza.
Um abraço,
Dimas
Gil,
Valeu pelo texto! Revirou-me as entranhas. O tempo, Gil, o tempo… sempre o tempo.
Abraços,
VanVan