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Duas posições e uma alternativa

7 comentários

Conversando com alguns amigos historiadores, notei que, em relação à história das idéias, há duas posições extremas, embora nenhuma delas apareçam completamente puras na realidade. São extremos que seduzem, muitas vezes aparecendo como caricaturas, mas que podem embananar o raciocínio.

De um lado, existe a tentação de voltar ao passado, percebendo-se como contemporâneo de algum autor de antanho.

_Através de uma máquina do tempo? Pergunto.
_Não, por quê?!
_Não é uma volta ao passado?
_Não nesse sentido, Artur.
_Aaah…

Não podemos ser literais com os historiadores.

Mas, para ser de fato contemporâneo do passado, seria necessário deixar no presente as idéias que surgiram no nosso contexto e, também, aquelas que se formaram desde a época do autor em questão. Pois, caso não fosse dessa forma, como evitar o confronto entre idéias do passado e do presente? Será que podemos ler Hegel, por exemplo, eliminando todo o contexto e o conhecimento atuais, e encará-lo frente a frente sem a distância temporal? Ou, colocando de outra forma: seria possível produzir uma tal suspensão de nossas idéias? E, caso conseguíssemos essa proeza, o que, com efeito, ganharíamos? Ora, não ficaríamos preso ao horizonte cognitivo e temporal do pensador e de sua época? Logo, qual seria o conhecimento que produziríamos, isto é, ele não seria igual ao produzido na contemporaneidade do pensador? Saberíamos mais fatos, sem dúvida, e teríamos mais descrições, mas teríamos mais conhecimento?

A outra posição é trazer o autor do passado e colocá-lo diante de nós como nosso contemporâneo.

_Bem… er… trazendo como? Com uma máquina do tempo?
_Não, Artur.
_Aaah… 

Novamente, a mesma questão, somente que invertida: para ser nosso contemporâneo, o tal autor precisaria embebedar-se das idéias que surgiram desde a sua época, o que muitas vezes significará o abandono de suas idéias do passado. Como ele suspenderia suas idéias?

Diante disso, existiria alguma posição alternativa? Talvez, o jeito seja quebrar a máquina do tempo e, com isso, evitar os paradoxos. Ou, ainda, adotar a postura de Jacques Bouveresse, da qual me inspiro aqui nessa discussão. Assim, penso que seja possível encarar os pensadores do passado a partir de sua própria linguagem e de seu contexto, mas se evitando a separação entre a compreensão e a avaliação. Depois de tudo, não é inconcebível que um certo progresso, de alguma sorte, tenha ocorrido na própria filosofia, isto é, que sabemos de coisas que os grandes filósofos não sabiam ou negligenciaram.

Aqui, paro um pouco e me explico, pois utilizo uma noção extremamente desgastada no campo das ciências humanas: “progresso”. Há amigo meu que, diante dela, teve uma síncope; uma amiga antropóloga parou no hospital, estrebuchando relativismo. Não tenho tempo para me aprofundar, mas quero marcar posição em relação a essa noção; afinal, é vital para o meu raciocínio.

  • →a noção de progresso pode ser desconstruída sem as ilusões do século XIX, principalmente se a desacloparmos do pensamento determinista e evolucionista, típico dessa época;

  • →sem evolucionismo, a noção de progresso torna-se “restrita” e descritiva, abandonando suas derrapagens normativas, isto é, deixando de ser uma categoria de valor;

  • →é uma noção que pode ser aplicada a algumas áreas da atividade humana, como a técnica e várias partes da ciência. Contudo, é extremamente problemática quando aplicada no campo da moral. Há progresso axiológico? Exceto se encontrarmos um fundamento universal para a moral, o que não ousaria aqui, a resposta seria negativa.  Duas sociedades ou duas épocas com valores parecidos (tipo duas épocas ou duas sociedades onde a igualdade e a liberdade, por exemplo, são os valores principais) podem ser comparadas usando-se a noção de progresso? Talvez.

  • →progresso é incompatível com vários relativismos, por isso desapareceu do nosso horizonte cognitivo (lembro que as filosofias dominantes nas ciências sociais são relativistas). Contudo, adequa-se muito bem a qualquer tipo de fundacionismo filosófico, daí o perigo. Progresso serve, usualmente, para fundar algumas moralidades modernas. Discordo desse uso. No fundo, relativismo e fundacionismo são extremos que se tocam. O relativismo, levado ao seu reductio ad aburdum, é a radicalização da filosofia das mônadas — nesse limite, é incompatível com o método comparativo, pois cada singularidade é irredutível a outra. É a vitória de Pirro de Leibniz. Enfim, acho o uso da noção de progresso compatível com um relativismo fraco ou não-monadológico.

Voltando ao assunto, pergunto: por que não cotejar a neurociência com Descarte para uma leitura crítica desse último. Ou ainda: em relação à natureza do mental, é possível uma confrontação entre Descartes e Wittgenstein?

Na verdade, na comparação, não se procuraria ratificações de progresso, nem mesmo um exame das respostas de cada um.  As respostas dos grandes pensadores do passado, geralmente, sofreram a crítica roedora dos ratos e podem ser lançadas na lata de lixo da história. Sua atualidade está diretamente conectada às suas perguntas. Um pensador, que não possui questões traspassando o tempo, está tão imerso no seu horizonte temporal, que só interessa aos especialistas da história das idéias. São as questões que importam e que ultrapassam, sem precisar de máquina do tempo, o contexto de sua formação e transcendem sua origem. Comparar respostas é o passaporte para o anacronismo.

Comparar questões, eis a questão.

Estradar
  1. Participe com sua opinião da inauguração do blog Somos Loucos por Sexo. Um blog que vai falar sobre os assuntos polêmicos do sexo.
    http://www.somosloucosporsexo.blogspot.com

  2. Hehe… A ironia é tão grande que constrange. Discuto filosofia da história e recebo uma mensagem que fala sobre sexo. História é sexo!

    Visitei, claro, o blog. Há um post sobre sexo anal. Por uma associação muito da troncha, lembrei-me do grito de guerra da Libelu: “coito anal! Derruba o capital!” Foi a melhor palavra de ordem que a esquerda brasileira já produziu…

  3. Talvez o título ” Duas posições e uma alternativa” tenha causado a confusão. Essa da Libelu, também conhecida como esquerda Gucci-Fiorucci, eu não conhecia.

    Não sou versado em filosofia, mas deve ser pelas tais “questões” que os gregos estão vivinhos da silva, trocentos séculos depois, enquanto de muitos filósofos considerados “mudernos” algumas décadas atrás, ninguém lembra nem o nome.

    Ah! também visitei o tal blog.

  4. Eita, é mesmo, Ducaldo! Foi um ato falho daquele de assombrar qualquer divã psicanalítico!

  5. Caraca. Onde foi parar o comentário que acabei de fazer aqui??????
    Censura, Artur?????
    Só porque eu disse, entre outras coisas, que discutir filosofia da história estando sóbrio é coisa de tarado?
    Que coisa!

  6. Oxe, oxe, mistérios do mundo virtual, Aninha. Terá sido o antispam?! Fui lá ver, mas não encontrei comentário algum, exceto umas mensagens incompreensíveis (uns negócios em inglês, parece remédio, um tal de Askimet — só Dimas para esclarecer).

    Imagine, como censurar um comentário que relaciona filosofia da história e taradice!? Bota Freud no chinelo. E ainda dá um samba! Bjus.

  7. Uma das razões que fundamenta esse debate entre os historiadores é a necessidade de entender o “espírito” de um determinado período e suas idiossincrasias em relação ao presente. É muito cômodo, por exemplo, dizer que os revolucionários dos anos 60 eram ingênuos, ou até insanos, por acreditarem naquela história de revolução, de redenção da humanidade, etc. Aos nossos olhos contemporâneos é mesmo. Mas existia uma comunhão de fatores na atmosfera da época que legitimava isso. Independente das grandes forças políticas que estivessem por trás, maquinando e estimulando certas “insanidades”.

    Da mesma maneira, se pensarmos nas Cruzadas. O que fazia um cidadão abandonar sua casa, montar no seu cavalo e se mandar para o meio do front com o objetivo talvez irrealizável de resgatar a Terra Santa? Sim, certo, alguns devem ter pensado que a mulher do cara talvez fosse insuportável. Mesmo assim, por que ir se meter em lutar por vezes suicidas contra exércitos mouros armados até os dentes. Podia subir no cavalo e ir passear na Alemanha, comer chocolate na Dinamarca. Mas não. A criatura imbuia-se de um espírito fundamentalista e ia lá trucidar árabes e acabar trucidado. Por quê? O que movia esse cidadão?

    Para as nossas referências contemporâneas, semelhantes atitudes só podem ser vistas como absurdas. Mas o sujeito que viveu naquela época não tinha as nossas referências contemporâneas e não via nada de absurdo naquilo. Assim, como está bem resolvido no texto, acredito que seria irrealizável imaginarmos que iríamos perder de vista nossas referências, ou o que o texto chama de “progresso”. De acordo. Mas é preciso que se faça um esforço investigativo e de postura para tentar enxergar o que havia de razoável, ou pelo menos de justificável, em atitudes que de alguma maneira estavam sintonizadas com aqueles indivíduos e com seu tempo.

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