Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Pauline – I

Sem Comentários

mulherpobre.jpg


Por Gadiel Perrusi

  

I

No pátio do presídio, o banho de sol fora interrompido por uma discussão acirrada. Uma nova presa havia chegado naquela manhã e as líderes de cela discutiam em que pedaço ela poderia circular, antes do período de adaptação. Não queriam mistura por enquanto, como de costume. Precisavam observar a novata, tomar informações, inquiri-la. Depois, quem sabe, poderia haver maior aproximação. Concordaram, enfim, que ela deveria passear somente perto da entrada da capela. Conversando com as freiras, a novata se habituaria ao banho de sol, enquanto, passando de vez em quando pelo local, poderiam, até mesmo, ouvir algum pedaço de conversa.

Ninguém avisara nada. No dia anterior, pela tardinha, abriram uma cela e colocaram a mulher. O costume era ficar uns dias fechada sem sair, exceto, se necessário, para a enfermaria. Aquele caso fora diferente, no entanto.

Hilda, a mais idosa e respeitada liderança da Colônia Penal, estranhara logo aquele tipo de tratamento. Era melhor isolar a novata embora não temessem nenhuma informante. A prisão era pacífica, pra gente bem comportada, em fim de pena e não havia motivos para a Diretoria se preocupar. Por que então a novata?

Pouco sol para tanto cuidado. A mulher desapareceu por uns dias e, quando voltou ao pátio, ficou novamente sozinha perto da capela. Desapareceu de novo e somente foi vista um mês depois, no mesmo lugar, vestida com roupa de saída. Era como se estivesse cumprindo pena a conta-gotas. Entrava e saía e ninguém sabia porquê. Nem as freiras nem as guardas e, muito menos, os vigilantes da Polícia Militar disseram nada. Ninguém parecia saber de coisa alguma. Apenas, uma figura solitária na pequena escadaria da Igreja, como ordenaram as próprias líderes de cela, no primeiro dia.

Na última vez em que a viram, ela estava falando com um homem de paletó e gravata que anotava tudo o que dizia. Possivelmente, um advogado. Terminou o banho de sol e ainda continuava por lá. Até que sumiu de vez. Hilda coçou a cabeça e disse às companheiras que, afinal de contas, não tinham nada com o caso. Era melhor esquecer.

Na cela, sem poder dormir, depois da hora de apagar a luz, Hilda achou que havia qualquer coisa com a novata. Algum pedaço de recordação, um pequeno formigão no pescoço. Achava que conhecia a mulher solitária, apesar de tê-la visto apenas de longe. Era possível. Estava há tanto tempo presa que a imagem do lado de fora lhe chegava em fragmentos, mas aquela maneira de gesticular ou de encolher as pernas não lhe parecia estranha. Num último momento, teve a impressão de que, discretamente,  o advogado e a novata lhe acenaram. Embora sua vista já estivesse muito cansada, um sentimento agudo de reconhecimento lhe feriu os olhos, mas fugiu tão rápido como chegou.

No outro dia, enquanto trabalhava na oficina, separando botões defeituosos de uma montanha enorme que a fábrica mandava todas as semanas, Hilda cismava sobre a vida e nos longos anos de prisão. Depois de tanto tempo, era a primeira vez que desconfiava de uma novata. Não sabia se era mesmo  desconfiança. Um mal estar, talvez. De longe, só percebera que a mulher era loura, magra e com uns gestos que lhe chamaram a atenção. Resolveu esquecer e se concentrar no trabalho. Faltava pouco tempo pra ganhar a liberdade e precisava pensar no que fazer quando saísse da Colônia.

Contudo, sua ansiedade aumentava. Não produziu quase nada e foi advertida pela chefe de secção, uma freirinha ainda jovem que gostava de mostrar serviço. Não respondeu. Estava mesmo distraída. Achava que conhecia aquela novata, mas não sabia de onde. Nem como, pois, há quase dez anos, estava presa sem conhecer ninguém.

De noite, antes de deitar, continuou a cismar. Como é que ela própria havia chegado na prisão? No princípio, tinha sido muito estranho. Fizeram milhões de perguntas que não sabia responder. Anos depois, quando trabalhara na secretaria,  vira sua ficha. A coisa mais esquisita do mundo. Estavam lá seus depoimentos na delegacia e em juízo, uma entrevista com uma Psicóloga e outra com uma Assistente Social. Mas, havia muitas palavras e sinais que, absolutamente, não conseguia saber. É certo que aprendera a ler e a escrever na prisão. Convertera-se à Assembléia de Deus e somente lia a Bíblia.

Mas, o que significava tudo aquilo? “Fator G – INI . 27 pontos no INV, equivalente a 20%. Fraca capacidade para A/C. CNA. O exame de personalidade permite sugerir RAT. Redução da A/S , apresentando primitivismo e traços de paranóia”.

Podia ser. Mas nunca tinha brigado na Colônia. O que seria paranóia? Hilda riu do seu começo. Fora melhor do que o tempo em que ficara na cadeia de Prazeres, esperando julgamento. Melhor ainda do que os dois dias sentada num banco duro no Tribunal, ouvindo as coisas malucas do Promotor e do Advogado de Ofício, que brigavam entre si, não sabia bem por quê. Já confessara o crime e não precisava tanta coisa pra pegar a pena.

Ouvira dizer que a Colônia era muito melhor do que morar na pensão de Maria Magra, no bairro de São José. Durante o júri, não dissera nada. Sempre fora muito calada, mas tivera vontade de pedir ao juiz que falasse logo quantos anos ia pegar. Para ela tanto fazia. Assim, teria mais tempo de pensar na vida. Quem sabe se na outra não seria tudo diferente? Esta mesmo que vivia não valeu nada. Foi tudo por água abaixo, desde o roçado em Bonito até o juiz mandar que ela se levantasse para ouvir a sentença. Depois, o camburão da PM entrando na Colônia.

Doze anos, talvez menos por bom comportamento. Até ali, tinha feito tudo de sua própria cabeça. Agora, só fazia o que mandavam pra poder comparar tudo direitinho, se ainda tivesse tempo.

Hilda achava que tudo havia começado num mês de março, não se lembrava do dia nem do ano. Pela tarde, caíra um aguaceiro, depois de um calor intenso. Não tivera tempo nem sequer de tirar as roupas do arame. A chuva parou, deixando o quintal encharcado. Durante o pé d’água, ficara apenas de combinação dentro de casa, ouvindo rádio. Depois, sem notar, saíra do mesmo jeito pra recolher as roupas. Não podia deixá-las dormir lá fora com medo de ladrão. Achava que nem mesmo o vizinho, um cabo da polícia enxerido, poderia lhe dar um flagra. Ainda era muito cedo e nem escurecera. Precisava tomar cuidado com o cabo. Era muito metido e tinha uma mulher grávida e arengueira demais para seu gosto.

Tampouco esperava que Pinheiro estivesse chegando do bar, onde ficava bebendo o tempo todo, dizendo que saía pra pegar serviço. A única coisa de que não gostava era do arame farpado em que pendurava as roupas. Toda semana, tinha de costurar algum rasgão provocado pelo vento ou por algum animal que atravessava o quintal.

Do outro lado da rua, havia um rolo danado. Não prestava atenção, mas discutiam em voz tão alta que não durou pra perceber alguma coisa. Sem saber dos motivos, aproximou-se mais um pouco. Afinal de contas, as brigas eram quase diárias, mas ela não podia assistir por causa do trabalho noturno. Uma briga durante o dia devia ser mais interessante.

O cabo e a mulher grávida, já com uma enorme barriga, gesticulavam contra uma menina de uns dezoito anos. Não é que estivessem armados, mas o cabo segurava um pedaço de pau de uma maneira ameaçadora e a moça escondia qualquer coisa atrás do vestido, talvez um pedaço de cano.

Hilda, de repente, percebeu que era Pauline, sua filha, que voltava à rua, depois de muito tempo. Ficou apavorada. Não via a filha há mais de cinco anos. Pinheiro não sabia de nada, dizendo que tinha saído para procurar emprego. Fugiu, talvez, acrescentou. Chorara o tempo todo sem saber nada de Pauline. Agora, ela estava se metendo numa confusão, bem diante de seus próprios olhos.

Procurara pela filha anos a fio. Até encontrá-la na mesma Rua da Guia onde Hilda trabalhava, desde mocinha, mal chegara do interior. Pauline não quisera falar com a mãe, que a perseguiu a noite inteira, desprezando todos os clientes que a abordavam.

Enfim, descobriu-a de novo,  bêbeda e sozinha num bar. O encontro não foi dos melhores. Continuaram a beber até o sol sair quando, então, Pauline se queixou de não ter pai nem mãe. Era sua primeira queixa e Hilda, apesar de exausta, ainda pôde lhe perguntar por que fugira de casa tão cedo. Que lhe tinha feito? Dava-lhe  de um tudo, comida, roupa e colégio. Uma menina de quinze anos, bonita, inteligente, pronta pra casar. Para Hilda, que carregava sua dor em silêncio, Pauline tinha fugido sem nenhuma explicação.

Agora, no amanhecer de um bar, Pauline, finalmente, se rendia. Não fugiu de casa porque quis. Pinheiro tentou violentá-la, rasgando seu vestido, mas não conseguira nada. Ela se trancou num quarto. Em seguida, expulsou-a, ameaçando-a de morte, com medo de que ela contasse a Hilda. Também ficara com vergonha. Sabia que a mãe fazia a zona e que era filha de um desconhecido, num dos enganos de Hilda.

Não era por isso. Não queria matar Pinheiro nem dar novo desgosto à mãe. Preferiu sumir de vez e fora morar no Pina com Neide, prima de uma amiga da escola. Tampouco sabia que o Pina, pouco a pouco, se tornava a zona mais freqüentada do Recife. Ficara sem fazer nada. A escola antiga era muito longe e Neide ganhava pouco. Somente tinha casa e comida.

Pauline ainda era virgem e muita gente que freqüentava a casa de Neide lhe fazia agrados, mas ela não queria nada com ninguém. Seu ódio por Pinheiro ainda era muito grande e vivia preocupada com a mãe, mas não podia voltar ao Caçote. Lembrava que o sonho de Hilda era vê-la casada virgem com alguém de respeito. Corpo e inteligência não lhe faltavam.

Um ano depois, se apaixonara por Zé Ronaldo, que lhe prometia casamento. No início, fora tudo muito bem. Iam ao cinema, tomavam banho de praia e namoravam no cassino perto de onde morava. Depois, Ronaldo desapareceu. Quando voltou, estava sem dinheiro, mas dois amigos lhe emprestariam algum, caso Pauline se deitasse com eles.

Pauline chorou. Ronaldo lhe prometeu que era só uma vez. Outros apareceram e  Ronaldo não segurava o dinheiro que Pauline conseguia. Era muito. Com apenas dezesseis anos, sempre passava por virgem, o que valorizava bastante o seu trabalho. Ronaldo só chegava de madrugada e, mesmo cansada, Pauline ficava alegre de se deitar com ele.

Até que um dia, ficou grávida. Ronaldo fez que não acreditava que o filho era dele. Antes de sumir, deu-lhe um pontapé na barriga. Pauline passou mal e quase perdia a criança. Trabalhou até completar oito meses. Depois, não agüentou mais e Neide deixou que ela ficasse no quarto dos fundos, onde nasceu Amélia, loura e magrinha como Pauline. De olhos pretos como Hilda.

Nunca mais quis se apaixonar por ninguém. Precisava sustentar a filha. Saíra da casa de Neide e fazia a vida em diversos locais. Preferia assim. Não ficava manjada, era jovem, nem completara dezoito anos, e podia continuar passando por virgem. Botara Amélia numa creche e todos os domingos a visitava. De noite, trabalhava; de manhã, tentava dormir e descansar. Somente isso. Mas, agora, sabia de tudo do ofício e não precisava de ajuda. Não tinha mais raiva de ninguém. Não aparecera para visitar, nem dera notícias, para não atrapalhar a vida de Hilda, mas sabia que, cedo ou tarde, as duas se encontrariam.

Terminaram bêbedas demais, chorando demais, para fazer qualquer plano para o futuro. Hilda dera uma esculhambação em Pinheiro, que nem ouvira de tão bêbedo que estava. Que adiantava botar o homem pra fora da casa que nem era dela? Fazia tanto tempo! Pelo menos, tinha ainda um homem embora ele não prestasse para grande coisa. Nem sequer pra dar bom exemplo a Pauline, quando ela era pequena. Duvidou um pouco, também, se Pinheiro tivera toda a culpa. Lembrava que Pauline, aos quinze anos, era namoradeira demais, apesar de seus conselhos. Era a vida. Nascera pra isso, carregara a filha para a vida. Enfim, Pauline não parecera tão mal assim.

Na rua, perto do seu portão, o cabo da polícia destratava Pauline, ameaçando-a com o pedaço de pau. Chamava-a de puta, rapariga, mulher de corno. Pauline revidava no xingamento, sempre escondendo o cano atrás do vestido. Hilda ficou aflita, temendo coisa pior, quando surgiu um rapaz, gritando.

_Repita, seu puto! Quem é corno aqui?
_Você e toda a sua raça, seu gigolô de merda! – Berrou o cabo, em resposta.

A mulher do vizinho atiçava ainda mais a briga e, antes que Hilda pudesse abrir o portão, os quatro entraram no corpo a corpo. Foi tudo muito rápido. O cano era mais forte e duro do que o pedaço de pau, além de um canivete que ninguém sabia de onde havia saído.

Quando a polícia chegou, o cabo sangrava na cabeça, sua mulher quebrara uma perna e tinha um corte profundo na barriga com risco de perder a criança. Pauline precisou, ainda, ser contida por três soldados pra se acalmar. O rapaz desaparecera e ninguém perguntou se uma mulher de vinte anos, franzina, poderia ter feito sozinha tanto estrago.

De nada adiantou o depoimento de Hilda a favor de Pauline, que, aos berros, continuava dizendo que era inocente e que só tinha ido visitar sua mãe. Mas ela sabia que havia insultado o homem primeiro. Aquele cara brochara com ela na zona e não quisera pagar. Nem sabia que era cabo da polícia e vizinho de sua mãe. Na esquina, topara com ele e o chamara de veado. Ele não a reconhecera e partiu logo prá agressão. Devia ser veado mesmo!

O Comissário de Areias não quis ouvir nada. O cano ensangüentado testemunhava mais forte contra ela. Além de Hilda, ninguém vira seu companheiro e o canivete fora achado por um investigador na bolsa de Pauline. No julgamento, ela pegara o 129, com cinco anos de cadeia.

Hilda envelhecera mais do que em toda a sua vida de zona. Visitara Pauline duas ou três vezes. Depois esquecera. Tinha que beber muito pra agüentar o trabalho. Somente lhe restava Pinheiro, que, cada dia, ficava mais inchado de tanto beber sem trabalhar. O bairro do Recife ficava cada vez mais fedorento e abandonado e todos estavam indo para o Pina.  O mundo começava a ficar de cabeça para baixo e Hilda não sabia viver fora da antiga zona. Beirando os quarenta anos, sentia-se um bagaço, quando Pinheiro fora assassinado em Areias. Quase tudo era dele e logo apareceu gente da família pra tomar a casa de quintal, perto do Caçote.

No Cais do Apolo, ainda pôde viver algum tempo, até  começar o aterro para construir o novo prédio da Prefeitura. Não tinha mais para onde ir. Pauline já devia estar solta, mas ela não sabia por onde andava. Achava que não tinha mais ninguém. Começara a fazer a zona na Camboa do Carmo, na pensão de Maria Magra. Poucos clientes, em geral bêbedos de fim de noite que não ligavam para sua velhice precoce. O trabalho era pouco e ruim, porém a Magra ainda lhe dava uma força.

De tanto falar de Pauline, uma noite lhe disseram que ela trabalhava para os lados de Muribeca, perto de Prazeres. Um dia iría por lá pra ver a filha. Sentia ainda muita culpa por Pinheiro ter estragado a vida de Pauline. E nem valeu a pena. O homem morreu como vivera. Bebendo sem saber quem lhe tinha plantado uma peixeira na barriga. A Polícia nem investigou. Não valia a pena se meter em briga de bêbedo. Menos um para dar alteração.

Num domingo de tarde, se vestira um pouco melhor porque era dia do seu santo. Estava no mês de Santana e tentava recobrar, talvez, um pouco de respeito por si mesma. Pegaria o trem pra Muribeca. Queria aproveitar o dia de folga que Maria Magra lhe dera pra ver se encontrava a filha.

Se morava mesmo naquele bairro, já devia ter voltado da praia de Piedade. Lembrava-se de que, quando fugira para o Recife, todo mundo de Prazeres freqüentava a praia nos domingos e feriados. Era o único divertimento que tinham. Morava, ainda, com um tio que vendia cerveja e peixe frito numa barraca,  até que caíra doente; as pernas incharam e, uma noite, foi levado ao posto de saúde. No outro dia, morreu. Não sabia para onde ir e fora morar no Caçote com Pinheiro, que conhecera numa farra.

Ainda se lembrava de algumas amigas de adolescência, perto da invasão, detrás da linha do trem. Foi até lá e só encontrou Creuza, que já criava cinco filhos e vendia frutas na feira. Disse quem era, mas a antiga amiga não a reconheceu, nem sabia quem era Pauline. Talvez o vizinho soubesse. Alugava uns terrenos para o lado de Muribeca, onde plantava mandioca pra vender na feira. Devia estar por lá colhendo alguma coisa.

(continua)

DimasLins

Deixe um comentário