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Questão de sorte – II

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Por Gadiel Perrusi

II 

No princípio, pensei que tudo ia dar certo. A paixão era muito grande e nem me incomodava de chegar cansada em casa. As mãos de Pedro, apesar de calejadas, eram maravilhosas e me curavam de todo o enfado. Esquecera Caruaru, Madá e a vida de cachorro na zona. Menos meu pai, batendo uma prosa no posto rodoviário.

O deputado emprestara um dinheirinho e a gente comprou um barraco melhor. Pedro botou água encanada de uma pena d’água clandestina e puxou a luz do barraco do vizinho. Não faltava nada. No inverno é que ficava com medo da barreira, mas a Prefeitura tinha prometido fazer um muro de arrimo.

Somente depois que engravidei duas vezes e não deu certo é que Pedro virou a cabeça. Não que ele gostasse tanto assim de criança, mas pensava que eu havia abortado de propósito, principalmente na segunda vez. Pedro ficou com ciúme besta, dizendo que a criança não era dele. Não adiantava mostrar o certificado da maternidade. Era hiper-tensa com gravidez de alto risco. Por isso, não podia beber muito também. Na última vez, ligaram as trompas com medo de que engravidasse de novo e, então, começou o inferno.

A cada dia, Pedro se tornava mais chato e agressivo. Começara a beber e tomava meu dinheiro. Jogava e passava muitas noites fora de casa. A vizinhança sabia das brigas, mas ninguém dizia nada. Chegava tão cansada do trabalho que nem dava pra conversar. Nos domingos, pegava a feira e depois a missa. Cuidava bem do barraco que comprara com o empréstimo do Doutor Farias. Pagara tudo direitinho, mesmo sendo roubada pelo companheiro quase todo dia.

Uma madrugada, o Boneco, como o pessoal da rua chamava Pedro, chegou mais do que bêbedo. Tinha fumado também. Rasgou todas as minhas roupas, quebrou a louça e, ainda, furou o colchão de dormir que a patroa me dera de presente. Só não me bateu por que consegui fugir para o barraco de um vizinho.

Pior foi a mudança do Deputado para Brasília. Fiquei desempregada e a vida não estava nada fácil. Queria botar a indenização na poupança, mas Pedro tomou o dinheiro e gastou tudo numa farra. Aí, não agüentei. Ameacei botar o Boneco na rua. Ele passou uns tempos quietinho, sem sair de casa. Foi quase uma segunda lua de mel. Me dava banho e fazia massagem nas minhas costas, parecido como meu pai. Não adiantou muito porque, depois, a coisa piorou de vez.

O dinheiro acabou todinho e Dedé me chamou de novo pra vida. Não dava mais pra fazer programa por que ninguém mais queria. Dedé envelhecera muito rápido pra essas coisas. Nessa época, ela já morava numa pensão da Rua do Bom Jesus  e se transformara em puta de rua mesmo. Era o jeito.

Mas Boneco não podia saber por que eu ainda adorava ele. Meia noite, já estava em casa. Pedro só chegava depois. No princípio, não houve nenhum problema. O Boneco até que estava melhor e eu, às vezes, tinha que ficar em casa de noite. Depois, recuperava tudo. A gente ainda se gostava e, nos domingos, depois da missa, íamos à praia. De tarde, pegava um cinema. Na segunda-feira, os dois sumiam de novo. Cada um pra seu lado.

Evitava, como antes, os locais de ponto de minha irmã Madá. Não tinha ódio nem nada, mas não queria vê-la nunca mais. Uma noite, quase cruzava com ela quando descia de uma pensão no Recife. Estava escuro e consegui disfarçar.

Agora, Miriam parecia doente e cansada. Ofegante, pediu para continuar noutro dia. Podia ouvir, se a jornalista quisesse falar.

Lúcia não tinha mesmo nada para dizer. A história do cavalinho estava nos livros de Psicologia, pensou. Masturbação infantil, totalmente inocente. Homem que vai e volta, ela também já conhecia. Fora noiva de um colega de Faculdade. Acabara e renovara umas três vezes. Desistira. Preferia mesmo ouvir Miriam. No final, talvez, dissesse alguma coisa. No início, achara monótono saber tudo pelo processo e ouvir, de novo, na entrevista. Mas, não era bem assim. O processo, peça fria de papel, escondia os detalhes. Só tinha o essencial para a definição de culpa da acusada. Nada mais. Faltava vida e sobrava português ruim.

Lúcia tivera que viajar para fazer uma reportagem, e somente no mês seguinte retomou a entrevista com Miriam, que parecia mais abatida e frágil do que antes. Hiper-tensão maligna e complicações renais, segundo o laudo da prisão. Tinha que se apressar e terminar com tudo aquilo. Já começava a se identificar tanto com Miriam que, às vezes, duvidava de que lado realmente estava. Perigoso! Começava a sonhar com cenas de sua infância e adolescência, há muito esquecidas. Questão de sorte, como repetia sua entrevistada.

_E, então, onde estava? – Perguntou Miriam.
_Acho que você ainda vivia com Pedro Boneco e havia se cruzado com Madá, descendo uma escada no escuro.
_É verdade! – continuou Miriam – mas não foi um simples encontro disfarçado. Havia um homem com ela. O meu já tinha ido embora. E o cara de Madá era o Boneco. Por isso, quando cheguei em casa, quase tive um ataque. Fiquei tonta e comecei a vomitar.

Pedro só chegou de madrugada mais bêbedo do que um gambá. Não disse nada e fingi que estava dormindo. Aí, ele arrancou o meu lençol, querendo me bater. Me acusou de tudo. Madá tinha contado o que eu fazia e o que eu não fazia e ele disse que estava passando por idiota. Só não me chamou de santa. A discussão foi a pior  de todas. Também já estava cansada de tudo aquilo. Sustentava Boneco e ele ainda saía com minha irmã.

Mas não deu pra me controlar, quando ele falou que eu dormia com meu pai. Tive vontade de matá-lo, bem devagar, arrancando cabelo por cabelo, rasgando sua pele, furando o coração ruim, libertando aquela alma de cão danado. Mas fiquei calada, porque não podia falar de meu pai. De manhã, iria embora de vez.

Boneco, então, pegou uma garrafa e me ameaçou. Fugi do quarto, mas, na porta, ele me deu um pontapé. Fui bater na sala e me apoiei na máquina de costura que a mulher do Doutor Farias me dera. Encontrei uma tesoura e parti pra cima do Boneco. Foi um golpe muito leve mas ele morria de medo de sangue. Correu prá cama e disse que estava morrendo, somente porque a tesoura havia furado a mão dele. Mas, aí, não sei o que me deu. Tive vontade de pepinar Boneco todinho. Não sei quantos furos ele levou, mas só parei quando não tinha mais fôlego. Ele ficou na cama estirado, sangrando e gemendo o tempo todo.

Minha raiva passara e não sabia o que fazer. Resolvi chamar a irmã dele que ainda morava com a avó, perto do meu barraco. Ela se acovardou e mandou que fosse chamar a mãe do Boneco. Mas a verdade é que ninguém queria se meter na história, com medo de complicação. Nem mesmo a mãe quis saber de nada. Quando amanhecesse, passava por lá.

Fiquei o resto da noite na cama, afastada de Pedro, que, de vez em quando, pedia água. Mas eu tinha medo de sair dali. Ele podia se levantar e querer me matar de novo. De manhãzinha, ele bateu de leve na minha barriga e me acordou. Pedia água, mas nem liguei.

A mãe e a irmã de Pedro chegaram quando já dera oito da manhã. Não quis abrir a porta porque pensei que, àquela altura, o Boneco já tinha morrido. Eu mesma dizia baixinho pra ele: “Olha, Boneco, não brinca, não faz que está dormindo que eu te conheço”. Aí, foi a polícia que arrombou a porta. Me prenderam e levaram Pedro para o hospital. Acho que ele não morreu, porque eu só peguei uns quatro anos e meio de cadeia.

_Como lhe disse, Doutora, foi meu pedaço bom da vida que terminou ruim. De ruim, emendou pra pior, mas quando me lembro de tudo isso quero vomitar e fico tonta. Acho melhor até a gente parar por aqui. Depois a senhora volta. Preciso descansar um pouco, senão o bordado não vai render quase nada.

Lúcia leu de novo todo o processo. O Boneco, de fato, não havia morrido por pouco, mas ficara com seqüelas para o resto da vida. A mãe do Boneco testemunhara que Miriam fora à sua casa, na madrugada do crime, gritando que o próprio pai estava morrendo na sua cama. Achara aquilo muito louco e preferiu ficar dormindo. Depois ia conferir. Se tivesse desconfiado da verdade, teria chamado logo a polícia pra socorrer o filho.

Depois de presa, segundo o Promotor, Miriam se comportara com muita frieza, desligada, confessando todos os detalhes embora narrando o crime na terceira pessoa, como se estivesse olhando para si mesma num espelho, ela mesma dentro dele. Observara o crime, ela própria empunhara a tesoura, vira o sangue sair do Boneco, ficara com medo, saíra para pedir socorro, mas não achara nada demais na cena. Apenas, uma mulher que se defendia. Nem tanto do Boneco, como parecia, mas de todos os homens que a machucaram.

Não negava nem afirmava. Contava somente. Tinha pena do Boneco. Tão jovem, tão atrapalhado na vida e, agora, no hospital! De sua parte, tudo bem! Se cometera um crime, como estavam dizendo, achava que era assim mesmo, não tinha nada pra esconder. Preferia que não fosse ela, mas foi. Falta de sorte de se meter com homem.

Quando Lúcia voltou à Colônia Penal, Miriam estava internada na enfermaria. Contudo, insistiu em continuar contando sua história. Talvez fosse desumano, mas Lúcia achou que não poderia perder tempo. Miriam não duraria muito com o tratamento precário na prisão. Resolveu não arriscar e aceitou concluir a entrevista.

Depois que saí da prisão, continuou Miriam, com menos de dois anos de pena por bom comportamento, fui procurar Dedé de novo. Disseram, na pensão, que ela tinha morrido de tanto beber, mas não foi assim não. Um elemento desconhecido lhe dera uma facada dentro do quarto e só descobriram na manhã do outro dia.

Estava faltando uma mulher, que adoecera, e me deixaram ficar. Fui ficando e a vida continuou. Não podia beber e bebia. Precisava dormir e não dormia. Precisava de tudo e não havia nada.

Depois, preferi morar longe da pensão. Aluguei um barraco em Afogados e o ônibus era direto. Não precisava andar muito pra ir ao trabalho. Um dia, minha irmã Madá apareceu lá em casa. Há anos que não sabia por onde ela andava, mas parece que me vigiava o tempo todo. Não errou uma casa. Foi direto parar na minha. Queria porque queria ficar uns dias comigo pra esconder o amante da polícia, um tal de Felizardo. Só permiti se fosse uma semana. Não queria, também, nenhuma complicação comigo.

Depois, numa noite de pouco trabalho, encontrei Felizardo num bar do Recife. Me fez muita festa, disse que fora inocentado e não precisava mais se esconder. Me agradecia muito. Ele até que era simpático. Havia despachado Madá por que ela era muito briguenta. Começamos a beber e a jogar baralho.

Por azar, por destino, não sei por quê, Madá passou em frente do bar. Começou logo a me ofender, dizendo que eu estava, como sempre, roubando o homem dela. Disse pra Felizardo que eu era amasiada com a dona da pensão e que lhe dava todo o dinheiro apurado.

Em vez de me defender, Felizardo ficou danado comigo por causa da história da dona da pensão, o que era, claro, pura mentira de Madá. Bateu na minha cara e me chamou de puta, como se eu já não fosse. Acho que fiquei mais revoltada com ele do que com Madá. Ele não era nada meu, a não ser antigo protegido, quando fugia da polícia. Eu acho é que ele e Madá só tinham brigado, mas ainda continuavam juntos. Daí aquela reação, talvez pra disfarçar.

Fiquei sozinha no bar, quando chegaram os Cosme e Damião pra me revistar. Madá dissera a eles que eu estava com maconha, olhando pra mim como se eu fosse sua pior inimiga. Mas eu não tinha nada e eles me deixaram em paz. Não sei por que Madá me perseguia tanto.

Resolvi, então, ir para outro bar, bem longe dali, onde encontrei Gisa com um rapaz a tiracolo. Adalgisa era antiga colega de antes de minha prisão. Boa gente! O menino dela também. Continuamos a beber e, uma hora depois, Madá chegou de novo.

Decidi, naquele momento, voltar pra casa. Aquela noite só podia dar confusão mesmo. Parei um táxi. Gisa e o rapaz quiseram vir também. Quando ia fechar a porta, Madá entrou no banco traseiro e começou a me xingar. Eu lhe disse, ali mesmo, que se viesse com a gente ia se arrepender. Não tinha nada na cabeça, não. Era só pra assustar, mas ela não quis descer do carro e o motorista deu a partida.

No meio do caminho, pensei em deixar minha amiga em casa, pois vi logo que o rapaz dela era um frouxo. Ficava calado o tempo todo e não me defendia. Perto da Rua Imperial pediu pra descer, e foi melhor porque dava mais espaço no carro. Também tinha medo de envolver minha amiga na briga com Madá, mas ela insistiu em continuar comigo.

Preferi ficar calada o tempo todo. Madá me destratava de tudo. Dizia aos berros que eu era a puta mais conhecida de Caruaru, que tinha roubado todos os homens dela, de Germano, o soldado da Rodoviária, passando por Bob até Felizardo. Coisas que, até, já havia esquecido, pois saíra do interior com menos de dezoito anos, como lhe contei no início.

Chegamos em casa e eu estava muito tonta. Sabia que não podia beber muito. Mas não era a bebida. Era o cheiro ruim da presença de minha irmã. Parecia um demônio fugido do inferno, querendo arrasar com minha vida. Dentro de casa, a briga continuou. Não sei mesmo se era briga por que eu não dizia nada. Apenas sentia que meu corpo estava inchando, minha cabeça doía, meu coração batia revoltado.

Madá parou um pouco de gritar e pegou uma cerveja, como se fosse dona da casa. Depois, virou-se pra Gisa e disse, de novo, que eu não prestava, só trazia desgraça. Até dormia com meu pai quando ele era vivo. Aí, me esquentei mesmo e comecei também a gritar.

Madá dizia que meu pai não havia sido atropelado, não. Tinha se jogado debaixo de um caminhão com vergonha de mim. O próprio Germano ouvira dizer, no Posto, que toda noite eu ficava dormindo abraçada entre ele e minha mãe. Até meu pai, marido de minha própria mãe, eu queria tirar, quanto mais os homens das colegas. Madá não respeitava nem sequer a memória do próprio pai.

Fiquei tão roxa de raiva que não agüentei. Além da mentira, Madá me desmoralizava diante dos amigos, como Gisa e o amiguinho covarde dela. Não queria matar ninguém, mas a faca estava na mesa me tentando. De tanto tentar, segurei-a bem firme e avancei. Entramos numa luta e eu furei não sei quantas vezes aquela peste de irmã. Minha colega Gisa fugiu com medo da briga, mas eu acho que ela estava certa.

Fugi também, porque achava que Madá não merecia socorro nenhum. Nem sabia se ela estava morta ou não. Fui para o Recife novamente e fiquei andando pra me acalmar. Depois, voltei pra Afogados e tinha muita gente defronte da minha porta. A polícia havia chegado e falavam que tinha morrido gente dentro de casa. Como já era de madrugada, ninguém me reconheceu.

Somente fui presa dois meses depois, em Caruaru, por que a dona da pensão informou à polícia que eu era de lá. Estava num sítio de uns primos e, quando vi os soldados chegando, me aprontei e não ofereci a mínima resistência. Depois, foram dizer que meus primos atiraram na polícia porque plantavam maconha no sítio. Tudo mentira.

Até hoje, não sei por que Madá me odiava tanto. Acho que era por que meu pai gostava mais de mim. Ainda me lembro de quando a gente fazia cavalinho e ele me dava banho de bacia, no quintal de casa. As mãos de meu pai eram mais macias do que as do Boneco, o único homem com quem vivi de meu próprio gosto e, assim mesmo, deu no que deu.

Quando o doido atropelou meu pai, quem sofreu mais fui eu. Todo mundo chorou, a Prefeitura pagou o enterro, mas todo dia era eu que botava uma flor no seu túmulo.

Na polícia, uma testemunha disse que ainda encontrara Madá com vida, pedindo pra ser enterrada junto do meu pai. Não pude fazer nada porque estava fugida e, quando soube, já era tarde. Estava presa. Achei um verdadeiro sacrilégio. Parece que Madá esqueceu de que, um dia, quando eu era ainda pequena, surpreendi os dois se beijando no quarto de minha mãe.

Até perguntei a uma Assistente Social, aqui da prisão, se eu tinha direito de separar os dois no cemitério, mas ela não sabia de nada, que eu perguntasse ao Advogado.

Deitada na enfermaria, Miriam começava a chorar pela primeira vez, desde o início da entrevista. Lúcia achou que não precisava dizer nem ouvir mais nada. Limitou-se a chamar a enfermeira. Parecia que tudo já estava escrito nas lágrimas de Miriam.

Mas, discordava dos tais pedaços de vida. Na verdade, pensava, era somente um. Questão de sorte, como costumava repetir sua entrevistada.

Sementeiras
  1. Perrusi Pai,

    Questão de sorte, ou do conjunto de fatores reais que fazem esse seu conto, suas personagens, parecerem tão vivos, tão possíveis. Trechos dessa história eu já ouvi falar pela boca de algumas Mirians, sempre contadas com crueza. Com tamanha sensibilidade, e tão completa, é a primeira vez.
    Parabéns, P.Pai. Quem lê seus escritos, fica ansioso pelo próximo…
    Abraço,
    Ana Cláudia

  2. Inveja, no bom sentido (existe isso?). Se eu tivesse 0,00001% da capacidade de Perrusi Pai para escrever, já me daria por satisfeito.

    Mesmo já tendo ouvido, ou acompanhado algumas histórias parecidas, é impossível não ficar impressionado após a leitura desse conto.

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