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Criação social e desenvolvimento
Num texto anterior, escrevi rapidamente sobre a noção de “progresso”. Retomo aqui a discussão a partir de uma resenha de um texto de Cornelius Castoriadis: “Reflexões sobre o desenvolvimento e a racionalidade” (In: COPEC, Revolução e autonomia. Um perfil de Cornelius Castoriadis. Belo Horizonte, COPEC, 1981)
Castoriadis, no texto, empreende uma crítica ferina à noção de “desenvolvimento”. Não é um texto atual, pois datado de 1974, escrito num estilo talvez característico da época, um tanto contaminado por um ecologismo catastrófico. Apesar disso, implementa uma interessante crítica ao núcleo da noção de “desenvolvimento”, cujo alicerce está no termo “progresso”. Haveria, evidentemente, uma clara presença normativa na noção de “progresso”, envolvendo julgamentos de valor. Mas podemos indagar se devemos jogar a noção de progresso na lata de lixo ou se devemos resgatá-la de alguma forma, sem as aporias que tanto denuncia Castoriadis.
A noção de progresso de alguma maneira implica uma noção de evolução. Não no sentido de Darwin que, aliás, empregou raramente o termo “evolução”, mas no sentido de Spencer. Enquanto em Darwin o termo está relacionado a uma “adaptação com mudança”, não se discutindo o valor positivo ou negativo da mudança, em Spencer, o termo recheou-se de teleologia, isto é, de “progresso”. Desenvolvimento, assim, implicaria uma série de mudanças para “melhor” e, também, envolveria a pressuposição de um modelo a ser seguido, um caminho a ser tomado que não conduziria necessariamente a um determinado ponto. Como mostra Castoriadis, o desenvolvimento é uma eterna estrada, bem diferente da concepção grega de physis que implica a realização de uma norma no sentido de um fim. Castoriadis repete, nesse ponto, as conhecidas denúncias contra a “modernização” dos países do terceiro mundo – modernização que implica desenvolvimento e progresso, bem como a imposição de modelos de “desenvolvimento” provenientes dos países centrais.
Castoriadis desmonta a noção de desenvolvimento e de progresso, mostrando suas aporias e suas ilusões. Desmonta, historiando as noções e visualizando as condições históricas nas quais puderam surgir; desmonta, enfim, a sua “racionalidade”. “Desenvolvimento” só pôde surgir, enquanto valor, a partir do momento que surgiu uma esfera econômica pretensamente autônoma – o modelo ocidental, por excelência, que se tornou universal e foi exportado ao mundo todo, é o modelo de sua economia e de seu peculiar ethos econômico. Seria justamente em relação a essa esfera econômica autônoma e com leis próprias que Castoriadis vai centrar suas análises.
Assim, o surgimento da “economia” e da crença no progresso envolveu uma série de transformações históricas que Castoriadis resume de uma forma sucinta:
“… nascimento e a expansão da burguesia, o interesse obsedante e crescente pelas invenções e descobertas, o desmoronamento progressivo da representação medieval do mundo e da sociedade, a Reforma, a passagem ‘mundo fechado ao universo infinito’, a matematização das ciências, a perspectiva de um ‘progresso indefinido do conhecimento’ e a idéia de que o uso próprio da Razão é a condição necessária e suficiente para que nos tornemos ‘senhores e donos da Natureza (Descartes)” (pp. 127).
Tais transformações corporificaram numa idéia central, “a idéia de que o crescimento ilimitado da produção e das forças produtivas é de fato o objetivo central da vida humana” (pp.128). Tal idéia envolveu o surgimento de um modo de vida, isto é, condutas, comportamentos, atitudes, representações sociais… Tal idéia sempre esteve ligada umbilicalmente a outra idéia, tão central quanto: os poderes da Razão são ilimitados. Seria assim a união dessas duas idéias centrais que balizariam o mundo moderno – duas “idéias” (sistemas de crenças) que implicam, segundo Castoriadis, significações imaginárias sociais (conceito precioso na teoria do autor). “Progresso” seria uma noção que uniria a crença no crescimento ilimitado das forças produtivas à crença na utilização onipotente da Razão – no fundo, “desenvolvimento” seria a realização do “progresso”.
Tais significações imaginárias sociais estão cristalizadas em alguns postulados:
“- a onipotência da técnica;
- a ‘ilusão assintótica’ relativa ao conhecimento científico;
- a ‘racionalidade’ dos mecanismos econômicos;
diversos lemas sobre o homem e a sociedade” (pp.130)
Assim, Castoriadis faz uma crítica da economia moderna, bem como, já que se relacionam, à técnica e à ciência modernas, ao mesmo tempo que tenta mostrar os valores que as sustentam. A técnica, por exemplo, não é vista como algo neutro, do tipo um “meio” que tanto pode ser utilizado para o bem como para o mal. A técnica está inscrita nas práticas sociais; portanto, os valores que permitem o surgimento e o uso de determinada técnica não lhe são externos, nem mesmo em relação à sua utilização – os valores fazem parte constitutiva da técnica. Castoriadis vai mais adiante e argumenta que a técnica envolve um tipo específico de poder. Através da crítica do poder na modernidade, ele produz uma crítica da técnica. Ao produzir uma crítica à técnica enquanto poder, há um resgate da idéia marxiana de que a tecnologia está inscrita nas práticas sociais.
Pode-se perguntar se Castoriadis não elimina completamente o lado “técnico” (instrumental) da técnica. Será que não podemos aplicar a noção de progresso a algumas áreas? À medicina ou à engenharia, por exemplo? Sem o progresso, como discutir algum “avanço” da tecnologia, se o próprio termo “avanço” já não indica uma melhora ou um “progresso” em relação a uma situação passada? Castoriadis possui algumas teimosias: reclama da naturalização da técnica, mas parece, algumas vezes, perpetuá-la quando faz uma pergunta um tanto inócua:
“o que pode acontecer a uma mulher que tome a pílula durante dez anos? A pergunta pertinente é a seguinte: o que poderia acontecer a espécie se as mulheres tomassem a pílula durante 1000 gerações (estou dizendo mil gerações), ou seja, depois de 25000 anos?
Ora, tal pergunta é do tipo que faria um fundamentalista quaker do Greenpeace: a mania de se fazer perguntas irretorquíveis. Como podemos saber o que vai acontecer daqui a 25 mil anos? Se medicina não sabe ou não pode saber, isso invalida o conhecimento médico ou o uso de contraceptivos hormonais?
(aliás, a segunda pergunta é mal formulada, sendo a primeira mais pertinente, pois os efeitos hormonais não acarretam mudanças no genótipo da espécie – base de uma mudança evolutiva. Os efeitos nocivos dos anticoncepcionais hormonais, no máximo, causariam mudanças individuais na mulher consumidora e, talvez, mudanças no fenótipo – quais?! – da espécie daqui a 25 mil anos, caso a espécie continue burramente usando o mesmo tipo de contraceptivo e que não ocorra, o que é improvável, “progresso” algum na medicina contraceptiva. O fato de as pessoas, na média, serem mais altas do que os seus antepassados não está significando, por exemplo, uma mudança evolutiva, e sim uma mudança significativa no aporte alimentar e nutritivo, causando um aumento médio da estatura. Castoriadis cometeu um erro elementar de… lamarckismo.)
O exagero pode levar a posições paradoxais. Há, em Castoriadis, quase o impulso de colocar o “avanço” ou a melhoria da técnica como uma ilusão ideológica – talvez seja o preço de se relativizar exageradamente o lado instrumental da técnica. O preço continua paradoxal: perder de vista a instrumentalidade da técnica pode, ao invés de sua relativização, levar à sua “naturalização”. A técnica não mudaria, porque todo “progresso” é visto como ideológico. Mais paradoxal ainda: sem o lado instrumental da técnica, ficaria muito mais difícil a percepção do entrelaçamento entre a técnica, o poder e o social. Um exemplo típico: na década de 70, ocorreram projeções catastrofistas, por parte dos ecologistas, em relação aos perigos da superpopulação.Assim, as técnicas agrícolas vigentes não dariam conta do aumento da população. Aconteceu então a dita “revolução verde” (processo de descoberta científica que entrelaçou interpelações políticas, sociais e ideológicas) e o que houve foi um aumento espetacular da produção alimentar. A população pobre continuou com fome, mas não por causa da superpopulação ou do esgotamento de recursos da pobre Gaia, e sim devido aos velhos problemas sociais e políticos que impediram e impedem diversas partes do mundo se… “desenvolver”.
Negar a instrumentalidade da técnica pode levar à sua “naturalização”, assim como pode acontecer o mesmo, caso não se perceba a tecnologia como prática social (não posso aprofundar-me nessa questão; mas, caso queiram uma discussão mais detida sobre o assunto, cliquem aqui). Não acusamos Castoriadis de cair em tais erros, mas sim que abriu, na sua argumentação, um flanco perigoso ao tergiversar sobre a instrumentalidade da técnica.
Sinceramente, prefiro o Castoriadis marxizante criticando o marxismo do que aquele um tanto herdeiro de 68 – essa brilhante atmosfera ideativa que permitiu grandes “progressos” e grandes loucuras. Tal Castoriadis soixante-huitard parece que possui um gosto pelo superlativo, pelo hiperbolismo da imaginação (pelo menos, no nome de seus conceitos: magmas, lógica conjuntista-identitária, Cantor…) e por frases de efeito — somente um legítimo herdeiro dessa “tradição intelectual” poderia afirmar com tamanha autoridade o seguinte:
“digamos antes que o homem é um animal louco que, por meio da sua loucura, inventou a razão. Sendo um animal louco, naturalmente fez da sua invenção, a razão, o instrumento e a expressão mais metódica da sua loucura. Isto podemos hoje saber, porque isto aconteceu“.
De nossa insossa época, olhando retrospectivamente, tal afirmação parece-nos absolutamente… déplacé.
















