Questão de sorte

Por Gadiel Perrusi
I
_Que adianta, Moça? A senhora não vai acreditar mesmo. É melhor ficar com o que está escrito no processo. Li, aprovei e assinei. Só tive três pedaços de vida. Dois de desgraça e um de alegria no meio, que não durou nem três anos.
_Tudo bem! - Respondeu Maria Lúcia, que entrevistava mulheres condenadas para uma série de artigos no jornal onde trabalhava como estagiária.
_Mesmo assim, -continuou - gostaria de ouvir, nem que fosse pra esquecer tudo depois. Quem sabe, o pedaço do meio não me ajude um pouco? Só queria entender, sei lá, talvez até me entender também.
_Ah, mas o pedaço do meio tem muito a ver com as pontas - respondeu Miriam, um pouco enigmática.
_Está bem, eu conto. Esqueça as pontas e leve o meio embora. Fico mais sossegada. Dói menos quando a desgraça é uma só. Saber que a gente foi feliz e não pode mais dá a impressão de que tudo é um pesadelo só. Prefiro assim, é mais inteiro. Tenho trinta e cinco anos. Deles todos, só uns poucos foram alegres. Impressão minha. Acho que foi tudo triste mesmo. Aí, a gente olha pra frente com mais coragem, já sabendo que tudo vai continuar na mesma.
_ Começo por onde? Pelo bom ou pelo ruim? - Perguntou Miriam.
_Não sei. Prefiro que você mesma diga o que é e o que não é - Respondeu Lúcia.
É difícil dizer - começou Miriam. Parece tudo igual. Um pai que morre. Um padrasto que estupra. Um pai que se encarrega de fazer o serviço e, depois, expulsa a filha de casa. Nem pai, nem padrasto, nem nada. Destino, sorte, ninguém sabe.
No meu caso, vivia direitinho em Caruaru. Casa, comida e roupa. Namorado, pai e mãe. A desgraça é que tinha irmã também. A gente não era pobre nem rico. Tinha cinema, namoro na praça, passeio a Recife. Tudo certinho. Até aí, não tinham começado os pedaços de minha vida. Era igual, nem bom, nem ruim.
Na entrada da cidade, havia uma barreira da Polícia Rodoviária. Sempre que a gente ia a Bezerros, meu pai, que era Coletor da Prefeitura, cumprimentava os guardas e tinha um dedo de prosa. Germano, soldado do Posto, é que era muito calado. Respondia pouco, sempre olhando pra mim.
Eu tinha somente quinze anos. Achava o guarda muito bonito, igual a um artista de Rock que vira na TV. Madá, minha irmã mais velha, também. Ficava tentando Germano o tempo todo, mas ele só olhava pra mim.
Faltando pouco para meus dezesseis anos, meu pai foi atropelado, bem defronte do Posto, por um doido que rompeu a barreira. Germano foi dar a notícia e saiu com Madá pra ir ao necrotério. Eu estava na escola e minha mãe foi me buscar.
Gostava de meu pai, ele gostava de mim e Madá morria de ciúmes. Depois que ouço essas histórias de pai dormir com filha, começo a pensar que se fosse comigo teria sido muito natural. Acho que nem ele nem eu veríamos nada de mais. A gente apenas se abraçava e se beijava. Gostava também de ficar no colo dele fazendo cavalinho, mas isso quando era pequena.
Depois da missa do trigésimo, Madá desapareceu com Germano. Soube que fora transferido para o Recife e a levara com ele. Nem liguei. Minha mãe é que não parava de chorar. Afinal de contas, perdera o marido e a filha mais velha.
Continuei a estudar e a namorar com Cláudio, filho de um ex-colega de meu pai, até que recebemos uma carta de Madá. Isso depois de um ano de ter fugido. Queria que eu fosse estudar no Recife. Estava ganhando bem. Em Caruaru, a pensão da Prefeitura era uma ninharia, não dava pra nada. Eu era primeira de classe e as freiras me deixavam estudar de graça. Mamãe é que não queria que eu viajasse. Eu nem me incomodava. Cláudio só queria bolinar mesmo e eu duvidava que fosse casar um dia. Também, pra que casar!
De tanto insistir, mamãe deixou e cheguei ao Recife com menos de dezoito anos. Madá me esperava na estação de ônibus, mas não era Germano que estava ao seu lado. Era outro cara, mais velho, de bigode e até bem vestido. Não desconfiei de nada. Fomos de carro para um apartamento no Espinheiro e me deram um quarto todo mobiliado. Madá me disse que, na outra semana, ia providenciar escola pra mim. Tudo bem. Enquanto isso, pensei, vou aproveitar o tempo e ver todos os filmes da cidade. À noite, ficava sozinha. Madá saía com Bob, que parecia ser namorado, e só voltava de madrugada quando eu já estava dormindo.
Uma noite, depois da novela, um cara entrou em casa sem bater, abrindo a porta com a chave. Fiquei com medo, mas ele disse que era amigo de Madá. Acho que já conhecia o apartamento porque foi logo na geladeira e tirou uma garrafa de Vodca e uns limões.
Eu mesmo não bebia, mas o cara insistiu tanto que tomei uns goles. Fiquei tontinha. Depois, não sei o que aconteceu. Quando acordei, o rapaz estava nu, ainda dormindo, na minha cama. Eu também estava sem roupa e sentia muitas dores em baixo. Foi por isso que acordei primeiro.
Gritei por Madá e ela saiu do quarto, ao lado, morrendo de rir. Disse que assistiu tudo por um buraco na parede e que eu havia transado com o cara sem nenhuma resistência. Agora, era continuar transando. Isso dava dinheiro. Morri de vergonha e botei pra chorar.
Madá continuava rindo e disse que sabia que eu transava com meu pai. Foi Germano que lhe contara quando vieram pro Recife. Ele ficava me olhando, no posto policial, pra ver, também, se tinha uma chance comigo. Tudo mentira. Fiquei vermelha de raiva. Quis fugir, mesmo somente de camisola, mas Bob saiu do quarto e me agarrou.
Ele e o rapaz abusaram de mim até de tarde. Quando saíram, Madá me disse que a vida, dali por diante, ia ser assim mesmo. Tinha que ganhar meu dinheiro pra ajudar na casa. Nem podia me levantar direito. Me deu um banho, tomei um copo de leite e um comprimido pra dor de cabeça. Dormi de novo, prometendo fugir no outro dia.
Eles saíam e me deixavam trancada. Tudo em vão. Uma semana depois, eles chegaram bêbedos demais e esqueceram de fechar a porta. Aproveitei e fugi.
_Foi quando começaram os três pedaços - finalizou Miriam, dizendo que estava muito cansada para continuar. Que a Doutora voltasse noutro dia.
_E, então, Miriam? Como está passando? - Perguntou a jornalista, voltando para continuar a entrevista, uma semana depois.
_A mesma coisa. Rezar, ler, trabalhar na oficina de bordado. Nada de novo. E a senhora?
_Não sei. Estive pensando muito em você. Também brincava de cavalinho com meu pai. Classe média como vocês. Acho mesmo que é aquilo que você disse, questão de sorte, de destino. Talvez os dois lados sejam a mesma coisa. E, então, podemos conversar?
Depois que fugi, continuou Miriam, fui procurar Dedé, minha ex-colega do colégio das freiras de Caruaru. A gente se correspondia de vez em quando. Deixou que ficasse por lá, uns dias, mas eu tinha que anotar todos os telefonemas que chegassem. Depois me diria por quê. Anotei uns dez e deixei o resto pra lá. Toda noite, ela saía e voltava tarde.
Durante o dia, eu procurava emprego mas era difícil, até que lembrei onde morava o Doutor Farias, deputado por Sairé e antigo amigo do meu pai. Fui até lá e não consegui nada. Mas ele me prometeu que, dali a uns meses, ia precisar de uma babá para sua filha. Que voltasse.
Uma noite, saí pra passear com Dedé. Depois do cinema, fomos a um bar. Foi muita cerveja e terminamos no bairro do Recife. Não sabia que Dedé fazia a vida. Mas ela me disse que não era bem assim. Estava apenas curiosa pra saber como era. Só fazia alguns programas e perguntou se eu não tinha desconfiado dos telefonemas que recebia. No meio da bebedeira, lhe contei o que Madá me fizera.
E daí? Dedé resmungou um pouco e disse que parecia que somente eu mesma não sabia o pedaço de coisa ruim que era Madá. Mas não precisava fazer a zona. Bastava ter um apartamento e um telefone. Bonita como eu era, ia chover programa e daria pra viver muito bem. Era só querer. Eu não queria! Mas, pouco a pouco, comecei a dividir os clientes com Dedé. Numa boa, porque ela própria não dava vencimento, nem era de ferro.
Comecei a ganhar dinheiro e me mudei. Continuamos amigas e, às vezes, fazíamos programas juntas. Era até divertido. A gente só aceitava gente direita. Mas era também arriscado. De vez em quando, a coisa não dava certo e a gente se estrepava. Já começava a ficar conhecida. O problema é que tinha que beber diariamente e sempre fui fraca de estômago. Vomitava muito e só vivia com dor de cabeça.
Dois anos depois, não estava mais agüentando. Recusava clientes e, com isso, perdia dinheiro. Tive de deixar o apartamento alugado e fui procurar emprego de novo. Ainda era muito jeitosa, mas o estrago já começara. Não encontrava nada porque não tinha terminado ainda o segundo grau e não havia trabalho decente mesmo.
O dinheiro estava acabando e fui morar perto do Vasco da Gama. Um dia, depois de andar por todo canto à procura de trabalho, cansei. De noite, atravessei a ponte e fiquei bebendo num bar do Recife, apesar de saber que ia passar mal no dia seguinte.
O primeiro cara que chamou, eu fui. Depois, me viciei de novo. Pelo menos, podia comer e me vestir direito. Ainda era jovem e todo mundo gostava. Eu não! Mas era o jeito. Foram cinco anos de zona. Tudo comigo era certinho e não houve problema nem com a polícia nem com os clientes. Vomitava durante o dia e, de noite, recomeçava tudo. Não sentia mais nada. Só saudade de meu pai.
_Mas se a senhora deixasse pra depois, eu até agradecia - interrompeu Miriam. Fico tremendo toda vez que me lembro do pedaço do meio, como já disse noutro dia.
Na outra semana, Miriam retomou a história. Parecia mais triste e cansada do que de costume.
_A partir de agora, se a Senhora quiser, pode escrever. É como se estivesse dando adeus ao pedaço do meio - disse baixinho para Lúcia, que preferiu gravar para não perder uma palavra sequer do relato.
Como falei, morava no Vasco da Gama. Conheci Pedro no Morro da Conceição. Paixão à primeira vista, que só em novela. Dia de festa da Santa e pensei que ela ia abençoar meu romance. Pedro morava com a Vó e era ainda muito menino, comparando comigo. Acho que não sabia nada da vida. Sua mãe morava um pouco adiante com o amante e, por isso, ele e sua irmã ficavam no barraco da avó para não atrapalhar a vida de ninguém.
Depois, me mudei novamente pra ir viver com Pedro. Ele fazia biscate de encanador e não ganhava quase nada. Só uns trocados. Procurei, de novo, o Doutor Farias e comecei como empregada doméstica.
Fui muito sincera e falei com Dedé que estava abandonando a vida e lhe pedi pra não dizer nada ao meu rapaz. O grosso do dinheiro vinha mesmo do meu emprego. Até que Dona Iracema, minha patroa, não gostava de explorar. Pagava o salário direitinho e, de vez em quando, me deixava levar alguma coisa pra casa; comida e roupa usada. Na Semana Santa, ganhava o peixe; no São João, o milho; no Natal, o décimo terceiro e mais algum prás festas. Pagava o INPS e não cobrava nada pela comida. Não podia reclamar. Nem queria!
(continua)