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A família e a moral
Por motivos alheios à minha vontade, mostrando que vivo na heteronomia, pensava sobre as conseqüências da suposta dissolução do antigo modo de socialização no mundo do trabalho e os processos de formação de identidades coletivas. O meu raciocínio era mais ou menos prosaico e seguia os teóricos da “globalização”: achava que as identidades coletivas, integradas e produzidas no mundo do trabalho, estariam no bojo de uma seqüência ampla de desestruturação. Tal desestruturação insere-se numa situação de crise e de profundas transformações no mundo produtivo. Tal crise geraria problemas identitários, logo, sofrimento psíquico. Daí, pensei sobre a necessidade de uma psicopatologia do trabalho (pensei num carinha chamado Christophe Dejours, que trabalha nessa área). Por isso, fiz a seguinte indagação: quais as conseqüências dessa desestruturação da identidade coletiva nas identidades tout court?
(Sei lá! Vocês queriam que respondesse às minhas próprias perguntas? Se perguntei, é que não sei, né? Eu só fazia perguntas retóricas à minha mãe: _posso jogar bola ao invés de estudar?)
Bem… er… de divagação em divagação, cheguei em outras paragens. E no Brasil? Acho que, aqui, houve um deslocamento das antigas formas de marginalização para um novo tipo de exclusão social, no qual a segmentação e a fragmentação são as palavras-chaves. Será que a pobreza mudou? Caso afirmativo, isso não significaria que programas compensatórios, baseados na integração ao mercado e à cidadania, não funcionam mais? Nesse sentido, o Bolsa-Família representaria a passagem de políticas de integração para políticas de inserção? Sendo de inserção e não mais de integração, como evitar que tais políticas não sejam focalizadas? Isso significa dizer que as políticas públicas não podem ser mais universais?
Tudo bem, pode-se responder afirmativamente às perguntas; contudo, levanto a hipótese de que, pelo menos no Brasil, devido à dificuldade de se fundar um estado de bem-estar social, as políticas de integração (se é que realmente existiram) jamais tiveram uma magnitude comparável às alcançadas nos países desenvolvidos; na verdade, o que sempre prevaleceu foram políticas de inserção sempre condicionadas pelo assistencialismo. Deve-se, talvez, repensar historicamente o papel integrador do mercado e dos serviços públicos no Brasil; afinal, o país não “seguiu” um caminho semelhante aos dos países desenvolvidos, pois, quando o mercado começou a esboçar, enfim, um mecanismo de integração, a situação no campo produtivo e no mundo do trabalho já mudava rapidamente. Parece que nosso brasão foi “Da inserção assistencialista à inserção ao deus-dará”.
Penso no mercado de trabalho: ora, ele não pode prescindir de um controle social, isto é, de direitos e de políticas sociais, pois sua auto-regulação, freqüentemente, é desintegradora dos laços de solidariedade ou, ainda, produz atomismo social. Aviso logo que essa é uma posição de meio-termo entre a apologia e a ojeriza ao mercado. Reconhece a importância e, ao mesmo tempo, as suas limitações.
Um exemplo de mercado auto-regulado? Ora, o mercado informal — pergunta: todo mercado de trabalho auto-regulado desemboca no informalismo? E, convenhamos, produz visíveis efeitos de desagregação política, ao individualizar e socializar a pessoa na seguinte estruturação de valores: despolitização, isolamento e distanciamento das práticas de solidariedade. Seria um mundo “meritocrático”, o mercado informal. Luta individual por espaços de trabalho, no qual a solidariedade praticamente não existe. Quem vence, se vence, é o mais “esperto”. É o “pega pra capar”. É difícil ser um camelô, mais ainda apresentar uma “solidariedade de grupo” ou um sentimento coletivo de pertença – a competição é amarga o suficiente para instituir a conduta mais viável do ponto de vista das oportunidades: a “viração individual”.
A precariedade do mercado de trabalho envolve, concomitantemente, a precariedade no mundo do trabalho, justamente a dissolução de uma socialização que estruturava identidades coletivas. Identidades de classe, vale dizer. A dissolução do antigo modo de socialização envolve a desestruturação de identidades de classe. A socialização tinha como referência a formação de classes sociais – classe e socialização no trabalho andam juntas, pelo menos no que se refere à formação da classe operária. Desse ponto de vista, não causa surpresa que os sindicatos perderam ou, pelo menos, tenham uma dificuldade imensa, atualmente, em formar identidades coletivas através de socializações político-corporativas. Sei, sei, os problemas dos sindicatos não se esgotam nessa questão, pois apresentam também um problema estrutural de representação, isto é, de legitimidade; porém, talvez os dois problemas estejam conectados.
Nesse admirável velho mundo novo, o espaço maior de manutenção da personalidade, isto é, da manutenção de identidades… seria a família. Caso isso tenha algum fundamento, a dissolução do antigo modo de socialização (ou o surgimento de novas formas de socialização no trabalho) apenas reafirma o mais antigo em termos de solidariedade e formação da personalidade: a estrutura de parentesco. Aqui, estamos longe de uma estruturação de uma identidade de classe. A pobreza, assim, passa pela afirmação da família, cujo limite político impede a formação de identidades coletivas. O drama familiar é o drama da pobreza, limitado ao mundo privado e estando bem distante da cidadania. O público e o civil são parâmetros quase inatingíveis.
Aqui, faço a seguinte hipótese:
solidariedade esgotando-se na família + desagregação familiar = violência.
Em tese, fulano e sicrana tinham acesso (nunca foi bem assim, mas havia um tico disso) a diversas formas de amortecedores institucionais (filantropia, igreja, sindicato, partido, classe e por aí vai) da violência – em suma, tinham um recurso de última instância. Agora, com a crise de legitimidade de diversas instituições, somando-se à desagregação social da família, a violência virou um recurso imediato. Sobra o quê? O narcotráfico. Ocorre um fenômeno gravíssimo: a formação de identidades forja-se e se realiza na violência. O recurso à violência não é extemporâneo ou um método transitório de sobrevivência; não, a violência tornou-se o elemento central do próprio processo de identificação, isto é, tornou-se identidade (mas isso é outro papo; um dia, voltarei a abordá-lo).
Mas… como se aborda politicamente a família?
Antes de responder, faço o resumo do meu argumento:
→mudou o modo de socialização no mundo do trabalho;
→tal socialização prescinde da formação de identidades coletivas;
→as políticas de inserção tornaram-se mais importantes do que as de integração;
→sem inserção e sem integração (sem trabalho), a pobreza afirma a família como lócus privilegiado da produção e da reprodução das identidades.
Repito a pergunta: como se aborda politicamente a família?
Ora, através da moral. A volta da moral, para parodiar um sociólogo. Aqui, nesse quesito, a esquerda leva uma desvantagem histórica em relação aos conservadores. A moral foi sempre desprezada pela política de esquerda. Através da noção de hegemonia, Gramsci tentou incluir a moral, enquanto política cultural, na prática política; mas, parece-me, de forma completamente insuficiente. Até agora, a moral está sendo interpelada, de uma forma bem eficaz, pelas religiões. Volta da moral = volta da religião (ou volta política da religião, preenchendo a lacuna moral deixada pela própria política).
Na luta contra o Ancien Regime, a moral tradicional foi combatida para dar espaço a uma política e a um Estado laicos. Houve, na época, um deslocamento das querelas morais para o campo da política – a moral tradicional foi neutralizada (em parte e sempre provisoriamente) na política e pela política. Agora, a situação é diferente: a defesa de uma moral laica dar-se-á no campo mesmo dos valores, isto é, no terreno genérico da cultura.
Não causa surpresa que Bush, na primeira campanha presidencial, tenha sido tão enfático na sua ojeriza ao casamento gay (e a outras “questões morais”), e como isso repercutiu em amplos setores da sociedade americana – lembro que, para vários analistas, os problemas morais e culturais, e não os propriamente políticos, foram decisivos na vitória dos republicanos.
Claro, aqui, o problema foi bem outro e possui uma relação distante com a questão da pobreza e da família. De todo modo, a volta da moral fez-se presente na política americana. E se pode perceber isso em outros cantos do mundo: na França, por exemplo, com a questão do foulard; os problemas colocados pelos fundamentalismos religiosos; o casamento gay; a eutanásia; o aborto; as experiências genéticas, etc e tal. Parece que todas essas questões implicam a volta política da moral.
(Nessa discussão toda, lembro de um perigo que não pode ser cometido: a identificação entre uma moral laica e uma moral atéia. Ao se realizar essa identificação, o perigo fica à vista: a transformação do ateísmo numa “religião profana”. Defender o laicismo moral não implica ateísmo. Os comunistas, muitas vezes na história, fizeram essa identificação. Muitos religiosos utilizam, com ou sem razão, essa identificação para combater politicamente a esquerda e, muitas vezes, de contrabando uma moral laica. Acho, por exemplo, o médico e filósofo Luiz Felipe Pondé bastante ambíguo em relação a essa questão. Já Olavo de Carvalho faz a identificação, mas de uma maneira curiosa: assim como os comunistas, identifica a moral laica, muitas vezes vista como humanismo (essa abominação tão detestada pelos anti-modernos), ao ateísmo; porém, ao contrário dos comunas, percebe essa identificação de uma maneira extremamente negativa. Ao criticar o laicicismo, criticando o ateísmo, sua concepção de democracia torna-se problemática, pois como pensar a democracia sem uma moral laica que a fundamente? Aparentemente, para Olavo de Carvalho, o que fundamenta a democracia é a moral cristã, o que é, no mínimo, controverso)
Quando alguns pensadores e religiosos compreenderão que, numa democracia, a única forma de manter a crença na sua própria religião é defender com ardor o pluralismo de fé e de valores, justamente a base fundamental de uma moral laica?
E quando esquerda assumirá a laicidade como uma categoria de valor, como a moral da democracia?
Parodiando um mote de uma já velha propaganda: é a moral, estúpido!

















Sem comentário,Gostaria de agradecer imenso.Espero que esta obra não termina por aqui.Obrigado
Luanda,29/09/2011