Pauline - II

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Por Gadiel Perrusi

II

Hilda foi a pé pela mesma estrada enlameada de antigamente. Perguntou por Severino, o homem da mandioca, e disseram que estava na beira do riacho. Ele falou que Pauline era gente que não prestava, pinta brava, e morava com o amante num barraco perto dali. Vivia roubando sua mandioca, mas o trabalho dela era a zona de Prazeres. Tinha que vigiar seu roçado; ladrão era que não faltava. Pediu desculpa e apontou para o lado da pista. O riacho vinha de lá, onde Pauline dizia que morava. Tudo era igual, não tinha cor pra dizer qual era o barraco. Ela que perguntasse.

Ao lado da pista, havia muitos. Hilda andou por quase todos, antes de encontrar Pauline se balançando numa cadeira, no meio da calçada. Crescera mais um pouco, engordara. Ainda tinha cabelos louros e estava sozinha.

Perguntou logo de saída por que a mãe estava por ali. Ofereceu uma batida de limão, mas avisou que não havia lugar no barraco. Uma colega de zona lhe dissera que Hilda morava na pensão da Magra. Nem ligara. O Pina já era ruim, imagine perto do Recife. Prazeres tampouco. Somente na praia, nos domingos, arranjava alguém. Assim mesmo, era muito barato e tinha que roubar mandioca pra vender na feira.

Hilda escutava tudo em silêncio. Viera somente pra saber como Pauline estava. Não queria nada. Disse que Pinheiro havia morrido e que não fora mais visitar Pauline na prisão por causa do trabalho, muito duro. Apenas, queria ver a neta, inventou sem saber por quê.

_As freiras da creche deram Amélia para um casal criar. - Respondeu Pauline, sem muito interesse.

Não podia ficar com a menina na prisão. Depois disso, não sabia mais de nada. Se a mãe prometesse sair no outro dia, podia dormir no barraco. Estendia uma rede e dava café com macaxeira de manhã. Mas tinha de sair bem cedo porque Floriano ia chegar logo. Não sabia o que ele fazia, mas, todo fim de semana, passava fora. Quando chegava, era bêbedo e dando alteração.

No mês seguinte, Hilda encontrou um barraco vazio, próximo à Estrada da Batalha. Precisava ficar perto da filha embora não dissesse nada a Pauline. Todo dia, pegava o trem e, da Estação Central para a Camboa do Carmo, era um pulo; de madrugada, voltava de ônibus. A Magra ainda insistiu pra que ela ficasse, mas ficou satisfeita com a mudança. Hilda envelhecia rápido e gastava mais do que recebia. Todo domingo de tarde, Hilda se aproximava do barraco de Pauline e a via de longe. Pelo menos, ficava sabendo como estava e, se precisasse, poderia socorrê-la.

Numa noite de chuva, foi chamada pelo Comissário de Muribeca. Tinha uma mulher da vida dizendo que era filha dela. Falavam que matara o amante e só fazia chorar, chamando por seu nome.

Hilda chegou na cadeia e viu Pauline toda suja de lama. Teve uma pena infinita de tudo e de si mesma. Sentia-se culpada pela desgraça de Pauline. Devia ter matado Pinheiro, anos atrás,  e ficado com a filha. Tão bonita que se casaria, logo, com um homem de bem. Culpa sua que fazia a vida e morava com um bêbedo velho e inútil.

Pauline, quase histérica, falava tudo o que lhe vinha na cabeça, mas negava ter matado alguém. No seu delírio, fora Pinheiro, seu padrasto, já morto e enterrado, que tentara cruzar de novo com ela e, na briga, ele caíra desmaiado, perto do riacho. Depois, contou outra história, depois outra. Tudo sem fio nem pavio.

A filha estava suja e embriagada. Apanhara no Comissariado e falava sem parar, como se tivesse enlouquecido. Como não havia provas nem testemunhas, foi solta. O comissário pensou que era doida. Noutro dia, ouviria de novo o depoimento. Hilda levou a filha para sua casa e deixou que ela dormisse pra curar a bebedeira.

No dia seguinte, quando acordou, Pauline contou a Hilda mais uma história sem pé nem cabeça.

Fora ver um taco de roça que trocara por uma radiola estragada. Pretendia moer farinha e perguntou ao companheiro se ele queria ir. Era um homem muito doente, epilético, que já passara um ano internado no Santo Amaro. Até a São Severino dos Ramos já levara. Mas não dera jeito. Toda semana, ele tinha um ataque. Não sabia o que fazer.

Caminhara sozinha prá roça, em Muribeca, pertinho dali. Ao meio dia, Floriano chegou trazendo o almoço que nem pedira. Comeram juntos e, às duas horas da tarde, pediu a um motorista, que passava na pista, que a levasse até Prazeres. Mais tarde, voltou pra terminar a farinhada. Deu catorze cuias, cada uma de dois quilos e meio. Mas não queria voltar à feira. Estava cansada. Entregou a farinha a um compadre, dizendo-lhe  pra pagar como pudesse. Foi beber cachaça com caju.

Já passava das dez da noite, quando chegou em casa. Perguntou pelo companheiro e soube, por um menino na frente da Igreja, que ele estava morto dentro do mato, no fim do córrego.

Ali, encontrou Floriano caído de bruços, perto do riacho. Revirou-o, não viu sangue e pensou que tinha sido um ataque de epilepsia. Depois, soube que o haviam morto com um espeto. Ainda não acreditava. Achava que fora mesmo uma crise. Já estava roxo quando o encontrou. Desemborcou-o, limpou a baba de sua camisa e trocou sua roupa. Que morresse pelo menos de uma maneira decente. Ele bem sabia que não podia beber por causa dos remédios que lhe passaram no Santo Amaro. E, agora, ali estava , babado e morto, sem saber o que fazer. Por isso, trocou sua roupa. Estava ainda com seu rádio de pilha, o relógio vagabundo, que ela própria havia roubado na feira de Prazeres e lhe dera de presente, um anel de bronze e mais duzentos e quinze cruzeiros no bolso.

No Comissariado, disseram que uma prostituta de uma pensão de Prazeres havia sido a causa. Estava embeiçada por Floriano. Enquanto Pauline estava na roça, a mulher entrara no seu barraco e, com ciúmes, matara Floriano em plena crise epiléptica, levando o corpo para o riacho. Uma vez, Pauline encontrou a tal mulher da vida escondida na sua casa, debaixo da cama, e muito assustada. Floriano disse que a moça fugia do amante, que estava bêbedo e queria furá-la.

Depois, ouviu dizer que tinha sido o próprio amante daquela mulher que, por ciúmes, matara seu rival, o coitado do Floriano que não podia fazer nada. Vivia tendo crises o tempo todo. Mas não acreditava nisso porque, na noite do crime, a menina estava na zona em sua própria companhia.

Ninguém soube mais de nada. Pauline vendeu o barraco que já estava anunciado, aliás, com uma tabuleta pregada na porta. Com o dinheiro apurado, fez um enterro muito bonito para Floriano. Ela própria vestiu e preparou o defunto porque gostava muito dele, apesar da doença. Por isso, vieram dizer que o corpo de Floriano estava todo marcado com suas impressões digitais. Acusação besta.

A própria polícia, no dia da morte de Floriano, compareceu ao local, mas não disse nada. Era o aniversário do Delegado, todos tinham bebido bastante e, por isso, fizeram muita confusão. O próprio Floriano estava no caixão direitinho e o enterro era de manhã. À tarde, tinha que entregar o barraco ao novo dono.

Soube que haviam prendido a tal prostituta, que foi solta, logo em seguida, porque era amante do Delegado. Ele tivera boa vontade com ela, recebendo um rádio e dinheiro pra não pegar cadeia. Foi no sábado, logo após o enterro, que a colega fora solta pelo Delegado e, depois, dera no pé com o amante. Família de prostitutas e de ladrões de que até a polícia tinha medo. É claro que sua colega mentira muito na polícia, além da ajuda do Comissário.

Na terça-feira seguinte, estava lavando roupa em Muribeca quando a polícia veio prendê-la. Foi empurrada e caiu no riacho. Bateram nela até que confessasse tudo. Daí em diante, nem o juiz quis ouvi-la. Pauline fugira e ficava dormindo debaixo do pé de pau, perto do córrego onde encontrara Floriano. Gostava dele. Coitado! Nem queria acreditar que tinha morrido. Por nada. Nem tinha inimigos. Ela lhe dava tudo, dinheiro, casa, roupa e comida. Às vezes, sonhava com Floriano. Pensava que ainda estava vivo e guardara, com carinho, todos os seus pertences.

Outro dia, estava debaixo de uma  árvore e ficara com raiva; desejava matar a mentirosa e traidora. Estava bebendo sozinha, quando foi presa de novo. Reagiu como pôde, mas ninguém queria acreditar na sua história e, por isso, baixaram o cacete no Comissariado.

Depois de ouvir tudo isso, Hilda não se conteve. Botou pra chorar, abraçando a filha com todo o calor de que ainda era capaz. A culpa era dela. Sabia que Floriano não era nenhum santo. Mas o fato, pensou, é que ele morrera com cinco peixeiradas, ainda dormindo, embora ninguém tivesse visto. O cara bem que merecera. Explorador de mulher dos piores. O culpado era Pinheiro que violentara e expulsara sua filha de casa, mais de dez anos atrás. Pauline já estava mais calma. Tomou café e foi dormir de novo.

Carinhosamente, Hilda cobriu a filha com um lençol velho e rasgado. Botou seu melhor vestido, se penteou com cuidado, pintou os lábios com batom e se apresentou ao Comissário de Muribeca para contar a mesma história, que repetiria, meses depois, ao Juiz.

Disse que saíra da pensão da Magra e fora viver em Prazeres, pra ficar junto de Pauline. Era puta de rua, como a filha, mas não se deixava explorar por ninguém, muito menos por um desclassificado como Floriano.

No dia seis de Santana, por volta das oito horas da noite, se dirigia para Muribeca, onde agora ganhava a vida. No Córrego da Batalha, se deparara com o homem de sua filha agarrado com outra mulher, talvez a pior da redondeza.

Estava cansada daquela vida. Homem só prestava pra mentir e explorar. Como estava armada de uma faca-peixeira, com medo de ladrão, e vendo que Floriano estava traindo sua filha, escondeu-se numa árvore, sacou da arma e, de surpresa, desferiu-lhe um golpe nas costas. O homem cambaleou e ela se aproveitou pra completar o serviço. Ele ficou lá, estirado na beira do córrego. Queria matar, também, a mulher que estava com ele, mas ela saiu correndo e se livrou.

Depois, foi avisar Pauline da morte de Floriano, mas não a encontrou em casa. Passou pela Igreja e disse a um menino pra dar o recado. Foi dormir e jamais pensou que sua filha pudesse ser acusada. Mas, agora, era o jeito. Não podia deixar ninguém pagar por um crime que era somente dela.

Hilda pegou o 121, com doze anos de cadeia. Já cumprira nove e, dali a um mês, sairia por bom comportamento. No presídio, era muito respeitada e não tinha motivo para se revoltar. Era muito melhor do que na rua. Fazer a vida dentro do Bom Pastor era comer bem, dormir a noite toda e catar botão, durante o dia. Ninguém mexera com ela, no início, mesmo depois do período do isolamento. Cinco peixeiradas impunham respeito a qualquer uma.

Hilda estava se sentindo muito velha e se preocupava com o fim da pena. Não sabia nada de Pauline, que nem sequer a visitara durante todo esse tempo. Só aprendera a separar botão ruim dos enormes sacos que a fábrica mandava. Ganhava pouco. Se, pelo menos, arranjasse um emprego na fábrica. Mas, como dizia a Assistente Social, catar botão era só pra explorar as presas. Depois, jogavam todas no lixo de onde vieram.

Hilda entrara com quarenta anos de idade. Mais nove, quatro meses e cinco dias, completaria cinqüenta em breve. Nos primeiros tempos, ouvira muita missa e rezara muita ladainha. Depois, apareceu um homem da Assembléia e Hilda achou melhor cantar os hinos do pastor do que rezar tanto como exigiam as freiras.

Procuraria a Assembléia quando saísse. Sabia tudo direitinho e o pastor bem que poderia lhe arranjar um emprego, nem que fosse de cozinheira. Depois ia procurar Pauline. Às vezes, sonhava com ela saindo da Igreja, toda de branco, segurando um buquê de rosas. De repente, a filha se virava e atacava o pastor com as flores que viravam um pedaço de cano preto. Nunca via o noivo. Pinheiro aparecia de vez em quando junto dela, sentado num banco, dormindo como se estivesse ainda bêbedo.

Faltava somente um mês para sair. Sabia de cor seu tempo de prisão. Ano a ano, dia a dia, minuto a minuto. Uma estudante de Direito, até bonitinha, lhe perguntara sobre um tal de relógio carcerário. Não sabia, não. Tinha um no refeitório que sempre vivia atrasado. Sabia, apenas, que sairia do presídio no dia quinze de Santana, quase no mesmo dia em que fora presa, e não tinha para onde ir somente com uma passagem no bolso. Para a esquerda ou para direita do portão? Resolveria na hora.

Já quase dormindo, a lembrança da novata voltou com força. Parecia com Pauline, mas não podia, era ainda uma menina bem mocinha. Dormiu com a sensação de ter achado alguma coisa.

Em quinze de Agosto, Hilda se vestira para ir embora. No dia anterior, houvera uma festa e as freiras fizeram um bolo, lhe entregaram o pecúlio pelo trabalho com os botões, um santinho, que ela guardou na Bíblia, e lhe desejaram felicidades. Nada mais. Precisava era de um emprego, de uma casa pra ficar.

Na secretaria, antes de sair, perguntou à Madre quem era a novata que chegara, desaparecera, chegara de novo e nunca mais tinha voltado.

Madre Tereza estranhou a pergunta. Por que Hilda queria se meter naquilo? Por nada. Parecia com alguém que conhecia, mas que não era ninguém, pois não pudera mesmo conhecer ninguém na prisão. Nunca recebera visita, exceto do pastor da Assembléia. Mas a moça tinha um jeito parecido com não sei quem.

A Madre riu um pouco, mas foi buscar a ficha da moça para satisfazer a curiosidade de Hilda. Que levasse uma boa impressão do Bom Pastor. E todo o cuidado pra não voltar! Boa presa, melhor em liberdade! A Madre é que não sairia mais dali. Por isso, Hilda devia se considerar uma pessoa de sorte.

Era coisa de política. A menina era suspeita e fora internada, mas tivera que sair muitas vezes para depor. Em pouco tempo, a família descobriu onde ela estava. Era filha adotiva de um coronel da Aeronáutica. Foi solta por isso. Amélia Sampaio de Albuquerque, filha do Coronel Albuquerque e de Dona Luzia Sampaio de Albuquerque. Dezoito anos, estudante universitária, suspeita de distribuição de panfletos contra o Governo. Nome de guerra: Pauline.

Quando chegara, fizera questão de registrar o nome da mãe de maneira diferente. A mulher do Coronel era Dona Luzia, mas Amélia escrevera que sua mãe se chamava Pauline, sem sobrenome. Coisa dessa juventude maluca de hoje em dia, como disse a Madre.

O portão se abriu para dar passagem a Hilda. Resolveu pegar o lado direito da calçada. Como se lembrava, a rua ia bater na Caxangá. O dinheiro do pecúlio não fora tão pequeno assim. Daria para passar uma semana se encontrasse uma pensão barata para ficar.

3 Comentários para “Pauline - II”

  1. Dimas Lins:

    Belíssimo conto, Perrusi Pai. Triste e cru. Aqui não há flores e o leitor não é poupado das desventuras de Hilda, Pauline e Amélia. Mas o texto está longe de ser melancólico, pois, como disse antes, é um conto cru, de acordo com a necessidade dos personagens. Isso, acredito que os personagens determinam como a estória deve ser contada e a forma não poderia ser melhor.

    A indicação precisa dos locais onde viveram as personagens é outro ponto forte do conto, pois são reais e, para quem conhece a cidade, dão a sensação que a história de fato aconteceu.

    Parabéns pelo conto e pela capacidade criativa.

    Um abraço,

    Dimas Lins

  2. Artur:

    Parece-me (que Perrusi Pai confirme) que a estória é “verdadeira”, pois baseou-se nas entrevistas, realizadas pela origem de tudo (minha mãe), quando de sua dissertação de mestrado. De forma inédita, ela, a origem de tudo, entrevistou várias presidiárias, colhendo estórias extraordinárias.

  3. Perrusi Pai:

    Obrigado Dimas pelo comentário. Não Artur! Pauline é pura ficção. Apenas, li as entrevistas de sua mãe e alguns “pedaços” inspiraram partes do relato. No entanto, o roteiro é totalmente do Autor. As personagens do conto, é claro, não existiram, mas são um amálgama de várias situações que as condenadas viveram. Não apenas de uma só. Trabalhei sobe o múltiplo para criar o simples. É isso aí.

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