Uma freirinha, uma velhinha e sete ovos

Por Reverendo Tsé-Tsé
Fui novamente a Tamandaré, a mando do Bispo que passa por meu amigo porque o salvei da acusação de bolinar uma paroquiana. Tinha que vigiar o padre alemão de lá, ex-nazista refugiado.
Marocas e uma nossa beata se candidataram e eu tive que levá-las na garupa de minha Lambretta. Dessa vez, foi um pneu que estourou. Por intervenção divina, segundo a beata, porque uma carreta de cana perdera o controle e vinha pela contramão. Felizmente, todos em Bel-O-Kan são especialistas em alguma coisa. Pra sobreviver, apenas. Foi a própria beata que, tremendo de susto, consertou o pneu. Depois de seis horas, chegamos à Paróquia. Estava vazia, aberta, sem mantimentos e cheia de ratos e baratas. Disseram que um tubarão comera o padre local, vingando um seu parente morto num campo de concentração. Limpamos tudo com nossas orações à Imaculada.
Em seguida, o horror. A pior coisa do mundo é entrar num supermercado. A segunda é entrar numa fila de caixa de um supermercado. Submeti-me aos dois tormentos. Mas, a beata sempre teve um estranho vÃcio. Ela adora mudar de fila nos caixas. Fica examinando qual o caixa que está mais vazio e me chama pra lá e pra cá. Fico arrastando o carrinho como um idiota pra não fazer escândalo. Na última vez, queria trocar novamente de fila de caixa. Não agüentei de tanta irritação e derrubei, sem querer, o carrinho cheio de compras de uma velhinha que estava acompanhando uma freirinha.
- Meu Senhor Jesus Cristo! Meus ovos, meus ovos! Todos quebrados! – Gritou a velhinha perebenta, com uma voz esganiçada, enquanto a freirinha beijava meu anel.
Vendo a besteira que fizera, por culpa exclusiva de nossa beata, prontifiquei-me a pagar os ovos quebrados. Eram sete, segundo a velhinha. Não tem problema, disse-lhe. Vou buscar os ovos na prateleira.
Chegando lá, vi que a velhinha, mais perebenta do que nunca, havia me seguido como que não acreditando na minha palavra. Peguei um saco de plástico – esses terrÃveis poluidores – e comecei a contar os ovos da velhinha. Atrás de mim, ouvi um rosnado fino e rouco como se fosse um arranhão de unha quebrada no balcão de aço do supermercado.
- Hummm! Quero vinte!
Virei-me para a velhinha e lhe disse que eram somente sete. Se quisesse os vinte teria que pagar os treze excedentes.
- Humm! Num pago nada. Quero mais. E na fôrma de ovos – Respondeu a megera.
Deixei o saco de lado e pedi ao balconista que cortasse uma fôrma para sete ovos. Nesse momento, a velhinha tomou minha frente e começou a encher de ovos a fôrma. Pasmo, contei trinta ovos, somando de três a três. Dez fileiras de ovos brancos.
- ImpossÃvel! -Só pago os sete que quebrei. – Disse.
- Humm! Quero todos! – Respondeu.
Nessa altura do campeonato, a beata chegou pra ver o que acontecia. Contei-lhe o absurdo. Ela olhou para a velhinha e me disse que se tratava de outra velhinha.
- Mas, não é a senhora que estava atrás da freirinha, lá na fila do caixa?
- Não! Detesto aquela freira. Ela é devota de São Francisco de Assis e eu, de São Francisco de Xavier, o maior santo da Igreja.
- Ora bolas, minha senhora! Se o seu santo é Xavier por que se mete nas compras do de Assis? – Disse-lhe danado da vida.
- Só pra irritar a freira. Ela vive dizendo que Tamandaré é o paraÃso onde viveram Adão e Eva. Acho que foi Caim que botou isso na cabeça dela.
- E quem é esse Caim? – Perguntei.
- É o tal travesti que vivia com o padre Alemão. Todos, devotos de Assis.
- Pois bem! Não quero saber dessa briga. Sou devoto de Marocas e ponto final.
Embrulhei os sete ovos da velhinha autêntica e levei para o caixa, onde realmente, ela me esperava. Mas, antes de pagar o devido, perguntei:
- Que negócio é esse de tanta briga com Francisco Xavier?
- Já sei! Foi a doida que lhe pegou, não foi? Ela diz pra todo mundo que Francisco de Assis era louco, analfabeto e só falava com passarinho ruim, mandado pelo diabo. Além disso, acrescenta que o nosso Santo era gago e uma grande bichona. Blasfêmia pura!
A freirinha, ao lado, riu e agradeceu minha gentileza e disse:
- Não se incomode, Monsenhor! O padre alemão já foi enterrado, o travesti mudou-se pra Muro Alto e a doidinha dos ovos vai ser internada pelo Prefeito, a mando de São Francisco de Assis. Xavier é nome de remédio pra gripe e jamais foi santo.Viva o verdadeiro Francisco! De Assis! – Completou.
Virei-me para o caixa, pagando minha conta, quando ouvi um grito lá fora:
- Minha Nossa senhora! Meus ovos! Meus ovos! Todos quebrados! – Berrava a velhinha, que havia escorregado no batente da calçada.
Bem feito! Pensei. Quem manda brigar com o santo dos outros!
5 de janeiro de 2008, Ã s 11:08h
Reverendo, sua bênção.
O senhor me perdoe, mas preciso dizer que o senhor foi ludibriado. Inrigada com tamanha confusão, liguei para a Prefeitura de Tamandaré a fim de checar essa história da velha insana. Na verdade, a doida é a freirinha, que não é freira coisa nenhuma, e que está sob cuidados da velhinha que caiu na calçada, uma tia solteirona dela.
A velhinha que quis passar-lhe a perna é uma famosa vigarista conhecida como “tiazinha da gema”, que vende pedras falsificadas a turistas ávidos por consumo que visitam cada vez mais nossas praias pernambucanas. Continua à solta, testando novos golpes na praça. Dizem que os policiais não a prendem porque ela se comprometeu a doar 30 ovos ao delegado, por semana. Tá explicado assim, portanto, o golpe que ela tentou aplicar no senhor.
E o pior vem agora: nenhuma é devota de São Chico, nem de Assis nem do Licor Xavier. A velhinha solteirona na verdade é mãe-de-santo (olha aà mais um caso de maternidade de hÃmen intacto!), e os sete ovos que ela estava comprando era para fazer uma macumba para que o perito do INSS finalmente comparecesse ao trabalho e pudesse atestar ao governo federal que a velhinha realmente era velhinha, e assim poder aposentar-se. Lamentavelmente, com a quebra dos ovos, o perito faltou novamente no dia marcado para a consulta. Ela conseguiu remarcar para daqui a seis anos.
6 de janeiro de 2008, Ã s 10:49h
Reverendo e Cláudia,
Preciso dizer que, como auditor, resolvi investigar o envolvimento do prefeito no caso da internação da velhinha.
Tenho que dizer que o prefeito, na verdade, é filho do padre alemão com o travesti, uns dizem que legÃtimo, embora seja comprovado que nem um nem outro possuÃam útero.
Sendo assim, o medonho aprendeu com o padre todas as artimanhas germânicas utilizadas na segunda grande guerra. Pude apurar que ele abriu um campo de concentração em Tamandaré e utiliza a velhinha doida dos ovos como experimento. O Lar de São Francisco de Xavier é apenas umas fachada para o campo de concentração. Acrescento ainda que, junto com ela, encontra-se “concentrado” o tubarão vingativo, para que ele aprenda a nunca mexer com devotos de Xavier, na verdade, sobrenome do prefeito.
Pelo meu silêncio, estão me oferecendo o cargo de vice-prefeito, mas estou propenso a propor uma sociedade ao reverendo Tsé-Tsé numa igreja local. Acho que é mais lucrativo. Embora, como vice-prefeito, poderia facilmente decretar o fim dos supermercados na cidade. Eis a dúvida.
Dimas
9 de janeiro de 2008, Ã s 19:05h
Dimas,
Qual a dúvida? Você poderia facilmente assumir a vaga de vice-prefeito, ser sócio do Reverendo em algum culto novo do tipo que promete o céu e o inferno, a depender do gosto de cada um, por módicos 30% do salário do fiel ou do infiel, porque seria uma religião democrática como aliás o é toda religião que prega a verdade da conta bancária. Poderia, ainda, tomar conta do campo de concentração e alugar o espaço para um desses cineastas americanos gravarem um novo filme sobre o holocausto. Se ainda tiver princÃpios nacionalistas, aluga para um cineasta brasileiro gravar “Olga 2 – Completamente Desconcentrada”. Depois disso tudo o local irá virar ponto turÃstico, atraindo milhões de familiares de vÃtimas do holocausto do Rio de Janeiro e loucos das melhores famÃlias paulistanas. Pense só no desenvolvimento que isso traria para a pacata e pobre Tamandaré! E, obviamente, me contrataria como assessora de imprensa, caso contrário eu o denunciaria numa reportagem bombástica exclusiva a ser exibida no Fantástico ou, melhor ainda, no intervalo do Big Brother Brasil 976.
Isso tudo eu entendo perfeitamente. A única coisa que eu cismei foi com essa sua cisma com os pobres supermercadinhos. Pense bem, Dimas: sem o supermercado e sem a velhinha golpista à solta, quem iria fornecer os 30 ovos semanais ao delegado? Deixa essa parte como está. A velhinha faz o trabalho sujo por você, de graça, e ainda desmoraliza o poder da PolÃcia.
Dimas, antevejo um grande futuro polÃtico para você. Com o número de irmãos que você tem, tenho certeza: será de vice-prefeito de Tamandaré diretinho para a presidência dos Estados Unidos. Boto fé.
9 de janeiro de 2008, Ã s 19:16h
Hehe, essa foi boa, Ana. Lascou-se, Dimas.
11 de janeiro de 2008, Ã s 11:49h
Cláudia,
Como você é perigosa, não a contratarei como assessora, mas proporei sociedade, pois, desta forma, pretendo impossibilitar suas tentativas de chantagem. Viverás a sÃndrome do Rabo Preso, assim como eu.
O outro motivo da sociedade é que sua visão misturando cinema, turismo, economia, polÃtica e cinismo é tão boa que me fez pensar se acaso você não teria o número 666 escondido na cabeleira. Esse é um projeto demonÃaco.
Com relação aos supermercados, eles podem continuar existindo, contanto que as minhas compras, ou melhor oferendas, sejam enviadas diretamente para a minha casa sem custos, não apenas da entrega, mas sem custos nenhum. Eu evitaria filas e os supermercados, a falência.
Você disse uma verdade: com a quantidade de irmãos que eu tenho, serei eleito para qualquer cargo público. Vejo com bons olhos a missão de chegar a presidência dos USA and ABUSA, mas confesso que prefiro dirigir o Santa Cruz que, apesar dos problemas, é bem mais fácil de administrar. É verdade que problema é o que não falta no Arruda, mas é preciso ter fé. E nessa questão de fé, deixa a cargo do reverendo.
Como sou ambicioso e estou endossado pelo tamanho da minha famÃlia, penso em me candidatar ao cargo de presidente do conselho intergalático e usar a terra como estacionamento. Cobrarei quantias exorbitantes de cada terráqueo e serei a criatura mais rica do universo.
Por tudo isso, humildemente, peço que você vote em mim. Caso contrário, estarei te denunciando por chantagem ao Conselho Regional dos Jornalistas e à PolÃcia Federal. E você sabe que com esse povo não se brinca.
do candidato à delirante,
Dimas
11 de janeiro de 2008, Ã s 22:56h
Hahahaha… Só você mesmo, Dimas, com toda a tua ingenuidade, para acreditar que qualquer denúncia ao Conselho Regional dos Jornalistas seria apurada… Essa foi muito boa! Lasca é que, a partir da denúncia, eu teria que dividir meus dividendos já divididos contigo com mais alguns coleguinhas.
Perigosa, eu? Imagina! De onde você tirou essa idéia? Só porque sou jornalista da área de polÃtica e tenho por herança a lÃngua da famÃlia Nogueira? Injustiça! E fique você sabendo que o único sinal que trago na pele é minha fadinha Sá tatuada no ombro. Vai dizer agora que minha Sá (fadinha) é marca demonÃaca?
Mas aceito de bom grado a sociedade, apesar das nossas discordâncias. Vamos levar o desenvolvimento a Tamandaré, aos EUA e à galáxia e, principalmente, à Tamarineira!!!
13 de janeiro de 2008, Ã s 19:06h
Puxa! Vige Maria! Tudo isso somente por causa de sete ovos? Com tantos irmãos, Dimas nem precisaria disso. Quanto a essa tal de Jornalista doidinha, acho que tudo é mentira. Essa briga não passa da disputa entre os dois Terreiros mais famosos de Tamandaré. Soube que Dimas é um Pai de Santo dos melhores, ou dos piores, não sei. Quanto a Ana Cláudia, não tem o que errar. Ela era a velhinha dos ovos. Disfarçada, é claro. Mãe de Santo polêmica na praia, todas as noites, ela é vista jogando garrafa no mar.
Eu, hein! Só queria mesmo era narrar um episódio intrigante e vejam no que deu. Ou no que deram. Minha bênção, não sei das quantas, enfim.
13 de janeiro de 2008, Ã s 19:53h
Aonde diabos estão os editores desse PaÃs que não descobrem vocês????
Abração, gente,
Arnaldo, irmão e compadre orgulhoso! ahhhhhhhhhhhhh e devoto, of course!